sábado, 26 de janeiro de 2013

Troca-me isso por unidades do Sistema Internacional...

Tenho um amigo cujos posts, por disciplina auto-imposta, têm sempre exactamente 77 palavras de extensão. Ou, na Escala Temporal de Vítor Gaspar, 15 minutos.

Dar uma por semana (4)

Desabrochar: v. Tirá-lo da boca. [Wackypedia: contributos para um léxico alternativo]

Livros de auto-ajuda

A notícia de um livreiro minucioso a mudar os livros de (ou sobre) Lance Armstrong para as prateleiras da “ficção” fez-me lembrar que as obras mais recentes de Ian McEwan e Paul Auster poderiam ser arrumadas na secção de “auto-ajuda”. Seriam, aliás, ali mais úteis do que a maioria das obras que por lá se encontra. (Bem, mais úteis para candidatos a escritores, não para candidatos ao psicanalista ou ao jet set nacional.)

McEwan resolveu incluir, sem grande disfarce, um curso de escrita criativa em Mel. Lá se foi o negócio dos Booktailors, de Rui Zink ou de João Tordo: os neófitos das letras só têm de seguir Serena, a protagonista, enquanto ela vai decifrando o método e o processo do seu amante escritor. Poupam umas coroas e não têm de aturar o ego do formador. Pelo menos não ao vivo.
O aprendiz tem dúvidas, esbarrou na página em branco, carece de personagens secundárias ou mesmo de protagonistas? Aprenda com o Tom Haley. A Serena explica como se faz (ainda que a pobre não saiba quão longe pode um escritor ir na apropriação da realidade para o texto ficcional.)

O Diário de Inverno de Paul Auster tem a ambição — menor, mas igualmente útil — de humanizar o escritor. Revelando, por exemplo, que também ele tira prazer de se peidar. Se isto não ajuda qualquer um a ganhar confiança para escrever o seu próprio livro, não sei o que há-de ajudar.

E isto, que parece admirável, é trágico. Que os escritores se ponham a abrir o jogo e a descer do pedestal. Nos dias que correm, já qualquer Zé (eu incluído) acha que pode escrever um livro; deixando-as suspeitar de que o podem fazer e explicando-se-lhes como o podem fazer, manadas inteiras de bisontes hão-de atirar-se ao Word.
A minha esperança é que a concorrência seja tão estúpida como parece e continue a achar que para escrever um livro não precisa de ler nenhum. De resto, as tiragens em Portugal dão-me algum conforto. Entre sobras, ofertas e calços de mesas vai o grosso de uma edição. Talvez três portugueses comprem e leiam os seus exemplares.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Descobertas conciliantes

Galáxia

Aprofundando a abordagem ao mundo inteligível, Platão parece ter recusado a existência de Ideias de objectos de escassa nobreza, como lama ou pêlo. Ora os cientistas acabam de revelar que os escaravelhos, empurrando bolas de estrume, se orientam pela mancha luminosa da Via Láctea. Eis uma descoberta de valor cósmico que, vencendo pruridos do inventor da alegoria da caverna, ajuda à conciliação entre o insecto errante e a fulgurosa estrela, o vil excremento e o esplendor sublime.

A generosidade de Gaspar

O IRS em Portugal, reza a lenda, funciona de forma progressiva, constituindo uma forma de discriminação positiva: quem menos tem, menos paga, não só porque a taxa aplicável é menor (segundo o escalão de rendimentos), mas também porque tem direito a maiores deduções à colecta e benefícios fiscais.

Relativamente aos rendimentos de 2012, por exemplo, um contribuinte não casado e sem dependentes com 24 mil euros de rendimento bruto terá direito a uma dedução máxima de 650,10€ relativos a juros da hipoteca da casa, 838,44€ relativos a despesas de saúde, 760€ relativos a despesas de educação. Com uma nuance importante: os máximos não são sempre a somar, pois sobre eles cai um “tecto”: para este escalão de rendimentos, o total de deduções à colecta não pode ultrapassar o limite máximo de 1200€.
Já um contribuinte com apenas 11 mil e quinhentos euros de rendimento bruto poderá deduzir até 886,50€ por conta da hipoteca da casa (na saúde e na educação não há diferenças). E, glória máxima da discriminação positiva: não existe limite global máximo às deduções à colecta para este contribuinte.

Antes que o leitor sucumba em lágrimas perante a generosidade do Ditador das Finanças, façamos umas continhas.

