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quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Dá Deus ovos a quem não tem galinhas

Isabel dos Santos, prendada filha do presidente de Angola, deu uma entrevista ao Financial Times onde refuta a ideia de que a sua fortuna advenha de “paitrocínios”. Não, segundo a empresária, é tudo resultado de um talento inato para os negócios:

«Tive sentido para os negócios desde muito nova. Vendia ovos quando tinha seis anos.»

Algumas bocas reaccionárias nas redes sociais logo ridicularizaram a afirmação: com que então, a herdeira do Presidente (José Eduardo dos Santos assumiu o cargo quando a filha tinha precisamente 6 anos) saía do palácio presidencial e ia fazer uns biscates como vendedora ambulante?!

Eu, em contra-ciclo, acredito piamente na história do negócio de venda de ovos — aproveitando aqui a oportunidade para, com atraso de quase 40 anos, apresentar a minha solidariedade à criança a quem Isabel dos Santos previamente os roubara.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Sexo tântrico

Ao fim de quase quatro anos a foder-nos, o Governo finalmente pede ao povo português: «VEM».

Quatro anos, Sting, quatro anos! Toma e embrulha.

domingo, 6 de julho de 2014

É caro e ineficiente manter o interior: encerra-o e deita fora a chave

Vasco Pulido Valente costuma dizer que este Governo não é neoliberal, e de facto talvez Passos Coelho não tenha conseguido ir tão longe quanto a casta desejaria em algumas áreas. Mas em várias medidas já concretizadas e em muitas outras planeadas o menino-cantor, com a sua melena beta e ar de sacripanta, é merecidamente o orgulho dos thatcherianos meridionais e setentrionais. É, por exemplo, um empenhado darwinista social (sector privado contra função pública, professores contra professores, jovens contra velhos, tudo tem promovido) e só não encerrará definitivamente o interior se o interior, por vezes tão irritantemente tradicionalista e atávico, não recuperar por um dia velhos hábitos e não se munir de varapaus e chuços para o correr daqui para fora da sua zona de conforto.

A propósito disto: 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Profissão de (pouca) fé

Há quem ponha águias, gnomos, leões, sereias, querubins, senhoras-de-fátima ou cristos-redentores. O kitsch na estatuária doméstica não tem limites e o jardim de uma vivenda é, para mal da vizinhança, propriedade privada.
Mas se o jardim se transforma em horta, por força do “ajustamento”, o que passa a ser um cristo de braços abertos ali plantado? Uma confissão de impotência ou um aggiornamento? Talvez uma resignação: na impossibilidade de expulsar os vendilhões do templo, o filho de deus gosta de se saber útil a espantar os pardais do quintal. É isso ou o desemprego.

[Visto mas não fotografado, ao contrário desta outra aparição, que teve direito a post e foto:]

terça-feira, 6 de maio de 2014

Educação, esse luxo supérfluo

Uma notícia no Público de hoje faz saber (para os que andam distraídos) que «Austeridade nas escolas teve o triplo da dose prevista» no memorando de entendimento com a Troika. A mensagem política é clara: «A Educação é supérflua, é um luxo».

(Se em tudo se cortou mais do que nos era pedido, mas mesmo assim só se alcançaram os objectivos do défice porque, de desaire em desaire, esses objectivos foram sendo relaxados, surpreende que ninguém com responsabilidade discuta com seriedade o que correu mal. Ou talvez não surpreenda, se quem tem responsabilidade não tem seriedade.)

O artigo no Público é bastante esclarecedor, nomeadamente quanto ao aumento brutal da burocracia (contrariando a anunciada autonomia), mas tem uma frase que, talvez tirada do seu contexto original, é enganadora. A certa altura, um director escolar queixa-se da degradação das condições de trabalho, dizendo: «Neste momento, os professores só têm tempo para dar aulas, não têm tempo para mais nada». Com tal desabafo, o entrevistado queria certamente dizer que o aumento da carga de trabalho estava a privar os docentes de tempo para terem vida própria e familiar, mas a frase, assim, é ambígua, pois dá a ideia errada de que aos professores só é pedido que dêem as aulas. Ora, pelo menos nas escolas de que tenho conhecimento, passa-se precisamente o contrário: o aumento brutal da burocracia, de que se queixam os directores, transbordou completamente pela hieraquia abaixo. Os professores passam cada vez mais tempo a fazer “tretas” burocráticas que lhes tiram tempo e ânimo para o que realmente interessa: ensinar. Tais mudanças em nada beneficiaram os alunos.

