terça-feira, 9 de abril de 2013
Saber o que se quer
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Perscrutando o futuro
(É sobre astrologia e não sobre cartomancia — mas é o que se arranja, Rui.)
Memorial interrompido
(Inspirado no poema “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade)
Tristão existia na memória de Paula, que dançava na de Romeu, que perdurava na de Cecília, que brincava na de Amândio, que brilhava na de Laura, que não vivia em memória alguma. Tristão rumou ao deserto e foi esquecido. Paula tornou-se criadora de enigmas; Romeu, encantador de serpentes; Cecília, domadora de prantos; Amândio, inventor de epitáfios. Laura casou-se com um homem que sabia de cor os sonetos de Petrarca e de cujo nome já ninguém se lembra.
O cartomante Quim Zé
Nos últimos dois dias vi propostas de ajuda de um cartomante coladas com fita-cola em caixas automáticas e portas de bancos. Num primeiro momento, pensei que a oferta se dirigia ao próprio sistema financeiro, interpelando-o nos seus santuários ou pontos onde ele se insinua junto dos mortais. Depois lembrei-me que cartomantes são espíritos apenas dedicados a previsões, e suspeitei que a ajuda era afinal proposta a Vítor Gaspar (com o cartomante, pobre info-excluído, a imaginar que um multibanco é um terminal com ligação directa ao ministro das finanças). A certa altura soube que o TC chumbara o orçamento e concluí que aquilo eram já papéis de Gaspar à procura de emprego. Que o cartomante assinasse Quim Zé não me espantou: era a ultima tentativa de o ministro se distinguir de um Zé qualquer.
P.S. Não podemos pôr de parte a possibilidade de o cartomante Quim Zé estar na verdade a informar os empreendedores necessitados de financiamento de que, entre os bancos e o euromilhões, mais valia arriscarem no jogo, onde a ajuda de um cartomante pode ser realmente útil.
domingo, 7 de abril de 2013
Ócio anímico
sábado, 6 de abril de 2013
Compreender e decorar
sexta-feira, 5 de abril de 2013
Mais de sessenta mil
quinta-feira, 4 de abril de 2013
Futuro ex-Dr. Relvas
Neste dia em que, finalmente!, foram confirmados o pedido de demissão do ministro Miguel Relvas e a iminente anulação da sua licenciatura-a-jacto, republico aqui um cartaz que criei em julho de 2012, quando este escândalo rebentou.
Desapontamento
Público e notório
1.
Uma apologia: «auto-suficientes no vinho e na cerveja.»
2.
Um epitáfio: «apenas auto-suficientes no vinho e na cerveja.»
3.
Um jornal cujo problema talvez já não seja apenas a falta de revisores: «Auto-suficientes no vinho e cerveja, ao contrário dos cereais.»*
4.
Se o Público queria dizer que os cereais produzem pouco ou bebem mais do que produzem, a frase está certa — e sejamos um pouco solidários com eles, com os cereais: ninguém devia ter de importar para beber (a não ser por desejo de experimentar beberagens finas ou exóticas).
5.
Se o Público queria dizer outra coisa, devia ter escrito: «Auto-suficientes no vinho e na cerveja, ao contrário de nos cereais.»
6.
Talvez o Público quisesse na verdade dizer que passou de um jornal de referência a um jornal de referência de Belmiro de Azevedo: baixos salários, baixo QI, muita auto-insuficiência.
* Destaque na última página do Público de quarta-feira.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
A voz e o destino
Warpaint
Ouço-as e lembram-me coros adolescentes em grupos religiosos ou de escuteiros, meninas de saia rodada cantando a várias vozes, por vezes num só tom, a mesma melodia de thriller enquanto abanam as tranças. Ouço-as e as suas músicas parecem-me imperfeitas, inacabadas, jam sessions insistentes à procura da forma final de uma canção, várias canções à luta na mesma música, algumas boas ideias reunidas a outras estranhezas. Ouço-as e lembro-me das minhas próprias jam sessions adolescentes, a obsessão com uma frase, uma melodia, um som, uma malha, uma sequência de acordes, um ritmo, obsessão não raro cruzada com certa embriaguez movida a Super Bock. Ouço-as e vejo-as como me vi a descobrir um instrumento, deslumbradas com os sons, o minimalismo repetitivo resultante do domínio incipiente da guitarra e do fascínio da descoberta, da necessidade de ouvir e reouvir um truque recém-aprendido, um acorde encontrado, uma harmonia conseguida. Ouço-as e julgo reconhecer amostragens de diferentes camadas geológicas de uma parte do meu próprio território, punk de setenta, underground depressivo dos eighties, os anos de Seattle, alternativos 90s e seguintes. Ouço-as e por vezes não consigo parar de as ouvir, também eu preso na espiral obsessiva que se inicia em “Exquisite Corpse” (EP) e continua por “The Fool” (álbum).