Deduzir 886,50€ por conta da hipoteca da casa significa ter pago 5910€ de juros do empréstimo. Tendo em conta que em 2012 os juros representaram algo entre os 30% e os 40% das prestações da hipoteca, o ministro Gaspar esteve (figurativamente) a dizer a um contribuinte que ganhou 11 mil euros no ano passado: «Por mim está à vontade — pode gastar 15-20 mil euros em prestações da casa (e 2500€ em educação, e mais de 8300€ em saúde...), que nós aqui abatemos-lhe alguma coisita no IRS...»

Extravagância

No sábado passado fiz uma extravagância: comprei o Expresso. Comprar o Expresso é sempre uma extravagância, que evito, mas fazê-lo apenas com o propósito de ler a recensão de Os Enamoramentos* escrita por Pedro Mexia é uma daquelas loucuras que condenam um agregado ou um país à miséria.

*Javier Marías

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Um pequeno passo para nós, um grande salto para as Finanças portuguesas

Ora aí está. No dia em que inaugurávamos oficialmente o blogue Iniciação ao Tédio, Portugal regressava aos mercados. Soubéssemos nós que era assim que a coisa funcionava, tínhamos tratado disto mais cedo.

'Opinion making' de mão na anca: «Regressar aos mercados é bom, e tal... mas esta roupa não se lava sozinha.»

Causa e efeito

Na base das regularidades da natureza, que os cientistas demandam com anelo, encontra-se o sacrossanto princípio da causalidade. Ora se, como David Hume, admitirmos que tal princípio, suportado pelo hábito, carece de fundamento racional e imaginarmos que também das coisas ele se acha, de facto, ausente, reduzindo-se à expressão do nosso desejo de ordem, a mente abandonará todos os hiatos que permitem à causa gerar o efeito. Será esse o início de uma bela e inútil plenitude.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Resultado

Ansel Adams, Canyon de Chelly National Monument, 1942.

Se o que somos hoje é o resultado exacto do que até hoje fomos, existe pelo menos uma operação aritmética — ou várias, incluindo adições sombrias, subtracções indulgentes, multiplicações perigosas e divisões imparciais, devidamente conectadas — que todos realizam com sucesso, sem que um mínimo esforço se lhes peça. Contas assim, susceptíveis de dar razão aos adeptos do destino universal, não servem de consolo a quem prefere achar a sua vida um tremendo equívoco. Mas o argumento parece irrefutável.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Nuvem e neve

Por vezes, nuvem e neve confundem-se no topo dos montes. Se avançarmos até esse ponto, não esqueçamos que também aí nos podemos desiludir. Coube-nos em sorte a textura do efémero. A nossa casa de células não foi edificada para uma cidade eterna. Salvemos em tudo isto, pelo menos, a sombra de uma sombra. Não vá o dia privar-nos da memória das coisas breves, dos fragmentos que prolongamos, do contraste que há entre o esplendor e a vertigem.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Fossem os pensamentos visíveis

Fossem os pensamentos visíveis a olhos comuns — por exemplo, numa faixa de vinte centímetros medidos a partir do crânio — e a preocupação com a imagem revelar-se-ia muitíssimo superior àquela que, geralmente, aflige a criatura humana. Distintas formas e cores encheriam os cenários de dentro, convertidos afinal em paisagens de fora. Mas também pode suceder que tal inquietação jamais se manifestasse. Universalmente exposta a estrutura de cada segredo, nem o eu nem o outro teriam ilusões a acrescentar.

domingo, 20 de janeiro de 2013

O discurso vazio

Herbert Bayer, Habitante solitário da grande cidade, 1932.

O discurso vazio não reclama de quem o produz mais do que a entrega exclusiva às palavras, deixando que elas definam o curso e a substância das ideias. As suas grandes vantagens são a de pouco exigir do raciocínio e a de nada pedir à emoção. Errado será pensar que nele se espelha o chamado vazio interior. Este — que se diferencia da escassez de reflexão e da secura da inteligência — exprime-se, em geral, mediante estratégias menos desonestas.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Dar uma por semana (3)

Biscoito: s. m. Duas fodas. [Wackypedia: contributos para um léxico alternativo]

