Mostrar mensagens com a etiqueta Livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Livros. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 2 de março de 2016

O direito a ser burro

Henrique Raposo escreveu um livro.
Parece que o livro está devidamente indocumentado no que concerne o tema sobre o qual versa. Como diriam os anglófonos, «that’s reassuring»: ficamos com a certeza de que o livro foi mesmo escrito pelo seu alegado autor. (O mesmo não se pode dizer, segundo consta, da dissertação de mestrado de José Sócrates.)

Mas as reacções nas redes sociais não se fizeram esperar e, como soe nas redes sociais, assumiram dimensões imerecidas pelo calibre intelectual do escriba. Consta que descambaram mesmo em ameaças à integridade física de Raposo. A galeria onde deveria decorrer a apresentação do livro acabou por cancelar o evento — não em protesto contra a falta de qualidade e rigor do livro, mas por medo da polémica.

Acho mal. Henrique Raposo é burro, e com todo o direito a sê-lo!
O homem não merecia que fermentasse em mim o desejo de dizer «Je suis Raposo».
(Um derradeiro rasgo de lucidez controlou-me a mão: o que saiu foi a imagem que acompanha estas linhas.)

terça-feira, 29 de setembro de 2015

A Zona de Interesse


A Zona de Interesse, de Martin Amis, é um livro belíssimo. É talvez um dos melhores que li de Amis e no entanto é também aquele onde o escritor se afasta mais do seu estilo pessoal, onde abdica mais de ter um estilo. Isto dito, não se consegue esquecer que é uma obra de arte feita a partir do pior dos episódios da história da humanidade — e isso, que tem em si algo de Amis way, não representa qualquer mal. Alguns editores recusaram-se a publicar o livro. Ou são patetas ou não o leram. Ou ambas as condições são verdadeiras. Em momento nenhum do romance o leitor consegue ou pode sentir-se autorizado a esquecer o que foi o Holocausto, a relativizá-lo, banalizá-lo, achá-lo coisa de um passado pitoresco a preto e branco como as histórias de piratas, onde vida e morte, crimes e violações são décor. Não. Sai-se do livro como se sai dos livros de História: horrorizado com a Alemanha nazi. Sim, num momento ou noutro inquietamo-nos por estarmos a ter prazer estético com uma história de amor num campo de concentração, uma história de amor que se passa na zona dos carcereiros e dos carrascos. Mas isso não faz de nós (nem do autor) aberrações morais. Apenas mostra que temos emoções e predisposição para a beleza — e que tê-las não chega para fazer de nós boas pessoas, estão ali os nazis para o evidenciar. (Na verdade, talvez o livro até tenha outras sugestões, mas este aspecto não o posso explorar sem cair em revelações sobre o enredo.)
Há o risco de leitores menos familiarizados com a História ficarem a achar que as atrocidades nazis não passam de ficção, cenário para romances e filmes, no máximo uns contratempos aborrecidos para personagens secundárias, contribuindo assim o livro para banalizar o Mal e relativizar os crimes nazis? Não. Primeiro porque Hollywood já se encarregou disso há muito tempo. Segundo porque leitores menos familiarizados com a História dificilmente lerão Martin Amis. Terceiro porque esses leitores, na eventualidade de lerem o livro, teriam de ser também insensíveis, incapazes de empatia e sobretudo pouco familiarizados com a inteligência (pelo menos pouco treinados nela). Há leitores assim, que devamos proteger do terrível Amis? Há. Chamam-se geralmente adolescentes (mesmo que alguns tenham passado a idade púbere) e são já várias as gerações deles que têm vindo a ser poupadas a conhecer a História. Há leitores assim, mas não os devemos proteger de Amis. Devemos protegê-los das televisões, dos Ministérios da Educação, da robotização neoliberal em curso — e dar-lhes muitos, muitos livros de História para ler. E depois dar-lhes também o livro de Amis para ler.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Bastardia