Certa música imperfeita tem uma acção hipnótica sobre mim. Se eu fosse uma serpente, o indiano que me quisesse encantar teria de ler a história do rock alternativo e não ser um virtuoso no seu instrumento.
terça-feira, 2 de abril de 2013
Correcções
Sinto, com certa alegria, que vamos dar um estoiro com esta austeridade
Tenho um amigo que, há um ano, para minha ilustração e conversão, me abastecia de vídeos e artigos de Medina Carreira. Chegou a oferecer-me um livro do ex-ministro, por escárnio (e mania de gastar acima das suas e, no caso, minhas necessidades). Sempre que nos encontrávamos, entre o glorioso 5 de Junho de 2011 e a evidência-até-para-totós do descalabro passista, as nossas conversas redundavam em histeria e cólera, com a parte patética deste género de debates a ser assegurada por mim (tenho um dom).
Na verdade, o meu amigo e eu concordávamos na grande maioria dos argumentos. Era aliás ele quem mais pessimista estava em relação às políticas de Passos Coelho, na medida em que é por natureza pessimista quanto ao futuro da Europa e do Ocidente. De Medina Carreira, apreciava, mais do que tudo (percebe-se porquê), o tom tremendista e apocalíptico — les beaux esprits se rencontrent.
Pelo meu lado, se via pertinência em afrontar o meu amigo e o governo PSD/CDS não era porque acreditasse sem hesitações em alternativas, ou numa solução indolor. Era também, reconheço, para me confortar, escolhendo como os religiosos o diáfano para apaziguar os dias.
Mas fosse como fosse, tinha as minhas ideias. Não acreditava que um plano de reforma radical funcionasse num prazo tão curto. Como todas as pessoas sensatas postas perante a verdadeira dimensão do problema (que curiosamente as instituições financeiras e políticas, com raras e individuais excepções, foram estimulando e ocultando nos anos anteriores), estava disponível e sabia que eram inevitáveis sacrifícios, perdas de rendimentos. Mas achava que uma reforma do Estado capaz de enfrentar eficazmente a dívida e o défice precisaria de uns dez anos e que a Europa tinha sido mesquinha e estúpida em não criar condições para isso.
Foi pois com um ar trocista e de vanglória que enviei hoje ao meu amigo a notícia que cita Medina Carreira defendendo que «o tempo de aplicação do memorando deveria ser estendido a seis anos», caso contrário vamos «dar um estoiro com esta austeridade». Digo que o meu ar era de vanglória porque conheço o meu amigo: não concederá mérito à minha antiga intuição nem acreditará numa extensão do prazo — vai é rejubilar com a expressão do jurista. «Dar um estoiro» é também uma expressão sua frequente em relação ao país, e vê-la elevada a título premonitório é algo que decerto vai excitar a sua morbidez.
E isto leva-me a desconfiar que morbidez é também patologia de Vítor Gaspar.
Involuntária ironia
Amina Tyler, tunisina, publicou duas fotos em topless no site do movimento feminista ucraniano Femen, com mensagens escritas no tronco nu: na primeira, em inglês, lê-se «Foda-se a vossa moral»; na segunda, em árabe, «O meu corpo pertence-me, não serve a honra de ninguém». Seguiram-se as costumeiras ameaças de morte por parte de islamistas. Em reacção, o movimento Femem declarou o dia 4 de abril como «Dia da Jihad em Topless».
Num desenvolvimento involuntariamente irónico, o tabloide americano New York Daily News, no artigo que dá conta destes acontecimentos, censurou as duas fotos, pixelizando a palavra «fuck», os mamilos e os dedos médios erguidos de Amina.
(Por cá, o Público absteve-se de publicar as imagens de Amina — substituiu-as por um desenho inspirado na foto com inscrição em árabe —, deixou a frase em inglês sem tradução e referiu-se apenas ao «gesto obsceno» da jovem tunisina.)
«É melhor não pensarmos nisso...»
Se não houvesse tiranetes do gosto nas TVs e numa grande quantidade de câmaras, muito povo estaria ele próprio disposto a sair à rua a gritar que «os portugueses quando vão ao teatro querem apenas divertir-se».
Essa é, precisamente, a premissa do livro Fahrenheit 451, de Ray Bradbury.
O grande pecado de François Truffaut, na adaptação ao cinema, foi alterar (ou deixar irreconhecível) esta ideia.
Quando vi o filme, interpretei estar perante uma sociedade com um regime repressivo clássico, que proibia os livros por eles serem perigosos para esse regime, por alimentarem sediciosos (não que os livros em si fossem políticos, mas os regimes repressivos, mais do que os outros, viçam na ignorância). Pensei, com as devidas diferenças, em regimes como o Nazi, o Soviético ou mesmo o nosso Estado Novo.
