quarta-feira, 6 de março de 2013

Da curteza dos dias

Pesquisas esotéricas asseguram que, em virtude do «aumento da frequência vibratória do planeta», os dias — note-se que os relógios se vão adaptando à novidade — são cada vez mais curtos, e facilmente o percebemos. Mas, se «vibra» a Terra, tudo na Terra «vibra»: clepsidras, gestos, suspiros, tarefas, sonhos, embirrações, não havendo um termo comparativo susceptível de nos permitir dar conta da mudança. A situação permanecerá obscura se admitirmos que, para lá do orbe, o ardor «vibratório» é semelhante.

Movimento «Que Se Lixe a Troika» revê em baixa números da manif de Lisboa: afinal, foram só 799.999 a protestar…

Parece que havia uma turista infiltrada entre os manifestantes:


Senhores coordenadores do movimento «Que Se Lixe a Troika»:

A manif de sábado foi grande, não havia necessidade de “estimarem” em 800.000 os manifestantes na capital.

Com números tão fantasiosos, até parecem o Vítor Gaspar.

Terceira Lei de Newton

Os participantes concentram-se na zona de partida, formando uma multidão compacta e saltitante. Na orla, alguns apoiam-se em muros ou em postes e fazem alongamentos. Todos se agitam, aquecendo os músculos, o que concede àquela massa humana um pulsar nervoso. Há gente com um divertimento ensonado, matinal, e gente já um pouco histriónica. Os mais habituados apenas aguardam o sinal de partida, têm um entendimento burocrático dos prolegómenos. Ela observa uns e outros, tentando decifrar como a vêem a si, em que grupo a inserem. É a sua primeira meia-maratona, mas não gostaria de ser tomada por principiante, treinou muito, nos últimos meses tem vivido para a corrida, está cada vez mais resistente e mais rápida. Infelizmente, os seus pensamentos sobre ele não estão menos persistentes ou perturbados.
Inscreveu-se não para se divertir brincando aos atletas — integrando-se nos que apenas participam solidariamente, pela causa ou pela saúde, e desistem antes do fim, gozando com a própria baixa forma —, mas como consequência natural do treino, da necessidade de correr. E da recomendação do psicanalista, que, talvez por defeito de diagnóstico, viu virtudes na sua dedicação ao desporto. Embora não tenha exageradas ilusões quanto às suas capacidades de atleta, está decidida a competir, a disputar um lugar honroso. Ter objectivos destes é bom para si, é-lhe dito. E é tudo o que lhe resta, pensa com amargura.
O percurso, que sai do perímetro rural da cidade e termina na praça do município, há-de atravessar o parque onde ela treina. E esse momento será o derradeiro teste. Estará, quinze quilómetros depois, suficientemente motivada para chegar à meta numa boa posição e ficar feliz com isso? Ou a passagem pela entrada da ponte gorará todo o trabalho motivacional e ela regressará ao ponto de partida sem concluir a prova?
Ouve-se o apito e ela sai, primeiro num passo saltitante que não avança, aguardando que o grupo se distenda e os amadores abram alas, e depois alcançando progressivamente um ritmo que a mantém na peugada do pelotão de profissionais. Corre a primeira hora junto ao rio, numa zona onde ele já ganhou caudal e largura, e os seus pensamentos vão frequentemente mais rápidos, vogando contra a corrente, até ao local do desencanto. À chegada ao parque, contudo, mantém-se próxima da cabeça da corrida sem acusar demasiado o desgaste, e isso fá-la acreditar na possibilidade de ficar entre os primeiros (pelo menos entre as primeiras). É a única alegria em muito tempo. Talvez possa haver outras razões para se correr. Para se viver. Põe pela primeira vez toda a energia e concentração no esforço de chegar à meta. Passa pela ponte sem consciência total de passar por ela. Na praça, há uma outra multidão à espera dos atletas. Familiares, amigos, curiosos, imprensa. Há ovações quando chegam os vencedores da prova e, não muitos minutos depois, há ovações quando ela conquista o terceiro lugar do seu escalão.
À sua volta vê sorrisos e entre os sorrisos está o dele. As pessoas batem palmas, e ele bate palmas. Bate-lhe palmas. Há outros conhecidos a bater-lhe palmas, divertidos e vagamente orgulhosos da sua façanha, mas é a ele que ela se dirige, meio entontecida com o cansaço, vivendo a alucinação de o ver aplaudi-la e sorrir-lhe. Numa imitação de outros atletas, quer abraçá-lo, lançar-se-lhe ao pescoço, partilhar a sua felicidade, que já nem sabe muito bem qual é, mas ele intercepta-lhe as mãos a meio do percurso, oferece resistência e por momentos são a figura viva da terceira Lei de Newton — e naquele braço de ferro ela pondera o triatlo.