Kettle, uma velha snob da saga Melrose, de Edward St Aubyn, é o tipo de pessoa que encara como um dever a sua lealdade à má-disposição. Eu, espécie de morgado por bastardia antiga, sinto o mesmo galhardo e inelutável apelo. Porém falho em atendê-lo plenamente. Não por falta de intimidade com o mau-humor — mas porque ao fim e ao cabo empatizo com as pessoas e sinto remorsos quando o meu cenho franzido as perturba. Não tenho a pureza de um verdadeiro aristocrata, poor me.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Mil poetas

A Chiado Editora tem uma Antologia de Poesia Contemporânea que reúne cerca de mil autores. Sim, apenas mil. Julgávamos nós que Portugal era um país de poetas e a Chiado, propondo-se antologiar a raça, não encontra mais de mil. Que ineficiência. Que preguiça. Que falta de respeito pela veia pátria. 
Há quem defenda a editora dizendo que o magro número de antologiados se deve ao apertado crivo do antologiador, receoso de deixar a impressão de que ali entrava qualquer transeunte capaz de assinar o próprio nome, mesmo que com erros ortográficos. Receio absurdo, bem se vê, que na verdade conduziu à publicação de uma obra incompleta, pouco representativa da vivacidade lírica nacional.
É certo que o excesso de escrúpulo teve as suas vantagens: não há na antologia senão Homeros. O escasso número de autores assegura ao leitor o mesmo conforto que teve o organizador: em colectânea peneirada com tal minúcia é virtualmente impossível encontrar um poema mau.
A opção elitista da editora tem naturalmente desvantagens comerciais (o que dá uma certa nobreza abnegada à empresa, é de reconhecer). Sabendo-se que os leitores portugueses, na hora de comprar, são movidos sobretudo pela cumplicidade estética, pela afectividade intelectual e pelos laços literários que mantêm com os autores, está bom de ver que se venderão uns meros seis ou sete milhares de exemplares da antologia quando se poderiam vender pelo menos sessenta mil, se se multiplicasse por dez o número de antologiados. Reflectindo, aliás, mais verosimilmente a contemporânea arcádia lusitana. Dez mil poetas lusos* é o mínimo que uma antologia que se preze deve às letras portuguesas.

* De longas barbas e de braço dado a cantar eurovisivamente, à grega, “Good bye, my love, good bye”.

P.S.: Entre o Sono e o Sonho é o título da antologia da Chiado Editora. Entre o sono dos leitores e o sonho delirante dos autores, presumo.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

«António Lobo Antunes. Ascensão e queda do ‘enfant terrible’ da literatura portuguesa»

Não me chateia nada que a reportagem do Observador com o título acima possa regozijar-se com a “queda” de Lobo Antunes. É apenas ridículo que, apesar de ter em si mesma, e com certo mérito jornalístico, suficientes elementos para perceber que passar de 100 mil exemplares vendidos para poucos milhares não é uma “queda” literária (nem o é aos olhos dos leitores), a reportagem não deixe de insinuar esse sabor de derrota (desde logo no título).
A única coisa estranha em relação a Lobo Antunes era precisamente a venda de milhares de exemplares. Alguém que viva neste país, que saia à sua rua neste país e que conheça os seus conterrâneos terá em algum momento achado possível haver em Portugal dezenas de milhares de pessoas a ler Lobo Antunes?
É certo que o próprio escritor, que neste particular do ego se aproximou muitas vezes do inefável Rodrigues dos Santos, acreditou ou pareceu acreditar nessa possibilidade de ter um estádio-da-luz-com-terceiro-anel a lê-lo. Mas não, não há nem nunca houve em Portugal essa multidão furiosamente interessada em ler Lobo Antunes — nem, de resto, em ler regularmente seja o que for de literatura (ou ensaio ou história ou o que quer que não seja lixo).
Por outro lado, percebo as saudades de um tempo em que escritores como Lobo Antunes podiam ser best-sellers em Portugal. Isso impunha um certo respeito, balizava as coisas, ajudava a manter a bicheza literateira à distância, higienizava o ambiente. Hoje, a literatura de cordel — muita dela em regime de franchising, como a ancestral —, tomou conta do mercado e da sociedade como nunca na História — mas perdeu os velhos, tradicionais e sobretudo justos, adequados, complexos de inferioridade. Também porque já ninguém tem vergonha de se confessar leitor-não-praticante ou mesmo acérrimo analfabeto. E esta "emancipação" popular não é um progresso. Nem democrático nem de espécie alguma.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O direito à poligamia

