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sábado, 12 de novembro de 2016

O actor e a contra-regra:
Pedro e Mónica na Terra da Carochinha

A versão de Pedro Dias, alegado homicida de Aguiar da Beira, tem tantos buracos, que até estou a pensar substituir o escorredor de alimentos...

13:30
— O Pedro conhecia os agentes da GNR que o abordaram?
— Não, senhora. Não os conhecia de modo algum.
— Nem nenhuma das pessoas que aparecem nas notícias como suas vítimas?
[Pedro Dias olha de relance para a advogada, Mónica Quintela.]
— Não, senhora.
— Mas esteve com elas todas...
— Não.

08:12
— E não sequestrou pessoas?
— De maneira nenhuma. Essas pessoas até o relógio me emprestaram.
— E não roubou carros a essas pessoas?
— Não, pedi o carro emprestado.

18:38
— Nunca roubou?
— Não... Hã, roubei... Roubei meio frango de uma arca de um amigo meu, conhecido.
— De um amigo...?
— De um amigo. Que não soube que eu lá estive.

07:11
— O que é que a sua família soube, até hoje, sobre si? Nestas últimas quatro semanas.
— Nada, absolutamente nada. Não consegui comunicar com ninguém.
— Não o ajudaram? Foi dito várias vezes que o Pedro tinha sido ajudado.
— Coitados, como é que me ajudavam?! [...]

Ou seja, os familiares (que ele próprio reconhece que o amam) e os amigos nunca o ajudaram, mas as duas vítimas de agressão (espancadas, estranguladas, amordaçadas e atadas) da aldeia de Moldes, que nem sequer o conheciam, emprestaram-lhe o carro com que fugiu para Vila Real, e até o relógio de pulso! E tudo isto, apesar de que não só Pedro Dias não as conhecia, como nem NUNCA sequer esteve com elas... Há bons samaritanos!

06:13
— O Pedro Dias está em fuga desde o dia 11 de Outubro, é suspeito do homicídio de duas pessoas e de ter baleado outras três — assume a autoria destes factos?
— O senhor agente da GNR [baleado, mas que sobreviveu] terá certamente mais a dizer sobre o que me fizeram do que eu terei a dizer sobre isso...
— Mas assume a autoria desses homicídios ou não?
— De maneira nenhuma.

11:12
— Para clarificar, o Pedro está a dizer-me que não matou ninguém, não roubou ninguém, não sequestrou ninguém, e que mesmo assim esteve em fuga quatro semanas...
— Sim, não fiz nada do que me acusam até agora.
— Nenhum destes crimes praticou?
— Nenhum desses crimes.
— Portanto, está a afirmar-nos com convicção que se sente um homem inocente.
— Sinto-me um homem inocente, com vontade de defender a minha honra.
— E sente alguma motivação para ter sido perseguido? Como é que justifica, então, que um homem inocente possa ser perseguido?
[Pedro Dias levanta os olhos para a advogada, que lhe sussurra, quase imperceptivelmente: «O GNR...»]
— O senhor GNR poderá facilmente responder-lhe a isso...

13:30
— O Pedro conhecia os agentes da GNR que o abordaram?
— Não, senhora. Não os conhecia de modo algum.

17:18
— Fui ameaçado [com o mandato de busca europeu] logo no primeiro dia, quando me telefonaram.
— Mas alguém lhe telefonou? Até que horas é que teve o telefone ligado? Com quem é que falou nas primeiras horas?
— Uma senhora sargento, que não lhe sei dizer o nome [Nota: noutra parte do vídeo, Pedro Dias identifica a sargento pelo sobrenome] que me ameaçou de morte, disse logo que eu corria risco de vida. Logo no primeiro telefonema que me fez.
— Recorda-se que horas eram?
— Umas nove e meia da manhã, talvez.
— De dia 11.
— De dia 11.
— E foi aí que decidiu pôr-se em fuga, ou já estava em fuga?
— Estava a caminho da minha família, que é o meu centro, o meu universo.
— E depois dessa chamada...
— E depois dessa chamada, mal recebi essa chamada, dez minutos depois estava a ser baleado no Alto da Freita.
— E foi aí que iniciou a fuga.
— Foi aí que tentei sobreviver.

Ou seja, Pedro Dias não conhecia «de modo algum» os agentes que o abordaram. Apesar disso, os dois agentes (um dos quais foi baleado mortalmente, e o outro com gravidade) «fizeram» algo a Pedro Dias (que saiu ileso, ao contrário dos dois agentes que «fizeram» não sei quê).

Mas, não obstante ter sido alegadamente “vítima” do que dois agentes lhe «fizeram» e de ter sido “testemunha” (presume-se, pois Pedro Dias nega ter sido ele) da morte de um militar da GNR, Pedro Dias não denunciou o crime que “testemunhou” nem o “abuso” que sofreu às autoridades. De facto, começou o novo dia como se nada fosse, estando normalmente a caminho da sua família.

(O argumento de que não fez a denúncia às autoridades por temer a GNR não cola: segundo Pedro Dias, ele não estava em fuga, e só soube que estava a ser procurado pelas autoridades às 9h30, quando foi contactado por telefone — isso apesar de umas horas antes ter “testemunhado” um agente da GNR a ser abatido à sua frente, coisa do mais normal do mundo, certamente.)


