domingo, 13 de janeiro de 2013

Otorrinolaringologia

Conheceu-a na primeira consulta no otorrinolaringologista. Ele ia pelo nariz, problema crónico, ela por uma otite ligeira. Encetaram na sala de espera o seu namoro, embora só muitos meses depois, confrontando memórias e estados de alma, tenham conseguido estabelecer com algum rigor a data.
Era uma rapariga alegre e não dava grande atenção ao guarda-roupa e ao aspecto do cabelo. Tinha um défice de auto-estima ou não a sensibilizava a questão (ele nunca percebeu bem). Achara a simplicidade ou a falta de empenho no visual de certo modo amorosas, embora não fosse um entusiasta do género descuidado. Depois de começarem a andar juntos é que ela foi introduzindo pequenas mudanças nos seus hábitos, preocupações estéticas. Um dia um casaco, no outro uns brincos, uns saltos altos, no seguinte um vistoso eyeliner, umas madeixas. Idas regulares ao cabeleireiro eram a última novidade. Ele tinha apreciado o ímpeto de mudança, sentia-se lisonjeado com o esforço dela, embora nem sempre concordasse com as opções. Poucas vezes, na verdade.
Nos últimos tempos sentia um mal-estar quando estavam juntos. Era um sentimento difuso, intangível, algo que pairava no ar mas simultaneamente físico. Preocupava-o não conseguir identificar as razões.
Quando ao fim de uns meses a lista de espera no hospital lhe permitiu a septoplastia que fora considerada urgente, correu ao encontro dela com uma alegria especial. Uma fase da sua vida tinha sido suplantada com sucesso e afinal nem tinha custado muito, embora ainda usasse com incómodo os tampões nasais.
Livrou-se finalmente deles uns dias depois e pôde de novo cheirar a vida e o mundo, agora com uma acuidade de que já não se lembrava. Vestiu-se com algum cuidado para o jantar dessa noite.
Mal se sentou à mesa — aliás, ainda antes de se sentar à mesa com ela —, percebeu qual era a razão do seu mal-estar. A namoradinha, naquele seu processo de auto-confiança ou vaidade, começara também a usar perfume, com a sua simpatia, mas só agora, com as vias desobstruídas, ele podia perceber como era atroz o gosto dela. E não era apenas uma questão de a fragrância ser horrorosa, escolha de fã do Tony Carreira. Era a quantidade daquilo. A namorada, ao que parecia, tomava banho de imersão em perfume contrafeito. Devia investir uma fortuna por mês nos ciganos ou lá em quem lhe vendia os frascos.
Aguentou uns minutos à mesa, indeciso entre falar-lhe dos benefícios de uma septoplastia mesmo para as pessoas comuns ou ser mais directo quanto à questão. Optou por pagar discretamente a conta, mesmo que não tivesse ainda provado a sapateira, e informá-la falsamente contristado que tinha conhecido outra mulher.

Abateram as mimosas (2)

Em pequenos, fazíamos cavalos das mimosas, ramos compridos que montávamos garbosamente com as folhas e as flores a varrer o chão e o tronco seguro nas mãos por duas tiras da casca fibrosa e húmida a fazer de rédeas. Já na altura se as acusava de serem uma praga e eu, fascinado, ficava à espera de as ver invadir toda a quinta onde elas existiam.
Não aconteceu tal coisa. A quinta foi loteada e não creio que tenha sobrado uma mimosa entre as vivendas.
Mas é verdade que ainda não passaram cinquenta anos e que aquele solo pode estar pejadinho de sementes. (Eu a esfregar as mãos.)

Abateram as mimosas (1)