P.S. Terceira parte de uma narrativa, que depois de revista a segunda parte, se poderia chamar “Uma carreira no desporto”, ou algo parecido.

... e mais de 3300 anos depois, o Egipto vinga-se daquilo do Êxodo 7–12


Êxodo, capítulos 7 a 12. Em todo o rigor, os gafanhotos constituem a oitava praga (Êxodo 10:1–20).

Xauzito!


A origem do mito

As suas correrias levaram-no ao jardim onde está o pequeno santuário da Nossa Senhora. A determinado momento, ao levantar a cabeça deu com o nicho envidraçado e deteve-se, como se atingido por um raio paralisante de um super-herói ou de um invasor alienígena. Talvez tivesse ficado curioso com a estatueta branca, tentando decifrar a ideia por detrás daquilo ou fazendo uma apreciação estética. Ou talvez tivesse parado para ouvir algum recado, uma confidência — diz-se há muito que a Virgem fala com as crianças. Quase um minuto depois, saiu de novo em correria a saltar os canteiros, não se sabe se para regressar à escola, se para fundar um novo culto religioso.

terça-feira, 5 de março de 2013

Júbilo forçado

Há livros de auto-ajuda que obrigam a pessoa a imaginar-se em puro regozijo a cada instante, sem direito a intervalo para suaves melancolias. Não está aqui em causa a validade da «lei da atracção» nem a pertinência do ditame que manda, conservando a sensatez, «fingir até que seja verdade». Acontece é que, se tais regras forem certas, a ditadura do júbilo forçado e contrafeito poderá não «atrair» outra coisa além da obsessão, da neurose ou da megalomania.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Primeira avaliação

Consta ser regra: num primeiro encontro, as mulheres avaliam outrem de baixo para cima, começando pelos pés e terminando na cabeça; os homens realizam-no em sentido inverso. Se assim for, as primeiras impressões, além de duradouras, terão, para as mulheres, uma estrutura ascendente, elevando-se da terra ao céu; para os homens, uma estrutura descendente, baixando do céu à terra. Verificam-se excepções se a pessoa a conhecer surgir em posição oblíqua, na horizontal ou a fazer o pino.

Não me lembra nada nem ninguém

ESCRÚPULOS. Editor e poeta, não se publicava a si próprio. Publicava o seu editor, que, igualmente poeta, também não se publicava a si próprio.

domingo, 3 de março de 2013

A semântica do capitalismo (2)

«Suíça aprova limites para salários abusivos dos patrões.» Agora terão de ser medianamente abusivos? Moderadamente abusivos? Só um bocadinho abusivos? Será o Público apenas coerente nas suas estranhas opções de sintaxe ou estará a ser involuntariamente sincero, a interpretar correctamente a realidade, a traduzir acertadamente a semântica do capitalismo?

A semântica do capitalismo

A crer na sintaxe do Público, se o sim ganhar no referendo suíço, haverá «limitação das “remunerações abusivas” dos “patrões” de grandes empresas». Limitação? Tipo: abusem, mas não muito? Abusem dez vezes por mês em vez de 12? Abusem à terça, quinta e sexta, mas não à quarta, sábado e domingo? Devo deduzir que em vez de remunerações gritantemente imorais apenas serão permitidas remunerações suavemente obscenas? O povo continuará a ser fodido, mas em versão softcore?
Ok, vou ler a notícia para ver se os suíços foram grandes o suficiente para referendarem o fim das remunerações abusivas.

Jornalismo de miséria

Sacrifícios? Fiz. Faço. farei. Harakiri? Não, Obrigado! Aos membros do Governo: TENHAM JUÍZO!

O cartaz que reproduzo ao lado e o do «Cavalo de Troika» foram citados no Expresso online (via agências noticiosas).

Ou melhor, no caso deste, foi selvaticamente truncado: o jornalista transcreveu apenas o princípio e o fim («Sacrifícios? Tenham juízo»), adulterando a mensagem que eu realmente transmiti.