Parabéns, Dr.ª Mónica Quintela, faz tudo muito sentido.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Avaliar pelas aparências

Há um concurso num canal de televisão onde a determinado passo os concorrentes escolhem pessoas na rua para responderem por eles a uma pergunta esperando que falhem, já que só assim ganharão o seu punhado de euros. E os concorrentes lá se põem a avaliar pelo aspecto os transeuntes para ver qual dá garantias de ser ignorante, saloio, rústico, néscio, retardado — incapaz, na opinião deles, de acertar a resposta, como convém. E, claro, há risinhos quando o preconceito e o estereótipo parecem confirmados pela realidade, quando o escolhido não sabe a resposta. Não há contudo os mesmos risinhos de patética condescendência e superioridade quando o objectivo é que alguém acerte a resposta e, apesar de escolhido pelo seu ar de adequada urbanidade, falha. Também não há este tipo de risinhos quando o próprio concorrente, tão à vontade para avaliar alguém pelo seu aspecto, falha.

Por mim, se algum dia estivesse suficientemente tonto para ser concorrente, escolheria para acertar as respostas todo o transeunte que mudasse de passeio à mera vista da comitiva televisiva. Se é para julgar pelas aparências, este parecer-me-ia um excelente indicativo de inteligência. E escolheria para falhar as respostas todo aquele que tivesse ar de concorrente do programa, incluindo o apresentador. Grandes probabilidades estariam do meu lado. 

sábado, 9 de janeiro de 2016

Cortesãos de esquerda

A esquerda também tem os seus cortesãos, a quem as baixezas da democracia incomodam. Eduardo Pitta, no seu blogue, escandaliza-se com a permeabilidade de coador furado do Tribunal de Contas, no que se refere a filtrar candidatos às presidenciais, e vai daí faz birra e não assiste a nenhum debate, talvez boicote mesmo as eleições.

Eu também me escandalizo com o facto de ter havido 7.500 portugueses que subscreveram a candidatura de Tino de Rans. Para humor e nonsense ficaria bem mais aliviado (entusiasmado, na verdade) se 7.500 portugueses tivessem subscrito uma candidatura de Manuel João Vieira. Seria uma indicação de que alguns dos nossos compatriotas distinguem a sátira da anedota, a inteligência da brejeirice. Seria uma indicação de que uma quantidade apreciável de portugueses, se não se importa com o governo da pátria, é pelo menos criteriosa no que concerne à derrisão da pátria.

Contudo, não creio que as assinaturas e o mau gosto de uns tantos (lembro que o sistema é Democracia) poluam as assinaturas que habilitaram outros candidatos, até aos meus olhos mais apresentáveis. Elogio, aliás, o estoicismo e a polidez com que estes aceitaram todos os debates. De resto, só vejo os debates que quero e voto igualmente em quem quero. Se por alguma razão paranóica ou hipocondríaca eu temesse contágios bacteriológicos da ralé por simples contacto com o boletim de voto onde aparecem tão vis figuras, procuraria desde já umas luvas de cirurgião que dissessem bem com a minha toilette de 24 de Janeiro. Eduardo Pitta, não querendo da sua tribuna ajudar a esclarecer o eleitorado, pode cobrir da mesma forma os seus apêndices e poupar o país ao seu pedantismo e ao seu paternalismo. Portugal não são aqueles 7.500, 15.000 ou 22.500 portugueses que ele como eu execra. (Embora às vezes pareça, é certo.)

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Deixem o pimba em paz? As artes e o público

À saída do espectáculo DEIXEM O PIMBA EM PAZ (uma reinvenção brilhante de Filipe Melo e Nuno Rafael a partir do hegemónico repertório pimba) alguém registou duas reacções dos espectadores: a dos que gostaram porque os novos arranjos eram música genial e a dos que gostaram porque dava para reconhecer as cantigas originais.
Estas reacções do público parecem demonstrar que é possível fazer arte consensual, ou mesmo arte de qualidade para uma imensa maioria. Dar-se-ia assim razão a Filipe La Feria, que terá dito na noite dos Globos de Ouro que «o segredo das casas cheias é o talento».

Mas é precipitada a conclusão sobre a consensualidade — e, claro, está infelizmente errada a afirmação laferiana. Se voltarmos às reacções daquele público, vemos que o que agradou aos mais exigentes (ou menos engajados no género) foi apenas a magnificência dos arranjos, a sua qualidade de coisa nova e boa em si mesma, e o que agradou aos fãs das canções originais foi uma certa resiliência da coisa pimba, o conforto da sua permanência no novo objecto artístico. Não há exactamente nisto um consenso estético.

Posição diferente, e mais perspicaz (ou honesta), da de La Feria tem um espectador do Theatro Circo, que, indignado, se queixava há dias na página de Facebook daquela sala que «tudo o que fuja 1 milímetro ao mainstream (quase) não tem público».

A recepção das artes, para a maioria das pessoas, tem muito menos a ver com méritos artísticos de criadores e intérpretes do que com factores externos, como a psicologia de massas. É muito menos uma questão artística do que sociológica, cultural (no sentido de educação, tradições, costumes, hábitos, rituais, valores, ideologia, preconceitos, imaginário, etc.). O espectador português não vai em massa aos espectáculos por interesses estéticos. Ou, dito de outro modo, a estética das multidões não é artística, mas, digamos, étnica, identitária, gregária. O espectador que integra grandes plateias vai aos espectáculos em busca de entretenimento, e vai também para se inscrever no grupo, se incluir no ritual, se saber parte da encenação social da comunidade, poder dizer também fuitambém estivetambém vi, também sou, faço parte. É o mesmo impulso emulador que leva o turismo de massas ao Algarve, ao Brasil ou ao resort na República Dominicana. Não é necessariamente a qualidade das praias que o leva ali, mas o conforto e a excitação de ir onde todos vão, de pisar onde os outros pisaram, de não ficar para trás, de não ser excluído, de não ser aquele que não foi, não esteve, não viu, não fez parte, aquele que não é. Um local ou um espectáculo são declarados objectos «de excelência» para um colectivo pelo mesmo mecanismo gregário que junta as pessoas em volta da Selecção Nacional em dia de vitória (antigamente era também na nave da igreja em dia de terramoto), ou que as põe a vestir em cada estação roupa igual sem lhe chamar farda ou uniforme.