Gosto de mimosas, aquela explosão de amarelo em Fevereiro. Gosto da forma como a cor nos surpreende depois de uma curva no caminho ou a seguir a uma colina. E gosto do perfume doce que viaja com o vento, anunciando-as mesmo quando não as vemos.
Nos manuais de botânica e na internet chamam-lhe Acacia Dealbata, mas parece-me que é só para a insultarem e poderem dizer coisas como «é provavelmente a espécie invasora mais agressiva em sistemas terrestres em Portugal Continental». Foi importada da Tasmânia para nobres fins ornamentais e agora querem que seja o equivalente botânico do Diabo-da-Tasmânia, pelo menos que sói tão assustadoramente.
Aqui no parque havia dois núcleos de mimosas. Um deles, entre outros benefícios, protegia-nos da presença incómoda da cidade, como o fazem noutras faixas pinheiros, carvalhos e algumas espécies ripícolas.
A extensão norte do parque (um excelente resultado do Polis, programa tantas vezes injustiçado) é na verdade um troço de caminho que acompanha o rio por cerca de um quilómetro. É a parte mais interessante do percurso, porque nos permite caminhar na cidade quase sem lhe dar pela presença. O rio ali corre num vale estreito e fundo o suficiente para que as casas e os prédios sejam esquecidos, e a sensação de afastamento é ajudada pelas vertentes arborizadas.
No entanto, paira uma ameaça sobre este retiro. Apesar da crise, o urbanismo (a verdadeira espécie invasora do continente e ilhas) reclama território virgem e abate arbóreo, como sempre faz. E se isso não fosse suficiente, a limpeza e a desmatação rotineiras que as margens vão merecendo parecem padecer de excesso de zelo. Não raro notamos uma árvore em falta, apercebemos o desaparecimento de um ou outro conjunto arbustivo que não parecia fazer mal a ninguém, descobrimos aqui e ali pequenos troncos decepados que a olho nu não revelam doença ou velhice.
Agora foi a vez das mimosas. Ali, onde elas se preparavam como todos os anos para colorir de amarelo-canário uma vertente particularmente assombrada pelo mau-gosto urbano, existe agora um vazio, e por detrás dele construções feíssimas.
Um dia, temo, deixará de fazer sentido correr ou passear no parque, porque sem vegetação será como passear nos quintais das traseiras de desconhecidos. Sem folhedo e mimosas a florir será como permanecer num despido Inverno de subúrbio à portuguesa, desordenado e feio como sempre são.
Aquele troço do rio, em ambas as margens, merecia regras de protecção e alguma reflorestação. Como isto parece pouco provável, resta esperar que o pior que dizem das mimosas seja afinal correcto:
«A mimosa tem a capacidade (…) de se multiplicar vegetativamente a partir de caules recentemente cortados (rebentação de toiça) ou da formação de lançamentos aéreos a partir das raízes laterais, originando novos indivíduos a certa distância da planta-mãe. Produz um elevado número de sementes, facilmente dispersas por animais (p. ex. pássaros e formigas), por vezes pelo vento e pelo próprio homem; a maioria acumula-se debaixo da árvore, e mantém-se viável no solo por muitos anos (50 anos, ou mais), aguardando pelo ciclo seguinte de perturbação e regeneração.»
Perturbação e regeneração — parece-me uma boa maneira de pôr as coisas. Cumpra-se o ciclo.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Dar uma por semana (2)

Anuir: v. Sodomizar. [Wackypedia: contributos para um léxico alternativo]

Bicharada

Uma ocasião dei-me conta que os ratos, bichinhos que andam tão junto ao chão, afinal também podem tropeçar. O tipo assustou-se com a minha presença e desatou a correr, sem olhar onde punha os pés. Uma das pedrinhas do piso era um pouco maior e ele deu uma cambalhota involuntária, mostrando por momentos a barriga branca e fofa.
Noutra altura o rato quis escapar-se para o lado do rio, mas encandeado pelo sol falhou por centímetros o buraco para escoamento de águas pluviais no muro e bateu com a cabeça no perpianho. Deve ter doído.
Hoje um chapim e um melro brincaram de Tom e Jerry, o chapim em voo rasante e o melro a correr pelo chão. Na verdade, fugiam ambos de mim (sou assim assustador, mas amo-os), apenas escolheram inadvertidamente uma trajectória de fuga que por instantes coincidiu e fez parecer que o melro perseguia o chapim.
Ou será que o perseguia mesmo? A expansão do neoliberalismo pode alterar a cadeia alimentar, dá ilusões de predador a qualquer um.

