quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Eventualmente ou o princípio da incerteza

Obedecendo a um particular entendimento das coisas ou a uma estranha obsessão, os responsáveis pelas legendas no cinema geralmente traduzem do inglês um indubitável eventually por um incerto eventualmente. Por exemplo: as águas de um rio que em inglês vão inelutavelmente dar ao mar, por difícil e longo que seja o caminho, em português não têm garantido esse destino salgado, só eventualmente encontram a foz.
Hoje, num filme que me passou pelo ecrã, a expressão «in the end everybody dies» foi traduzida como «eventualmente todos morrem». Fiquei baralhado. O tradutor teve bizarras dificuldades com a expressão original, procurou uma correspondente em inglês e só então traduziu a ideia (com o erro habitual)? Terá imaginado uma primeira tradução do género «todos acabam por morrer», feito de seguida a retroversão para, sei lá, «everyone eventually dies» e só então se sentiu capaz de balbuciar alguma coisa em português? Ou é na verdade o grémio das legendas partidário do princípio da incerteza até no que se refere à morte?

Afinal havia outra


Ai aguenta, aguenta!

Fernando Ul(tra)rich

Os habitantes do parque: notas para um inventário

O parque não é habitado por gnomos ou outros seres mitológicos, pelo menos que eu saiba. Nem há assim tanta gente que se possa dizer que é do parque. Às horas que o percorro, de dia, lembro-me de um clérigo de uma religião alternativa, com a sua gabardina dois números acima, um saco na mão direita e frequentes olhos no céu; um reformado pesadão de bengala e cão idoso pela trela que tem um pedaço do parque como quintal; um advogado e um pastor alemão com o mesmo ar de poucos amigos, ambos sem açaimo, numa caminhada enérgica antes do expediente da tarde; duas ou três senhoras indistintas e decididas no seu fato-de-treino claro e no seu trekking pós almoço; os habituais funcionários camarários vestidos de verde-almeida e responsáveis pela relva, na parte em que o parque é relvado; um senhor com luvas, protectores de orelhas e eventuais problemas de colesterol ou próstata cumprindo a prescrição médica... Quase todos os outros são meros transeuntes que atalham pelo parque a caminho de qualquer destino alhures, geralmente indiferentes ao caudal do rio, à azáfama da passarada ou ao estádio da floração. Ao final da tarde a fauna aumenta, mas malogradamente outras ocupações impedem-me de lhe fazer o inventário. E às minhas horas da noite já quase não sobra ninguém: um ou outro corredor de calças de lycra, uma ou outra parka com gente anónima dentro.

Há contudo nos últimos tempos um sujeito careca nos seus quarentas que se posiciona durante a hora de almoço numa escadaria com vista para uma das represas. Talvez tenha agora descoberto que aquele é um bom sítio para almoçar. Talvez tenha voltado a fumar e ali, meio camuflado pela vegetação, não o assolem tanto os remorsos nem a censura de familiares ou colegas. Talvez seja vítima de desgosto recente e os olhos com que vê a queda da água não sejam indiferentes à melancólica beleza da corrente. Talvez, enfim, seja apenas um dealer a variar de ponto de distribuição por gosto ou cálculo e o telemóvel lhe trema nas mãos em resultado de um mercado em alta e não de um astral em baixa.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Voltar atrás

Motivo de análise psicológica é a afirmação que seguríssimas pessoas tecem segundo a qual, se voltassem atrás, fariam exactamente as mesmas coisas que até à data terão feito. Sendo, ainda por cima, claro que aquele que atrás voltasse regressaria aí diferente daquele que pela primeira vez agiu, concluiu-se que a personalidade de quem assim fala, se não for dada a ludibriar-nos ou a ludibriar-se, se caracteriza por três aspectos essenciais: nulo arrependimento, rigor matemático e sólida monotonia.