É também deste “jornalismo” que se faz a nossa miséria.

Amor de mãe

Diziam-lhe que o filho parecia um delinquente, um marginal; perguntavam-lhe se andava de olho nele. Ela retorquia que as vizinhas tinham um pensamento estereotipado. O miúdo limitava-se a imitar o que via na televisão. Tinha optado por aquele look e apenas se esforçava um pouco mais do que outros para o tornar verosímil. Isto dos adolescentes hoje em dia era só aparência, as vizinhas bem o sabiam, que olhassem para o que tinham em casa.
Ao sábado à tarde o rapaz saía para ir ter com os amigos. Levava a flauta, e a mãe sentia uma ponta de orgulho por o ter matriculado no Conservatório. Não há como a música para distrair os putos dos vícios. Quando ele anunciava a sua saída depois do almoço ela sentia-se tão descansada como se ele fosse a caminho da catequese. (Mais ainda do que isso — nunca se sabe do que são capazes os padres.) Deliciava-se a imaginar os miúdos junto ao rio em cantorias de adolescentes nas tardes que prenunciavam a Primavera. Havia algo de campestre numa flauta e ela, amante do campo, orgulhava-se que fosse o seu rapaz quem, no grupo, soprava a flauta.
Foi-lhe por isso chocante descobrir que não havia cantorias à beira-rio e que ninguém soprava na flauta. Havia, isso sim, umas festas com drogas e uma engenhosa transformação do instrumento musical em cachimbo. A rapaziada passava-o e chupava-o como índios negociando a paz, e ela, depois do choque, perguntou-se se devia sentir orgulho no engenho do filho.

Filosofias da salvação

As principais filosofias da salvação — incluamos aí, por exemplo, o estoicismo, o gnosticismo, o budismo e formas alternativas de abrandar o pessimismo — não pretendem gerar no discípulo a ideia segundo a qual ele perderá tudo e em si mesmo é nada, mas sim a consciência de que ele nunca teve realmente nada e de que o acto de proceder em sintonia com isso o fará sentir-se tudo — ou, pelo menos, contente por acordar e satisfeito por adormecer.

Dar uma por semana (7)

Panqueca: s. f. Orgia, bacanal. [Wackypedia: contributos para um léxico alternativo]

sábado, 2 de março de 2013

Talentos

Quem redija textos poeticamente cansativos e intelectualmente nulos, tendo em simultâneo a consciência de ir engendrando uma obra-prima, é detentor de especial talento: o talento para silenciar a autocrítica e para se colocar na pele de um outro que a imaginação lhe oferece em retratos duvidosos. Mais tarde, quando esse talento o abandonar e o percurso lhe exibir ilusões desfeitas, ele há-de ver naqueles instantes criativos do passado só o frívolo desejo de uma insensata redenção mundana.

É a Hora! Valete, Fratres.

Contra os CABRÕES, marchar, marchar!


A grande mais-valia do nosso Hino é a sua versatilidade:

  • Em 1891, na sequência do Ultimato do Império Britânico, era «Contra os Bretões»
  • Em 1911, diplomacia oblige, passou a ser «Contra os Canhões» — e logo a História fez o favor de bater certo com a rima e inventou a Grande Guerra
  • Agora é «Contra os dilectos membros do nosso Governo» (ou a versão métrica, rimática e tematicamente apropriada...)


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sexta-feira, 1 de março de 2013

Questões de teste

«Podemos trocar a ordem das perguntas?», «Pode chegar aqui?», «Posso tirar uma folha?», «Posso pedir uma caneta?», «Pode-me dizer quanto tempo falta?», «O enunciado fica para nós?» — eis as questões-tipo a que um professor é submetido, enquanto o aluno é submetido a outro tipo de questões. Por vezes, surgem interrogações insólitas: «Stôr, nós temos de fazer o teste como se o stôr não soubesse nada, certo?» «Talvez... Mas pelo menos partam do princípio de que sei ler.»

IRS: «Sujeito Passivo»

Modelo 3 do IRS: E depois admiras-te que as Finanças te vão ao cu?

(Começou hoje a 1.ª fase de entrega em papel das declarações de IRS relativas a 2012.)

Countdown para 2 de Março: 1...

O Governo responde: «Que se lixe a Realidade! Queremos os nossos modelos económicos FANTASISTAS!»


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