Baixista

De uma certa perspectiva, fui um baixista típico, na medida em que fui baixista por incompetência para ser guitarrista. Não era deste modo que se fazia a selecção de baixistas? Nem era uma selecção: os tipos talentosos pegavam nas guitarras; os instintivos iam para a bateria; os outros, como eu, fingiam-se fascinados por violas de quatro cordas. Que ainda assim tinham cordas a mais.
É verdade que no meu mundo o lugar de guitarrista já estava (bem) ocupado, e não haveria nada que eu pudesse fazer para conquistar o posto, excepto talvez abater o titular. Mas não se ganharia nada com esse esforço e esse crime, excepto mais um guitarra-ritmo medíocre. E eu perderia um irmão. (É certo que tinha mais dois.)
No princípio faltei às aulas e tangi uma viola barata até fazer sangue nos dedos. Mudei para o baixo mal houve possibilidade de usar um, e continuei a massacrar as polpas, desta vez com bolhas e calos. (Não sei se já deram conta, mas tocar um baixo é como acariciar uma grosa, assim romântico e esfoliante.) Insisti tanto no exercício que julgo perceber o papel submisso numa relação sadomasoquista. No final conseguia realizar algumas piruetas com os dedos — e falhar uma boa meia dúzia de notas. É que o ouvido nunca acompanhou o desenvolvimento digital. E o estilo: fui talvez o primeiro baixista a usar luvas sem dedos e gel no cabelo nos bailes das castanhas de Carrazedo de Montenegro, mas fui também decerto o que menos vezes se ateve ao tom e à escala.
No meu tempo, um baixista aceitava tocar nos bailes pelo dinheiro e pela “experiência”. Tocar em cima da galera de um tractor era um bom tirocínio, defendíamos. A primeira vez que o fiz, substituindo um músico que tinha sido mobilizado pelo exército, o conjunto ia já na quinta rapsódia quando eu finalmente descobri a sequência de acordes da primeira música. Creio que o líder da charanga tirou o baixo do PA no final do primeiro compasso e tudo o que eu ouvia, eu e mais ninguém, com atenção e proximidade de Narciso à beira lago, era o som do meu amplificador. Podia ter ficado toda a noite a tentar decifrar o resto do repertório e a sentir na orelha a vibração do altifalante que ninguém lá em baixo se daria conta.
Mas alguma consciência das minhas limitações (e da avançada embriaguez) eu tinha, já que foi com alívio que recebi (eu e a banda) o aparecimento-surpresa do antigo baixista, em folga da tropa. Anda hoje sonho com a aflição de não acertar uma nota e a alegria de ver um tipo de bigodes subir ao palco e pedir autorização para tocar uma música ou duas. Aquilo começa por ser um pesadelo, pela aflição, e termina como um pesadelo, pelos bigodes. O alívio na verdade só acontece quando acordo e me lembro que não voltei ao palco.
De tanto praticar, atingi uma competência relativa no baixo, mais devedora da pura mecânica dos tendões do que da obediência a qualquer escala. Isso e o talento real do mano puseram-me um dia de fato e colete verdes no palco do Rock Rendez-Vous, quando já não havia Rock Rendez-Vous e a RTP2 decidiu inventar um miserável sucedâneo. Mas isso é história para outra altura. Chega de humilhação para uma noite. Já consegui não fazer o que tinha para fazer hoje.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O relatório do FMI e o (fim do) Estado português

A propósito do relatório do FMI, o agora menos moderado Pedro Lomba conclui o seu artigo no Público com uma evidência: «…este Estado tem de mudar. Se não mudar, implode.» Faltou-lhe foi acrescentar que, não implodindo, há alguém que vai tratar de o fazer explodir. Para todos os efeitos o Estado português será demolido. Resta saber se pelos seus próprios vícios se por alguém ter interesse nisso. Talvez nunca o venhamos a saber, tal a mistificação e o sucesso do discurso da austeridade.

Em muitos aspectos, o Estado português não merece que o defendamos. Os próprios portugueses tornaram a sua defesa uma tarefa um pouco suja. Até certo ponto, pode-se dizer que, como país, temos o que merecemos.
Durante décadas, a sociedade portuguesa foi cúmplice do nepotismo, da cunha, dos favores, da troca de empregos por um punhado de votos, da corrupção, do caciquismo, do despesismo, do oportunismo, do chico-espertismo e de uma boa dúzia mais de ismos perniciosos. Os portugueses pugnaram sempre por eleger os políticos que os tratavam como crianças ou imbecis. Era esta a sua opção firme. O tipo que mais banha-da-cobra vendesse era o que levava os votos. Para o eleitorado, as boas ou más medidas políticas não eram as que tinham o bom governo do país como objectivo ou falhavam nisso — eram as que iam ou não ao encontro das mais altas expectativas do português, geralmente em domínios espúrios. E as medidas não dependiam do PIB ou duma qualquer estratégia governativa. Dependiam da boa ou má vontade do líder; do seu bom ou mau carácter; do amor ou do ódio que este tinha aos portugueses. Se um líder propunha apertos de cinto ou moderação de despesas públicas, não era alguém sensato a tentar ter mão na economia — era um malvado que só nos queria prejudicar. Se, pelo contrário, propunha baixar os impostos e investimentos a rodos, não era um irresponsável ou um lunático — era um grande político.

