sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
Pausa reflexiva
E o Oscar da Lógica vai para...
Por essa Europa fora há um escândalo com a venda de produtos ultracongelados (hambúrgueres, lasanhas, etc.) à base de carne de cavalo vendidos como se fossem de carne de vaca. Em vez de ir a um supermercado apurar se o escândalo está a afectar a venda de ultracongelados à base de carne picada, uma jornalista da SIC achou que fazia mais sentido ver de que forma a venda de cavalo por vaca afecta negativamente aqueles que vendem cavalo por cavalo.
Pergunto-me se à jornalista em causa lhe falta discernimento, ou se confia que nos falte a nós.
P.S. O título da reportagem, conforme ele surge no site da SIC Notícias, é enganador, por ambíguo: «Governo garante que não há registo de casos de carne de cavalo em Portugal». O que são «casos de carne da cavalo»? É preciso distinguir a venda de carne de cavalo como se fosse de outro animal (o que é ilegal) da simples venda de carne de cavalo (que é legal, se for assumido que é de cavalo). O título não faz essa distinção.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
O número
Um preso recente, intrigado com o facto de os outros se rirem sempre que um deles gritava um número, foi informado de que esses números correspondiam a anedotas, que assim escusavam de ser repetidas por palavras. Quando, porém, ele gritou «63», ninguém se riu. Disseram-lhe que tudo depende da maneira como a anedota é contada. (1) Tal maneira ou se ajusta ao humor do objecto ou traduz uma inépcia que, por vezes, nem sequer é objecto de humor.
(1) John Allen Paulos (s/d), Penso, Logo Rio, Lisboa, Editorial Inquérito, p. 52.
O homem é bicho fodido de se aturar
Os dados dos casamentos e divórcios entre pessoas do mesmo sexo, desde 2010, são claros: os casamentos entre homens (268) representam menos de metade dos casamentos entre mulheres (597), mas os divórcios entre homens (20) são o dobro dos divórcios entre mulheres (10).
Com todas as reservas que as estatísticas de pequenos números nos merecem, vou arriscar uma conclusão: o homem é bicho fodido de se aturar.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
O breve intervalo
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Será que a gente se entende?
(1) Cf. Pedro González Calero (2009), A Filosofia Com Humor, Lisboa, Planeta Manuscrito, p. 125.
(2) Idem.
Beatas e expressões
E no entanto erramos frequentemente no jogo de adivinhar se uma fotografia no JN é de vítima ou carrasco. Não raro os mortos têm cara de vilões e os assassinos expressão sofredora.
Freak show
Depois esfrego os olhos e noto que é apenas um desfile de Carnaval, um que não precisou de investir muito nos disfarces para alcançar aquele efeito. É uma ronda dos arredores que desceu à cidade percutindo bombos e causando pasmo aos junkies do bairro e a mim. Ou só a mim: os junkies nem assistem ao triste cortejo, apenas coincidiram na rua no momento do desfile, a caminho dos seus habituais compromissos inadiáveis.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Buscar o paradoxo
domingo, 10 de fevereiro de 2013
O prisioneiro
A patanisca gourmet da música
Começo com uma confissão, que reconheço vergonhosa, e que certamente abortará qualquer ilusão de autoridade em tudo o que eu disser depois: só há coisa de uma semana sei realmente quem são os Virgem Suta.
O facto é que não tenho televisão, nem rádio. Parecendo que não, isso tem as suas consequências, e nem sempre positivas (que também as tem). Uma delas é que um bom número de músicas e intérpretes surgem, alcançam a fama, definham e desaparecem sem que eu dê sequer conta da sua existência.
Esse é o caso extremo. O mais das vezes até chego a ouvir algumas dessas músicas, ou trechos delas, dada a sua omnipresença: no rádio do carro de um amigo que me dá boleia ou do autocarro que tomo de manhã para o trabalho, na televisão alheia em frente à qual pouso brevemente ou passo de raspão, na banda sonora do ócio consumista ou mirone dos estabelecimentos comerciais. Mas o mais certo é o nome do músico, cantor ou banda não ser anunciado, ou não o ser nos breves segundos ou minutos de audição a que tive direito. (Lembro-me dos longos meses em que, com certa frequência, me cruzava com Pasión de Rodrigo Leão, na voz de Lula Pena, pensando que era de Luz Casal ou outra espanhola compatível com a minha ignorância...)
Viceversamente, há nomes da música, por vezes acompanhados da respectiva imagem, que me são familiares (estão em tudo quanto é capa de revista, noticiário e quejandos), mas cuja sonoridade desconheço totalmente. Incluem-se neste rol Lady Gaga, Paco Alborán, Justin Bieber e Rihanna, entre outros. (Não excluo a possibilidade de já ter ouvido algum tema destes intérpretes, sendo eu incapaz de associá-los mutuamente.)
E assim chegamos aos Virgem Suta. Estiveram na semana passada na minha cidade e, apesar de o nome não me soar totalmente estranho, foi apenas por recomendação de um amigo que fui ao concerto, descobrindo então que já tinha ouvido aqui e ali, ainda que incompletamente, um dos seus temas (Linhas Cruzadas, na versão com Manuela Azevedo).
Digamos que foi uma surpresa. Uma belíssima surpresa — ainda que só possível por mor da já assumida ignorância. (“Descobrir” os Virgem Suta em 2013 inscreve-se na mesma escala de mérito de descobrir o caminho marítimo para a Índia em 1755.)