Decerto com razoável ironia, o escritor Nick Hornby propôs algures que se devia queimar os livros «complicados». Esta é daquelas frases que dão jeito a um provocador e está de acordo com o zeitgeist comercial, numa altura em que há empresas que não se importam de lançar e depois retirar compungidas do mercado produtos politicamente incorrectos porque sabem que a visibilidade concedida pelo “escândalo” lhes acabará por trazer lucros. Ainda que aqui não haja necessidade de Hornby se vir a queixar de citação fora de contexto: a sua afirmação tem tanto de provocador como de banal. Muitos disseram o mesmo, por aquelas ou outras palavras, e vários deles eram também escritores, ou coisa aproximada.
El País, que traz a notícia e fala da repercussão que terá tido aquele fait divers literário, dá-se contudo ao trabalho de coligir uma lista de 10 livros que «carregam o estigma (muitas vezes injusto) de serem inacabáveis», por gigantismo ou ilegibilidade. Vai de O Arco-Íris da Gravidade a A Piada Infinita, mas passa por Crime e Castigo e Guerra e Paz. Isto é ir um bocadinho mais longe do que se atreveria José Rodrigues dos Santos, e o artigo mistura, com certa tontice, a suposta complexidade com o tamanho dos livros.
Teremos, portanto, duas razões, nem sempre acumuláveis, para queimar livros: a dificuldade de leitura que eles oferecem ou o número de páginas que os constitui.
Reparem que nenhum dos escritores citados na peça, Nick Hornby ou Kingsley Amis, teve a franqueza de Fernando Pessoa, nenhum defende que pura e simplesmente se não leia. Não. São (ou eram) escritores: naturalmente não querem afastar a clientela (pelo contrário, como se verá adiante). Consideram a leitura importante, claro, ou uma interessante «actividade hedonista».
No que toca ao tamanho dos livros, a estigmatização dos grandes é estulta, se tivermos precisamente em conta o prazer da leitura: o que importa ler dez novelas ou um só calhamaço, dez autores ou um só escritor, se o objectivo é o prazer que tiramos do exercício de ler? Eu, por exemplo, e pensando só no prazer, trocaria de bom grado uma dezena de livros menores que li por um novo tomo de A Piada Infinita. Ganharia, entre outras coisas, novidade e variedade, tudo num só livro, vejam só.
De resto, para escritor, aquele Hornby parece ter um medíocre conhecimento da natureza humana. Ignora que, nos prazeres literários como, digamos, na culinária, os seres humanos são diferentes?
E vamos ao argumento da complexidade. É claro que há gente que lê ou diz ler destas obras «estigmatizadas» para poder fazer alarde de superioridade intelectual ou para seguir, por pretensão, o mais exigente cânone. Eu li o Ulisses em bicos de pés e pouco percebi dele na altura, mas não me arrependo de ter seguido a via pedante (se quiserem) em vez da via pirómana. Acredito que, neurologicamente, duas pessoas diferentes possam sentir o mesmo grau de prazer a ler o supra-referido dos Santos, por exemplo, ou o falecido Wallace, mas desconfio que o cérebro do leitor que lesse o segundo sairia bastante mais colorido e refulgente de uma ressonância magnética. E eu não vejo, com franqueza, razões para se preferir levar para casa imagens de um blackout quando se faz uma IRM.
Tirando Philip Roth — que chegou ao ponto de desaconselhar a leitura tout court mas porque, bem sabemos, decidiu deixar de escrever —, o aprendiz de Torquemada que manda queimar livros alheios está, geralmente, com consciência disso ou não, a ser juiz em causa própria, a autojustificar as suas opções enquanto escritor, a puxar a brasa à sua sardinha literária, a defendera a sua bancazinha no mercado livreiro. Adicionalmente, mostra que, por infelicidade, o ter-se tornado escritor não preservou o leitor que eventualmente havia nele. É que nenhum leitor verdadeiramente interessado na leitura (ou viciado na leitura, se quisermos continuar nas metáforas hedónicas) escolherá ou rejeitará um livro pelo seu tamanho, ainda que possa ter o seu próprio calendário de leituras e tendência a postergar indefinidamente luxações nos pulsos.
Nick Hornby diz, e nisto tem razão, que «de cada vez que continuamos a ler sem vontade reforçamos a ideia de que ler é uma obrigação e ver TV um prazer». Mas um escritor com alguns conhecimentos de sociologia, psicologia, neurologia ou o diabo a quatro e que apreciasse a diversidade humana talvez não devesse ignorar que se pode não ter a menor vontade de ler o mais fininho dos livros de JMS (J), se ele algum dia escrever um à sua imagem, e encontrar em cada magra página um trabalho de Hércules. Num mundo em que o cânone excluísse livros complicados e/ou grossos (e esse mundo já está aí), haveria sempre gente a reconhecer que prazer é ver TV.