Não admira que em plena crise haja quem pense que o Governo é mau simplesmente porque corta salários e aumenta impostos, em vez de mandar imprimir mais dinheiro. O Governo é de facto mau, mas não nesta acepção infantil, de vilão, de figura cruel e caprichosa de desenhos animados. Muitos portugueses, se perguntados sobre o que acham do Governo, dirão «é mau!» com a clarividência, o tom, a expressão, a lagrimita e o polegar na boca de uma ressentida criança de seis anos.

Paradoxalmente, os políticos foram sempre tidos numa péssima conta pelos portugueses. Ladrões, oportunistas, mentirosos, gente sem escrúpulos nem interesse pelo bem comum. Estavam lá, no poder, apenas para se servirem. Depois, eleição após eleição, estes ladrões angariavam a maioria dos votos. É que, nas pausas de serem crianças, no meio da sua esquizofrenia, os portugueses sabiam que os políticos não eram diferentes deles próprios. Eram seus iguais. Tinham saído do seu seio. Que cidadão não aproveitava ou traficava uma cunha, não fazia ou pedia o seu favorzito? Que cidadão não enganava o fisco, se pudesse? Que cidadão não encarava o Estado como uma entidade opressora ou um tesouro a saquear, se tivesse a oportunidade? A má opinião sobre a classe política era apenas o exercício quotidiano da hipocrisia, a receita a horas certas para recalcar os próprios defeitos.

O Estado desbaratou os fundos europeus. E quantas empresas e cidadãos o não fizeram? Quantas empresas e cidadãos não usaram o crédito e os incentivos financeiros como meio para obter brindes de vaidade em vez de melhorias na produção? Quantos portugueses não frequentaram sonambulamente cursos de formação apenas pelo dinheirito ao fim do mês enquanto aquilo durava? Quando o Estado desbaratou fundos não o fez, aliás, para agradar ao portuguesinho na sua necessidade de ornamento, de festarola? (Ou de lucro fácil para alguns…) Quantos portugueses pensaram que os estádios do Euro eram uma insanidade? Quantos portugueses não julgaram os presidentes de câmara pela obra feita, mesmo que essa obra fosse frequentemente inútil e desmedida?

Muitos sabiam, muitos diziam que ainda um dia haveríamos de pagar. Esse dia é hoje.

Mas se tudo o que disse atrás é verdade, nada autoriza o Governo a solicitar ou aceitar relatórios conducentes à explosão do país. Uma coisa é mudar o estado das coisas, outra é acabar com o Estado. É que, paradoxalmente, o Estado português melhorou e muito nos últimos vinte anos. Em muitas áreas tornou-se mais eficaz, mais presente no território, mais próximo do cidadão. Descentralizou-se e melhorou, na saúde, na educação, na cultura. Diminuiu a pobreza. Protegeu. Só quem não tem memória ignorará como se vivia melhor em 2010 do que em 1980.

Claro que se pode dizer que o dinheiro da Europa foi tanto que deu para desbaratar e fazer boas coisas. Deu para as grandes negociatas e para as boas obras. Ou, se quiserem, que o endividamento foi tanto que permitiu dar crédito e lucros milionários aos barões dos negócios e umas belas férias ao cidadão anónimo.

