Interroga-se o honesto ao ouvir falar do pequeno furto no supermercado: «Será que vale a pena um indivíduo sujar-se por tão pouco?» A questão parece sugerir que por roubos substanciais vale sempre a pena um indivíduo sujar-se. Muita corja, na política e arredores, aprovaria tal sugestão na prática, sem ver aí motivo de espanto, embaraço ou ignomínia. De qualquer modo, convém ficarmos atentos perante a inocente formulação dessa pergunta — sobretudo se ela for colocada por nós próprios.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
Resistência de materiais
Em Outubro, Fernando Ulrich causou polémica ao perguntar retoricamente se Portugal aguentava mais austeridade, sendo a sua resposta «Ai aguenta, aguenta!». Na altura fiquei indeciso quanto a ser ou não exagerada a polémica: as afirmações do presidente do BPI poderiam ser apenas uma estirpe indesejada de manifestação de orgulho na “resiliência” do Povo Luso, ideia repetida ontem:
Se os Gregos aguentam uma queda do PIB de 25%, os Portugueses não aguentariam, porquê?
Mas a hipótese da bondade das afirmações do banqueiro cai por terra com o continuar das suas declarações:
Portanto, se você andar aí na rua e... infelizmente encontramos pessoas que são sem-abrigos, isso não lhe pode acontecer a si ou a mim, porquê? Também nos pode acontecer. E se aquelas pessoas que nós vemos ali na rua, nessa situação e a sofrer tanto, aguentam, porque é que nós não aguentamos?
Traduzindo, Fernando Ulrich não acha que Portugal aguenta mais austeridade porque a austeridade que houve até agora ainda não foi excessivamente austera, nem é opinião do presidente do BPI que a política económica do Governo é acertada e nos tirará do buraco em que estamos. Não. O banqueiro reconhece implicitamente que a política é ruinosa, que provavelmente nos afundará ainda mais no buraco, que as experiências socioeconómicas do Governo Gaspar são uma espécie de teste de resistência de materiais (que, para quem não sabe, é sempre destrutivo: vergar até partir) — mas, ressalva Ulrich, ser sem-abrigo não é necessariamente uma condenação à morte! Valha-nos ao menos isso: Cavaco não quereria ser forçado a mandar fiscalizar mais essa inconstitucionalidade.
P.S. A parte mais tocante das declarações de Fernando Ulrich foi aquela em que aventou a possibilidade de também ele se tornar um sem-abrigo. Chorei lágrimas de sangue.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
Percurso de vida do Homo politicus lusitanensis, segundo o Dr. Relvas
O post do Rui sobre os juvenis da fauna partidária trouxe-me à lembrança uma infografia que criei quando veio a público o caso Relvas/Lusófona:
Interpretação de sonhos
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| Salvador Dalí, O Toureiro Alucinogénio, c. 1968–70. |
Interpretar sonhos — sobretudo os menos óbvios — é desde logo interpretar uma anterior interpretação: aquela que o inconsciente faz de si mesmo, recorrendo a imagens e símbolos. Se o sonho for lúcido, haverá que admitir uma segunda interpretação: aquela que a consciência, desperta no sono, efectua relativamente a esses conteúdos, inclusive alterando-os. Se o sonho pertencer a outra pessoa, teremos ainda a interpretação que ela, descrevendo-o, não evita. Interpretar sonhos constitui, assim, uma ousadia que vale a pena.
A monarquia dos jotas
Uma noite destas os meus passos cruzaram-se com os de um grupo de jotas. Não é o género de experiência que se queira ter com regularidade. Equivale a sairmos à rua na noite dos mortos-vivos e darmos por eles tarde demais para mudar de passeio. Sinistro assim.
Como já todos tiveram decerto oportunidade de apreciar, os jotas são uma espécie de guarda pretoriana dos partidos que ambiciona — e consegue — obter cargos políticos. Enquanto adolescentes, fazem de claque, de tropa de choque ou de aias dos chefes partidários. Vão aos comícios, aos jantares e às cerimónias, com a sua prestabilidade e a sua coqueteria, criar a ilusão de que os líderes são homens de estado, respeitados e respeitáveis, admirados e amados, carismáticos e visionários. São a cortina de fumo que se interpõe entre os políticos e a realidade. Uma pequena corte de pajens obsequiosos que ajuda o soberano a construir castelos no ar. Os chefes dos partidos não enfrentam a verdade porque para a verem teriam de avançar à catanada através de uma selva de jotas. A sua estrada de Damasco é uma picada africana que só se cruza se se estiver disposto a usar generosamente a espingarda de caça grossa antes de cair do cavalo. Como os chefes não o estão, não se dá a epifania. Nem caem do cavalo. Ou se caem é para deixar subir à sela, incólume, um jota da sua predilecção.
