terça-feira, 14 de maio de 2013

O lugar das dúvidas

Era acérrimo seguidor do cepticismo de Pírron. De nada estava certo, nem sequer disso mesmo. Esse esquema intelectual conduzia-o a intoleráveis regressões ao infinito. As suas dúvidas tinham adquirido vida própria e adejavam em seu redor como abutres em torno de um cadáver. Dispunha, no entanto, de uma «verdade póstuma», que escolheu para epitáfio: «Aqui descansam as minhas dúvidas.» Enganara-se. Após a morte, elas rumaram aos espaços vazios. Nenhuma dúvida, por natureza, conhece a plenitude do repouso.

Reinterpretando as profecias

Não devia ter-se rido quando lhe disseram que ainda havia de mingar na vida. Não era falta de vocabulário. Não era dislalia. Não era para rir.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Gestão orçamental na casa de um socialista encartado

O cenário descrito por Inês Teotónio Pereira só prova que a senhora não sabe educar os seus filhos, ao contrário do que tenta convencer-nos no início do texto.
(A autora do artigo do jornal i parece acreditar que educar filhos consiste em repetir-lhes ad nauseam um ideário político-social. Falando com a experiência, não de pai, mas de filho, trago-lhe uma má notícia: não é por aí. Educa-se pelo exemplo, não pela doutrinação.)
E está visto que, tal como a honestidade e a boa administração da coisa pública, também a educação dos filhos não segue as linhas de fractura ideológicas.

O meu pai, que era socialista encartado, sempre nos deixou bem claro que havia deveres. O dinheiro — o pouco dinheiro — que íamos tendo no bolso, não era atribuído em jeito de mesada ou semanada, conceito que nos parecia ficcional (de resto, só o conhecíamos dos livros dos Cinco ou dos Sete...).
Não, o pouco dinheiro que tínhamos, recebíamo-lo no fim de cada período escolar, segundo uma tabela pré-estabelecida, por cada 3, 4 e 5 (estava fora de questão haver um 2: se houvesse, não havia dinheiro nenhum). E tinha que durar o trimestre inteiro, até que as notas nos dessem (se fossem boas) direito a mais algum. Era, por isso, preciso saber administrar um orçamento — um parco orçamento. E nós sabíamos.
(OK, em abono da verdade havia fontes de rendimento adicional, de periodicidade não trimestral: a casa, o jardim e o não tão pequeno quintal das traseiras tinham muito trabalho para ser feito o ano todo. Entre limpar o pó e aspirar o chão, rapar as ervas dos malfadados caminhos de terra batida entre os canteiros, fazer a vindima, apanhar maçãs, peras e marmelos, regar a horta, semear e apanhar batatas, entre outras tarefas, havia diversas formas de enriquecimento lícito.)

Esta minha dependência do que o meu pai me dava (uma espécie de transferência do Orçamento de Estado para as autarquias, simplesmente a “autarquia” que eu era tinha de demonstrar os seus méritos) durou uns 7 anos. Se não me engano, foi no 8.º ano de escolaridade que consegui uma bolsa: como era bastante mais do que o meu pai antes me dava, podemos dizer que foram os meus Fundos Comunitários. Mas não eram a fundo perdido, ou melhor, os fundos só continuavam a chegar se a cada trimestre eu fizesse prova de resultados merecedores. (Por isso, aquilo por que o Gaspar está a passar, com avaliações periódicas da Troika, conheci eu em 1986 — a diferença é que eu não fazia asneira entre cada avaliação, de forma que a “troika” que decidia se a minha bolsa continuava a ser-me paga não teve de relaxar uma e outra vez os critérios que eu era obrigado a cumprir...)
Mantive esta bolsa até ao fim do Ensino Secundário e ainda (crescida no seu valor) durante os cinco anos da minha licenciatura (agora prestando provas a cada semestre). Foi a minha única fonte de rendimento até ter o meu primeiro salário, aos 23 anos.

Ah! Resta dizer que a dita bolsa (que a minha irmã também recebeu) não foi atribuída pelo Serviço de Acção Social Escolar ou outro qualquer organismo do Ministério da Educação ou do Estado.
(Se a situação financeira da minha família foi certamente um factor tido em conta — era um só salário de quadro médio a entrar numa casa com três filhos em idade escolar —, a instituição pagadora deixava claro que o critério principal era o do mérito escolar, periodicamente medido pelas classificações alcançadas no decurso de 10 longos anos.)
Como se chamava a instituição que me atribuiu a bolsa?
É com vergonha que admito chamar-se Fundação Calouste Gulbenkian — essa instituição desconhecida que, segundo a avaliação do ministério de Vítor Gaspar, é menos «pertinente/relevante» do que a notável Fundação Social Democrática da Madeira...

