domingo, 24 de fevereiro de 2013

Coisas de que gosto mesmo

Gosto dos governantes que adoptam medidas ruinosas atrás de medidas ruinosas, e que, perante a oposição popular, vêm humildemente reconhecer que «muitas das [suas] medidas não estão a ser bem comunicadas».

Não é um problema comunicacional, Álvaro! Não há gabinete de comunicação que transforme um cagalhão em cordon bleu.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Revisão antes do sono

Consta que se dormirá bem, para lá de esotéricas vantagens, se se revir mentalmente o ocorrido ao longo do dia, desde o fim até ao início. Mas evocar acontecimentos na ordem inversa obriga a lembrar a sucessão normal de cada um, e isso contradiz o exercício. Parece, então, preferível colocar o dia entre parêntesis, fingindo depois que tal conteúdo “não tem sentido”, do que lançar a mente numa espécie de marcha atrás, sujeita a indecisões e solavancos.

Countdown para 2 de Março: 7...

Sinal: Portugal: PERIGO! País em mau estado

Novo sinal de trânsito, a afixar em todas as fronteiras terrestres, marítimas e aéreas.


Nota: Clique na imagem para obter uma versão com resolução suficiente para impressão com alguma qualidade.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O protesto mais parvo da história universal dos protestos

falsa factura em nome de Pedro Passos Coelho

Segundo o Público:

Consumidores pedem facturas em nome de Passos Coelho

O feitiço virou-se contra o feiticeiro. Em protesto contra a nova legislação que penaliza com multas até 2000 euros quem não pedir facturas, muitos consumidores começaram a pedir facturas com o número de identificação fiscal de Pedro Passos Coelho. Os dados do primeiro-ministro estão a ser divulgados em SMS e emails que se tornaram virais. As redes sociais estão a propagar o protesto.
[...]
O número de contribuinte do primeiro-ministro não é, contudo, o único que está a ser difundido através das redes sociais. Também o NIF dos ministros Vítor Gaspar e Miguel Relvas estão a ser divulgados e partilhados no Facebook e no Twitter com a sugestão de que sejam usados para o mesmo fim.
[...]
Em teoria, Passos Coelho pode até ser investigado pelas Finanças, por ter gasto um valor superior aos seus rendimentos. Vários serviços do Fisco contactados pelo Correio da Manhã — que dizem estar a par do que se está a passar — admitiram a possibilidade de o primeiro-ministro poder vir a ser alvo de uma investigação das Finanças, uma vez que existem “mecanismos de fiscalização automáticos que disparam quando um contribuinte gasta em facturas mais do que aquilo que declara como rendimento”.


Eis o protesto mais parvo da história universal dos protestos, por (pelo menos) quatro razões:

  1. Estou mesmo a ver Pedro Passos Coelho, Vítor Gaspar ou Miguel Relvas a serem “chateados” pelas Finanças para os fiscalizarem. O primeiro-ministro há tempos dizia que dormia perfeitamente — imagino o quanto a perspectiva de cair sob o martelo do fisco lhe esteja a tirar o sono...
  2. Mesmo que tal fiscalização ocorresse (o que, sabemos bem, nunca acontecerá), estes ministros, tal como quaisquer outros contribuintes “vítimas” de tal brincadeira, conseguiriam safar-se facilmente mostrando que é impossível terem estado em todos os sítios a que respeitam esses milhares de facturas (algumas certamente emitidas quase simultaneamente em locais afastados por dezenas ou centenas de quilómetros).
  3. Se é verdade, como no site «e-faturas» dizem, que o contribuinte final nem precisa (embora possa, como garantia) registar as facturas electrónicas emitidas com o seu NIF, pois terá automaticamente direito ao benefício fiscal quando o comerciante comunicar os dados das facturas que emitiu, então estes protestos só vão garantir que Passos Coelho e outros ministros “afectados” conseguem o máximo de benefício fiscal à custa de terceiros. 250€ (valor máximo) não os aquecem ou arrefecem, mas não deixa de ter piada que um protesto resulte em benefício fiscal para o alvo do protesto.
  4. Se é verdade que há falta de segurança na transmissão dos dados das facturas, podendo um desconhecido não autorizado (com alguns conhecimentos de informática) aceder a informação que viole o direito à privacidade dos contribuintes (onde estiveram, quando, o que compraram...), então este protesto tem também como consequência proteger a privacidade de Pedro Passos Coelho e dos demais afectados: ao emitirem tantas facturas com informação falsa, conseguem soterrar os reais consumos e a localização dos ministros, que efectivamente não se distinguirão dos consumos falsamente atribuídos a eles, pelo que tais informações (as verdadeiras) continuarão no foro privado. É um caso de privacidade garantida pela “multidão”. Passos Coelhos, Relvas e Gaspar agradecem.

