sábado, 20 de abril de 2013

O eu em exercícios

«Sou resultado do que até agora fui», jura o cientista. «Não sou quem fui, só a antecipação do que hei-de ser», assegura o filósofo. «Sou o que sou, espelhado em tudo o que me cerca», acentua o místico. «Não sou senão inúmeros fragmentos que de mim restam», sublinha o poeta. O primeiro adiciona, o segundo subtrai, o terceiro multiplica, o quarto divide. E todos, deste modo, se entretêm a fazer exercícios matemáticos com as suas discretas ilusões.

Autor maldito

Era um autor mal dito. O vulgo ignaro chamava-lhe «Garré».

sexta-feira, 19 de abril de 2013

«Tu não queres, pois não?»

Conta-se que um camponês, na altura de dar de beber aos que lhe amanhavam a terra, exibia a garrafa e colocava esta pergunta: «Tu não queres, pois não?» Adivinha-se idêntica estrutura nos instantes, dos quais se dirá serem «dádiva plena». Melhor lhes cabem os rótulos de «ofertas indecisas», «dons em fuga». Mesmo se o vinho toca os lábios e o desejo finge apagar-se, uma questão se intromete, nascida fora ou engendrada dentro: «Tu não queres, pois não?»

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Do episódio à significação

A distinção entre memória episódica, pessoal e autobiográfica, e memória semântica, impessoal e genérica, permite clarificar a doutrina platónica da reminiscência. Aprender, sublinha o filósofo grego, é recordar. Mas recordar o quê? Seguramente não as vicissitudes de uma vida, antes as leis que supostamente as dirigem. Se a memória semântica abafasse por completo a episódica, o indivíduo acabaria por rumar, sem hesitações, ao mundo das Ideias. Resta saber se ainda lhe sobraria algum vestígio da sua identidade.

Agora a cultura será efervescente

Diário de Notícias:

Filomena Cautela apresenta magazine cultural na RTP2

Afinal a RTP2 ainda pode acolher um magazine cultural. Esta é uma forma de ver as coisas. A outra é que a administração da RTP decidiu dar forma ao sonho de uma menina.
Filomena Cautela, parece que apresentadora e actriz, tinha o sonho de ser apresentadora de um “programa cultural”. Vai daí, apresentou a ideia à RTP e a estação achou-a tão necessária e inovadora (um programa cultural!, quem imaginaria?) que não viu como podia recusá-la, abraçou-a de imediato.

A ideia parte de boas intenções — mas não consegue parar por aí; como em todos os sonhos adolescentes, entra em delírios. Por exemplo: «Quero fazer com que as pessoas percebam que a cultura não é aborrecida e que o teatro é bom, muda mentalidades, sociedades». Até aqui todos de acordo, certo? (Mais ou menos, pronto.) Só que a frase está incompleta. A apresentadora também acha que o teatro (ou a cultura) «nos pode tirar da crise», mas, lamentavelmente, não explica se é através do clássico deus ex-machina ou de outro artifício cénico. Num segundo exemplo, revela-nos que «o mote do programa é falar de cultura e de arte de uma forma acessível, directa, estimulante». Poderíamos achar isto redutor mas aceitável — se ela não acrescentasse que também quer falar de cultura de uma forma «efervescente».

Ora, uma coisa que é a concretização de um sonho, que acredita no fim da crise pela arte e pretende falar de cultura de uma forma «efervescente» parece um discurso de Miss Portugal, não um programa para levar a sério.
Esta generosidade cheira a legado do ex-ministro Relvas. Mas agora que ele saiu não poderíamos ter de volta a Paula Moura Pinheiro ou outra pessoa que não ache que a cultura tem de ser descomplicada, traduzida para dialecto púbere e apresentada buliçosamente, com câmara irrequieta, como se fosse o Top+?


P.S. Desconfio, mas pode ser apenas mau-feitio, que mostrar que «a cultura não é aborrecida» e falar dela «de uma forma acessível, directa» implicará omitir o “aborrecido” e tudo aquilo que não seja acessível e directo segundo os padrões de um público “efervescente”.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Acta existencial

Numa hora morta, reuniram-se os eus de uma pessoa viva, a fim de darem cumprimento à seguinte ordem de trabalhos: averiguar se existe um eu permanente. Evocaram-se filósofos, citaram-se poetas, recordaram-se místicos. Concluiu-se que «só ao tempo cabe decidir». Mas ele não foi convocado. Nada mais havendo a tratar, deu-se por encerrada a reunião, da qual se lavrou a presente acta, que, lida e aprovada, vai ser assinada por mim — e pelo último a deixar a sala.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Da impermanência ao nirvana

Monges budistas aplicam dias, até semanas, na criação de mandalas de areia colorida, que destroem uma vez finalizada a tarefa. Com tais exercícios, procuram mostrar a impermanência da vida e das coisas. Mas há uma alternativa mais exigente — e nem por isso menos reveladora — a esta propedêutica do efémero, capaz inclusive de oferecer antegozos do nirvana. Trata-se de não fazer quaisquer mandalas e de ficar serenamente à espera que elas se façam e desfaçam por si mesmas.