A redutora imagem da humanidade implícita numa condenação dos livros «excessivamente complicados» é, insisto, apologia de uma escola ou da obra própria. Infelizmente, uma parte dos escritores não resiste a esta tendência, e é por isso que tantas vezes ler-lhes as entrevistas se torna penoso. Detesto escritores possessivos, que me queiram só para si. Enquanto leitor, reclamo o meu direito à biodiversidade — ou à poligamia, para regressarmos ao prazer.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Rule, Britannia!

Ordenar cavaleiro um escritor era matá-lo. Aos meus olhos.
Sir Kingsley Amis soou-me sempre demasiado pomposo e isso manteve-me à distância. Não admira que os livros do filho tivessem degenerado, imaginava eu. Quem suporta um pai hierático, com assento no panteão? Um tipo torna-se pornógrafo ou bombista, algo que ofenda a moral paterna, se tem de viver à sombra de um pai destes.
Entretanto, deu-me para ler Os Velhos Diabos do Amis sénior e tive de reconsiderar. A luta de Martin com o pai, percebo agora, foi de outro cariz. Não teve de o afrontar — teve de o suplantar. Na prosa e na corrosão. Amis pai é Amis filho adiantado umas décadas e um pouco menos à-vontade com palavrões.
Kingsley Amis, descobri com espanto e embaraço, de sir (na acepção palaciana) só tinha o título, no resto era um de nós, disfuncionais e reles humanos. Alguém que vale a pena ler, portanto.

Ordenar cavaleiro um escritor é dar-lhe um lustro despropositado, afastar leitores avessos a salamaleques. Em alguns casos é mesmo ridículo. Ou então, ordenar cavaleiro um escritor é um gesto de uma civilização superior. Se calhar é isto e eu é que estou demasiado habituado a ser tuga.

sábado, 14 de junho de 2014

LER

Durante anos, uma das minhas maiores alegrias era folhear jornais e revistas novos ou reformulados. Gostava tanto de bons textos quanto de bom (e novo) grafismo. Por isso não resisti à extravagância financeira de comprar a “nova” LER. (Há leitores deste blogue que julgam ser uma boutade o meu lamento por no último ano e picos não ter estado à altura dos cinco euros da revista. Pois saibam que hesitei em pagar o euro extra que agora custa e me não estava a ser pedido pela tabacaria, cujo sistema informático ainda considerava o preço antigo. Fui honesto, alertei o funcionário — e vim todo o caminho a chorar a minha inadequação idiossincrática ao capitalismo sem pruridos ora vigente. Sou um cândido.)
Lá dei os seis euritos, portanto, apaziguando-me com a ideia que seria um luxo trimestral que a troika certamente toleraria. O regresso à trimestralidade está, de resto, também de acordo com a minha actual disponibilidade de tempo (disputada, contudo, pela Granta, cuja assinatura um anjo partilhou comigo).
Bem, queria era dizer que gostei bastante desta LER (estava só a ver se adormecia os editores antes de chegar aqui, mas talvez nem fosse necessário, estão certamente distraídos com o Mundial). Ao pegar-lhe senti o mesmo tipo de textura, maleabilidade e excitação que sentia há trinta anos com um Disney Especial — e isto é um elogio.