A farsa de Inês (Teotónio) Pereira

Um artigo de Inês Teotonio Pereira no jornal i tem sido vergastado na rede, e não se pode dizer que o não mereça. Merece-o sobretudo pela inoportunidade e pelo maniqueísmo.
Em tempos melhores do que este, até poderíamos defender a autora na parte que diz respeito à educação dos seus filhos. Ela é acusada de não os saber educar e essa acusação é injusta. A maioria dos que a acusam (apegando-se à irrelevante fábula que ela escreveu em vez de à moral da história nela implícita) não pode reivindicar para si mesma um trabalho melhor do que o dela. Se o pudesse, o mundo adolescente não era a barbárie fútil e assustadora que sabemos ser esmagadoramente.
Os problemas da farsa de Inês Pereira são outros, os que referi.
A inoportunidade. Por mais críticas que haja a fazer ao socialismo (ou melhor, ao PS, não temos de partilhar do preconceito da senhora quanto à ideologia), parece um anacronismo ou uma desfaçatez insistir no exercício depois de dois anos de despautério PSD/CDS. No mínimo, a incompetência e a vilania de Passos e Portas deveriam moderar-lhe o discurso.
O maniqueísmo. No universo a preto e branco da senhora Teotónio Pereira, o adolescente típico que ela no fundo descreve é “socialista” porque ela odeia o socialismo. Mas na verdade, não só são também assim “socialistas” os adolescentes PP e PSD, como o têm igualmente sido os políticos desses dois partidos.
O problema português foi (e é) comportamental (e transversal) e a senhora quer fazer-nos crer que é ideológico. Que os defeitos não são de carácter mas de filiação partidária. Que não foram a corrupção, o nepotismo, a irresponsabilidade, o oportunismo e outros vícios da índole lusa a trazer-nos aqui, mas as convicções políticas de alguns. Que se a ideia de Passos de criminalizar os governantes nocivos fosse avante se deveriam prender todos os que professam o socialismo, não os que cometeram crimes ou esbanjaram dinheiro. No fundo, Inês Teotónio Pereira quer que a esquerda seja, não uma posição política, mas um estigma social, talvez o cadastro policial de uma agremiação criminosa.
Na sua concepção maniqueísta do mundo, Inês Teotónio Pereira não se coíbe de implicitamente defender que do outro lado da barricada, do seu lado, as pessoas são justas por natureza, e se têm dinheiro é porque é delas por direito. O seu penúltimo parágrafo é uma defesa pungente desta ideia. Reparem que não há lugar no argumentário da senhora para questionar quem tem o dinheiro. Os socialistas são quem arruína as nações. Os ricos, se têm o que têm, foi porque, justa e impolutamente, o mereceram. É feio invejá-los. Proibido questioná-los. E isso que ela diz aos seus filhos e ao país.

Nariz de vidente

A segunda aparição confirmou a impressão da primeira: o Anjo usava 'In Excelsis Deo'.


(Quando escrevi este nanoconto, há anos, não poderia prever as voltas que a ideia daria...)

Não acabem com a crise

Os meus domingos, sempre que possível dias de retiro, de devaneios bucólicos, são frequentemente assolados pela perplexidade. Não é apenas o ciclo da Natureza, o seu definhamento belo no Outono, ou o milagre biológico e estético da renovação primaveril. Surpreendem-me sempre o amarelo e o lilás de hectares de giestas e urzes floridas, e nunca fico imune a um bosque renovado de verde.
Mas a verdadeira perplexidade vem quando me encontro sozinho no meio de certa propriedade onde a beleza outonal ou primaveril dos bosques ocorre como num privativo jardim edénico. A verdadeira perplexidade e a verdadeira alegria.
Em tempos usada para lazer da classe alta, esta propriedade, privada mas de (potencial) uso público, foi abandonada devido à mudança dos hábitos de ócio, à substituição dos destinos turísticos. Na minha infância e adolescência, o sítio era usado por alguns autóctones para piqueniques, para tardes de lazer. Hoje, salvo raras e fugazes visitas de um ou outro nostálgico que vem num relance conferir o estado das coisas, não se vê por ali vivalma, e eu e os meus livros agradecemos.
Faz-lhe uma tangente um rio, com a sua ponte românica e os seus moinhos em ruínas, invadidos pela vegetação. Tem no perímetro e nas imediações pinhais e carvalhais. Dentro de muros há uma grande variedade de árvores que para minha vergonha não sei nomear. Tem diferentes zonas de sombra (densa ou apenas de sol coado) e prados onde estender largamente o corpo ao sol. Tem memórias em velhas paredes e telhados abaulados. Não tem gente. Porque, dir-se-ia, este género de bucolismo já não faz a alegria das pessoas.