Malgré La Feria, o talento artístico, portanto, tem pouco a ver com a presença massiva do público nos espectáculos — assim como a ausência do público não é geralmente uma posição estética ou crítica em relação a um espectáculo. No tempo de Shakespeare, ou na Lisboa de Garrett, o público ia em números significativos ao teatro, mas isso não significa que gostasse ou percebesse mais de teatro do que o público de hoje. Significa sobretudo que isso era o que a comunidade fazia com naturalidade naquela altura. Ia-se ao teatro, era o rito social. (E já então as pateadas e as aclamações conseguiam frequentemente não corresponder ao mérito das peças.)

Estas considerações não levam à conclusão de que o público é inepto, mas à de que, aglomerado em multidões, o seu critério se dilui, se transfere da apreciação estética para a aprovação social — e à de que é susceptível de manipulação, mais ou menos consciente ou maquiavélica. Talvez ainda haja encenadores ou produtores que contratam claques para aplaudir as suas peças ou patear as dos adversários, mas o campeonato já não se joga aí. As rivalidades entre criativos são, aliás, deste ponto de vista, ridículas: os criativos (se usarmos o termo também para adjectivar a classe) estão infelizmente todos do mesmo lado: o lado dos sem público (para dramatizarmos um pouco a coisa). Clássicos ou contemporâneos, apologistas do texto ou da performance física, indefectíveis do sentido ou niilistas absolutos, conservadores ou ferozes experimentalistas — não depende dos criativos ter espectadores às centenas ou moscas nas suas salas (continua a dramatização). A afluência em massa de espectadores não se fará pelo brilhantismo do que se apresenta no palco mas pela particularidade de o local, o espectáculo, ou algum seu protagonista terem sido eleitos instrumentos de inscrição social. As pessoas aparecerão numerosamente se sentirem que vão ali, divertir-se, é certo, mas sobretudo receber a bênção da inclusão, ser ungidas de visibilidade e aceitação, aparecerão se ali lhes for dada existência, uma existência de corpo celeste que orbita e depende da sua estrela. Este género de espectador, o género que pode constituir plateias numerosas, aparece num espectáculo um pouco como um concorrente no Big Brother: à espera de ser premiado por existir ou estar. Percebe-se que um e outro mantenham uma boa relação.

Um espectáculo que tenha uma figura do tal mainstream, famosa (famosa por exemplo pela sua proverbial falta de dons) corre muito mais o risco de esgotar do que um que tenha várias pessoas apenas talentosas. Mas isto continua a não ser suficiente para classificar o público de inepto, porque em rigor ele não está neste contexto a exercer função de público, não de público de artes. A sua atenção não está virada para o objecto artístico, mas para o comércio social. O público aparecerá para testemunhar o fenómeno, coleccionar a memória da experiência, sentir que não ficou de fora do rito — não para fruir uma melodia, um texto, uma interpretação.

Não sendo necessariamente inepto, o público que apenas funciona em massa também não é, todavia, curioso. E também isso explica a sua ausência de tantos espectáculos, como referia o espectador lá em cima. Este público não dá o benefício da dúvida a um espectáculo que ainda não tenha sido visto e aprovado por centenas ou não tenha em si os elementos que garantem essa aprovação, os elementos da previsibilidade (ou seja, um cúmulo de repetições e clichés). Este público não vai por sua iniciativa espreitar um jornal, um site, um cartaz ou um palco onde o que esteja em causa seja um espectáculo novo e não um espectáculo aclamado. O que naturalmente traz um problema para autores ou espectáculos ainda não sancionados por uma multidão, mesmo que excelentes.

Não estando disposto «a pagar para ver», a arriscar num espectáculo ou artista desconhecido, não procurando realmente experiências estéticas mas catarse social, e sendo incapaz de gerir o seu próprio cânone sem o submeter à validação geral, este público tende a confundir critérios estéticos com atributos não artísticos. O «renome» de um artista (cuja origem o público não investiga e cujo prazo de validade não verifica) substitui os seus dotes vocais ou coreográficos, a sua inspiração a cada novo trabalho; o género praticado por um par de vedetas é, por sinédoque, uma coisa boa, mesmo que os demais praticantes sejam medíocres; a «visibilidade» mediática é alvará superior ao diploma do conservatório, à opinião da crítica especializada ou ao arbítrio individual, pessoal; uma grande quantidade de visualizações ou testemunhos «promete» que a experiência será positiva e suspende desde logo o juízo próprio, garante por isso a posterior ratificação.

O segredo das casas cheias não é, portanto, o talento, mas o ter-se bafejado o objecto com o hálito saturado das multidões ou com o seu sucedâneo laboriosamente preparado pelos alquimistas de serviço.