Depois vou ler.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A aranha

No alfarrabista, abrindo um dicionário de filosofia, deparo com minúscula aranha aninhada no pequeno desvão feito por um grosso marcador de livros. Aguardo, para ver o que acontece. O animal não tarda a mover-se: atravessa a teoria do silogismo, galga premissas, vence conclusões, abeira-se da margem, despenha-se no intervalo que separa dois volumes fechados. Parece buscar o sentido da sua existência entre a lógica de Aristóteles e os livros que nunca lerá. Como qualquer um de nós.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Viagem

«Procuro, de Júlio Verne, Viagem ao Centro da Terra.» Diz-lhe o alfarrabista: «Não disponho do livro, mas será fácil encontrá-lo em edição de bolso.» Certo. Para o filho, contudo, tornava-se penoso ler letras miudinhas. Então o homem sublinhou a vantagem de permanecer à superfície: no centro da Terra, a temperatura é elevadíssima. Depois de ela sair, comentou: «Muito preocupada! Como se o seu problema tivesse um alcance universal...» Não tinha, de facto: era um problema estritamente planetário.

quarta-feira, 12 de março de 2014

A vitoriosa trimestralidade da LER (1)

O Correio da Manhã, esse pândego, considerou uma boa notícia a LER passar (ou regressar) a uma periodicidade trimestral. Pelo menos a seta junto à informação apontava para cima (recebendo como troco uma farpa de Rui Zink no Facebook). Para mim, esta alteração pode de facto ser uma boa notícia: se a revista aumentar o conteúdo, como prometido, e mantiver o preço de 5 euros, talvez, bem contados os trocos, possa voltar a comprá-la.

Mas esta renovação da LERsem lamentos nem desculpas») só é uma vitória ou uma boa notícia porque estamos demasiado habituados a más notícias. Podemos, nestes tempos de cinza, considerar uma vitória a LER conseguir manter-se, ainda que trimestralmente; podemos considerar uma boa notícia a LER simplesmente não acabar, como seria possível e de certo ponto de vista até provável. Mas estas são as vitórias simbólicas da Resistência, destinadas a manter o moral. Verdadeira vitória e boa notícia sem sombra de eufemismo seria a LER renovar-se e aparecer com «mais páginas, mais reportagens, mais profundidade e densidade» mantendo a edição mensal.

Assim, concluímos apenas que o país não tem dinheiro nem leitores suficientes (ou suficientes leitores com dinheiro, numa versão optimista) para uma revista mensal de livros.

Assim, a muito custo afastamos o motejo: de vitória em vitória até à derrota final.

A vitoriosa trimestralidade da LER (2)

Muitos anos, circunstâncias, instituições e pessoas contribuíram para o retrocesso da LER à periodicidade trimestral. Paulatinamente, o livro (e não falo em particular do romance) foi banido das televisões, das escolas, das universidades, dos jornais (guetizado em suplementos a que prescreveram uma dieta crescente), dos discursos políticos, das conversas em geral. Uma ou duas gerações de dirigentes partidários e institucionais particularmente plebeias, particularmente representativas da boçalidade e do arrivismo nacionais, foram suficientes para consumar o desaparecimento do livro — e a geração que lhes há-de suceder nem sequer consegue soletrar a palavra.