Enquanto eu por ali sonho com uma herança que me permita tomar posse daquele território e proteger o paraíso, outros em gabinetes municipais sonham com revitalizar a propriedade. Um dos poucos visitantes com quem me cruzo um dia, informa-me que a Câmara local ficou com a concessão do sítio e pretende resgatá-lo para uso turístico, construir um restaurante, coisas dessas. Como que a adivinhar os meus pensamentos (os meus receios, o meu justificado preconceito em relação aos poderes municipais), a pessoa informa-me também que o primeiro passo daquela “revitalização”, segundo fonte oficiosa, poderá ser o abate de pinheiros. Até já estarão marcados. Despeço-me com um nó na garganta a fingir deambulação sem norte, mas com o pânico instalado de ver com os meus olhos as famigeradas marcações. Não as vi, mas não fiquei descansado. A ideia, infelizmente, não é absurda.

Obrigo-me agora portanto a adicionar ao meu sonho de herdeiro um que prolongue a crise, que inclua o fim do QREN, o fim das ajudas comunitárias a projectos de revitalização. Um sobre bancarrotas municipais que durem até uma geração mais verde tomar o poder. (Sim, bem sei que faria melhor em apostar apenas na quimérica herança ou no desconchavar europeu.)

domingo, 12 de maio de 2013

Gostar de ler

«Gosta de ler?» A resposta, se afirmativa, culmina frequentemente na aceitação do estéril pasquim, da revista paupérrima, do livro que pede clemência pelo simples facto de existir. Pior é se a isto se junta a obrigação social da leitura. Ora «gostar de ler» não equivale a «gostar de ler tudo». Se ambas as partes tiverem em conta este genuíno preceito relativamente ao exemplar em causa, talvez lhe adiem o ingresso no contentor — ou noutras filiais do esquecimento.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Declínio

Políticas lamentáveis haviam conduzido aquele país a um generalizado declínio. Em certa rua, outrora exclusivamente destinada ao comércio, todas as lojas tinham encerrado portas. As montras surgiam agora forradas a páginas esquecidas de jornal. Tal rua convertera-se num espaço onde se passaram a criar grupos espontâneos que discutiam assuntos irrelevantes ou forjavam silêncios duradouros. Psicólogos e sociólogos explicavam estes comportamentos dizendo que uma das formas de ainda nos sentirmos vivos é mantermo-nos de pé entre notícias mortas.

Tédio News: Colégios privados penalizados por aplicaram modelo que Vítor Gaspar preconiza para o sector público

COLÉGIOS PRIVADOS PENALIZADOS POR PLAGIAREM VÍTOR GASPAR «Governo tem um problema de comunicação: o objectivo é destruir o sector *público* da Educação, não o sector *privado*!», adverte fonte anónima do Ministério

A propósito do mesmo assunto, no Público:

«alunos com necessidades educativas especiais [...] indevidamente acompanhados»; «preços praticados pelo bar [...] com margens bastante altas»; «turmas [...] tinham alunos a mais»; «alunos que pediram subsídio foram excluídos sem serem devidamente explicadas as razões da decisão»

De regresso ao folclore

Nem todos perdem com a crise. A cultura pimba verifica um recrudescimento. No interior do país esta curiosa forma de vida rejubilará. Rejubila já.
Os últimos dez anos estiveram ao serviço de uma particular forma de crueldade: mostraram como Portugal poderia ser culturalmente descentralizado e como as berças poderiam ser um pouco sofisticadas, cosmopolitas. Em vão. Brevemente sofreremos não só com o que poderíamos ser mas também com o que por instantes fomos. Há uns anos só tínhamos saudades do futuro — agora teremos também saudades do passado recente.
Nada que aflija os nossos conterrâneos que estão no Governo ou que por lá passaram: cumprindo o seu dever de anjos camilianos, não os ocupa a decência, quanto mais a província. Mas também seriam de pouca utilidade: a província dispensa mais fãs do Politeama.
Há os outros, claro, os que vão à Bertrand do Chiado sem ser em turismo. Mas nem estes evitam a condescendência: se regressam quotidianamente à terra, fazem-no em safari, embevecidos com o pitoresco.
Não os censuremos, contudo. Se nós próprios temos tanto jeito para fazer de castiços e saltitantes pigmeus.