Mais tarde, os jotas recebem os seus postos na máquina do Estado para, numa primeira fase, continuarem com mais e melhores meios o trabalho de incensar o chefe e firmar o seu poder absolutista. Na fase seguinte, iniciam o seu próprio reinado de inépcia, arbitrariedade e terror na parte de território que lhes tenha sido atribuída durante a repartição dos despojos.
Em Portugal os jotas têm vindo a chegar aos mais altos cargos do poder. E isso é como ter nos postos de comando nacionais duques e condes (pela pesporrência), aias (pela intriga palaciana) e pajens (pelo corte de cabelo). Nesta particular espécie de monarquia, ao povo não resta mais do que o papel de bobo da corte.
Quem imagina que em Portugal o feudalismo acabou quando acabou a Idade Média, não vive cá. O feudalismo não acabou: apenas pôs gravata e, mais recentemente, gel no cabelo.
O magala e a namorada
Como faziam soldados de incorporações muito anteriores à dele, levou a namorada ao parque depois de jantar. A noite está fria e convida pouco a sentar no banco à beira-rio, mas eles não parecem enregelados. Talvez estejam mesmo apaixonados, camonianamente aquecidos. Ela cruzou as pernas sobre o banco e pousou as mãos nos joelhos, a ouvi-lo. Ele fala sobre o juramento de bandeira — e de repente parece-me que, embora a humanidade seja vasta, é limitado o número de cenas que ela tem para representar, limitado o número de deixas que tem para dizer.
Um magala do século XXI será uma reencarnação de todos os magalas que o antecederam? Seguirá cada vida individual um guião comum, transversal aos tempos? Infinitas são as reencarnações, não as conversas que se podem ter? Que singularidade exibe cada um de nós perante as décadas, os séculos, ou perante um observador que nos espreite de Alfa Centauro?
No mundo claustrofóbico que por instantes é o meu enquanto atravesso o parque, os magalas estão agora autorizados a sair do quartel sem farda nem boina à banda, mas não a criarem narrativas originais.
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Canto da sala
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| René Magritte, A Sala de Escuta, 1958. |
Eleger um dos cantos da sala — não só para observar, senão também para reduzir o incómodo do olhar do outro — representa uma escolha de convivência baseada num pressuposto de cariz matemático: incluindo chão e tecto, quatro faces do cubo garantem mais resguardo social que apenas duas. Os obstáculos à opção residem na eventualidade de haver muitos interessados ou de as paredes do aposento serem feitas de vidro transparente. Mas é importante não temer essas excepções quase irreais.
Sentenças de um nouveau gauchiste
A crise encostou muita gente à esquerda. Uns porque, como crianças, procuram as saias de uma mãe menos severa, mesmo que tonta ou de pouca valia. Outros porque sofreram na pele o receituário que imaginavam apenas ser destinado a terceiros e agora estão ressentidos, clamam vingança. Outros ainda por orfandade, porque perderam ilusões quanto à bondade da direita e do sistema que ela preconiza.
Um destes nouveaux gauchistes apontou hoje aquilo que para ele é a falta de seriedade ou de competência da direita. No início da crise determinava-se que havia que despedir 120 mil funcionários públicos ou baixar salários. Dois anos depois, baixados drasticamente os salários, insiste-se via FMI que é preciso despedir 120 mil funcionários públicos. Falhou a matemática ou caiu a máscara?
Eu até acho que o Estado precisa de, a médio prazo, dispensar funcionários públicos, mas concordo que falta seriedade ou competência a esta direita.
Entretenimento
O poder da televisão
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
O trabalho e a essência
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| Diego Rivera, Construção do Palácio de Cortés, 1930–1931. |
Afirmar, à semelhança de Karl Marx, que o trabalho é a essência do Homem equivale a cometer dois pecados simultâneos: o de crucificar a espécie, fazendo dela uma cansativa apoteose do esforço, e o de maltratar o ócio, fazendo dele uma ocorrência acidental da espécie. Ora, não se exclui a hipótese de a eventual essência humana ser mais núcleo de repouso que febre de movimento, mais contemplação do mundo que tendência inelutável para lhe alterar a figura.
Casa dos Segredos: O Horror, o Horror...
Não tenho televisor em casa (coisa que custa fazer entender aos senhores da ZON e da MEO) nem acompanho consistentemente a imprensa nacional (excepto na meia dúzia de assuntos que me interessam particularmente). Por essa razão, devo ser dos poucos para quem constituiu surpresa a descoberta recente: o Canal Parlamento (ou ARTV) está disponível para toda a gente (com televisor...), sendo o 5.º canal da miseranda TDT nacional.