A partir de “Portugal, finis terrae”, de Pedro Rosa Mendes

A Ler tem um novo número nas bancas, mas aquele que é urgente ir comprar, para quem ainda não o fez, é o de Janeiro. Por causa de “Portugal, finis terrae, esclarecedor ensaio de Pedro Rosa Mendes ali publicado. Nenhum português deveria considerar-se informado (ou adulto) sem o ter lido. É um texto escrito em tom vigoroso, porém sóbrio, acerca das origens históricas da crise que vivemos. Informa, alerta e incomoda, não deixa quase ninguém incólume: dos partidos da alternância à «Europa» (grafada com aspas, num interessante paralelismo com o costume de Vasco Pulido Valente), passando pelos EUA. Talvez poupe um pouco, em minha opinião injustamente, os portugueses enquanto povo.
A grande singularidade do texto de Pedro Rosa Mendes, a par da sua opinião informada e da coragem com que ele a expressa, é a independência em relação às instituições e em relação às tendências político-partidárias. Há, à esquerda e à direita, outras pessoas no país que fazem diagnósticos coincidentes, pelo menos em boa parte, mas as suas relações afectivas ou de interesses, o seu comprometimento ou proximidade aos partidos, limitam-lhes a coerência, tornam-nas inconsequentes, inúteis ou perniciosas. O mundo dos comentadores políticos é geralmente um território de canto coral ou onde drapejam bandeiras.
É hoje para mim claro que o futuro português não pode ser construído pelos partidos, estes partidos. Dos municípios ao Governo, o país precisa de um reset, de se reinventar politicamente, e isso não se consegue fazer com gente tão implicada, tão cúmplice, tão presa aos métodos e aos desígnios das facções. Não se consegue fazer com protagonistas que andam pelo país como mercenários a repartir despojos ou por militantes que estão na política tão estupidamente como no futebol.
Não se trata de tirar razão à esquerda ou à direita, de invocar um hipotético centro virtuoso. Não tem nada que ver com esta posição ingénua, igualmente maniqueísta, de consensos pantanosos.
Trata-se de dizer abertamente que os partidos portugueses são cancros na sociedade e que detêm, em doses semelhantes, a culpa da situação que vivemos. (Da culpa que podemos reivindicar como nacional — nunca deixemos a «Europa» de fora disto.)
Como diz Rosa Mendes, «não haveria Passos Coelho sem Sócrates». Mas quem pode verdadeiramente negar que Passos Coelho seria o Sócrates da década anterior e Sócrates o Passos Coelho destes anos se a História lhes tivesse concedido vencer eleições em períodos diferentes? Quem pode jurar, sem hipocrisia ou cegueira, que distingue os Governos por muito mais do que o tempo e as circunstâncias em que lhes calhou governar?
Há decerto elementos no actual Governo que têm as melhores intenções, mas que liberdade lhes deixam ou que trabalho farão que não seja arruinado pelos colegas menos escrupulosos e mais oportunistas? (E mais poderosos.)
Um país não se devia governar, mesmo em tempos de crise, com sebastianistas, revolucionários, salvadores nomeados pelo Presidente ou pelas instituições (nacionais e estrangeiras). Mas também é certo que jamais se governará com a actual classe política.
A democracia ainda não foi destronada do pódio de melhor sistema de governo, e não me parece provado que a democracia representativa tenha os dias contados, que mereça ter os dias contados. Apenas precisa de outros representantes. Precisa de uma faxina.
O problema é que em Portugal é muito difícil formar partidos políticos. Não porque as leis e a burocracia sejam particularmente inexoráveis, mas porque um novo partido em Portugal é sempre considerado uma coisa excêntrica, terá previsivelmente um eleitorado da dimensão daquele que têm os partidos monotemáticos, de âmbito e programa circunscritos a uma ideia e um punhado de simpatizantes que se conhecem pessoalmente.
A vileza dos representantes em Portugal é pelo menos igualada pela estupidez dos representados. O eleitorado português é suficientemente perspicaz para reconhecer um cretino quando vê um — mas é também suficientemente estúpido, ou está suficientemente implicado, para votar de novo nele.
Parecemos condenados a concluir como Pedro Rosa Mendes concluiu o ensaio dele, utópica ou apocalipticamente: «Resta, pois, a rua, morada comum da raiva.» De facto, as possibilidades anteriores à rua, numa escalada de tomada de poder, parecem condenadas ao fracasso. Não se imagina que os independentes bem-intencionados dos anos recentes da política portuguesa possam formar um novo partido, mais sério e competente; não se imagina que esse partido fosse votado, caso pudesse formar-se; mas também não se imagina que os partidos actuais possam gerar anticorpos suficientemente poderosos para debelar a sua infecção interna. Será um problema de imaginação aquilo que nos aflige? Ou de coragem (de fazer e votar diferente)?


