Mostrar mensagens com a etiqueta * JFB. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta * JFB. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Dilúvio

Há duas relevantes estratégias para superar os embaraços desencadeados pelos silêncios da vida social: uma delas consiste em fazer alusões ao estado do tempo; outra, em tecer comentários ao estado a que o país chegou. Existem, no entanto, fórmulas que as sintetizam a ambas. Eis um exemplo, saído de voz tonitruante: «Isto vai tudo acabar em dilúvio!» Trata-se de uma sentença universal, capaz de corrigir qualquer silêncio. Ao invés do dilúvio — que não permite emendar grande coisa.

domingo, 18 de maio de 2014

Zombies

O zombie é uma criatura idêntica a nós, excepto no irrisório facto de se achar desprovida de consciência. Embora exteriormente vivo, o morto-vivo está intimamente morto. Por conseguinte, ninguém sabe (salvo por analogia) o que é ser ou sentir-se zombie. Isso torna tal entidade um enigma indecifrável, um constrangimento lógico — e até uma aberração metafísica. Não admira que o Pentágono tenha um plano de acção contra um eventual ataque de zombies. Criaturas assim paradoxais são rigorosamente imprevisíveis.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Letras e psiquismo

Os grafólogos estabelecem correspondências entre as letras e as instâncias (freudianas) do psiquismo: a zona inferior equivale ao id; a média, ao ego; a superior, ao superego. Porém, embora todas «tenham» ego, só a letra «f» acumula as três instâncias. Umas «carecem» do superego, que dita regras; outras, do id, que segue impulsos; várias, dos dois. A escrita à mão parece constituir um irremediável desencontro: nem a regra conhece o impulso, nem o impulso descobre a regra.

sábado, 10 de maio de 2014

Memorial da neve

Aos oito anos, memorizei a «Balada da neve» de Augusto Gil. Na altura, colhi das nove quintilhas uma impressão situada entre a ampla nostalgia e a pequena catástrofe. Hoje, examinando o arquivo, reparo que os versos ainda constam. Inteiros. Alvíssimos. Poemas fixados na infância e prolongados no tempo terão, decerto, relevantes efeitos existenciais. Trazer a neve, em redondilha fácil, talvez engendre plácida frieza. Entretanto, porém, inevitável, a memória recolhe outras estrofes — que não batem assim tão levemente.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Costume alternativo

Eu costumo dizer que não gosto da expressão «eu costumo dizer que». Estruturalmente, sendo usada para o sujeito se citar a si mesmo, ela não anuncia nada de novo. Aprecio, ao invés, a expressão «eu costumo calar que», se pronunciada só assim, sem complementos — directo, indirecto, oblíquo ou contrafeito — que a tornem vacilante, ineficaz. O que habitualmente se cala tende para o infinito: «eu costumo calar que» promete silêncios robustos; «eu costumo dizer que» antecede frouxas epifanias.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A aranha

No alfarrabista, abrindo um dicionário de filosofia, deparo com minúscula aranha aninhada no pequeno desvão feito por um grosso marcador de livros. Aguardo, para ver o que acontece. O animal não tarda a mover-se: atravessa a teoria do silogismo, galga premissas, vence conclusões, abeira-se da margem, despenha-se no intervalo que separa dois volumes fechados. Parece buscar o sentido da sua existência entre a lógica de Aristóteles e os livros que nunca lerá. Como qualquer um de nós.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Esperas

No tocante às esperas, quatro fases — variando as idades em que ocorrem — marcam a vida do pessimista. A uma primeira, em que tudo se espera dele, segue-se aquela em que o próprio admite: «Não esperem grande coisa de mim.» Já na terceira fase, em diálogo consigo, o pessimista declara: «Não espero nada de ti.» Por fim, dirá simplesmente: «Não espero.» Depois, é claro, irá embora. Um optimista passa exactamente pelas mesmas etapas. Mas distrai-se com mais facilidade.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Não

Especialistas salientam a dificuldade do cérebro em entender o «não». Daí a vantagem de pensar «Eu sou inteligente» e a nocividade de proferir «Eu não sou estúpido». Estranhamente, Sartre descobriu na raiz daquele advérbio uma estrutura ontológica: o nada, condição necessária do «não», habita o ser, «como um verme». A primeira teoria contradiz a segunda. Ou talvez o cérebro seja um grande «não» — só empenhado em acolher o «sim». Mas tal ideia é francamente absurda. Ou não.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Génese de um símbolo

Uroboro, serpente que morde a própria cauda, simboliza várias coisas: autofecundação, eterno retorno, união de opostos, perfeição celeste, roda das existências, etc. Menos inefável, há um vídeo que exibe uma serpente concreta a morder a sua cauda efectiva. Afirmam especialistas que tal comportamento ocorre em animais doentes, sem noção do que fazem. Talvez a génese de Uroboro fosse inspirada nessa enfermidade. Os símbolos esotéricos têm sempre um alcance que nos fascina — e uma origem que nos desilude.

domingo, 4 de maio de 2014

Confundir as vidas sentadas

Num certo sketch dos Monty Python, a prioridade é «confundir um gato». O animal sofre de tédio, abulia, quebranto. Expondo-o a alguns momentos circenses, tornou-se possível recuperá-lo. Com humanos, seria maior a dificuldade. «A minha vida sentou-se», escreve Mário de Sá-Carneiro. Para rimar, «fartou-se». Como impedir que as vidas se sentem? Como reerguer vidas sentadas? Como «confundir» os mortais, felinos incluídos? Talvez estes problemas garantam que, pela eternidade fora, as vidas dos deuses se mantenham de pé.