Explicar o vazio

Dirá o materialista que a sensação de fome constitui a modalidade primordial do vazio interior e que a impressão da falta de sentido do existir é mero efeito da carência de trigo, feijão e couve-lombarda. Sendo assim, por que motivo tal impressão surge igualmente no espírito logo após o almoço? Porque, responderá o materialista, aquilo a que chamamos espírito se reduz a um aglomerado de sinapses indecisas e de neurónios vagabundos que chegam sempre atrasados às refeições.

Sobre a “obrigação” de pedir factura

Leio no Público:

PCP vai propor fim das multas para quem não pede factura

O PCP quer revogar a norma que estipula multas quem não pede factura ou recibo, e vai apresentar na Assembleia da República uma proposta nesse sentido na próxima semana.
[...]
O PCP vai propor a eliminação “não do dever de pedir factura, mas da coima que penaliza os consumidores que não a queiram” [...]


O PCP está errado: a obrigação de pedir factura devia mesmo ser revogada, não apenas abolida a respectiva coima. Porque tal obrigação, ainda que consagrada na lei, é absurda: a lei que a consagra é abusiva.

Se o comerciante é já por lei obrigado a emitir a factura, por que razão tenho eu de pedir uma coisa que ele já é obrigado a fazer?
Vejamos: a lei já diz que ele pode emitir a factura sem dados do cliente final (pois eu não sou obrigado a dar-lhe os meus dados), e que o facto de eu não pedir factura não é desculpa para ele não cumprir o seu dever da emissão da dita. Se assim é, mais uma vez não faz sentido eu ser penalizado por não pedir factura, até porque a minha omissão/recusa não significa prejuízo para o Estado (a do comerciante, sim).

Mesmo o cenário em que ele pergunte «Quer factura?» e eu responda «Não», também nada configura de ilícito da minha parte. Eu estou simplesmente a dizer que eu não quero a factura — não estou a dizer que quero que ele não emita a factura. Ele que a emita, como é sua obrigação — ainda que sem os meus dados (se eu não os fornecer), e mesmo que eu me recuse a pegar nela ou simplesmente a esqueça no balcão. A factura tem de constar da contabilidade dele, não da minha.

A única situação em que as Finanças têm o direito moral e lógico* de penalizar o consumidor final, nesta questão das facturas, é se este for parte beneficiada em eventual fraude fiscal: se, por iniciativa do cliente ou do comerciante, a não emissão da factura tiver como contrapartida um desconto no preço final pago pelo cliente (por exemplo, o comerciante “não cobra” o valor do IVA se não houver factura a provar que a transacção sequer ocorreu).


* E não meramente legal, porque, repito, a lei actual é abusiva.

Fast food

cavalo de corrida

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Imagens que se quebram

Um miúdo pisa com violência, enquanto corre, o brinquedo abandonado no chão de ladrilhos hexagonais. Instintivamente, suspende o ímpeto daquela espécie de fuga e retrocede a fim de avaliar os danos e, ao mesmo tempo, recolher alguma peça que ainda se ajuste à ideia de se divertir. Também estas imagens são quebradiças, como a ilusão da originalidade, que é sempre a penúltima coisa a perder. E ela perde-se quando se descobre que nada resta já para salvar.

«Grândola devia ser a única palavra da língua portuguesa.»

Manifestação de estrunfes: GRÂNDOLOS UNIDOS JAMAIS SERÃO VENCIDOS! Grandolizemos o Relvas! Gaspar, não! Grândola, sempre!

Não consegui resistir, Rui.

Grândolas de manhã à noite

À direita e à esquerda é agora moda haver quem se incomode com o uso da Grândola como forma de calar políticos. A democracia, o direito de expressão e mais não sei o quê... Vão tomar no cu outra vez! O grande atropelo à democracia, à decência e à dignidade é a manutenção de Relvas no Governo. Enquanto ele lá continuar, enquanto for ministro deste país um tipo que representa os nossos piores defeitos em vez de nos representar, a vida pública portuguesa devia hoje ser feita de grândolas de manhã à noite. Devíamos levantar-nos às cinco da manhã para cantar a Grândola durante as abluções; voltar a ela antes do almoço ou do moscatel; entoá-la nas vésperas com o chá ou a imperial; atacá-la em coro depois do jantar ou do brandy; voltar a ela à hora de regressar a casa, ébrios ou purificados pela missa do galo. Um país que tem Relvas como ministro precisa de ser varrido a grândolas, precisa de um tsunami de grândolas. A palavra-passe para aceder à cidadania portuguesa nestes dias devia ser «grândola». Grândola devia ser a única palavra da língua portuguesa. A qualquer pergunta que nos fizessem nós devíamos responder grândola. O nosso quotidiano devia ser grandolizado. Devíamos amar-nos ao som de Grândola, Vila Morena. Dizer grândola como quem diz amo-te. Dizer grândola como quem diz vai-te foder. Dizer grândola como quem diz tá tudo, vai-se andando, nunca pior, as coisas que costumamos dizer quando não estamos contentes nem tristes. Todos aqueles que não são Relvas ou cúmplices de Relvas neste país deviam enfiar uma polifónica Grândola pelo cu acima do Governo, dos seus acólitos e dos sujeitos do PS que se incomodam com a Vila Morena. E, não dando resultado, a própria azinheira, com todos os nós e toda a rugosidade da sua venerável casca sem idade, deveria ser enfiada pelo cu acima daquela gente.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Prazer em conhecer