* Quem não conseguir comprar a Ler de Janeiro, pode encontrar aqui o ensaio de Pedro Rosa Mendes: http://www.mynetpress.com/mailsystem/noticia.asp?ref4=4%23k&ID=%7B05DAEA92-2ABB-42ED-89ED-7F3F0B378A5D%7D

Mulher a rezar

Antes de virar a esquina e iniciar a rampa do Calvário, há de cada lado da estrada uma capelinha ou pequeno santuário com portão em barras de ferro. De um lado está Cristo carregando a Cruz, do outro uma santa, provavelmente uma das várias manifestações da Virgem. A mulher reza daquele lado. Numa observação menos atenta, não se diria que reza: posição do corpo a três quartos, como quem está de passagem e mal se deteve para uma espreitadela curiosa; sapatos e roupa de sair em passeio; cabelo acabado de lavar no cabeleireiro; a carteira na mão direita, a de fora, exactamente como quando ela se encosta ao vidro de uma montra a passar os olhos pelos saldos ou pela nova colecção. Dir-se-ia visitante, turista, mas a mão esquerda, firmemente agarrada a uma das barras do portão, impregnando-se de ferrugem, segurando-se ali como náufrago à corda salvífica, confirma que reza.

O nome das coisas

bebé em frente à bandeira francesa

O debate, em França, sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adopção por casais homossexuais entrou no quelho da discussão à volta dos nomes das crianças: que sobrenome(s) seria(m) aposto(s) aos nomes próprios dos petizes?

A lei parece seguir no sentido de que os sobrenomes de ambos os membros do casal figurem no nome da criança, pelo que a Direita francesa se levantou em ruidoso protesto à la Diácono Remédios: «Qualquer dia» temos também os nomes das crianças de casais heterossexuais a serem desfigurados com os sobrenomes das suas mães! Sacré Bleu!

O problema, está bom de ver, não é de machismo, non! Nem sequer de conservadorismo, dis donc! Como explica o deputado Marc Le Fur, o problema é que os nomes de origem portuguesa são «frequentemente longos» (culpa da mãe, évidemment). Num país onde palavras como «professor» e «director» não têm feminino, facilmente se conclui que o problema é esse: o pragmatismo francês tende manter os nomes convenientemente breves, pela “poda” do nome da mãe, e assim deverá continuar a ser!

Pela lógica da Direita francesa, «Valéry Marie René Georges Giscard d’Estaing» é um nome «curto» — porque os quatro primeiros são nomes próprios e os dois últimos vieram-lhe ambos do pai («comme il faut»). São também curtos nomes como «Charles André Joseph Pierre-Marie de Gaulle», «Georges Jean-Raymond Pompidou», «François Maurice Adrien Marie Mitterrand», «Nicolas Paul Stéphane Sarközy de Nagy-Bocsa» («Sarközy de Nagy-Bocsa» provêm-lhe todos do pai...) e «François Gérard Georges Nicolas Hollande», só para citar alguns.

Já «Rui Sá do Ó» (em que o Sá lhe vem da mãe...) é um nome um horror de longuíssimo! Zut alors!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Rumo definido

Lembram peritos, imitando Séneca: o vento nunca é favorável àquele que não sabe para onde vai. Esquecem que é justamente «quem não sabe para onde vai» que está mais disponível para aproveitar a direcção do vento. Em todo o caso, admitindo a sentença como verdade irrecusável, teremos sempre de clarificar o que significa «saber para onde se vai» — sobretudo quando não nos referimos aos projectos que formam a vida, antes à vida enquanto forma de um projecto.

Uma (outra) verdade inconveniente

UMA VERDADE INCONVENIENTE (Teoria Restrita da Relatividade da Reflexão). Maugrado o secular prestígio da pausa reflexiva, o jovem Albert sabia algo que mais ninguém sabia: que ao pararmos para pensar, temos menos tempo para pensar.

Motivado por um post de José Ferreira Borges.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Suprimir o tempo

Georgia O' Keeffe, Era Azul e Verde, 1960.