Mas quando, muitos anos depois, li o livro (que em termos estéticos é pior do que o filme), vi que a ideia era ainda melhor: o narrador faz-nos saber que o sistema repressivo sobre a posse e leitura de livros foi imposto pelo desejo manifesto da maioria, que não queria enfrentar as questões incómodas levantadas pelos livros e seus leitores. Queriam paz de espírito: como ouço frequentemente por aí, «É melhor não pensarmos nisso...».
Por isso Fahrenheit 451 não é redundante face a um, literariamente muito melhor, Mil Novecentos e Oitenta e Quatro. De facto, os dois são um bom contraponto. O livro de George Orwell fala-nos de um regime ditatorial em que uma minoria oprime e manipula a imensa maioria; o de Ray Bradbury apresenta-nos um regime originalmente “livre”, em que a maioria estupidificada oprime e tenta formatar à sua imagem e semelhança uma minoria (cada vez menor) que se recusa a ir por aí. Fahrenheit 451 e Mil Novecentos e Oitenta e Quatro formam uma dupla esclarecedora: lembram-nos que a ditadura e a opressão podem lançar raízes em diferentes terrenos.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
O paradoxo do 1 de Abril
«Os portugueses não estão preparados para isto»
Na peça “Três dedos abaixo do joelho” os censores de teatro do Estado Novo foram convidados por Tiago Rodrigues a serem co-autores do texto. Na verdade, eles são praticamente os únicos autores, o dramaturgo e encenador limitou-se a copiar e colar inteligentemente frases dos seus relatórios e com isso construir o guião da peça e os diálogos dos actores. Mais de quarenta anos depois, testemunhamos como a liberdade criativa era cerceada e, simultaneamente, como uma elite no poder se achava no direito de interpretar os interesses dos portugueses, ou, pior, como se achava no direito de decidir o que os portugueses conseguiam ou não perceber. A inteligência dos nossos pais e mães, tios e avós, a que se referem vários relatórios, era ofendida com decretos do género: «os portugueses não estão preparados para isto»; «os portugueses quando vão ao teatro querem apenas divertir-se»; «os portugueses não querem estas inquietações, estas perturbações do espírito».
Hoje, quando nos sentamos livremente numa plateia, estaremos a precipitar-nos se sentirmos que isso vinga os nossos antepassados. O facto de ocasionalmente nos permitirmos e nos permitirem entrar numa sala de teatro para sermos inquietados ou perturbados é uma vingança provisória, efémera, sem grande alcance e certamente não garantida.
O país já não dispõe daquelas figuras de lápis azul e mangas-de-alpaca laboriosamente encerradas em gabinetes do Secretariado Nacional de Informação para determinarem ao que o país pode ou não pode assistir. Dispõe de outras: sentadas nas direcções de programação das televisões (pública e privadas) e sentadas na vereação de cultura de uma enorme quantidade de câmaras municipais no país. Não usam o lápis azul porque hoje os amanuenses não escrevem com lápis, nem têm um regime ou uma moral de estado para defender.
Mas têm a mesma ignorância despótica ou a mesma aversão à diversidade e ao livre arbítrio que tinha o Estado Novo. Cidadãos que pensem e escolham livremente são um empecilho na luta pelas audiências e uma dificuldade evitável para uma gestão autárquica que se quer simples como umas férias de Verão.
É verdade que, ao contrário das instituições do Estado Novo, as televisões e as vereações não visam defender um regime nacional ou uma moral pública quando exercem a sua política de estrangulamento ou afunilamento do gosto — mas está na sua natureza defender o statu quo, e, se a moral ganhou em muitos campos uma considerável elasticidade, não foi em geral a suficiente para suportar interesses divergentes.
Um e outro sistema, o das ondas hertzianas e o do feudo provincial, precisam de uniformidade para exerceram a sua influência, as televisões para venderem os seus sabonetes, certo poder autárquico para poder manter-se com os mesmos fracos protagonistas e a mesma atávica incompetência.
Acresce que atávica é também a relação de muitos portugueses com a diversidade e com as coisas que inquietam o espírito. Se não houvesse tiranetes do gosto nas TVs e numa grande quantidade de câmaras, muito povo estaria ele próprio disposto a sair à rua a gritar que «os portugueses quando vão ao teatro querem apenas divertir-se».
Na verdade, fá-lo frequentemente, desdenhando ou considerando uma veleidade insustentável haver concidadãos que queiram ir ao teatro por outras razões.

![MELANCÓLICA. s. f. Dor gastrointestinal provocada pelo consumo excessivo de frutos da família das cucurbitácias. [Wackypedia: contributos para um léxico alternativo]](http://3.bp.blogspot.com/-fQInXsut15Q/UWFch0sGinI/AAAAAAAAB0Q/u3OU4VQwtU4/s1600/Sa%C3%BAde_Melanc%C3%B3lica_500.gif)


