domingo, 3 de março de 2013

Filosofias da salvação

As principais filosofias da salvação — incluamos aí, por exemplo, o estoicismo, o gnosticismo, o budismo e formas alternativas de abrandar o pessimismo — não pretendem gerar no discípulo a ideia segundo a qual ele perderá tudo e em si mesmo é nada, mas sim a consciência de que ele nunca teve realmente nada e de que o acto de proceder em sintonia com isso o fará sentir-se tudo — ou, pelo menos, contente por acordar e satisfeito por adormecer.

Dar uma por semana (7)

Panqueca: s. f. Orgia, bacanal. [Wackypedia: contributos para um léxico alternativo]

sábado, 2 de março de 2013

Talentos

Quem redija textos poeticamente cansativos e intelectualmente nulos, tendo em simultâneo a consciência de ir engendrando uma obra-prima, é detentor de especial talento: o talento para silenciar a autocrítica e para se colocar na pele de um outro que a imaginação lhe oferece em retratos duvidosos. Mais tarde, quando esse talento o abandonar e o percurso lhe exibir ilusões desfeitas, ele há-de ver naqueles instantes criativos do passado só o frívolo desejo de uma insensata redenção mundana.

É a Hora! Valete, Fratres.

Contra os CABRÕES, marchar, marchar!


A grande mais-valia do nosso Hino é a sua versatilidade:

  • Em 1891, na sequência do Ultimato do Império Britânico, era «Contra os Bretões»
  • Em 1911, diplomacia oblige, passou a ser «Contra os Canhões» — e logo a História fez o favor de bater certo com a rima e inventou a Grande Guerra
  • Agora é «Contra os dilectos membros do nosso Governo» (ou a versão métrica, rimática e tematicamente apropriada...)


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sexta-feira, 1 de março de 2013

Questões de teste

«Podemos trocar a ordem das perguntas?», «Pode chegar aqui?», «Posso tirar uma folha?», «Posso pedir uma caneta?», «Pode-me dizer quanto tempo falta?», «O enunciado fica para nós?» — eis as questões-tipo a que um professor é submetido, enquanto o aluno é submetido a outro tipo de questões. Por vezes, surgem interrogações insólitas: «Stôr, nós temos de fazer o teste como se o stôr não soubesse nada, certo?» «Talvez... Mas pelo menos partam do princípio de que sei ler.»

IRS: «Sujeito Passivo»

Modelo 3 do IRS: E depois admiras-te que as Finanças te vão ao cu?

(Começou hoje a 1.ª fase de entrega em papel das declarações de IRS relativas a 2012.)

Countdown para 2 de Março: 1...

O Governo responde: «Que se lixe a Realidade! Queremos os nossos modelos económicos FANTASISTAS!»


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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Os filósofos e os hospitais

Os hospitais não são os lugares favoritos dos filósofos que elaboram sistemas capazes de transformar a realidade num hino à geometria: quando vistos de perto, a doença e o sofrimento abrem fissuras irreparáveis no desenho abstracto do mundo. Os filósofos não sistemáticos, embora sensíveis, como Miguel de Unamuno, ao «homem de carne e osso», também costumam afastar os hospitais do seu leque de preferências. Porquê? Todos o sabemos. Só a filosofia teima em não encontrar cabal resposta.

Countdown para 2 de Março: 2...

Governo de Pedro Passos Coelho (burros) = Cavalo de Troika


Peço desculpa aos dignos membros da espécie Equus a. asinus pela metáfora aviltante...


O cartaz anterior foi feito em Setembro de 2012, numa altura em que eu ainda achava que o n.º 1 do Governo era Pedro Passos Coelho. Face à realidade observável de quem realmente manda (tornou-se evidente que Passos Coelho é um mero poster boy), creio que é de justiça actualizar o cartaz:

Governo Gaspar (burros) = Cavalo de Troika


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Trash lovers

De vezes em quando, o Jumbo põe DVDs de filmes em promoção e desperta o adolescente que há em mim. E o consumidor. (E o idiota.) Aparentemente, filmes a um euro são boas aquisições, mas tendo em conta que a maioria deles não vale um chavo, um euro é na realidade um preço exorbitante. Claro que o puto estúpido que eu consigo ser não se importa nada com isso. Um contentor a transbordar de DVDs é uma visão irresistível. Atiro-me a ele como Ali Babá ao tesouro dos quarenta ladrões (o que, como metáfora, nem é assim tão desajustado, se considerarmos a verdadeira natureza do capitalismo e a quantidade de vezes que já murmurei Abre-te Sésamo em frente às portas automáticas do estabelecimento).
Partilho com Vasco Pulido Valente um vício ou um defeito (apenas um dos muitos que ele tem, ok?): tenho demasiadas vezes uma necessidade inelutável de consumir policiais como narcótico, para distracção da vidinha medíocre. O cronista do Público lê policiais eu vejo policias, se os apanho. E filmes de ETs. Sempre que o Jumbo faz as suas feiras de um euro, eu encho uma cesta de DVDs. Depois passeio-os pela loja com a alegria de um adolescente ou de um titular de cartão de crédito da década passada, e de seguida, mais responsavelmente do que estes, devolvo a maior parte dos filmes à proveniência (faço uma triagem mental enquanto me abasteço de mercearia). Saio de lá, ainda assim, com meia dúzia deles, geralmente mais seis do que aconselhariam o bom-gosto e o bom-senso. Nem sempre reconheço para mim próprio o quanto isto é patético. Por vezes trago um Hitchcock ou um galardoado de Cannes para ludibriar a consciência. A comparação com outros prospectores de lixo também me serve de alibi. Ao contrário de alguns tipos que mergulham no contentor como porcos numa manjedoura, numa ânsia de encontrar pérolas que faz transbordar o recipiente, eu vou fazendo a selecção com pinças e torcidelas de nariz, e chego a arrumar o que os outros desarrumam, como se o lixo em montinhos fosse menos asqueroso. Ontem um dos trash lovers estava em franca competição comigo, mas, vendo-me atrasado no meu falso pudor, teve um gesto magnânimo: ofereceu-me uma das suas melhores descobertas. Aquilo começou por me desconcertar (eu estava a tentar passar despercebido, e não imaginava que me pudessem achar camarada numa coisa destas), e de seguida deu-me ares de superioridade. O tipo tinha-me estendido um exemplar de “A Super Patrulha” (“Crime Busters”), com Terence Hill e Bud Spencer, e por alguma razão eu achei, com uma risadinha snob, cretina, que a merda que levava no carrinho de compras se não comparava àquilo.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O interesse da aposta

Pesando ganhos e perdas, Pascal concluiu ser mais vantajoso para a criatura apostar na existência de Deus que na sua inexistência. Acusaram-no de interesseiro. Como se a matéria em análise, indissociável da fé, não fosse ponderada sempre, lá no fundo, sob influência do interesse: creio, se tal se revelar oportuno; descreio, se isso me convier; evito pronunciar-me, se aí residir o benefício. As diversas provas e refutações, essas, são meros rendilhados do santo calculismo que nos move.

Countdown para 2 de Março: 3...

Conselho de Ministros no País das Maravilhas


Só para lembrar (se preciso fosse...) as razões do nosso descontentamento.


Chapeleiro Louco: Vítor Gaspar
Lebre de Março: Pedro Passos Coelho
Gato de Cheshire: Miguel Relvas
Alice: Álvaro Santos Pereira
Coelho Branco: José Pedro Aguiar Branco
Rainha Vermelha: Assunção Cristas
Rainha Branca: Paula Teixeira da Cruz
Lagarta: Paulo Portas
Rato: Pedro Mota Soares
Tweedledee e Tweedledum: Paulo Macedo e Miguel Macedo
Humpty Dumpty: Nuno Crato

Segunda Lei de Newton

Ainda pensa nele com frequência, e alimenta com denodo aquela ideia tola de que um dia se vão encontrar à entrada da ponte. Volta lá todos os sábados, à mesma hora, com a desculpa do trekking. No início imaginava-o a ir até ali nem que fosse uma vez por curiosidade, como se também ele ocupasse os seus pensamentos com ideias daquelas. A literatura dedica-se frequentemente a testar realidades alternativas, a averiguar como seriam as coisas se diferentes opções fossem tomadas, diferentes forças tivessem agido, a conceber novos destinos e desfechos para eventos conhecidos do público ou do autor. Pode dizer-se muitas vezes que um romance é uma variação sobre um tema e que, sendo as variações infinitas, os temas o não são. No caso dela, isto é uma verdade insofismável: o seu único tema é o encontro malogrado.
Acontece que ela não é uma escritora, apenas uma pessoa um pouco perdida, pelo que o exercício ficcional reiterado não lhe traz elogios da crítica, mas a censura branda do psicanalista. Imaginá-lo uma alma gémea, alguém que não resiste um dia a vir até ali interrogar-se sobre que rumo teria tomado a sua vida se tivesse comparecido ao encontro, faz parte da patologia dela e é uma nova motivação para a saída de sábado à tarde. Que se junta à já de si suficiente tendência para remoer frustrações com método.  
Hoje, porém, está prestes a descobrir que as coisas podem mudar. Parou como sempre na entrada da ponte, para consultar o telemóvel e perscrutar o horizonte num gesto ritual, evocativo, fingindo uma pausa para beber água e retomar o fôlego. Sempre pensou que se o encontrasse a meio de uma das suas caminhadas a visão dele seria suficiente para a deter. Mas, porque ela está de momento parada e ele vem com o braço pelo ombro de uma qualquer, o princípio fundamental da dinâmica será demonstrado de forma diferente: quando ela os vê, sente um desejo súbito de experimentar o jogging e sai a correr na direcção da força que emana do casal, mas em sentido contrário à localização deles.
Se a força gravitacional dos corpos pode ser uma boa imagem para descrever o amor, a segunda Lei de Newton pode talvez usar-se com igual propriedade para assinalar a evolução desportiva de uma rapariga magoada.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Para lá dos modelos