Se formos capazes de suspender o pensamento, seja nas suas modalidades concretas, seja nas abstractas, colocando-o fora de jogo ou deixando que dele subsista só um vestígio inoperante, e lograrmos, em seguida, fixar por inteiro a consciência nas sensações, até realizar uma absoluta sinestesia, ficando assim os sentidos, como diz Almeida Garrett, «todos num confundidos», teremos aniquilado o tempo e alcançado uma unidade sem distância nem conflito. Resta naturalmente esclarecer que tipo de consolo isso nos traz.

A guitarra que falava

Por timidez, desinteresse ou incompetência, sempre fui nalguns assuntos um tipo um pouco retardado. Quando a isso se somavam as dificuldades financeiras, eu podia ser bastante neandertal em relação à restante rapaziada. E misantropo.
Um dia no intervalo das aulas um colega quis partilhar comigo a música que ouvia no seu novo walkman. Senti-me honrado, naturalmente, mas também assustado. Sabia que existiam mas nunca tinha experimentado ouvir música numa coisa daquelas. Qual seria a sensação? Como se ajustava o aparelho nas orelhas?
Acontece que o colega não queria apenas que eu ouvisse a música, queria que reparasse como o guitarrista dos Lynyrd Skynyrd fazia falar a guitarra. Eram muitas experiências novas para tão pouco tempo. Walkman. Guitarras que falam. Lynyrd Skynyrd (quem?). Ajustei os auriculares e a primeira coisa que disse ou pensei foi que a música parecia vir de todo o lado, ou estar dentro da nossa cabeça. O colega sorria. Eu ainda não tinha interiorizado a experiência e, por educação, para não abusar da generosidade, já me estava a obrigar a tentar decifrar o que queria ele dizer com uma guitarra que fala. Havia um solo, sim, mas por mais que me esforçasse não entendia nenhuma palavra — e já sabia algumas coisas de inglês. Para mim não havia nada de metafórico no que me fora pedido: eu estava mesmo a tentar ouvir uma guitarra a falar, balbucios que fossem.
Fingindo conhecimento e afectando desinteresse, acabei por dizer que sim, de facto era uma guitarra eloquente, embora não apreciasse muito a música.

(Podia ter contemporizando mais, sido menos herético, dizendo-lhe apenas que «não era sensível ao tema» — se fosse capaz de usar com rapidez a ambiguidade das palavras, de pensar a tempo na utilidade da sua amplitude semântica para uma boa convivência social.)

domingo, 3 de fevereiro de 2013

O Leonhard Euler da (baixa) política nacional

Universidade Lusófona apresenta Miguel Relvas em 'O Senhor Doutor'

Escreve Jorge Buescu no segundo capítulo de O Fim do Mundo Está Próximo? (Gradiva, 2007):

Leonhard Euler (1707–1783) foi muito provavelmente o maior génio matemático de todos os tempos. Foi indiscutivelmente o matemático mais produtivo de sempre, em quantidade e qualidade. [...]
[...]
Euler fez um oceano de contribuições fundacionais para o cálculo diferencial e integral, as equações diferenciais ordinárias e parciais, a teoria dos números, a geometria, a álgebra, a mecânica, a hidrodinâmica, a astronomia, a topologia e a teoria dos grafos.
[...]
Mesmo um cientista de estatura gigantesca fica geralmente imortalizado por uma contribuição central à qual o seu nome fica para sempre ligado: assim falamos na lei de Arquimedes, na gravitação de Newton, na hipótese de Riemann ou na relatividade de Einstein. No entanto, se um matemático se referir no abstracto ao «teorema de Euler», a maior parte das pessoas não saberá qual o ramo da matemática em discussão, tal a esmagadora abrangência e importância do legado científico de Euler.


Faço zapping entre telejornais, folheio os diários e semanários, salto de blogue em blogue — e sou assoberbado por uma omnipresença: Miguel Relvas. Há, associado ao seu nome, escândalos para todos os gostos: assim de repente, temos o caso «Relvas/Universidade Lusófona», o caso «Relvas/Secretas», o caso «Relvas/jornal Público», o caso «Relvas/Passos Coelho/Tecnoforma», o caso «Relvas/Viagens fantasmas»...