Ghostwriting

Depois de muitos anos a escrever para a gaveta a horas mortas, como o fantasma do bloco de apartamentos onde vivia, decidiu que chegara a altura de começar a ganhar algum dinheiro com o seu trabalho. Publicou um anúncio no jornal. Dizia: «Escritor inédito procura assinatura mediática para livro. Sigilo garantido.»

Na acepção de ghostwriting que a sua aversão a escrever os livros dos outros assim inaugurava, não eram as celebridades que procuravam competentes escritores-fantasma, mas escritores espectrais que procuravam nomes corpóreos aos olhos de editores e público. Os mercenários da escrita eram substituídos por mercenários da Parker ou da Montblanc dispostos a vender o seu autógrafo. Havia nisto um claro benefício para os leitores, afirmou desassombradamente alguma (rara) crítica.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Disposições

Talvez tenha razão Álvaro de Campos ao sublinhar que «a metafísica é uma consequência de estar mal disposto». Há, efectivamente, alguma falta de sintonia interna perante a excessiva realidade empírica nesse farejar obstinado de paralelos ultramundos. Mas, por vezes, a metafísica assume um tom mais leve, menos carente de fundamentos, e que não é fruto de se estar bem ou mal disposto, antes resulta do facto de se «estar disposto» — sem que se saiba exactamente a quê.

domingo, 14 de abril de 2013

É a ideia de uma Constituição, estúpido!

No Público:

[...] Passos Coelho foi muito duro para o Tribunal Constitucional (TC), comparou-o a uma força de bloqueio [...].
O primeiro-ministro voltou a dramatizar a decisão do TC, dizendo que o acórdão condiciona a acção do Governo e as opções políticas. [...]

Ó Pedro (amigo, pai, cidadão), essa é precisamente a função de uma Constituição: impedir que qualquer bicho-careto, com até pouco menos do que 50% de apoio popular, altere as regras do regime a seu bel-prazer, levado pela espuma dos dias ou motivações mais indizíveis. Uma Constituição serve para fechar portas, para deixar claro que os decisores políticos não têm todas as opções, que há linhas que não se podem ultrapassar.

A ausência de entraves à acção governativa é prerrogativa dos regimes absolutistas, autocráticos, autoritários ou totalitários.

O acontecimento decisivo

Várias vezes, em Les Confessions, transforma Rousseau certa experiência num «acontecimento decisivo», momento marcante do curso do existir ou da forma de ser. Mas convém notar que, surgindo o primeiro «acontecimento decisivo», todos os restantes lhe ficarão a dever a origem. A menos que se vislumbrem neles diversos pontos de partida — dada a ausência de laços que os reúnam. Isso ocorre quando o eu se sente diferentes pontos de chegada — graças a obscuras forças que o dividem.

O que é preciso é saudinha (4)

SEMINÁRIO. s. m. Banco de esperma. [Wackypedia: contributos para um léxico alternativo]

sábado, 13 de abril de 2013

Se

Se alguém, na crise da meia-idade ou da idade plena, decide colocar a questão «O que teria sido a minha vida se...?», talvez encontre aí a oportunidade de tecer evasões mentais ou então de corrigir inusitados sonhos. Mas o objectivo último de tal prática não se descobre, de todo, a um nível consciente: o indivíduo procura imaginar-se num possível modo de vida que jamais o levasse a perguntar se a vida poderia ter sido de outro modo.

Custos políticos

«Em termos de distribuição dos custos políticos, o Governo não foi muito inteligente», disse há dias o novel ministro Miguel Poiares Maduro. O problema foi o Governo ter optado por reduzir os salários no sector público em vez de ter seguido a via dos despedimentos. É que assim «acabou por alargar o leque dos descontentes».
Não interessa, portanto, se a opção do Governo era mais justa ou não. Nem sequer interessa, afinal, se a opção do Governo era mais justa do que a interpretação do Tribunal Constitucional. E não interessa, claro, a dureza dos custos sociais face à soberana importância dos custos políticos. Interessa é que o Governo foi estúpido. Se tivesse sacrificado sem hesitação algumas dezenas de milhares em vez de ter prejudicado um pouco umas centenas de milhares teria circunscrito o descontentamento. Maquiavel não diria melhor. E agora Maquiavel está no Governo.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Sem surpresa