Transitar da TV analógica para a TDT e não aumentar, como aconteceu em todos os países europeus, a oferta televisiva em sinal aberto (sem ir mais longe, a RTP Informação era uma candidata óbvia) foi uma significativa demonstração da falta de consideração dos nossos políticos para com os súbditos de menos posses. Mas “corrigir” meses depois esse lapso arremessando-lhes com o Canal Parlamento assume foros de tratamento desumano e degradante. A Amnistia Internacional deveria pronunciar-se.
P.S. A imagem apresentada foi capturada sábado, dia 26; só por aí se vê a qualidade de serviço...
Dançando em frente à televisão
Não muito depois da tropa, há cinquenta e tal anos, e mesmo não tendo casado, adoptou para sempre os costumes e os modos de um certo tipo de homem responsável e convencional do seu tempo: a circunspecção, o pudor, a respeitabilidade. Todo o resto da sua vida passou a encarar a folia e o prazer como tolices, desvios da juventude. Olhava-os e falava deles não exactamente, ou não sempre, com censura, mas com paternalismo (nos melhores dias) ou com a condescendência que se tem com os doidos, uma condescendência por vezes contrariada, como contrariada era a sua aceitação de algumas das liberdades de Abril.
Mas como homem do seu tempo (ou como homem tout court) tinha também uma vida dupla. A pública, respeitável e austera, e a privada, onde se concedia, pelo menos ao nível do pensamento e do desejo, os direitos próprios dos machos, como ele os entendia. O tipo de pessoa que idealizava e representava em sociedade via ser-lhe aliviado um pouco o regime na intimidade. Ninguém diria, por exemplo, que adquiria pornografia, e no entanto adquiriu-a até à entrada da velhice. Ele, o indivíduo severo que tinha sempre uma repreensão pronta para as poucas-vergonhas na TV e para a brejeirice em certas cançonetas.
Hoje, vendo as actuações musicais de um programa da TVI, confessou para quem o ouvia que com frequência se deixa agora dançar sozinho em frente à televisão. Os que o conhecem não o imaginam a fazer tal, com os seus cem quilos, os seus movimentos lentos, paquidérmicos, os seus oitenta e muitos anos, os seus óculos e pose de Marcelo Caetano. «E correm-me lágrimas ao ouvir estas cantigas», reforça para os incrédulos.
As cantigas da televisão, com a sua monomania sexual e as suas bailarinas de coxa roliça ao léu, são do género que ele vilipendiaria na meia-idade. Têm, no entanto, a base rítmica, os acordes, a simplicidade de espírito e por vezes o fraseado na concertina de outras melodias populares na sua juventude. É decerto isto que ele ouve lá na sua televisão de velho solitário — não os sucedâneos de lupanar raiano que a TVI apresenta.
domingo, 27 de janeiro de 2013
Obliquidade
O poema Chuva oblíqua, de Fernando Pessoa, parece pressupor, em virtude do título, que há chuvas desprovidas de obliquidade — ou quedas perfeitamente verticais de gotas de água. À facilidade de o conceber junta-se a dificuldade de o provar. Em todo o caso, é interessante o facto de aceitarmos a expressão «perfeitamente vertical», mas resistirmos ao uso da expressão «perfeitamente oblíquo». Talvez achemos que a vertical e a horizontal perfeitas constituem ideais a atingir pelas nossas oblíquas existências.
sábado, 26 de janeiro de 2013
Com as mãos ambas*
Ia ontem mesmo começar A Piada Infinita, de David Foster Wallace (juro!), mas S. Pedro não me deu uma mão. Quer dizer, pelo menos impediu-me de usar as minhas. Quando se vive em Trás-os-Montes e se lê na cama, sem aquecimento central (ou outro), dificilmente se aceita ficar com as duas mãos de fora dos cobertores em Janeiro. E, vocês sabem, A Piada Infinita precisa que a agarremos com todas as mãos disponíveis. Não estou a ser metafórico, o livro pesa, pode causar luxações nos pulsos. Fica para a Primavera. (Podia ser pior, já houve quem o deixasse para as calendas gregas.)
* Título roubado a uma anedota familiar. A ver se a conto, um destes dias.
O bolso aniquilante
Suponho que numa animação de Bill Plympton, um homem, após meter a mão na algibeira, é por esta sugado até desaparecer completamente. Poderíamos estar perante uma alternativa à morte e à certeza que dela se tem, desde que a extinção ocorresse, de igual forma, na memória dos vivos. Mas só um reajuste súbito do mundo levaria a evitar a ideia de que algo estranho acontecera, garantindo também aos bolsos que permanecessem a entrada secreta para o esquecimento.