O Estado precisaria então de ser reformado? Certamente. Era preciso eliminar a corrupção, o despesismo, o tráfico de favores, o saque, a cultura de indolência e de irresponsabilidade. É isto que o Governo está a tentar fazer? Nem em sonhos. Nada de verdadeiramente estrutural está a ser mudado na sociedade portuguesa para este fim. Desde logo porque o Governo é demasiado representativo do que há de podre na sociedade portuguesa. A inefável dupla Dupont e Dupond, ou Passos & Relvas, não mexerá, não saberia ou quereria mexer uma palha nesse domínio. Tirando umas generalidades — como eliminar freguesias e acabar a eito com empresas municipais ou fundações, que se convencionou serem todas antros de compadrio ou esbanjamento e por isso dão para fingir que se combate esses males — os homens não querem ir ao cerne das questões. Preferem derrubar a floresta a ter de identificar as árvores apodrecidas e lidar com elas.
Tudo o que se está a tentar fazer em Portugal é avançar com bulldozers, terraplanar sem observar o território. Um governo que põe capacete e se senta aos comandos duma retroescavadora pode parecer aos olhos duma qualquer troika ou duns falcões estrangeiros um Governo laborioso, cheio de energia e vontade de começar de novo. Mas na verdade o Governo é uma espécie de homem do fraque, ocupado apenas em cobranças coercivas à classe média. Decidiu-se que há uma factura a pagar já, e o Governo encarregar-se-á disso. Sem argumentar. Sem pedir tempo. Sem ligar às baixas. Fingindo que a Grécia é longe.
É que o Governo também tem uma costelita ideológica. Identifica-se com um certo liberalismo avançado e a alta finança. A sua fidelidade não vai para o povo português — vai para a doutrina e para os gurus internacionais. O Governo não se preocupa se ninguém consegue ver a economia a criar empregos nos próximos anos. Não o preocupa o desemprego — preocupa-o o custo do trabalho. O seu ponto de vista é, por defeito de formação, o da empresa, da grande empresa — exclui o do trabalhador. As empresas têm de dar lucros, eis o ponto. O problema do desemprego resolve-se com fé numa página de Excel (em papel Bíblia claro) ou diminuído o período de vigência do fundo de desemprego. É que o problema do desemprego só existe enquanto isso significar encargos para o Estado. Se a economia criar empregos, diminui-se a despesa do Estado. Se as pessoas forem perdendo o direito ao fundo de desemprego, diminui a despesa do Estado. Diminuir a despesa do Estado é tudo o que importa. E isso é cumprido de duas maneiras: em resultando a estratégia (mais conhecida por wishfull thinking) do ministro das finanças ou pela via da demolição das funções do Estado.
Lá fora são solidários com este objectivo. Muito solidários, mesmo. O FMI, que já percebeu como falham as suas previsões e as suas estratégias, tratou agora de forçar o plano B. Que na verdade sempre foi o plano A. O seu relatório parece, e de certa forma é, uma confissão de culpa e falhanço da troika e do Governo, mas é apresentado como uma incriminação dos portugueses. Porque o que querem fazer em Portugal necessita que os portugueses se sintam demasiado envergonhados e culpados para se defenderem ou procurarem alternativas.

Como diz Luís M. Jorge neste post, o relatório do FMI é uma «posição negocial». Tão dura que qualquer concessão nos parecerá uma amostra de paraíso. Preparam-se para nos bombardear e ameaçam com a bomba atómica. De seguida enviam “apenas” uns misseis convencionais que poucas paredes deixam de pé e nós agradeceremos como se tivéssemos sido aspergidos com rosas.

Se a troika e a Europa estivessem interessadas em resolver o problema de Portugal também para os portugueses, davam-nos tempo e condições para isso. Exigiam que o Governo fizesse de facto reformas, não demolições. Mostravam um pouco mais de solidariedade. De resto, a Europa, que não foi inocente na desmontagem da nossa economia, já foi solidária com povos com culpas maiores do que as portuguesas.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Era uma Falácia da Falsa Dicotomia, faxavor!

Escreve Henrique Raposo no Expresso:

«Não querem cortes? Ok, defendam aumento de impostos»

Eis um exemplo clássico da Falácia da Falsa Dicotomia, um all-time favourite de políticos e opinion makers.

A questão não é simplesmente «quero cortes»/«não quero cortes», ou «quero aumento de impostos»/«não quero aumento de impostos».

  • Eu quero cortes numas coisas, aceito cortes noutras e não quero cortes ainda noutras.
  • De igual modo, quanto aos impostos, eu quero aumentos nuns, aceito aumentos noutros e não quero aumentos ainda noutros.
  • Tudo isto, claro, dependente ainda dos valores em concreto dos cortes/aumentos: concordar com o princípio do corte/aumento não implica necessariamente concordar com o valor definido pelo Governo.