O sujeito A, que hoje, perante a atitude sóbria do sujeito B, insiste em dizer-lhe que se deixe de sacrifícios inúteis, pois também ele acabará por descer à cova, é o mesmo que amanhã, vendo o sujeito B em actos desregrados, se julgará no paternal dever de o chamar à via das almas comedidas. Tal facto não surpreende: o ser humano é mais propenso a dar conselhos do que a manter-se coerente na hora de os distribuir.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

As virtudes da «visualização»

Acreditava que a mente agia sobre a matéria e que, mediante fé intensa e técnicas de «visualização», alcançaria tudo quanto desejasse. Como lhe apetecesse a imortalidade, decidiu «visualizar-se» vivo sempre e em toda a parte, mesmo dentro do caixão — sobretudo dentro do caixão. Em consequência do exercício, acabou por ser enterrado vivo. Já desperto, consciente do erro, quis escapar dali. Resolveu, pois, «visualizar-se» vivo em toda a parte — excepto dentro do caixão. Passado pouco tempo estava morto.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Justiça

Apesar de todos os erros e mistificações do Governo, há um ponto onde, por justiça, ele tem de ser louvado: a demissão de Relvas. É certo que pecou por tardia, absurdamente tardia; é certo que outros ministros de outros governos se demitiram ou foram demitidos por bem menos; é certo que o ministro não foi demitido, demitiu-se (permitiram-lhe essa última honra); é certo que a pressão pública foi inaudita; é certo que o ministro da educação é Nuno Crato. Tudo isto e mais umas coisas é certo, mas um governo avançar com um processo de averiguação sobre um seu ministro e não adiar ad æternum ou esconder os resultados, nem recusar assumir as consequências da averiguação, é novidade que deve ser saudada. Por vezes neste país o cumprimento de deveres e a coerência de decisões, de pessoas e instituições, têm de ser saudados, porque raros.
(E pronto, agora podemos voltar a vituperar o mau governo que nos calhou em sorte nestes dias de chumbo.)

«Ministério da Nuvem»

Naquele país, dizem os documentos, a função mais desejada e mais bem paga era a do «ministro da nuvem». Consistia o trabalho em «manter-se concentrado no céu» e em «regular o comportamento das nuvens» através da força exclusiva da mente, unindo-as, separando-as, dissolvendo-as, de modo a garantir um «clima universalmente justo». Em particular, valorizava-se o «adormecer em serviço». Nessa altura, a alma soltava-se para a atmosfera, fundia-se nas nuvens — e o estado do tempo ganhava «indescritíveis harmonias».

O mecânico

Como antes dele o gerente de uma churrasqueira e o escriturário de uma empresa, o mecânico, com apenas um pouco mais de vernáculo do que os grandes liberais dos blogues, declara que não se pode adiar mais, é preciso despedir funcionários públicos, essa corja. Não uma pequena quantidade para troika ver. Milhares, centenas de milhares. Talvez isso não resolva o problema do país de imediato, concede, mas resolve-o a médio prazo. Não diz se por milagre.
O mecânico não se lembra de que grande parte dos seus clientes são funcionários públicos e que o negócio pode afundar se os seus funcionários públicos deixarem de conduzir carros por muito tempo. Ou para sempre. O mecânico não se lembra de que funcionários públicos são os professores dos seus filhos, os médicos e os enfermeiros que mantêm a sua mãe viva e lhe permitem continuar a receber a reforma dela. São os tipos que lhe apanham à porta o lixo que ele deixa espalhar-se pelo passeio. E são aqueles gajos que conduzem a frota cuja manutenção lhe foi entregue por amigo bem colocado na câmara. O mecânico esquece-se, a bem dizer, de que o bem-estar e a economia do concelho estão por enquanto, para o mal e para o bem, dependentes do funcionalismo público. E, na sua precipitação, o mecânico esquece-se de que a própria esposa é funcionária pública (sem formação, desqualificada, na primeira linha dos despedimentos).
O mecânico não o sabe, não pensou a sério no assunto, mas fala dos funcionários públicos como de uma abstracção. Muito à anos vinte do século passado, fala dos funcionários públicos como de “os outros”, como de uma raça expiatória.

Ainda bem que, à escala nacional, o Governo e os seus liberalíssimos e cultíssimos bloggers não são deste aziago jaez.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Dead right

José Luis Sampedro (1917–2013):

Há dois tipos de economistas: os que trabalham para enriquecer os mais ricos e os que trabalham para empobrecer os pobres.