O véu

Na «posição original», sob um «véu de ignorância», os indivíduos, acredita John Rawls, sentir-se-iam impelidos a favorecer, num quadro de justiça, aqueles que pudessem ocupar a situação social mais ingrata, receando a hipótese de virem a ser eles os contemplados. Só que o «véu de ignorância» não garante a ignorância do véu. Mesmo desconhecendo concepções de vida e tendências psicológicas próprias, ninguém desconheceria o facto de as desconhecer. E nessa altura também não faltaria quem tentasse adivinhar.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O caminho a seguir

Edward Hopper, Cinema em Nova Iorque, 1939.
Na obra Da Alvorada à Decadência, Jacques Barzun salienta que estamos numa época em que as formas de arte e de vida parecem esgotadas. Nenhuma novidade se afigura susceptível de contrariar este cenário de tédio e repetição frustrante. O tempo é de inquietações, sem que se vislumbre o caminho a seguir. Mas pode suceder que tal caminho se descubra ao tomar-se consciência de que as formas de arte e de vida são intermináveis reinvenções umas das outras.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O arqueiro

Tratava-se de um arqueiro exímio: começava por atirar a flecha; seguidamente, fazendo-a coincidir com o centro, desenhava o alvo em redor. Procedemos de modo semelhante ao pretender definir um sentido para a vida: primeiro, existimos lançados em situações concretas, adoptando os valores implícitos; depois, colocamos a toda a volta as razões e os fins que nos justificam. A analogia, no entanto, encerra duas falhas: nem a vida, enquanto vida, se detém — nem o sentido nela se eterniza.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Vias hermenêuticas

Vieira da Silva, O Metropolitano, 1940.

De vários modos afirmaram sábios que «não há problemas entre o mundo e o eu, apenas entre o eu e a interpretação que ele faz do mundo». Mais abrangente surge a ideia ao admitirmos que o mundo se reduz à interpretação que dele se faz. E ainda mais completo se afigura tal pensamento ao concedermos que também o eu se reduz à interpretação. Consequentemente, poderia dizer-se que «não há qualquer problema a resolver, só interpretações a acontecer».

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O geek e a facada no matrimónio: Those two just don't match

O autor do post que partilho mais abaixo é informático. Percebe de software de gestão, comunicação electrónica de dados, encriptação (e os perigos da falta dela) e data mining. O autor daquele post é um geek, portanto.

Assim, a teoria da conspiração que nos apresenta à volta das novas facturas electrónicas está bem fundamentada e é credível...

... até àquela cena em que o marido infiel pede factura em seu nome das despesas (sex shop, restaurante, hotel) que faz quando está com a amante. Presumo que também tenha pago com Multibanco ou Visa, para a mulher encontrar os movimentos nos extractos bancários...

Definitivamente, os geeks não percebem nada de facadas no matrimónio.


Alguém acorde, Ficheiro SAF-T e privacidade
E quem tem estas bases de dados? É uma empresa privada? Quem está à frente disto, quem vai garantir a privacidade dos dados? Alguém acorde por favor, alguém nos defenda!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

1. Somos Portugal

Na TV, um tipo que ao que parece se distinguiu numa dupla chamada «Quim Roscas e Zeca Estacionâncio», apresenta um programa onde se sucedem cançonetistas epilépticos em ruidoso playback, assistidos por bailarinas de boîte com mamilos eriçados pelo frio Barrosão (é em Boticas). Um logótipo num dos cantos do ecrã diz que a coisa se chama «Somos Portugal».
Num primeiro momento, rebelo-me contra aquele abuso. Imagino uma certa petulância na proclamação. Depois caio em mim. Claro que aquela gente é Portugal. Eles e o povo que assiste, regalado. Os que ficamos de fora não chegamos nem para fazer uma tribo, quanto mais um país. De resto, temos sentimentos tão pouco nacionalistas que não nos devemos indignar se um destes dias nos tentarem exilar.

2. A TV do Quim Roscas

A certa altura, desfilam meia dúzia de quadrigas e uma centúria romana na TV do Quim Roscas — não me perguntem a que propósito, diria que o Carnaval ainda vem longe. Um programa com um título tão assertivo, aparentemente tão mobilizador, merecia uma Legião de garbosos guerreiros, mas o que ali se vê faz lembrar o punhado de legionários que, nas histórias do Astérix, aguarda tremendo a chegada dos gauleses. Fardas desalinhadas, capacetes à banda, uma timidez e um fascínio risonhos de indígenas perante as câmaras. São Portugal.