E os alquimistas de serviço não são os criativos. Quem hoje manipula o público, para retomar a prática oitocentista referida atrás, não são os directores ou os donos das companhias. A «inscrição social» que alguma arte pode proporcionar e que a faz ser procurada por multidões, na sua freudiana necessidade de unção e integração, não está nas mãos dos criadores artísticos, mas nas dos media, sobretudo nas da TELEVISÃO. O pimba não sairia do relativo anonimato das feiras e romarias de província, como o fandango e a chula, se a televisão e Herman José não se tivessem apaixonado por ele. (Em contrapartida, também Filipe Melo e Nuno Rafael não teriam tido provavelmente vontade de aplicar o seu génio a material tão insípido e monótono se ele se tivesse mantido circunscrito.)

A televisão não é só the drug of the nation — é para as massas o árbitro da elegância. Ninguém pode esperar que o público seja massivo no teatro se o teatro está ausente da televisão.
E a influência da televisão é tanto maior quanto as elites, duma maneira ou doutra, participam dela.

Os GLOBOS DE OURO (como noutra dimensão os Oscares) são reconhecidamente um miserável Panteão das Artes, são uma cerimónia de pechisbeque de onde a crítica, o juízo estético e tantas vezes o mero bom gosto estão ausentes. Contudo, uma boa parte dos que não reconhecem autoridade à cerimónia passa a noite a acompanhá-la, pela TV, pelo Facebook, pelo Twitter, por sms, pelas informações de amigos. Esta elite de excluídos dos Globos (excluídos porque não foram convidados ou auto-excluídos porque os desprezam) fica de fora a gozar ao detalhe o acontecimento ou a odiá-lo como a um amor antigo — e participa assim do mecanismo de entrosamento ou coroamento social que ele constitui, porque a caricatura, o insulto ou o ressabiamento mal disfarçado entram no metabolismo do monstro, fazem-no crescer.

Os Globos de Ouro servem para ungir os premiados não necessariamente pelo seu mérito, mas pela conveniência que o acto acarreta. Conveniência para o canal. Alguns prémios são apenas a confirmação do critério (encontrar o premiado que valide a ideia, o conceito que se quer valorizar). Outros, frequentemente, são atribuições que, numa inversão de funções, procuram garantir notoriedade ao próprio programa e ao canal, procuram inscrevê-los socialmente. O árbitro quer definir o que é elegante — e quer que os elegantes lembrem a todos quem é o arbitro.

É esta espécie de tautologia que está na origem do afunilamento pimba das televisões. (Repare-se que pimba já não é apenas aquele género musical brejeiro e uniforme, é uma forma de estar, um amarfanhamento social que faz, por exemplo, com que se torne difícil distinguir, pelo lado do público, um concerto de Tony Carreira de um de Abrunhosa.) A existência de audiências fragmentadas por gostos, interesses ou divergências estéticas seria perigosa e dispendiosa para os canais televisivos. Perigosa porque estimularia mais o zapping, dispendiosa porque exigiria mais conteúdos, mais formatos, mais inventividade, mais inteligência, mais talento. O pimba não é necessariamente ou apenas uma simpatia natural dos proprietários e directores de canais — é o fruto do seu esforço para impor pelo facilitismo a marca e lucrar mais com menos investimento. O gosto único é, talvez, do ponto de vista das televisões, menos uma ambição ideológica do que um instrumento de economia. Em todo o caso, faz sempre parte de uma estratégia de poder.

E falar de poder remete-nos para o ESTADO. Que papel o Estado há-de reservar para si nesta relação difícil entre público e artes?
Antes de mais, o Estado deveria definir se lhe interessa ter um papel. Atendendo a que já não há mecenas (os mecenas, como se sabe, eram o Estado na Antiguidade Clássica e na Renascença, já que de uma forma ou de outra viviam dos rendimentos que obtinham do povo), atendendo a estas circunstâncias, eu diria que sim, que ao Estado interessa ter um papel, mas eu sou um antiquado, um conservador. Tomemos o estado de direito, por exemplo. O estado de direito é uma coisa dispendiosa, não dá lucro, mas é talvez a maior conquista civilizacional da humanidade. Nenhum governo, por mais bruto que seja, se atreveu (para já) a considerar o estado de direito obsoleto ou a achar que o ministério público e os tribunais deveriam ser privatizados, financiados pelos que os demandam, sem qualquer participação do Estado. Ora, as artes e o direito caminharam, historicamente, ombro com ombro. Dialogam intimamente, do ponto de vista filosófico. A capacidade de abstracção, o sentido crítico, o debate, a independência de raciocínio e de opinião, a criatividade, a imaginação, tudo isto que nos trouxe ao século XXI são características que a humanidade apurou com o tempo e que de algum modo foram também estimuladas, potenciadas, exercitadas pelas artes. Seria um pouco pretensioso (e perigoso) da nossa parte achá-las agora dispensáveis.

O Estado, de forma activa ou por interposta legislação, com maior ou menor convicção, é (tem de ser) o garante último da biodiversidade, da preservação da memória, dos direitos das minorias e da alternativa democrática. Se não tivermos outras ideias para as artes, diria que no mínimo devemos encaixá-las nestes conceitos, tê-las em conta do ponto de vista ecológico (criando «reservas territoriais» onde elas possam medrar), do ponto de vista social (garantindo um rendimento de sobrevivência para intérpretes e espectadores, podendo estes ser providos em géneros pelos primeiros), do ponto de vista histórico-patrimonial (desenvolvendo uma política de «património vivo» para salas de espectáculos e galerias) e do ponto de vista político-filosófico (assegurando a possibilidade de propostas alternativas e o direito democrático à livre escolha, à escolha livre de proselitismos televisivos).