Com raras excepções, o Governo não cortou/aumentou onde eu queria, cortou/aumentou onde eu não queria, e sempre em valores de que discordo.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Detalhar o futuro (2)

Isto porque parece mais ou menos evidente que a economia portuguesa não vai criar empregos nos próximos anos, nem com a ajuda extra do novo relatório do FMI. A célebre “competitividade” que o Governo e a troika andam a promover de mãos dadas, se tiver resultados positivos na criação de emprego massivo, é coisa para se ver daqui a uma década, talvez. Entretanto, se não houver nas entrelinhas do memorando também um nobre objectivo demográfico e ecológico (reduzir a mole tuga de 10 para 8 milhões, pela emigração ou pela fome), conviria lembrar a biologia: as pessoas precisam de comer, mesmo os preguiçosos, desqualificados e excedentes portugueses.
Assim, ou esta gente que veste Chanel e faz o Reveillon no Rio aceita que talvez a dívida e o memorando sejam de renegociar, nos seus termos e sobretudo no seu prazo, ou terá de começar a preparar com denodo e cinismo nazi os seus relatórios de baixas. O que não lhe deve ser difícil, aliás.
Que sejam o passado, as circunstâncias e a dura realidade a lançar-nos no desemprego e na fome, não a teimosia, a estratégia ou a ideologia actuais.

Detalhar o futuro (1)

O relatório do FMI diz muita coisa, mas não diz o que fazer com os novos milhares de pessoas que vão ficar sem emprego e, pior, sem subsídio de desemprego. Um pouco de minúcia neste assunto precisava-se: Fuzilamento em massa? Gaseamento seguido de incineração? Detalhe, senhores, detalhe.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

«Obélus, par Toutatis, redeviens Obélix. Ça urge!»

Gérard Depardieu a vestir o traje tradicional da Mordóvia

Depois de abraçar esfuziantemente Vladimir Putin e de jantar com ele, Gérard Depardieu, já com o novo passaporte russo no bolso, voou para a república russa da Mordóvia, região tristemente famosa pelos campos de concentração do tempo de Estaline e onde ainda hoje o duro sistema prisional russo é o principal empregador. (Nadezhda Tolokonnikova, uma das Pussy Riot, cumpre pena de prisão aqui.)

Na Mordóvia, com o actor devidamente paramentado, foi-lhe oferecido o posto de ministro da cultura. (Os jornais não dizem se Depardieu aceitou, mas como os 13% de imposto sobre os rendimentos são válidos em qualquer parte da Rússia, é pouco provável que o novo súbdito de Putin tenha interesse em passar mais do que umas horas nas franjas da Sibéria...)


Ver assim Depardieu, a fazer triste figura com as prebendas do tirano russo, traz-me à lembrança aquela cena de Astérix e Obélix contra César (1999) em que Obélix, disfarçado de legionário romano (“Obélus”), vai sendo lentamente seduzido pelas ofertas do escroque Lucius Detritus (Roberto Benigni). O problema, claro, é que Gérard Depardieu não é o infantilmente inocente Obélix, nem basta gritar-lhe «Obélus, par Toutatis, redeviens Obélix. Ça urge!» para o resgatar.


Notícia na BBC:

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Saído do nevoeiro

O termómetro ameaça com zero graus. A neblina começa por sitiar a cidade barrando os flancos poente e nascente e depois sobe dos rios e encobre as ruas. Ele entra no estabelecimento para fugir do frio nocturno — percebe-se ao cabo de uns segundos —, mas as suas roupas, as suas barbas e o seu cabelo (negros) não estão suficientemente desalinhados para que o classifiquemos sem dúvidas como um sem-abrigo. Ou, como é mais usado por aqui, um «bêbado».
Varre o interior com um olhar que não implora nem acusa e senta-se numa das duas mesas livres à entrada, debaixo do plasma que transmite o jogo da noite. De mãos nos bolsos do casaco, fixa o tampo de fórmica e recolhe-se como um monge que meditasse e aguardasse digna e pacientemente a distribuição do caldo. Por acção da temperatura agradável da sala o seu corpo amolece, inclina-se, a cabeça vai descendo de encontro à mesa. Não como se cabeceasse à lareira: é um movimento lento mas contínuo, sem recuos ou estremeções. Os taxistas e outros habitués do café vão fazendo no intervalo das jogadas apostas sobre se chegará a bater ou não com o nariz na mesa. Não lhes ocorrem outras ideias sobre a personagem que saiu do nevoeiro. Apenas a chalaça indiscreta, sobranceira, pueril. O empregado que passa dá uma palmada na mesa para o acordar e avisar que a mesa faz falta.
De súbito, um cliente avança de uma posição discreta no balcão e com modos suaves pergunta-lhe se quer uma sopa. Ele não reage com indignação ressentida, fermentada a álcool, nem fica humildemente agradecido. Estremunha um pouco e depois informa em voz baixa, neutra, que preferia um prato de batatas fritas. Os taxistas mantêm um olho indeciso no plasma e outro nas barbas do Rasputine. O cliente anui com naturalidade, batatas fritas é uma opção nutricional como outra qualquer.
Daquele momento em diante, o homem saído do nevoeiro é também um cliente, mesmo que a expensas de outrem, e o empregado age em consonância. Abandona os modos paternalistas e censórios, traz-lhe uma toalha de papel, talheres e guardanapo. Parece até afectuoso, talvez contagiado pelo gesto do cliente anónimo, que entretanto retomou sem considerandos o seu lugar na linha que do balcão assiste ao Estoril-Benfica.
Mais alguém se sentiu contagiado ou achou que faltava naquela mesa acompanhamento líquido e uma taça de vinho tinto é servida, sem gracejos nem moralismos. O das barbas come as batatas e bebe o vinho. Não procura colocar o copo a jeito de um encore, ainda que decerto lhe não caísse mal. No fim, limpa-se minuciosamente com o guardanapo e, sem palavras nem emoções aparentes, mendigo de passagem ou incógnito Rei Artur regressado da Cruzadas, volta com dorida fleuma para o nevoeiro de onde saiu.

