terça-feira, 30 de abril de 2013

Rebuçados camonianos

Um pacote de rebuçados peitorais exibe o semblante de Camões. Que tipo de associação se fará do produto ao inolvidável poeta? Ela deve ser encontrada em três expressões ali inscritas. «Sabor original», a primeira, dispensa esclarecimentos. «Rebuçados peitorais», a segunda, traz à memória o «peito ilustre Lusitano». «Alívio da rouquidão», a terceira, sugere uma resposta, embora incompleta, ao drama subjacente a estes versos: «No mais Musa, no mais, que a Lira tenho / Destemperada e a voz enrouquecida (…).»

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Aceitações

Consta: se o espírito aceitasse integralmente as coisas tal como elas são, encontraria nessa atitude remédio para todos os males. Pois... Mas, se as coisas aceitassem o espírito tal como ele é, não haveria males nem exigências de remédio. De qualquer modo, considere-se embora a «aceitação» um princípio de sabedoria ante os irreparáveis desequilíbrios do corpo, dificilmente ela merece idêntico estatuto se adoptada perante um mundo que teima em albergar vermes com a aparência de seres humanos.

domingo, 28 de abril de 2013

Cartão e raposa, paradoxo e dissonância

Num dos lados do cartão lê-se que a afirmação escrita no lado oposto é falsa; neste, lê-se que a afirmação do lado contrário é verdadeira: uma asserção estabelece a falsidade daquela que a avalia como verdadeira; outra decreta a verdade daquela que a avalia como falsa. Tal cartão, misturando o falso e o verdadeiro, sintetiza o conflito da raposa da fábula, dividida entre o verdadeiro apetite por uvas maduras e a falsa convicção de as achar verdes.

O que é preciso é saudinha (6)

MONEGASCO. s. m. Aversão a jogos de casino. [Wackypedia: contributos para um léxico alternativo]


P.S. A propósito disto, no Público: «Receitas dos casinos vão ajudar a pagar tratamento de jogadores patológicos»

sábado, 27 de abril de 2013

Vigiar exames

O Ministério da Educação confia nos professores, desconfiando dos alunos: nas salas de exame, os primeiros vigiam os segundos. Mas há limites: os vigilantes devem ser escolhidos de entre os que não leccionam a disciplina sobre que incide a prova. Além da suspeição, adivinha-se aqui um grave pressuposto, certamente acompanhado por um desejo infame: o pressuposto de que os professores são ignorantes em matérias de disciplinas alheias e o desejo de que nunca deixem de o ser.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Pensar em nada

Existirá o «pensar em coisa nenhuma»? Provavelmente não. Sendo o pensamento, em princípio, uma estrutura consciente, espera-se que lhe corresponda algum objecto. Quando muito, poderemos aproximar-nos da ausência de objecto, desde que reconduzamos este à maior indeterminação possível, dissolvendo imagens concretas, fintando deambulações abstractas. Se «não há machado que corte a raiz ao pensamento», não há serra que o separe dos ramos inevitáveis. Sobram-lhe duas opções gerais: produzir frutos de valor incerto ou tornar a folhagem indistinta.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Acerca da disciplina auto-imposta

A disciplina auto-imposta constitui uma garantia de que haverá obra. Mas o problema dela resultante consiste na formação de um eu paralelo, susceptível de assumir o poder de ditar regras e infligir punições. Evita-se que ele surja — ou neutraliza-se o surgido entretanto — ao reconhecer-se que a tendência para ajustar o contexto à disciplina se deve submeter, quando necessário, ao bom senso de moldar a disciplina ao contexto. Em geral, os tiranos começam por aplaudir a submissão oposta.

Comemorações do 25 de Abril

quarta-feira, 24 de abril de 2013

3. (Ainda o João Miguel Tavares)

Afinal a saída de Pedro Lomba da última página do Público não devolveu um moderado de direita àquela secção do jornal, oportunidade que referi há dias por ironia descrente ou cinismo. Pelo contrário. Desconfio que a mudança até fará empalidecer Vasco Pulido Valente (colunista que, embora por conveniência a uma velha historiografia in progress, até já aceita haver no aprofundar da crise europeia um dedo ou pelo menos uma alegria alemães; que talvez a Deutschland não seja sempre apenas um território de dignos e inquestionáveis credores).

Inquilinos com medo da visita dos senhorios...

No café: o “Big Brother”

Numa das mesas, alimenta a conversa o “Big Brother Vip”. Alude-se a expulsões, citam-se nomes, avaliam-se temperamentos. Vozes críticas foram incapazes de afastar estes programas televisivos de esgoto. A sátira tornou-se ineficaz, dando lugar à indulgente ironia ou à pacificada indiferença. Mas o exercício de ouvir alguém a examinar conteúdos do “Big Brother” com a seriedade de quem discute o liberalismo económico ou a dialéctica trinitária é convite certeiro para o tédio, passaporte seguro para a náusea.