Ironias à parte, que tipo de reflexão deve o Estado fazer sobre as artes e o público? Perante a constatação de que não vão multidões ao teatro, uma reflexão sobre artes não deveria concluir que o teatro deve ter menos apoios (nem aumentar o IVA dos bilhetes). Do mesmo modo que aos governos preocupa a abstenção (pelo menos envergonham-se de confessar que não preocupa), devia preocupá-los a ausência de público no teatro. A qualidade de uma democracia sai talvez prejudicada se as pessoas não votarem, mas a qualidade do voto sai prejudicada se as pessoas não tiverem uma relação íntima com as artes e o pensamento informado e crítico que elas estimulam. Uma reflexão sobre artes, portanto, debruça-se sobre como levar mais público ao teatro.

Um governo não é um canal de televisão. Não pode ter como objectivo uniformizar a sociedade para melhor a governar e para governar mais barato. Governar mais barato pode ser uma triste necessidade, não uma aspiração. Daí que a um governo que queira ser realmente útil não possa deixar de se colocar duas questões: como levar mais público às artes (ou seja, ao pensamento crítico) e como (que é quase o mesmo) contrariar o proselitismo pimba das televisões.
A resposta à segunda questão passaria por açaimar ligeiramente, legislativamente, as TVs, mas isso é certamente pouco democrático e pouco liberal.
A resposta à primeira questão, que a prazo também responderia à segunda, reside em grande parte no ensino, essa instituição que o Estado (para já) ainda controla.

Com a entrada do ministro Crato, um intelectual que quase toda a gente estimava, o ENSINO ficou ainda mais de costas voltadas para as artes. (Foi assim com este governo, transformou desde o início pessoas interessantes em factótuns da política bulldozer.) Mas em rigor não é o actual ministro que deve ser culpado por o ensino não educar as crianças para as artes, para a estética, para a literatura, para o pensamento crítico. O mal é antigo. Na ausência de uma boa política institucional, as escolas foram deixadas à livre iniciativa (o que só por si não é um mal e em muitos casos teve resultados positivos) e essa ausência de enquadramento conduziu geralmente ao voluntarismo. A ênfase passou em poucas décadas de levar acriticamente os miúdos ao teatro, por exemplo, de os deixar enfiados e contrariados durante uma hora numa plateia a ver o que quer que fosse, para a originalidade de os levar directamente para o palco, ainda mais acriticamente e com frequência sem qualquer relação com a sua vocação. Há hoje no país centenas ou milhares de crianças que estiveram mais vezes num palco (calorosamente ovacionadas, e por isso induzidas em erro, pela família e os amigos) do que numa plateia, e em tantas das ocasiões em que estiveram na plateia estiveram a ver e a aplaudir sem critério crianças como elas. O equívoco tem as suas raízes antigas no pensamento muito esquerdista e igualitarista de que todos temos talento, todos temos criatividade, todos temos um poeta ou um bailarino dentro de nós. Depois foi continuado pela bigbrotheriana ideologia, ainda mais «democrática», de que todos temos direito à fama, mesmo que não façamos absolutamente nada para a merecer. A televisão, claro, contribui fortemente para isto, com as suas chuvas de estrelas, os seus inesgotáveis programas de talentos, e, não raro, os seus shows para macaquinhos de imitação.

Como resultado desta soma de equívocos — nem todos conscientes ou mal-intencionados, conceda-se — temos hoje grandes fragmentos geracionais que não sabem distinguir o mérito, o talento, a criatividade, a originalidade. Que não conhecem a história das artes nem têm com elas qualquer relação intelectual ou de afecto. Que «detestam» figadalmente o que não conhecem (e é quase tudo) e idolatram qualquer frivolidade que se pareça longinquamente com o «talento» e o gosto promovido pelas TVs.
Há muitas excepções a este cenário miserável, mas o ensino não devia viver apenas de iniciativas individuais (e difíceis, desprezadas) de professores esclarecidos e esforçados.

As artes no ensino não são importantes porque, na tal perspectiva laferiana, podem assegurar «casas cheias» no futuro (as estatísticas são outro equívoco), não é esse o ponto. A formação artística que o ensino pode e deve proporcionar não deve estar necessariamente focada em criar «públicos» (isso será um resultado natural) nem em criar artistas (a vocação não se incute). Prioritárias a isso tudo são a sensibilidade, o espírito crítico, a capacidade de abstracção, a autonomia de pensamento e o conhecimento, para os quais as artes são um veículo útil.

As artes não se fruem sem uma boa parte de individualidade, de concentração, de existência intelectual própria e capaz de se alhear dentro de si mesma pelo período de um andamento musical, de um monólogo, de uma sequência coreográfica, de um capítulo de um livro. Infelizmente as escolas não favorecem isto (que por natureza não é fácil) e o resultado é termos já hoje uma ou duas gerações que não se imaginam fechadas numa sala por uma hora sem poder conversar e gritar, sem trocar sms, sem fumar um cigarro ou beber um copo. As salas de cinema renderam-se a esta forma de estar e a própria Hollywood produz há muito filmes que não exigem atenção permanente ou perspicácia. Nos teatros, os espectáculos de massas são geralmente as comédias, os musicais ou os concertos, produções, que, se não dão para o cigarrito e a mini, sempre permitem a interacção na plateia e com o telemóvel durante as representações.

Face a tudo o que ficou dito, o maior paradoxo é que talvez nunca como hoje Portugal tenha tido nas artes tanta gente talentosa, criativa, cosmopolita, com bom gosto e formação sólida. Enquanto nação, não estamos à altura dos nossos actores, bailarinos e músicos. 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Contas certas

Leio no Notícias ao Minuto que Poiares Maduro, o ministro “meio-Relvas”, disse:

A RTP tem 1.800 trabalhadores e as estações privadas têm 400. Nada justifica uma diferença tão grande. Temos de reduzir os recursos humanos para investir na grelha.