Ao criarem o modelo de ser humano que as legitima, e que os seus membros aprovarão como sinal de que há rumos seguros e destinos exemplares, as diversas comunidades tendem a gerir a «sociabilidade insociável», enunciada por Kant, de tal modo que o valor implícito no primeiro elemento da expressão se conserve imune aos eflúvios perversos denotados pelo segundo. Um destes é a solidão intransferível que nos torna errantes; outro, a rebeldia metafísica que nos torna únicos.

Countdown para 2 de Março: 4...

Sacrifícios? Fiz. Faço. farei. Harakiri? Não, Obrigado! Aos membros do Governo: TENHAM JUÍZO!


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Primeira Lei de Newton

O ritmo dos seus passos abranda com a subida, mas não é subida que a faz abrandar. À entrada da ponte pára, como se estivesse indecisa quanto ao caminho a escolher. Mas não está. Olha em volta, mas não há sinal da silhueta dele no horizonte. Consulta o telemóvel, e não tem nenhuma mensagem. Não está segura de querer ter uma mensagem. Podia ser uma do género «Estou atrasado, não demoro», mas também podia ser pior. Um evasivo «Não posso» ou um assertórico «Não vou, foi um engano.» Afinal, as coisas não haviam ficado assim tão claras. Tinham combinado às duas no parque, mas quanta convicção há num «sim»? Ela não lhe mandou nenhum sms a pedir-lhe que confirmasse, temia dar-lhe uma oportunidade de agora responder «não». É mais fácil responder do que tomar a iniciativa. Por vezes também é mais fácil aparecer a um encontro do que dizer-se que não se quer ir a esse encontro. A inércia dos corpos e da vida. Ela deposita nesse princípio da dinâmica as suas últimas esperanças, se tudo o resto falhar. Tem esperança que ele apareça nem que seja para não se dar ao trabalho de faltar.
Consulta de novo o horizonte e o ecrã do telemóvel, mas não há sinal dele, nenhuma das suas manifestações possíveis tem lugar. Apenas a passagem do tempo, assinalada com quatro dígitos que há muito deixaram de ser 14:00.
Então começa a descer o caminho pelo outro lado e os seus passos vão acelerando. Como uma bola que, depois de quase se deter ao chegar ao cume, ganhasse de novo velocidade na descida, a gravidade vencendo o atrito. Em poucos minutos adopta um passo furioso, como o daquelas outras raparigas que vão ao parque para caminhar, gastar calorias em marchas vigorosas, de fato de treino justo, garrafa de água na mão e um tagarelar ofegante. Ao fim de um quarto de hora de caminhada, descobrindo centenas de metros depois prazeres insuspeitados no esforço físico e remoendo o despeito amoroso, consegue-se imaginar a fazer aquilo para o resto dos seus dias: tornar-se viciada em caminhadas e presa a um encontro que não ocorreu. Não é preciso muito: umas sapatilhas com bom piso e um espírito romântico obsessivo, também ele obediente, na sua persistência, à primeira Lei de Newton.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Nevoeiro

De longe, diz uma delas: «Com este nevoeiro, a gente nem se vê!» «Hã?», pergunta a segunda mulher. «Com este nevoeiro, a gente nem se vê!», repete a primeira. «Ora, vê lá tu!», exclama a outra. Também faria sentido declarar: «Com este nevoeiro, a gente nem se ouve!» E aqui é obrigatória a evocação do último poema da Mensagem, adaptado ao presente. Hoje, mais que nunca, Portugal é nevoeiro; mas gastaram-se de todo os sinais do Desejado.

Countdown para 2 de Março: 5...

T-shirt: 'Ich bin ein' mexilhão


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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Livros e estantes

Se cresce o número de livros nas estantes, aumenta a consciência de que a maior parte ficará por ler, agudizando-se em simultâneo a omnipresente certeza da finitude. Se o número de livros diminui nas estantes, enfraquece o impulso que nos fazia ver neles o lugar de uma pequena redenção. Daí os leitores notarem, se minimamente compulsivos, que as relações entre os livros e as estantes são mais de insólito e geral conflito do que de beatífica irmandade.

Do «de» e do «da»

Remetendo a questão para o bas-fond, também será legítimo perguntar qual a diferença entre um filho de puta e um filho da puta?