1.º de Dezembro
O dia em que Portugal celebra o facto de ser menos importante do que a Catalunha.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2016
História de esguelha
sexta-feira, 8 de maio de 2015
Patranhas à Moda do Porto
Vejo no Público online uma notícia sobre os supostos 600 anos das Tripas à Moda do Porto e penso: apesar de não serem publicações científicas, os jornais deviam fazer um esforçozinho de não se limitarem a propagar histórias da carochinha. A tradição de que as Tripas à Moda do Porto estão ligadas à conquista de Ceuta não passa de um mito.
O formato (não a temática concreta) do mito das tripas é típico, encontrando-se em muitos pontos do país: para enobrecer uma tradição local — seja uma romaria, uma procissão ou, no caso do Porto, uma receita culinária —, a tradição ou algum “etnólogo” militante inventa uma patranha patriótica, ou, pelo menos, uma história que temporalmente coincida com um momento importante (positiva ou negativamente) da história de Portugal: Batalha de Ourique, Aljubarrota, Ceuta, chegada à Índia, descoberta do Brasil, domínio filipino, Restauração, Terramoto de 1755, Invasões Francesas... Desta forma, mesmo que por mera coincidência temporal, a humilde tradição local é dignificada: já não é relevante apenas para as gentes da aldeia (ou, neste caso, da cidade do Porto) — é, de alguma forma (e, no caso das tripas, de uma forma clara), relevante para todo o país.
A verdade sobre a origem das Tripas à Moda do Porto é muito mais simples — e muito mais humilde. É também bastante clara.
Durante séculos, as únicas pessoas que comiam regularmente carne eram as classes abastadas: nobres, média e alta burguesia, algum clero. O resto da população era, por ausência de alternativas, basicamente vegetariana. Mesmo os servos que criavam os animais domésticos não os comiam: a carne era para os seus senhores.
(É por isso que, em inglês, palavras como “cow”, “calf”, “sheep”, “pig” e “deer” — designando os animais vivos — são de origem anglo-saxónica, enquanto palavras como “beef”, “veal”, “mutton”, “pork” e “venison” — designando a carne desses animais — são de origem francesa: após a conquista normanda, só os senhores feudais normandos — que falavam francês — comiam carne; o servo saxão que tratava dos porcos e guardava as vacas nunca punha o dente num desses animais depois de morto.)
No caso do Porto, a origem culinária das tripas não é menos clara: os criados dos ricos, tal como o resto do povo, não incluíam carne na sua dieta. Até que alguns desses criados pousaram os olhos num subproduto da preparação das refeições dos patrões: as tripas, que iam para o lixo. E eis como, com um pouco de imaginação e tempero, o que estava destinado a ser o desperdício das classes abastadas se tornou o banquete das classes despojadas que para aqueles trabalhavam.
Com o tempo, a fama das tripas foi-se espalhando, chegando inclusivamente à mesa dos ricos. Tal fama, que elevava o prato a símbolo de toda uma cidade, requeria uma origem mais nobre: entra em cena o costumeiro fabricante de patranhas patrióticas (provavelmente apenas nos séculos XVIII ou XIX). Rebusca nos compêndios de História um momento elevado na cronologia nacional (quase de certeza, muito anterior à receita original das tripas) e, como num passe de mágica, voilà! Sai uma historieta edificante, digna de orgulho, pronta a engolir — mais facilmente do que as próprias tripas.
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Revista de imprensa e blogosfera
Os conservadores, como aquelas pessoas que encaixam a realidade nas previsões do Zodíaco, discutem entre si de que forma a sua bibliografia muito culta e cool explica a actualidade. Para fingirem solidariedade social, concedem que se dê uma atençãozita ao trabalho de Thomas Piketty sobre a desigualdade económica. Vasco Pulido Valente, pelo seu lado, foi ler mais um livro de história da I Guerra Mundial que explica, claro, como o Estado Social e qualquer forma de socialismo são insustentáveis. Os comunistas à antiga andam excitados com as conquistas da Rússia e repetem para si mesmos que são direitos e benfeitorias. Putin, vê-se pelas fotos do fim-de-semana, anda literalmente inchado de orgulho com o sucesso das suas campanhas (há quem diga que é botox, mas são calúnias, macho russo não estica o rosto, é ilegal). Na Coreia do Norte, diz-nos um jornalista da Lusa, afinal não se deitam os tios aos cães e há liberdade de penteado (que é, como se sabe, um requisito mínimo para a liberdade de pensamento, que sob o couro cabeludo se abriga). Já só faltam 76 dias e a Europa parece mais bem preparada para o centenário de Sarajevo do que o Brasil para o Mundial de Futebol.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
O hífen
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Começo
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
«1640 financeiro»: Troikas, ingerência estrangeira e impostos — uma perspectiva histórica
Portas: “Em 2014 vamos viver uma espécie de 1640 financeiro”
Vice-primeiro-ministro compara resgate à perda de independência de Portugal para a Espanha em 1580.
O vice-primeiro-ministro, Paulo Portas, criticou o líder do PS por sustentar que Portugal ficará pior no fim do programa de ajustamento, em Junho de 2014, lembrando que é nessa altura que o país vai recuperar a soberania financeira.
“Em 2011 vivemos uma espécie de 1580 financeiro. Em Junho de 2014 podemos viver uma espécie de 1640 financeiro”, disse, no encerramento do debate na generalidade do Orçamento do Estado (OE), referindo-se ao período em que Portugal esteve sob domínio espanhol.
A comparação que Paulo Portas fez mostra que o Sr. Vice pouco sabe da História de Portugal para além do que se aprendia nos programas do “historiador” José Hermano Saraiva...
Segundo as Estatísticas Históricas Portuguesas, publicadas pelo Instituto Nacional de Estatística, durante a Monarquia não constitucional(nota 1) houve várias Cortes dedicadas total ou parcialmente à criação de «impostos extraordinários». De facto, estas «extraordinariedades» ocorreram pelo menos(nota 2) em 1391–92, 1394–95, 1398 (2 vezes), 1404, 1406, 1418, 1430, 1436, 1441, 1442, 1447, 1451, 1455, 1456, 1460-61, 1471, 1475, 1477, 1478, 1482–83, 1490, 1502, 1525–26, 1535, 1544, 1562–63 e 1619.
Ou seja, no que toca aos tais «impostos extraordinários», durante a soberania nacional (concretamente, a Dinastia de Avis, por muitos considerada a mais “gloriosa” da nossa História...), Portugal recorreu a esta solução pelo menos 27 vezes, o que dá uma média de um imposto «extraordinário» a cada seis anos e meio: o que houve de mais comum (logo, de menos extraordinário) foi a criação de «impostos extraordinários»!
Em contrapartida, nos 60 anos de domínio espanhol, e ressalvando a informação indisponível, apenas por uma vez foi necessário tal.
Outro dado (atenção, Dr. Portas!): em Portugal, livrarmo-nos do «domínio estrangeiro» significou quase sempre a criação de novos e futuramente famosos impostos (a título não extraordinário): assim se passou em 1385 (criação das «sisas», renovadas nas duas Cortes de 1387) e em 1641 (criação da «décima»).
Notas:
(1) O autor chama-lhe «Monarquia Absoluta», mas penso que é um erro histórico considerar que já no século XIII (altura em que começa a cronologia apresentada) a Monarquia, por não ser constitucional, era absoluta.
(2) O teor de algumas Cortes é desconhecido ou não consensual entre os historiadores.