Considerando retoricamente que há uma saída para a crise, a LER é uma daquelas coisas que já não recuperaremos. A não ser que o país deixe de recrutar ministros e directores-gerais nas jotas, e que os ministros deixem de confundir “representar” com “mimetizar” o povo. A não ser que os intelectuais de direita parem de ter como maiores inimigos os intelectuais de esquerda, e estes, aqueles. São aqui menos relevantes as fracturas entre a esquerda e a direita do que as que existem entre o país e um leitor de livros, e a Resistência bibliófila precisa de todos os intelectuais — os que escrevem no Correio da Manhã e os que escolhem o Correio da Manhã para embrulhar o peixe.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Escritor de levar para casa

Li que Valter Hugo Mãe esteve à conversa com leitores em Bragança ou Macedo e que a algumas pessoas no fim apetecia levá-lo para casa, por ser tão doce. Fiquei deprimido, com a inveja. Depois esbofeteei-me. Pela estupidez.
A inveja entre escritores é proverbial* — e tê-la sentido alegrou-me. Pensei que já podia pegar no telefone e dizer: «Mãe, sou escritor!», como se tivesse detectado os primeiros pêlos no buço (ou em zona mais meridional) e quisesse gritar: «Mãe, já sou homem!»
Mas de seguida fiquei deprimido, porque, embora exagere nos açúcares, jamais serei um tipo doce que as pessoas queiram ir ouvir falar — quanto mais levar para casa.
Se depois me esbofeteei é porque me lembrei que detestaria que as pessoas me quisessem levar para casa. Se por hipótese bizarra me quisessem ir ouvir falar.


* Leia-se A Informação, de Martin Amis.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Falta de vergonha

Francisco José Viegas toca num ponto essencial: «as pessoas “já não se envergonham” de dizer que não lêem livros.» O mesmo é dizer que as pessoas já não se envergonham de não lerem livros.

Na emancipação do povo português houve este equívoco fatal: as pessoas acharam que a grande vitória era perderem a vergonha da sua condição — quando a grande vitória deveria ser terem ultrapassado a sua condição.

É verdade que em momento nenhum da História deveria ter havido razões para que alguém sentisse vergonha das suas origens humildes. Mas, do mesmo modo que as pessoas procuraram vencer a pobreza enriquecendo, do mesmo modo que ninguém hoje se orgulha de ser pobre mesmo quando tem o azar de o ser, ninguém devia sentir orgulho de não ler. Sai-se de uma situação de carência estrutural suprimindo essa carência, não passando a decretá-la virtuosa. A incompetência do país vive também deste equívoco.

A questão é esta: em tantos casos, mais do que terem perdido a vergonha de não lerem, as pessoas sentem um orgulho revanchista nessa sua recusa dos livros. Como se os livros e a leitura fossem caprichos das antigas classes opressoras e a libertação só ficasse completa com a sua abolição. Muitos destes revanchistas, mais ou menos conscientes do seu jacobinismo desajustado e patético, ocuparam cargos ou conquistaram notoriedade, granjearam influência. Uma grande parte da nossa classe política, da classe política que tem desgovernado o país nas últimas décadas, é constituída por arrivistas destes.
Quem julga que os livros são um problema de editoras e gente ociosa é já um produto desta emancipação falhada. E há demasiada gente com responsabilidades a julgá-lo.

Não direi, para dialogar com a metáfora final do texto de Viegas, que «os bárbaros» já entraram na cidade, mas estamos certamente sitiados pelo glamour da indigência. Armemos as pessoas de vergonha.

Das virtudes da leitura

«A literatura não salva», costuma dizer-se, muitas vezes apenas para contrariar um certo proselitismo de miss universo de alguns cândidos amantes da leitura. Mas em minha opinião, salva. E não precisa de finais felizes. Salva mesmo quando é dura, triste, deprimente, terrível. Para citar com liberdade Steiner, a leitura responde tautologicamente à questão «quem somos e o que andamos aqui a fazer». Ou evita as aguilhoadas dessa inquietante questão mantendo-nos prazerosamente ocupados a tentar encontrar nos livros a resposta. Salva dessas duas maneiras.