Talvez a RTP tenha mesmo pessoal a mais (provavelmente, tem) — mas pergunto que percentagem dos programas de cada canal é feita com meios próprios e que percentagem é feita por produtoras externas contratadas. E qual o custo total depois de contabilizadas cada uma das componentes (produção interna e contratação externa).

Porque a comparação tem de ser feita desta maneira — vendo o custo total da operação, não a dimensão do quadro de pessoal.

Até pode ser que nessa comparação a RTP saia ainda pior (não faço a mínima ideia), mas é essa comparação que tem de ser feita. Tudo o resto é demagogia. Ou ideologia (o que vai dar no mesmo, dada a estatura moral destes políticos).

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Redireccionando a bigorna

«Sonho com uma bigorna a cair sobre o servidor global do Facebook, interrompendo a “comunicação” entre tantas pessoas desejosas de mostrar fotos da roupa interior ou de espalhar ignomínias. Antes, os idiotas andavam um pouco por todo o lado, mas distinguiam-se bem. Agora, estão escondidos na Internet.»

Não sei se Francisco José Viegas escreveu isto (espero que não) e, se o fez, em que contexto, mas parece-me coisa mais digna de Miguel Sousa Tavares (que considerou o Facebook uma mera «agência de namoros») do que dele. Vejamos: o mesmo tipo de idiotas que pulula no Facebook andou (e anda) pelas caixas de comentários dos jornais há muito, pelos fóruns das rádios desde sempre, e consta que frequenta (em larga maioria, arrisco) os cafés da classe média. Mais: este tipo de idiotas, atrevo-me a dizer, constitui a maior fatia de leitores do Correio da Manhã, esse órgão onde parece ser possível ir entregar artigos de opinião sem pisar nas vísceras e sobretudo na merda que há pelos corredores. (Ok, talvez muitos destes idiotas não leiam jornais, nem sequer o CM. A Internet é de facto um bom substituto para voyeurs.)

O Facebook é também por certo uma agência de namoros. E está cheio de idiotas. São talvez a maioria, que sei eu? Agora, reclamar para ali uma pureza e uma elevação de espírito que a sociedade não tem, que os jornais, as rádios e as televisões não têm, parece-me ridículo. Ou melhor: reclamar essa pureza está certo. Era o que toda a gente devia fazer. O que é ridículo é achar que ela pode existir ali não existindo nos outros lados.

Já me parece mais acertada a crítica de Sousa Tavares à subserviência do jornalismo em relação ao Facebook. Mas, de novo, diabolizar o FB não adianta de muito. O problema não é a subserviência em relação a isto ou aquilo. O problema é a subserviência. A idiotice que existe no Facebook não é pior nem mais generalizada do que a idiotice que existe nas televisões, por exemplo. Televisões que, aliás, mais do que revelarem subserviência face à idiotice, promovem a idiotice, são em grande medida responsáveis pelo tipo de sociedade idiota que temos. (Não, não são apenas espelho, não sejam ingénuos.)

A cair uma bigorna (e Deus sabe como eu sonho com uma há décadas) que caia primeiro nas TVs, onde traz mais proveito e tem bem menos probabilidades de esmagar inocentes.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

The show must go on

Perante um “contratempo” estatístico, a assertividade e a cientificidade neoliberal engasgam-se, patinam, coçam a cabeça. Depois, Medina Carreira suspira — antes de pedir à importuna jornalista que passe à frente, siga o guião.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Quim Roscas e Zeca Estacionâncio

A dupla Quim Roscas e Zeca Estacionâncio parece provar que a ascensão social é possível nesta egrégia nação. Dois moços dados às anedotas, aparentemente condenados, como noutros tempos, a animarem os serões de tascas de província, conseguem um programa de televisão em horário nobre — o “Telerural”, emitido a partir de Curral de Moinas. Um deles vai mais longe e, qual sapo beijado por princesa do Lumiar (ou de lá onde a RTP tem os estúdios), não tarda é transformado em apresentador de concursos. Num terceiro momento da sua ascensão, ambos têm o venerável Nicolau Breyner a fazê-los protagonistas de “7 pecados rurais”, um filme seminal (eles haveriam de apreciar o potencial javardo desta qualificação).

Todo este sucesso parece provar, dizia, que Portugal não tem o ascensor social avariado. Os pobres e os indigentes, sobretudo estes, conseguem chegar ao topo. Mas se analisarmos bem o fenómeno percebemos que é tudo um problema de fundações: o duo não saiu do rés-do-chão: o edifício nacional é que se afundou mais no solo em algumas décadas do que a Torre de Pisa em séculos.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Talvez coisar

Ouço no programa do provedor de uma rádio que ouvintes se queixam de passarem ali músicas com palavrões. (Um dos exemplos é “Anos de bailado e natação”, o belíssimo tema dos Mundo Cão com letra feliz de Valter Hugo Mãe de que já aqui falei.) Isto no mesmo santo dia em que a televisão dedica todo o período da tarde a fazer desfilar um inesgotável repertório de grosseria e brejeirice.
Pergunto-me se os provedores das TVs (existem?) recebem queixas de badalhoquices verbais no pequeno ecrã, mas suspeito que não. A cultura pimba é ali hegemónica ou exclusiva. E, mesmo que não primem pela subtileza ou pela elegância, os letristas pimba conseguem nos seus trocadilhos soezes evitar nomear as coisas de que obsessivamente se ocupam. Ora, a hipocrisia nacional tolera o mau-gosto, o machismo, a misoginia, a homofobia, o kitsch mais obsceno e a mais estridente ausência de talento — mas nunca o vernáculo radiotransmitido.