Fui imediatamente conquistado pela deliciosa mistura de sonoridades pop e popular portuguesa, nalguns casos, com uma mestria inaudita, sobrevoando (sem nunca se molhar) o extremo mais kitsch do espectro: o “pimba” (por exemplo, em Tomo Conta Desta Tua Casa, Vovó Joaquina e Luso Gentleman).
Salvam os Virgem Suta (não apenas os resgatam: coroam-nos de louros, de facto) a excelência e o humor das letras, a sofisticação dos arranjos, com inesperados melódicos, e a personalidade da interpretação vocal de Jorge Benvinda. (Mérito também para o produtor: Hélder Gonçalves, dos Clã.)
Dizem-me que o vocalista do grupo tem, em Beja, uma tasca com toques de restaurante gourmet. Este facto e a música dos Virgem Suta misturam-se na minha cabeça e trazem-me à lembrança Pedro Barroso, responsável pelo restaurante do Armani Hotel Dubai, situado na torre mais alta do mundo, a Burj Khalifa. Em 2010, na inauguração da unidade hoteleira de luxo, o chef português escolheu como iguaria destinada a deslumbrar os convidados da elite mundial... pataniscas de bacalhau com arroz de feijão. Isso mesmo: um dos incontornáveis petiscos de qualquer tasca lusa elevado, pela mestria de Pedro Barroso, aos píncaros da cozinha internacional.
Pela mão de Jorge Benvinda e Nuno Figueiredo, também as sonoridades da música popular — e até popularucha — portuguesa se elevam a outros, mais estratosféricos e requintados, níveis de qualidade: os Virgem Suta são a patanisca gourmet da música.
sábado, 9 de fevereiro de 2013
Dizer não
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Caminhando no fio da navalha da Semântica?
Segundo o DN, Carlos Zorrinho (PS) pediu desculpa ao novo Secretário de Estado do Empreendedorismo por ter dito há dias na SIC Notícias que
[Franquelim Alves] é uma das pessoas que o Banco de Portugal considerou não estar em condições de deter atividades na área financeira.
Segundo o diário, o «Banco de Portugal [...] desmentiu a informação veiculada por Zorrinho», num comunicado onde se lia que
O dr Franquelim Alves não desempenha, desde Novembro de 2008, funções sujeitas a registo no Banco de Portugal.
Eu é que peço desculpa, mas este excerto do comunicado do Banco de Portugal NÃO desmente o líder parlamentar do PS. A declaração do Banco de Portugal é perfeitamente compatível com a afirmação de Carlos Zorrinho. NÃO estou a dizer que Zorrinho está correcto (não faço a mínima ideia), mas se é dessa forma que no Banco de Portugal «desmentem» seja quem for, então está «visto e ouvisto» que têm de ter umas lições de português (e de lógica).
Ou talvez não. Talvez quem redige os comunicados do Banco de Portugal domine bem o português e a lógica — e a técnica de caminhar no fio da navalha da semântica.
O grande equívoco
Nem tudo é repetível
Hoje, num reflexo daqueles tempos, desloco-me pela casa apagando a luz dos compartimentos atrás de mim, mesmo que tencione voltar, enquanto acendo a dos que me ficam no caminho. Por vezes fico às escuras alguns metros, se os interruptores não estão próximos e acho supérfluo iluminar uns poucos passos. Não me perturba este jogo. Como não me perturba ir a pé para o trabalho. O ambiente ganha com isso. Eu gasto menos com isso. Perturba-me que venha a precisar de uma mercearia que venda fiado e não a encontre. Não encontre mercearias de espécie nenhuma. Nem tudo do passado é repetível. No portugalzinho provinciano e comunitário de Salazar era possível levar uma grande lista de compras e dinheiro nenhum na carteira. Os franchises de hoje, mesmo quando apresentam rostos mais simpáticos por detrás da registadora, não têm a mesma confiança na palavra dada. Além de que, suspeito, a companhia da electricidade é hoje mais despida de escrúpulos na hora de definir tarifários.
A humanidade por detrás do culto
Espreitei e vi como ardiam velas em latinhas que parecem de refrigerantes, com gravuras no exterior, vi plantas em vasos que dão aos nichos um certo ambiente de estufa, vi as vassouras que diariamente varrem os pequenos compartimentos, as bisnagas com que se borrifam as plantas e a cerâmica ou o barro pintado das figuras, vi na sua mundana caixa de supermercado o rolo de papel de alumínio de onde saem os fundos que protegem os tabuleiros das velas, vi a prosaica caixa dos fósforos que acendem as velas, vi o saco preto reciclável onde se acumulam as latinhas já usadas — vi, enfim, os bastidores de oratórios ou santuários demasiado pequenos para terem resguardados da vista os produtos e os objectos que revelam a humanidade por detrás do culto.
Decerto não veria nada disso se tivesse ido ali apenas para rezar.




![Fornecedor. s. m. Profissional do sexo. Fornecer. v. Prestar serviços sexuais. [Wackypedia: contributos para um léxico alternativo]](http://1.bp.blogspot.com/-3124_rr-0qA/URWxXY6U-hI/AAAAAAAABig/5fP69CTSXvI/s400/Sexo_Fornecedor-Fornecer.gif)