A literatura não impede os crimes, nem as guerras, nem nada disso, desiludam-se. Um torcionário pode fazer o seu trabalho ao som da melodia mais doce de Tchaikovsky e entre dois capítulos de Sebald. Mas desconfio que o fará ainda mais facilmente se for o único a ler Sebald. Devemos ler por uma questão de equidade, para estarmos à altura dos nossos verdugos.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Rodrigues dos Santos* ou uma coboiada?

«Se as pessoas vão gastar dinheiro num livro têm de ter a garantia de que gostarão de o ler.» [diz José Rodrigues dos Santos, insinuando sem qualquer subtileza que as pessoas compram os seus livros porque garantidamente vão gostar. E decerto tem razão.]

Do mesmo modo que sou com demasiada frequência um consumidor de (mau) entretenimento cinematográfico, não me repugnaria, se tivesse o tempo e a vontade, ler um livro de José Rodrigues do Santos. Não tenho contra o entretenimento nada além do remorso de saber que poderia quase sempre utilizar melhor o tempo.
Se nunca senti esse impulso é porque se perde mais tempo com um (mau) livro do que com um (mau) filme e porque o entertainer das letras faz questão de me repelir. Uma coisa é sentirmos a nossa inteligência insultada nas duas horas de um blockbuster para lerdos (passe o pleonasmo), outra é sermos injuriados pelo realizador à entrada do cinema e mesmo assim entrarmos. Há limites.
As entrevistas a escritores, tal como as recensões, são o átrio dos livros. Ali decidimos se compramos ou não o bilhete para a leitura. O que Rodrigues dos Santos nos diz nas suas entrevistas é que, se não formos estúpidos que chegue para o admirar incondicionalmente, não devemos comprar um livro seu. Ora, isso já nós sabemos, mas, tal como no cinema, se não no-lo lembrarem, não é raro que o compremos à mesma.
Na mais recente edição do Jornal de Letras o escritor insiste no argumento habitual: a garantia da qualidade da sua obra é dada pela quantidade de exemplares vendidos. E, como de costume, essa vanglória, que Toni Carreira, um génio da música, usa com mais modéstia e discrição, não lhe chega. Alegando que a crítica o renega por não ser um “autor da linguagem”, acaba, na sua suprema vaidade, a qualificar de ineptos os “autores da linguagem” e na prática qualquer autor e qualquer género literário que não o seu. Por extensão, qualifica também de néscio todo o leitor que ouse apreciar livros diferentes dos que ele escreve.
Ora, que os seus leitores não se sintam insultados por isto significa que de facto só o lêem a ele (e não podem portanto ser garantia de qualidade, por falta de termo de comparação) ou que não têm amor-próprio (dificilmente tendo, pois, espírito crítico). (A hipótese de haver quem o leia descomplexadamente e se estar apenas nas tintas para a boçalidade que ele debita nas entrevistas não é para aqui chamada.)
Eu, que gostaria de ler mais um ou dois autores diferentes do José sem ser insultado por isso e que alimento a esperança de ter ainda um pouco de amor-próprio, decido, não exactamente sentir-me insultado de cada vez que o homem dá uma entrevista, mas sentir-me dispensado de o ler. E a seguir até vejo uma coboiada com menos remorsos.


* O autor é facultativo. Pode ler-se este texto substituindo o nome por Miguel Sousa Tavares ou mesmo Margarida Rebelo Pinto — Portugal é pródigo em autores que por despeito negam direito de cidade ao resto dos escribas.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

«Who gave you this number?»

Há uns anos alguém achou que me podia confiar o número de telefone de Paul Auster e eu liguei para esse número. Na altura eu tinha acessos, por vezes bem-sucedidos, de megalomania, mas atendeu-me uma voz feminina e o castelo de autoconfiança que eu tinha erigido desmoronou. «Mr. Paul Auster?», balbuciei cá de baixo, das masmorras. E ela, da sua torre de menagem: «Who gave you this number?» Ainda tentei explicar ao que vinha, procurando recuperar um pouco da compostura e da assertividade (da lata, na verdade) que usava em ocasiões análogas. Mas ela não se comoveu demasiado, retorquiu com uma cordialidade evasiva, e estava particularmente obcecada com a pergunta «who gave you this number». Não delatei a minha fonte — tive esse resto de dignidade —, mas o inglês que treinara saiu dos carris e a auto-estima deitou-se neles à espera do próximo comboio. Desesperado, pedi-lhe um endereço de e-mail ou um número de fax (ainda se usavam) e a voz deu-me uma sequência de algarismos. Terminou ali a conversa e a campanha de Brooklyn. Mandei o meu fax e nunca tive resposta.