Estranhamente, cá dentro ninguém fica a discutir a lata do indigente ou a identidade do nobre, e não sei se deva atribuir isso ao nevoeiro se a mais um golo do Benfica.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Jogada de antecipação

Vítor Gaspar, o 'Ditador das Finanças'

É verdade que, se aos Presidentes da República também coubessem cognomes, o de Cavaco Silva seria (como já alguém disse) «O Presidente Que Não Conta» — mas o “Ditador das Finanças” escusava de assumir isso e antecipar-se à promulgação presidencial...

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

«Foda-se lá o nome!»

Folha com a lista (algo incompleta) dos nomes propostos para o blogue

Iria, pois, haver um blogue. Se fosse o primeiro blogue do mundo, poderia chamar-se apenas «blogue», marcando a entrada do neologismo no léxico — mas não era, pelo que tinha de ser encontrada uma alternativa viável.

Nos dias seguintes, por e-mail, chat, mensagem de Facebook ou SMS, fomos coleccionando propostas, das basicamente banais às requintadamente rebuscadas, das potencialmente pedantes às assumidamente alarves. (Algumas eram aliterativamente gerúndicas.)
Para além do processo de “peer review” por que cada proposta passava [e as aliterações continuam], a escolha foi desde logo condicionada pelo mais plebeu dos pragmatismos dos tempos que correm: a preexistência de um blogue com nome igual, ou muito parecido, e a (in)disponibilidade do endereço web que, para cada nome considerado, nos pareceria mais adequado.

Digamos que foi uma empreitada digna de desalentar Sísifo: foram testados mais de 80 nomes, alguns em desespero de causa. Desses, quase 50 (e todos os nossos preferidos) já estavam tomados. Suprema maldade: 26 deles, apesar de criados há bastante tempo, tinham 5 posts ou menos, incluindo 11 só com um post e 7 sem nenhum! Um quarteirão de blogues criados apenas para nos desfeitear.
Um de nós expeliu, em tom de desabafo: «Foda-se lá o nome!» Era uma boa sugestão, com a extensão do título a aconselhar o recurso, no endereço web, a uma sigla (flon): também estava tomada, tal como o estava a da variante «Foda-se lá p’rò nome!» (flpn). A versão abreviada (e multiusos) «Foda-se!», com ou sem hífen, também já não era opção disponível.

Era evidente que nisto dos nomes nos ocorriam apenas coisas óbvias, e que qualquer veleidade a golpe de génio se revelava logo já ter surgido a outro “génio” antes de nós. Eis, pois, o momento de citar Fernando Pessoa — para mostrar que, se não nos brota nada de jeito (da boca ou da pluma), pelo menos sempre vai dando para ler algo de jeito:

[...] Já o Chevalier de Cailly perguntava, no século [dezoito], dado que sempre que escrevia qualquer coisa, descobria que a Antiguidade a já havia dito, por que não teria essa tal Antiguidade vindo depois dele, pois então teria ele escrito primeiro.