Se não tivesse há muito sido banida qualquer forma de arte da TV lusa, os Mundo Cão teriam na conjugação do verbo foder, ainda que poética, a razão do seu ostracismo hertziano.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Episódios televisivos (2)

No telejornal da RTP, a repórter consegue aguentar sem se rir (e sem se suicidar) durante todos os longos minutos que dura a premente reportagem sobre uma “praga” de mosquitos no Algarve. Entrevista barmen, clientes, transeuntes e banhistas com a mesma expressão severa dos colegas que são vistos à porta de ministérios ou de sedes de partidos tentando criar uma reportagem sem assunto sobre pessoas ausentes. Não se desfez nem quando pediu a um rapaz que exibisse perante a câmara o vermelhão de uma terrível e decerto fatal picadela de melga.

Se aos repórteres não lhes fixam os músculos faciais com um veneno paralisante antes de irem para o ar, é porque há nas televisões cursos sobre controlo do riso — e obliteração da auto-estima.

No estúdio, José Rodrigues dos Santos e os seus pavilhões auriculares lideravam a notícia com o entusiasmo do costume, mas dele sabemos ser capaz de transformar qualquer crepuscular e estival invasão de pernilongos numa ribombante Tempestade no Deserto. É do género emotivo e facilmente impressionável. Tome-se a forma como olha a sua obra literária.

Episódios televisivos (1)

Na TVI, uma apresentadora de ar jovial e atitude picaresca, falando rápido demais e muito divertida com o seu trabalho numa qualquer feira ou romaria do país profundo, descobre com gritinhos histéricos que a vaca no curral por trás de si resolveu aliviar a bexiga. Tomando aquilo por um fenómeno do Entroncamento, a urbana e excitável menina resolve estar perante um momento alto televisivo e insiste no assunto, aos pulinhos e aos risinhos, mantendo o nível de histeria, chamando a atenção dos espectadores, puxando o braço do cameraman. Mais tarde no mesmo programa sobre os portugueses como eles são, a mesma extrovertida e agora ainda mais descontrolada rapariga fará semelhante cobertura televisiva do momento em que aquela ou outra vaca cumpre os seus ciclos biológicos aliviando em directo desta vez o intestino.

Sendo a vaca o único ser vivo com aspecto respeitável no recinto, suspeito que o olhar lacónico do animal escondia um espírito sarcástico, corrosivo, com talento para a metáfora endereçada — e sem receio da escatologia. Claro que a rapariga-apresentadora não estava familiarizada com tais subtilezas do intelecto, havia outro DNA nos seus cromossomas, estava noutro nível da evolução.

domingo, 9 de junho de 2013

sábado, 8 de junho de 2013

Cansaço

Di-lo um adulto, no café: «Prefiro ver os desenhos animados do que ouvir as notícias.» O televisor vai correspondendo à preferência. Poder-se-á considerar isto uma atitude de fuga. Mas as palavras que repetem a crise acabam por desencadear alguma crise nas palavras. Subjacente àquela opção encontra-se, decerto, o cansaço — aliás comum — suscitado pela realidade social e política ou pelo discurso que a traduz. Um discurso onde a dialéctica da angústia há muito embaciou à retórica da esperança.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

No café: o “Big Brother”

Numa das mesas, alimenta a conversa o “Big Brother Vip”. Alude-se a expulsões, citam-se nomes, avaliam-se temperamentos. Vozes críticas foram incapazes de afastar estes programas televisivos de esgoto. A sátira tornou-se ineficaz, dando lugar à indulgente ironia ou à pacificada indiferença. Mas o exercício de ouvir alguém a examinar conteúdos do “Big Brother” com a seriedade de quem discute o liberalismo económico ou a dialéctica trinitária é convite certeiro para o tédio, passaporte seguro para a náusea.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Agora a cultura será efervescente

Diário de Notícias:

Filomena Cautela apresenta magazine cultural na RTP2

Afinal a RTP2 ainda pode acolher um magazine cultural. Esta é uma forma de ver as coisas. A outra é que a administração da RTP decidiu dar forma ao sonho de uma menina.
Filomena Cautela, parece que apresentadora e actriz, tinha o sonho de ser apresentadora de um “programa cultural”. Vai daí, apresentou a ideia à RTP e a estação achou-a tão necessária e inovadora (um programa cultural!, quem imaginaria?) que não viu como podia recusá-la, abraçou-a de imediato.

A ideia parte de boas intenções — mas não consegue parar por aí; como em todos os sonhos adolescentes, entra em delírios. Por exemplo: «Quero fazer com que as pessoas percebam que a cultura não é aborrecida e que o teatro é bom, muda mentalidades, sociedades». Até aqui todos de acordo, certo? (Mais ou menos, pronto.) Só que a frase está incompleta. A apresentadora também acha que o teatro (ou a cultura) «nos pode tirar da crise», mas, lamentavelmente, não explica se é através do clássico deus ex-machina ou de outro artifício cénico. Num segundo exemplo, revela-nos que «o mote do programa é falar de cultura e de arte de uma forma acessível, directa, estimulante». Poderíamos achar isto redutor mas aceitável — se ela não acrescentasse que também quer falar de cultura de uma forma «efervescente».