Fui das pessoas que saudaram a chegada de Crato ao Ministério, por conhecer as críticas (justas) que fazia à Educação. Hoje considero-o um traidor, um mercenário. O economista (que ele também é, de formação de base) venceu sobre o pedagogo.

O sistema é gerido politicamente de forma terrorista.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Revista de imprensa e blogosfera

Os conservadores, como aquelas pessoas que encaixam a realidade nas previsões do Zodíaco, discutem entre si de que forma a sua bibliografia muito culta e cool explica a actualidade. Para fingirem solidariedade social, concedem que se dê uma atençãozita ao trabalho de Thomas Piketty sobre a desigualdade económica. Vasco Pulido Valente, pelo seu lado, foi ler mais um livro de história da I Guerra Mundial que explica, claro, como o Estado Social e qualquer forma de socialismo são insustentáveis. Os comunistas à antiga andam excitados com as conquistas da Rússia e repetem para si mesmos que são direitos e benfeitorias. Putin, vê-se pelas fotos do fim-de-semana, anda literalmente inchado de orgulho com o sucesso das suas campanhas (há quem diga que é botox, mas são calúnias, macho russo não estica o rosto, é ilegal). Na Coreia do Norte, diz-nos um jornalista da Lusa, afinal não se deitam os tios aos cães e há liberdade de penteado (que é, como se sabe, um requisito mínimo para a liberdade de pensamento, que sob o couro cabeludo se abriga). Já só faltam 76 dias e a Europa parece mais bem preparada para o centenário de Sarajevo do que o Brasil para o Mundial de Futebol.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

de[s]amor: countdown para o Dia de São Valentim (3)

Neste tempo, em que a aproximação do Dia de São Valentim nos submerge numa maré “fofinha” de ursos de peluche, corações gigantes de veludo e postais (reais ou virtuais) com mensagens lamechas, urge variar um pouco.

Ora, o que há de menos romântico (no sentido vernacular) e “fofinho” do que a Economia? Exactamente: nada.

Assim, o antídoto certo contra tanta lamechice insincera (amores eternos e infinitos, etc.), de pechisbeque, é a requintada linha, que agora lanço, de cartões postais produzidos com o profissionalismo dos analistas de uma prestigiada agência de rating. (Não estando dinheiro envolvido, a dita agência de rating abriu una excepção e disse apenas a verdade, em vez de tentar criar uma.)

Ainda te amo... mas as perspectivas não são animadoras.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

The show must go on

Perante um “contratempo” estatístico, a assertividade e a cientificidade neoliberal engasgam-se, patinam, coçam a cabeça. Depois, Medina Carreira suspira — antes de pedir à importuna jornalista que passe à frente, siga o guião.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O Sr. Benz e o Sr. Tenz
(uma historieta sobre a «economia real»)

A menorização, por parte do Ministro da Economia, da investigação que «não chega à economia real» lembra-me a história do Sr. Benz e do seu menos famoso vizinho, o Sr. Tenz.


Estamos no último quartel do século XIX.
O Sr. Tenz era construtor de carroças. E não um qualquer: ambicionava ser o melhor construtor de carroças da Alemanha; se possível, do mundo.
Já o Sr. Benz andava há anos, sem sucesso, a tentar desenvolver um motor de combustão interna, com o qual pudesse fabricar uma «carroça automotriz», que dispensasse o uso de cavalos.