Esta história tem um post-scriptum: tal como na política nacional, a decisão final foi feita democraticamente, por voto secreto, tendo o “eleitorado” à disposição um rol de más opções. Habemus Bloguem!

Ora aí está, mais um blogue...

Ora aí está... Mais um blogue... Ainda por cima, super divertido!

EDITORIAL: A montanha pariu um rato, talvez

Andámos meses para marcar um jantar e nunca o conseguimos. Quer dizer, temo-nos encontrado aqui e ali, alguns de nós até assiduamente. Três trabalham juntos. Mas marcar um jantar em que todos pudessem ou quisessem estar foi uma impossibilidade. Jantámos quatro dos seis arregimentados. Não foi mau. Quase 70%. Houve quórum. Maioria qualificada. Quase mudámos a Constituição.
Meses antes, numa conversa de bêbados, dois de nós desataram a chorar ao balcão que era uma tristeza que não se tivesse feito mais nada depois «daquilo». Havia uma crise e falências e encerramentos e um recuo como nunca víramos. Agora é que «a coisa» fazia sentido. «A coisa» ou um sucedâneo que não envergonhasse. De resto, era notável como nos últimos tempos se vinha invocando o nome da «coisa», velhos seguidores nostálgicos que se davam a conhecer e gente nova que a descobria com espanto. Naquela noite, os dois despediram-se com abraços apertados, ranho no nariz e promessas firmes de pensar em alguma… coisa. (Não havia muita imaginação disponível nem para substantivos.) Depois foi cada um para sua casa, tentando não cambalear demasiado, e nas semanas seguintes espalharam a Boa Nova.
Houve então conversas ocasionais, alargadas e entrecruzadas (e muito espaçadas), onde os argumentos contra eram sempre mais fortes e sensatos. Mas nem assim a ideia se desvaneceu, como mandava a inteligência. Quando um desistia, outro insistia, num dilatado processo de contrabalanço que poderia muito bem ser representando por aquela cena famosa da ginástica sueca no Pátio das Cantigas com Vasco Santana e Ribeirinho. Cómico e ridículo dessa maneira.
Uma das últimas tentativas de esconjuro foi escrita como uma súplica no blogue Os Canhões de Navarone — e teve o efeito contrário. Aumentou a pressão para jantar.
O repasto teve então lugar e o mais relevante da noite foi ter-se descoberto que alguém agora conduzia um Qashqai. À mesa, além do proprietário do SUV, havia um recém-licenciado em Línguas-Literaturas-&-Mais-Qualquer-Coisa, um engenheiro com delírios de designer gráfico e um antigo baixista de arraiais populares. Fez-se um jogo que consistia em escolher os cinco nomes menos maus de uma lista de trigésimas escolhas. A aposta era elevada. Foi então que a montanha pariu um rato. Tanta evocação, tanta assertividade e tanto vinho para isto a que o leitor agora chegou: à sobremesa estava decidido que em sucessão da coisa Periférica, como sói acontecer com as vedetas rock, se faria um reunion blog e algum alarido à volta dele. Um tédio, portanto. (O nome pode não ser brilhante mas é eloquente.)

Iniciação ao tédio é então um blogue que, não correndo mal, reunirá as composições individuais dos antigos membros dos Duran... da Periférica espalhadas pelo Facebook, pelos blogues Divina Comédia, Grafismo Sem Rede e Os Canhões de Navarone, ou pelo espaço aéreo nacional. Correndo bem, Iniciação ao Tédio fará isso e porá no activo os mais adormecidos dos bandmates. No mínimo, o leitor poupará alguns cliques se quiser seguir regularmente os blogues mencionados. (Um contributo nosso para a prevenção de tendinites no indicador, esse flagelo moderno.) No máximo, assistirá ao prelúdio de algo que lançará sombras sobre a Granta que o Carlos Vaz Marques prepara sem contar connosco. Não nos falta ambição, como se vê, apenas noção do ridículo e força para sair do sofá. De onde, de resto, se vê distintamente a cidade e os portuguesitos a correr de um lado para o outro na sua azáfama, como ilustra a imagem do cabeçalho. Será particularmente para eles e sobre eles este blogue vermelhusco. Desfruta, nobre povo.

P.S. Convém frisar que, como o nome indica, se trata apenas de uma iniciação ao tédio. Para tédio mais desenvolvido, há que procurar outras moradas.