As duas* falácias de João Miguel Tavares

O “argumento” de João Miguel Tavares em defesa da dupla Reinhart & Rogoff — admitindo que se trata mesmo de uma tentativa de argumento e não a mera exploração de um nicho de mercado editorial (há que mungir a teta do pluralismo) — enferma de dois erros, duas falácias.

A primeira falácia é a do apelo à autoridade (a que já se referiu o Rui), uma das mais divulgadas formas de fugir ao assunto. Não podendo negar o erro fundamental no artigo que tão convenientemente deu sustentação “científica” à sanha anti-estado social, João Miguel Tavares desvia as atenções, tentando ofuscar-nos com os alegados méritos prévios da dupla de economistas. Como se o assunto em debate fosse o direito ou não de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff conservarem os doutoramentos em Economia que certamente têm...

A segunda falácia é a ignorância da natureza não linear do discurso humano. Quero com isto dizer que a “lógica” de João Miguel Tavares (de que o erro de Reinhart & Rogoff num artigo de 26 páginas é nada comparativamente à excelência da sua opera magna de 512 páginas) só seria válida se o discurso humano — de uma simples frase às obras completas de Platão ou Pál Erdős — pudesse ser aproximado a um sistema linear, o que não acontece.

[Abro aqui um parênteses para quem não sabe o que é um sistema linear. De uma forma simplificada, um sistema é linear se a magnitude de um efeito for (directa ou inversamente) proporcional à magnitude da causa que lhe deu origem: pequena causa, pequeno efeito; grande causa, grande efeito. Por exemplo, o controlo de velocidade de um automóvel é um sistema linear: carregando a fundo no acelerador aumenta-se mais a velocidade do veículo do que se carregando menos; idem, mas com efeito inverso, para o pedal do travão.
Já a verdade de uma expressão lógico-matemática não segue um padrão linear. Consideremos, por exemplo, a seguinte proposição verdadeira: «1111111111 > 0». Alterar 10 dos 14 caracteres (71% do texto) da proposição, transformando-a em «9999999999 > 0», ou suprimir-lhe 9 caracteres (64%), ficando «1 > 0», não tem qualquer efeito em termos de verdade: as novas inequações são também verdadeiras; já alterar um único e muito específico carácter (7,1% do texto), «1111111111 < 0», arruína completamente a verdade da proposição resultante.
Também o discurso humano, nomeadamente a verdade que ele poderá encerrar, não se comporta como um sistema linear. A diferença entre dizer «Em mil novecentos e trinta e nove, a Alemanha Nazi de Adolf Hitler invadiu a Polónia» e dizer «Em mil novecentos e trinta e nove, a Alemanha Nazi de Adolf Hitler não invadiu a Polónia» não é um erro de uns meros 4,8% ou 6,25% (conforme se considerem caracteres ou palavras, respectivamente) — aquele «não» a mais faz toda a diferença entre a verdade e a mentira. Pura e simples.]

Assim sendo, e voltando à lógica furada de João Miguel Tavares, o erro de Reinhart & Rogoff não é apenas um erro de 26/(26+512) = 4,8% no contexto da sua obra (admitindo, por simplicidade, que a dupla apenas escreveu o artigo e o livro referidos).
O erro implica a diferença entre as medidas de austeridade que vêm sendo adoptadas basearem-se num resquício que seja de cientificidade (nunca tendo as conclusões do estudo, ao contrário do que nos quiseram convencer, tido a unanimidade entre os economistas, mesmo antes da descoberta dos erros de palmatória), ou serem simplesmente a implementação acientífica e até anticientífica de um programa ideológico.


* Não tendo lido o artigo de João Miguel Tavares (não comprei o jornal e a versão online é reservada a assinantes), a minha contabilidade de falácias restringe-se às existentes na sua invocação do calhamaço de 512 páginas como “argumento” de defesa de Reinhart & Rogoff.

2. Prestidigitadores

O post anterior não rouba toda a razão a João Miguel Tavares na sua defesa da austeridade. Não é essa a questão. Contesta é o seu precipitado argumento de autoridade.

No que toca à austeridade, não adianta muito estar contra ou a favor: ela impõe-se se o dinheiro escasseia. E ninguém em rigor pode negar pertinência a Tavares quando afirma que «sim, foi a imprudência em tempos de vacas gordas […] que nos trouxe até aqui». De resto, outra sua afirmação no mesmo artigo é também verdadeira, embora no seu facciosismo ele restrinja um defeito nacional apenas à esquerda: «Boa parte da nossa esquerda ainda acredita que o verdadeiro líder político é aquele que consegue dobrar a matemática e a economia com a força da sua vontade.» Infelizmente, esta é uma característica geral lusitana, entre outras coisas responsável por termos Passos Coelho como primeiro-ministro — e Vítor Gaspar como ministro das finanças. A promessa do prestidigitador é o salvo-conduto para ganhar eleições (vide Junho de 2011), mas é igualmente o que tem sido vendido para sair da crise. A matemática e a economia não se têm mostrado mais dúcteis perante os passes de Gaspar do que perante os truques da esquerda antes dele. Isto e o erro de Reinhart & Rogoff deveriam ser suficientes para um pouco mais de humildade da direita ultramontana. Antes de nos prescreverem os calhamaços e as sangrias desatadas deviam talvez ir rever contas e conclusões. É que aqueles de nós que não são da esquerda esbanjadora nem da direita impiedosa gostariam de cair no abismo sabendo que tal não aconteceu apenas porque alguém no poder ou nos jornais achou aceitável o sacrifício e desnecessário rever dogmas.