Ora, uma coisa que é a concretização de um sonho, que acredita no fim da crise pela arte e pretende falar de cultura de uma forma «efervescente» parece um discurso de Miss Portugal, não um programa para levar a sério.
Esta generosidade cheira a legado do ex-ministro Relvas. Mas agora que ele saiu não poderíamos ter de volta a Paula Moura Pinheiro ou outra pessoa que não ache que a cultura tem de ser descomplicada, traduzida para dialecto púbere e apresentada buliçosamente, com câmara irrequieta, como se fosse o Top+?


P.S. Desconfio, mas pode ser apenas mau-feitio, que mostrar que «a cultura não é aborrecida» e falar dela «de uma forma acessível, directa» implicará omitir o “aborrecido” e tudo aquilo que não seja acessível e directo segundo os padrões de um público “efervescente”.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

«Os portugueses não estão preparados para isto»

Na peça “Três dedos abaixo do joelho” os censores de teatro do Estado Novo foram convidados por Tiago Rodrigues a serem co-autores do texto. Na verdade, eles são praticamente os únicos autores, o dramaturgo e encenador limitou-se a copiar e colar inteligentemente frases dos seus relatórios e com isso construir o guião da peça e os diálogos dos actores. Mais de quarenta anos depois, testemunhamos como a liberdade criativa era cerceada e, simultaneamente, como uma elite no poder se achava no direito de interpretar os interesses dos portugueses, ou, pior, como se achava no direito de decidir o que os portugueses conseguiam ou não perceber. A inteligência dos nossos pais e mães, tios e avós, a que se referem vários relatórios, era ofendida com decretos do género: «os portugueses não estão preparados para isto»; «os portugueses quando vão ao teatro querem apenas divertir-se»; «os portugueses não querem estas inquietações, estas perturbações do espírito».

Hoje, quando nos sentamos livremente numa plateia, estaremos a precipitar-nos se sentirmos que isso vinga os nossos antepassados. O facto de ocasionalmente nos permitirmos e nos permitirem entrar numa sala de teatro para sermos inquietados ou perturbados é uma vingança provisória, efémera, sem grande alcance e certamente não garantida.

O país já não dispõe daquelas figuras de lápis azul e mangas-de-alpaca laboriosamente encerradas em gabinetes do Secretariado Nacional de Informação para determinarem ao que o país pode ou não pode assistir. Dispõe de outras: sentadas nas direcções de programação das televisões (pública e privadas) e sentadas na vereação de cultura de uma enorme quantidade de câmaras municipais no país. Não usam o lápis azul porque hoje os amanuenses não escrevem com lápis, nem têm um regime ou uma moral de estado para defender.
Mas têm a mesma ignorância despótica ou a mesma aversão à diversidade e ao livre arbítrio que tinha o Estado Novo. Cidadãos que pensem e escolham livremente são um empecilho na luta pelas audiências e uma dificuldade evitável para uma gestão autárquica que se quer simples como umas férias de Verão.
É verdade que, ao contrário das instituições do Estado Novo, as televisões e as vereações não visam defender um regime nacional ou uma moral pública quando exercem a sua política de estrangulamento ou afunilamento do gosto — mas está na sua natureza defender o statu quo, e, se a moral ganhou em muitos campos uma considerável elasticidade, não foi em geral a suficiente para suportar interesses divergentes.
Um e outro sistema, o das ondas hertzianas e o do feudo provincial, precisam de uniformidade para exerceram a sua influência, as televisões para venderem os seus sabonetes, certo poder autárquico para poder manter-se com os mesmos fracos protagonistas e a mesma atávica incompetência.

Acresce que atávica é também a relação de muitos portugueses com a diversidade e com as coisas que inquietam o espírito. Se não houvesse tiranetes do gosto nas TVs e numa grande quantidade de câmaras, muito povo estaria ele próprio disposto a sair à rua a gritar que «os portugueses quando vão ao teatro querem apenas divertir-se».
Na verdade, fá-lo frequentemente, desdenhando ou considerando uma veleidade insustentável haver concidadãos que queiram ir ao teatro por outras razões.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Adágio popular

A direita não suporta a classe média, a insolente ambição da classe média. Por isso a direita é geralmente tão amiga do povo — do povo tal como ele se vê em estampas antigas a sépia. Se um destes partidos de direita se propõe ajudá-lo, tome cautelas. Caso não esteja num casting para séries televisivas do género “Conta-me como foi”, o mais certo é que o queiram tornar figurante do reality show com o mesmo nome.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

E o Oscar da Lógica vai para...

talho de carne de cavalo

Por essa Europa fora há um escândalo com a venda de produtos ultracongelados (hambúrgueres, lasanhas, etc.) à base de carne de cavalo vendidos como se fossem de carne de vaca. Em vez de ir a um supermercado apurar se o escândalo está a afectar a venda de ultracongelados à base de carne picada, uma jornalista da SIC achou que fazia mais sentido ver de que forma a venda de cavalo por vaca afecta negativamente aqueles que vendem cavalo por cavalo.

Pergunto-me se à jornalista em causa lhe falta discernimento, ou se confia que nos falte a nós.


P.S. O título da reportagem, conforme ele surge no site da SIC Notícias, é enganador, por ambíguo: «Governo garante que não há registo de casos de carne de cavalo em Portugal». O que são «casos de carne da cavalo»? É preciso distinguir a venda de carne de cavalo como se fosse de outro animal (o que é ilegal) da simples venda de carne de cavalo (que é legal, se for assumido que é de cavalo). O título não faz essa distinção.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013