sábado, 3 de maio de 2014

Na sombra da gaveta

Trata-se de um volume de poesia, já antigo, de autor obscuro. As folhas, por abrir, reclamam espátula. Do frontispício, no entanto, salta um rectângulo intencional, porventura com estatuto de marcador, no qual se lê, escrito a vermelho, o seguinte aforismo probabilístico: «Talvez este livrinho te faça perder o medo de desenterrar teus versos da gaveta.» Mensagens assim ressumam ambiguidade e algum excesso: não sabemos se o poeta confia exageradamente no nosso talento, se desconfia demasiado do seu.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Apenas o eco

Adolescente ainda, li num jornal estes inolvidáveis versos de Fernando Echevarría: «Estamos tão sós como se haver o mundo / fosse o eco somente de o haver.» Nos recessos do inconsciente, devo ter deduzido, na altura, que o mundo se encontrava suspenso entre o ser e o nada. Mais tarde, abordando o soneto que os integra, notei irrelevância ou quebranto nos restantes doze. Há versos nascidos para formarem dísticos intocáveis — e serem o eco irremissível um do outro.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Viagem

«Procuro, de Júlio Verne, Viagem ao Centro da Terra.» Diz-lhe o alfarrabista: «Não disponho do livro, mas será fácil encontrá-lo em edição de bolso.» Certo. Para o filho, contudo, tornava-se penoso ler letras miudinhas. Então o homem sublinhou a vantagem de permanecer à superfície: no centro da Terra, a temperatura é elevadíssima. Depois de ela sair, comentou: «Muito preocupada! Como se o seu problema tivesse um alcance universal...» Não tinha, de facto: era um problema estritamente planetário.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

38

Afirma um estudo recente que aos 38 anos (em média) o homem se torna igual ao seu pai: adormece no sofá, ri das piadas próprias, etc. A figura do progenitor, no entanto, constitui aqui um mero artifício retórico: aos 38, o indivíduo entra no «campo dos velhos» — particularismos genéticos são irrelevantes. Uma tal conclusão, bizarra e totalitária, até dá vontade de adormecer no sofá, de rir das piadas próprias — e das anedotas que estudos assim involuntariamente representam.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Relógio existencial

Recém-inventado, o Tikker é um relógio que mostra ao utilizador quanto tempo lhe resta no mundo, após análise das respostas a um questionário sobre o seu estilo de vida. No entanto — pasme-se! —, o aparelho não é completamente rigoroso. Talvez falhe por segundos, o que faz uma enorme diferença. A intenção, todavia, consiste em suscitar o reconhecimento da preciosidade dos instantes. De qualquer modo, também seria conveniente informar o utilizador acerca do tempo de vida do próprio relógio.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Acerca do Céu

No hipermercado, noto a presença na mesma prateleira de três livros que anunciam temáticas celestes. Avalio os títulos. O primeiro é de índole experimental: Uma Prova do Céu. O segundo é de carácter ontológico: O Céu Existe Mesmo. O terceiro é de pendor revolucionário: O Céu Muda Tudo. Talvez a dificuldade mais obstinada, para as almas que se entretêm a descrever o Céu — lugar de conflitos domados e de redundâncias certas —, seja encontrar um título minimamente original.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Humilhações*

«[Nós] temos o direito a ser humilhados!», proferiu o moço, em defesa da praxe. Nada de grave subjaz à reivindicação de um direito — excepto quando tal reivindicação pressupõe um dever que a dignidade humana seguramente não aprova. O enunciado exposto configura uma situação do género: para que uns tenham o direito a ser humilhados, outros terão o dever de os humilhar. Claro, há sempre candidatos disponíveis para cumprir essa tarefa — excepto em países onde a decência reina.


* Escrito após a leitura do post do Rui e a visualização do vídeo insólito (e altamente instrutivo) que suscitou essas reflexões.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O impulso e a metáfora

David Mourão-Ferreira conclui certo poema aludindo às «espadas de amor» que se cravam «no teu ventre». (Ante)ontem, na Rússia, após discussão sobre os méritos literários da prosa e da poesia, um adepto de poesia esfaqueou mortalmente um apreciador de prosa. No caso do poema de Mourão-Ferreira, adivinha-se facilmente que impulso humano guiou a criação da metáfora. Já no segundo caso — sem sonegar a intervenção de Baco — dificilmente se imagina que desumana metáfora presidiu à concretização do impulso.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Buracos negros

Stephen Hawking suscitou burburinho após afirmar, recentemente, que os buracos negros não existem como os conhecemos. Contestando a noção de «horizonte de eventos» (fronteira a partir a qual, graças à intensa força gravítica, nada escapa ao buraco), o físico propõe o conceito, mais flexível, de «horizonte aparente». Um buraco negro — consta — engole tudo em redor, sem sofrer indigestão nem emitir arroto. Hawking nega-o. Enquanto representações mentais, os «buracos negros» parecem ser lugares interessantes para jogar às escondidas.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

As cinzas e o inconsciente

Meliantes terão tentado roubar as cinzas de Freud. Usurpar cinzas alheias é uma forma ilusória de ganhar poder sobre as latentes cinzas próprias. Usurpar as do fundador da psicanálise é uma estratégia sinuosa de dominar as forças do inconsciente. Não se trata de matar segunda vez o mensageiro, antes de sequestrar o que sobrou dele. Freud daria, para o sucedido, uma explicação melhor. Talvez os ladrões, numa espécie de círculo hermenêutico, andassem justamente à procura dessa explicação.