A expressão «prazer do conhecimento» parece referir-se, no mínimo, a uma de duas coisas: à emoção estética obtida dos conteúdos teóricos ou ao antegozo ardente dos resultados práticos. Fora de tais benefícios, restará a «dor do saber» de que fala o Eclesiastes. Mas o antigo pessimista não indicou a percentagem dessa dor inevitável — se acaso admitiu a existência de algum prazer contrastante. É igualmente improvável que o faça de modo certo quem opte pelas vias da ignorância.

Voar no paradoxo

Olha, Zé, afinal não é apenas possível buscar o paradoxo — podemos também voar nele:

ICELANDAIR INFLIGHT SURVEY. Question #1 of 1: There is no survey currently running. Agree / Disagree

Fonte: I Love Charts

Era o orgulho dos pais

Era uma moça prendada, que andava sempre na linha. Um dia veio um comboio e colheu-a.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Fluir e reflectir

O incansável fluir da realidade nada parece dever ao insistente “voltar atrás” do pensamento reflexivo. Também este, contudo, integra o fluir incansável, com seus regressos, pausas, hesitações. Enquanto assim medito, reparo na silhueta de um pelourinho desenhada numa das portas de certa viatura. Tento relacionar a imagem que chega com a ideia que surge. O exercício revela-se fatigante. O carro há-de partir, levando a memória do pelourinho. A realidade passa bem sem os breves suplícios do intelecto.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A insistente alteridade

«O que eu pretendo que os outros pensem de mim» constitui uma estrutura mental difícil (até impossível) de satisfazer. Por dois motivos: primeiro, porque esse outro é plural; segundo, porque essa estrutura não é racional. Muitos tentam livrar-se dela rumando a desertos físicos ou a metafísicos ermos. O problema reside no facto de não conseguirem abandonar o outro enquanto renovada medida que lhes faz sombra — ou de insistirem em imaginá-lo enquanto invisível presença que lhes traz luz.

Dar uma por semana (6)

Obtusa: s. f. Fetiche com tampões e pensos higiénicos. [Wackypedia: contributos para um léxico alternativo]

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Minimizar o esforço

Estratégia relevante quando, não se podendo minimizar o trabalho, se procura minimizar o esforço consiste em supor uma dissociação interna entre certa ou alegada entidade imaterial, que permanece em descanso, e a restante engrenagem do eu, na qual se insere o sujeito que labora, física ou intelectualmente. Depois, um indivíduo finge — até se tornar verdade — ser apenas a primeira, observando em repouso o trabalho da segunda. Mas obviamente, para aí chegar, outro tipo de esforço é exigido.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Mera hipótese

Trata-se de uma hipótese a aguardar cuidada investigação, embora se me afigure bastante plausível: qualquer pessoa com uma das características a seguir indicadas tem, inevitavelmente, as restantes duas. Ei-las: ser rigorosamente pontual, sintético no uso da palavra e avesso a sujeitar o semelhante à visualização das eventuais fotografias tiradas durante as últimas férias. Acrescente-se que o detentor de tais qualidades não se limita a respeitar o tempo do outro: sabe honrar a natureza do seu próprio tempo.

Conversa da treta das agências de rating

SOCK PUPPET RA(N)TING. Moody's: *You* fucked up really bad, mister. 'Baa2' to you, and counting down! Standard & Poor's: *I* fucked up?! *You* fucked up!!! Fitch: Ooh, I'm *so* downgrading you both...

Público: «Moody’s corta rating da Standard & Poor’s»


Texto: Fernando Gouveia. Desenho: Matthew Buck. (Parece ter sido desenhado de propósito para o meu texto, mas não foi.)


Versão traduzida (perde-se o trocadilho entre «ranting» (dizer coisas sem sentido) e «rating», mas é a vida...):

CONVERSA DA TRETA ENTRE MEIAS-FANTOCHE. Moody's: *Tu* fizeste merda da grossa, meu. Toma lá 'Baa2', e é só para começar! Strandard & Poor's: *Eu* fiz merda?! *Tu* é que fizeste!!! Fitch: Ui, ó pra mim a desvalorizar estes dois...

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Pausa reflexiva

No centro comercial, as escadas rolantes devem constituir o lugar móvel das pausas filosóficas. Talvez perguntem os que sobem: «De onde vimos?» Talvez, os que descem: «Para onde vamos?» Talvez, ao passarem uns pelos outros, se interroguem: «Quem somos?» Ainda que não formuladas mentalmente, as questões parecem implícitas atrás desses rostos, cuja melancolia é de alto preço. Mas esta acabará por se esbater quando os olhos pousarem, ao fim da escada, na montra que anuncia preços baixos.