1. O argumento do tijolo

João Miguel Tavares é um conhecido e enérgico defensor da austeridade. No seu artigo desta terça-feira no Público pretendeu arrefecer os ânimos dos que se alegraram por ter sido descoberto um erro no célebre ficheiro Excel de Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, frequentemente citado pelos promotores da austeridade. E que argumentação usou Tavares? Uma de peso. Ou de volume. De número de páginas. É que, diz o jornalista, ao contrário do que pensa a massa ignara, aquela dupla de economistas não se tornou famosa pelas «26 páginas de Growth in a Time of Debt», o artigo que continha o erro, mas sim pelas 512 páginas de This Time Is Different — Eight Centuries of Financial Folly, «um tijolo que se distingue precisamente pela avassaladora quantidade de dados que os autores foram capazes de coligir».

Ora, isto parece mais bullying do que argumentação. Como se alguém dissesse: «Não levam a sério as minhas palavras? Experimentem o meu peso», sentando de seguida os seus 120 quilos de hambúrgueres sobre o adversário para o calar.

A lógica de João Miguel Tavares pretende que o leitor, conhecido o erro de um artigo, ceda com alegria ao argumento da quantidade de informação em vez de, preventivamente, precavidamente, alertado pelo exemplo, se perguntar como e que informação foi coligida, e que influência isso teve nas conclusões alcançadas pelo cartapácio. Como se um erro em 26 páginas, e a interpretação fragilizada dele resultante, fosse mais improvável em meio milhar delas.

João Miguel Tavares quer enfim que nos verguemos perante a autoridade do calhamaço. É muito comum nos dogmáticos. Tome-se a Bíblia, por exemplo.

terça-feira, 23 de abril de 2013

«Sono un peccatore, lo so»

Reconhecia, n’O Leopardo, a personagem central: «É verdade que peco. Mas peco para pôr termo ao pecado.» (1) A validade prática da afirmação restringe-se às condutas que se julga fecharem o círculo do desejo, mais que às acções que se sabe prolongarem a espiral do remorso. Todavia, só uma crença demasiado optimista verá em cada desejo uma estrutura circular irrepetível — e na história universal a promessa de um desenlace em que todos os impulsos sejam esclarecidos e pacificados.


(1) Tomasi di Lampedusa (1987), O Leopardo, Lisboa, Círculo de Leitores, p. 25.

O que é preciso é saudinha (5)

VENERÁVEL. adj. m. e f. Que não é imune a doenças sexualmente transmissíveis. [Wackypedia: contributos para um léxico alternativo]

segunda-feira, 22 de abril de 2013

«Fiz bem?»

Comprara um dicionário de filosofia e resolveu perguntar-me: «Fiz bem?» Respondi ao aluno: «Isso depende do facto de tencionar ou não tencionar consultá-lo.» Mas ele questionou-me se «fez bem», não se a obra lhe traria momentos de leitura inesquecível, ontologicamente reveladores. Daí que hoje, sucinto e céptico, eu lhe tivesse dito apenas: «Não sei.» Dez anos depois, talvez o moço também ainda o não saiba. Duvido igualmente que exista no dicionário algum parágrafo que lho permita saber.

domingo, 21 de abril de 2013

Hereditariedade e meio

Em fatigantes investigações, buscam saber os cientistas se o «que somos» é resultado da hereditariedade, do meio ou das duas coisas em simultâneo. Esquecem uma quarta alternativa: a de que sejam antes a hereditariedade e o meio o resultado do «que somos». Tal hipótese, de índole metafísica, não pode, claro, ser testada com recurso ao método experimental. Mas ela permite, pelo menos, amainar o furor de alguns exclusivismos cegos e questionar as propostas de certos interaccionismos vazios.

sábado, 20 de abril de 2013

O eu em exercícios

«Sou resultado do que até agora fui», jura o cientista. «Não sou quem fui, só a antecipação do que hei-de ser», assegura o filósofo. «Sou o que sou, espelhado em tudo o que me cerca», acentua o místico. «Não sou senão inúmeros fragmentos que de mim restam», sublinha o poeta. O primeiro adiciona, o segundo subtrai, o terceiro multiplica, o quarto divide. E todos, deste modo, se entretêm a fazer exercícios matemáticos com as suas discretas ilusões.

Autor maldito

Era um autor mal dito. O vulgo ignaro chamava-lhe «Garré».