Na hora e nos anos que se seguiram fiquei convencido de que falara com a esposa do escritor. A voz era demasiado madura para ser da filha, então adolescente, e, talvez para salvar o que me restava de ego, decidi que não falara com nenhuma secretária, agente ou relações públicas. Não conseguira nada de Auster — mas falara com a mulher dele. Assim se constroem os mitos.

Mais tarde cheguei a um primeiro livro de Siri Hustvedt (Aquilo que eu amava) e o meu trauma transformou-se. Já não era a questão de ter falhado a operação Paul Auster, era a de ter levado o meu embaraço para um novo nível. O livro de Hustvedt era fascinante, mas ela era casada com o autor da Trilogia de Nova Iorque e isso fazia com que ao longo da leitura soasse regularmente nos meus ouvidos aquela admoestação antiga: «Who gave you this number?» Eu tinha descoberto uma escritora interessante, mas simultaneamente descobrira que os seus livros estavam assombrados. «Who gave you this number?» não era uma pergunta com que eu não soubera lidar: era um mantra fantasmagórico. Olhava para a fotografia na badana e o seu rosto norueguês mas tão ariano intimidava-me, remetia-me para o gueto. Hesitei em comprar o meu terceiro livro dela porque temi que o título fosse uma insinuação, um aviso críptico para mim: Verão sem homens. Aquele homens era comigo. Eu estava impedido de entrar no Verão de Siri Hustvedt, como anos antes fora impedido por ela de entrar na casa do marido.

Tudo teria sido mais simples se a minha vaidade tivesse desde o início aceitado que a secretária ou a mulher-a-dias do escritor ficara simplesmente espantada com o facto de um desconhecido pouco fluente em inglês do outro lado do Atlântico estar de posse do número do patrão. Porém, considerando que talvez os livros de Siri Hustvedt sejam mais interessantes do que os de Paul Auster, vou ali alimentar mais um bocadinho o mito de que um dia falei com ela ao telefone e já venho.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A perdulária arte de chegar tarde

Depois de quase todos o literatos do país terem dado o seu contributo para o debate facebookiano que espoletou um post de José Mário Silva sobre um comentário (crítico) de Luís Quintais a uma crítica (elogiosa) de José Mário Silva no Actual, a coisa provavelmente esmorecerá. Mais uma vez, cheguei tarde. Damn it!

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Explicações

Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura. Obedeci ao conselho: parei na terceira página. Mas estou, finalmente, decidido a ler uma obra de Lobo Antunes: Explicação dos Pássaros. Adquiri-a em edição primeira. Lá dentro, marcador suspeito, achava-se uma embalagem de dez comprimidos para dormir: seis ainda resistiam. Estranharia menos se descobrisse a liga da duquesa no breviário do capelão. O clínico detalhe convida-me à leitura. A mente funciona por enigmas. As aves são mais fáceis de entender.

domingo, 10 de novembro de 2013

Impossibilidade

Num lote de livros que adquiri — na altura não o explorei de forma exaustiva —, descubro um volume escrito pela catalã Cecilia A. Mantua, editado entre nós pela Figueirinhas. Metade deste exemplar encontra-se por abrir, reclamando espátula, faca ou xis-acto; a outra metade aparece irremediavelmente desfeita, com centenas de papelinhos amontoados, fruto do labor de ratos minuciosos. Em síntese: uma parte está fechada, outra parte está perdida. Só falta mesmo referir o título: O Nosso Amor é Impossível.