O filho do Sr. Tenz via o Sr. Benz trabalhar afincadamente no seu motor de combustão interna (que ainda não funcionava) e interessou-se pelo projecto. Um dia, disse ao pai que queria ir trabalhar com o vizinho.

— Ó filho, deixa-te de devaneios! Isso de motores de combustão interna não é coisa que chegue à economia real!
Realwirtschaft» no original em alemão...]

E o Sr. Tenz deveria ter razão, pois há quase um século que inventores por todo o mundo tentavam desenvolver tal coisa, sempre sem obterem algo que «chegasse à economia real». (Para já não falar dos muitos séculos em que gerações de cientistas andaram «confortavelmente» a investigar os princípios teóricos da dinâmica, da mecânica de fluidos e da química...)

Em 1879, o Sr. Benz — sem a ajuda do filho do Sr. Tenz — patenteou o seu primeiro motor funcional. (Por essa altura, outros inventores patentearam independentemente soluções alternativas.) Em 1886, o Sr. Benz produziu o seu primeiro Motorwagen.

O Sr. Tenz advertia o filho:
— Não te iludas, rapaz! Aquilo consome um almude de gasolina (caríssima!) e anda tão devagar como um homem a pé, enquanto um cavalo come feno e ervas da beira da estrada e galopa a mais de 80 km/h. O Motorwagen é um delírio — nunca chegará à economia real...

De facto, entre 1886 e 1893, o Sr. Benz apenas construiu uns 25 Motorwagen, mesmo após as melhorias que lhe permitiam atingir a velocidade máxima de... 16 km/h.

Nesse mesmo período, o Sr. Tenz construiu centenas de carroças, assim demonstrando a superioridade da «economia real» sobre a investigação «confortável». O filho do Sr. Tenz continuou o negócio do entretanto falecido pai, tornando-se no virar do século, para orgulho do falecido (se a isso tivesse assistido), o melhor construtor de carroças da Alemanha.

Do neto do Sr. Tenz e da sua fábrica de carroças não reza a História.

domingo, 19 de janeiro de 2014

A (pato)lógica bravura empresarial

  1. Sobre o corte nas bolsas científicas diz o Ministro da Economia que não se pode «alimentar um modelo que permita à investigação e à ciência viverem no conforto de estar longe das empresas e da vida real». Com Pires de Lima, suspeito, a investigação faz-se junto às linhas de engarrafamento da Unicer, com tempo contado para ir à casa de banho.

  2. «Uma boa parte da investigação é financiada por dinheiros públicos e não chega à economia real», continuou o ministro.
    A solução é, portanto, cortar. Cortar nas bolsas aumentará decerto a investigação que chega à economia real. Deve ser a isto que, na mesma notícia, Pires de Lima chama «dar continuidade à trajectória de investimento, mas também procurar criar um modelo de estímulos e de sinais que ligue a investigação, a ciência, a educação à vida concreta e real das empresas». De facto, que melhor estímulo haverá para a «vida concreta» do que bolsos vazios?

  3. Creio que a notícia não apresenta a citação completa do que o Ministro propunha. O que ele queria dizer era «ligar a investigação, a ciência, a educação à vida concreta e real das empresas falidas». Por uma questão de equidade, não faz realmente sentido que haja alguém a comer quando outros passam fome.

  4. Quando esta rapaziada do PP e do PSD acabar de “salvar” o país, a única coisa que haverá para investigar, para além de algumas contas bancárias, é como tantos anos de história ficaram reduzidos a tão escassas cinzas. É sempre assim nos incêndios.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Portugal na cauda da Europa

Sobre esta notícia, se alguém lhe ligar, haverá duas escolas analíticas. A vasco-pulidiana dirá que é assim porque somos um país subdesenvolvido economicamente: só o bem-estar económico favorece o ócio e a curiosidade intelectual ou cultural. A oposta dirá que temos uma economia fraca porque somos subdesenvolvidos cultural e intelectualmente. E, enquanto as elites debatem entre si o velho e na verdade fútil enigma da galinha e do ovo, o país, entregue a si próprio, contínua desinteressado quer da cultura, quer da economia.