Com a devida vénia, peço emprestado e rescrevo um excerto do livro de Jorge Buescu:

Mesmo um político de baixíssima estatura fica geralmente imortalizado por um escândalo central à qual o seu nome fica para sempre ligado: assim falamos no envolvimento de Armando Vara no processo «Face Oculta» ou de Paulo Portas no «Caso Submarinos», no «Caso Fax» de Carlos Melancia, ou no «Caso Costa Freire». No entanto, se um comentador se referir no abstracto ao «Caso Relvas», a maior parte das pessoas não saberá qual o ramo da baixa política em discussão, tal a esmagadora abrangência e importância do legado escandalístico de Miguel Relvas.


Miguel Relvas é o Leonhard Euler da (baixa) política nacional!


P.S.1 Jorge Buescu não nos informa quanto a quem seria o n.º 2 do ranking do mérito matemático. No da baixa política nacional, a “honra” caberia a José Sócrates: casos «Sócrates/Universidade Independente», «Sócrates/Freeport», «Sócrates/Face Oculta»...

P.S.2 A imagem que acompanha este texto foi retirada do magnífico blogue WeHaveKaosInTheGarden, que tem muitas mais jóias de igual quilate (uma boa parte delas protagonizadas pelo nosso Euler politiqueiro).

Botas de autoridade e focinhos de porco

Do filme Platoon retive uma imagem em que certo soldado pontapeia o focinho de um porco (1). Recordei-a enquanto assistia ao vídeo que mostra um agente da GNR, na A1, a desferir um golpe similar. Concluí existirem botas que desejam, por vezes, sentir viva a autoridade que transportam. Focinhos de porco ajustam-se, com vantagem, a tal desiderato, porquanto a contestação do suíno será breve: nem o queixume irá além de um guincho nem o protesto excederá um ronco.


(1) O momento exacto pode ser visto aqui, após o minuto 46 (mais propriamente aos 46 minutos e 15 segundos).

sábado, 2 de fevereiro de 2013

«O sono das maçãs»


Se alguém quiser, como García Lorca, «dormir o sono das maçãs» (1), de que modo exprimirá o resultado? O problema não diz só respeito à natureza dos qualia, ou qualidades sentidas das experiências, mas também ao reconhecimento de que se passou por tal sono. Trata-se de, permanecendo humano, entrar no fruto em causa, imergir na sua inconsciência — e sabê-lo, depois, ao despertar. «Dormir o sono das maçãs» seria aceder, por inteiro e sem distância, ao lugar do inefável.


(1) Federico García Lorca (s/d), Divã do Tamarit, Lisboa, Vega, p. 47.

Uma verdade inconveniente

RESSACA. A velhice nota-se, não nas coisas que não faço, mas nas coisas que não faço a seguir às que faço.

Surviving in Portugal

O Governo lançou há dias o programa Living in Portugal, que pretende promover a venda de imóveis de luxo (acima de meio milhão de euros) a cidadãos estrangeiros.

Segundo um dos vários governantes presentes na cerimónia, a estratégia passa por veicular a mensagem de que Portugal é um bom lugar onde se ter uma segunda residência.

É verdade. Fodido é ter cá a única.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Fechar a conversa

Quando em conversa telefónica, há quem deseje, consciente ou inconscientemente, ser o autor das palavras que fecham o diálogo, repetindo então a fórmula de despedida as vezes necessárias a que isso possa acontecer. O problema surge se o interlocutor seguir idêntico padrão comunicacional. Em circunstâncias do género, é provável que o natural embaraço acabe por se resolver se ambos insistirem num adeus que se renova, mas gradualmente diminuindo o tom, até que este se extinga no silêncio.

Tédio News: o regresso do rural

QUINTA DAS CELEBRIDADES. TVI interpreta à sua maneira recomendação dos deputados da maioria e vai reintroduzir 'reality show' na sua grelha de programação.

Como texto do corpo da notícia recorri a um artigo de Miguel Gaspar (Público). Uso-o aqui sem autorização — mas quase não se consegue ler.

O regresso do “TV Rural”?

Deputados da coligação no governo procuram mais tempo de antena. [Na imagem: dois nabos]

SIC Notícias: «AR debate proposta de PSD e CDS-PP de programa na RTP sobre agricultura»