terça-feira, 7 de maio de 2013

«No Man's Land» e «Nowhere Man»

Garante Bertrand Russell que a filosofia, zona intermédia relativamente à teologia e à ciência, é uma «Terra de Ninguém». Poderá ver-se aí o pólo oposto do «Homem de Lugar Nenhum», que os Beatles concederam à posteridade. Mas «lugar» é sempre mais pessoal que «terra». Por conseguinte, a «Terra de Ninguém» jamais exclui o «Homem de Lugar Nenhum», antes lhe oferece o espaço necessário à invenção do seu «lugar» e do «alguém» que nessa «terra» ele procura ser.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Para autores potenciais de livros de auto-ajuda

Quem tencione escrever um livro de auto-ajuda deve basear-se nos ditames «Pensa positivo!» e «Agarra o instante!», banir de todo a análise crítica e adoptar um discurso convencional, onde não faltem «energias» e «visualizações». Para redigir um segundo livro de auto-ajuda, importa suprimir a tentação de inovar relativamente ao primeiro. Leitores fiéis de literatura do género chegam mesmo a temer irrupções inquietantes de originalidade eventual. Em vez de tal coisa, esperam só que a «ajuda» se repita.

Com Gaspar e o seu Governo socioterrorista, a estupidez ganha sempre nova e crescida dimensão

O Governo Gaspar continua a mostrar a sua raça.

Agora ficamos a saber que os funcionários públicos que aceitarem a rescisão amigável do seu contrato nunca mais poderão voltar a trabalhar ou prestar serviços a qualquer órgão da Administração Central, Regional ou Local, empresa ou instituto público.

Além de ser uma inaceitável (e inconstitucional*) limitação aos direitos dos cidadãos, é uma estupidez completa.

Então, e se o funcionário que rescindir entretanto se (re)qualificar? Por exemplo, um trabalhador-estudante que até agora era administrativo de um município aproveita e vai acabar o mestrado, sei lá, em Engenharia Civil. Segundo as regras anunciadas, este hipotético cidadão não pode, com as novas (e mais valiosas) qualificações, conseguir um novo emprego na máquina estatal, inclusivamente noutro município que não aquele onde antes trabalhou.
Quer isto dizer que, mesmo que tenha mais qualificações e competência do que outro, será esse outro (menos qualificado, mas “virgem” do Estado) que ficará com o emprego.

Parabéns, assim se promove a meritocracia!



* Constituição da República Portuguesa:
Art.º 13.º, n.º 2: «Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.»
Art.º 47.º, n.º 2: «Todos os cidadãos têm o direito de acesso à função pública, em condições de igualdade e liberdade, em regra por via de concurso.»
Art.º 50.º, n.º 1: «Todos os cidadãos têm o direito de acesso, em condições de igualdade e liberdade, aos cargos públicos.»
Idem, n.º 2: «Ninguém pode ser prejudicado na sua colocação, no seu emprego, na sua carreira profissional ou nos benefícios sociais a que tenha direito, em virtude do exercício de direitos políticos ou do desempenho de cargos públicos

sábado, 4 de maio de 2013

A gargalhada

Em certa publicidade, a senhora dona Florinda apresenta o seu testemunho: «No meu tempo era uma tristeza. Não havia nada. Agora há tudo. Comíamos pouco, trabalhávamos muito.» A estas palavras segue-se uma gargalhada aparentemente inoportuna. Numa altura em que o Governo anuncia novas medidas de austeridade, no que se afigura o projecto de uma austeridade sem medida, aquela gargalhada sugere-nos menos satisfação do que ironia, menos a crença num cenário próspero que um vaticínio de índole nefasta.

A cegueira, uma vez mais
(Vítor Gaspar, um caso psicológico — 4)

O Governo de Vítor Gaspar insiste. A recessão não dá tréguas, antes de agrava? Aplique-se uma dose mais forte do “tratamento” que deitou a economia por terra, a ver se é desta que resulta...

Em Setembro do ano passado usei pela primeira vez a expressão «cegueira ideológica» para classificar a acção e as opções político-económicas de Vítor Gaspar y sus muchachos. Os sintomas mantêm-se, como se constata.
Mais de seis meses depois, descobri que a doença já consta da literatura: Em Pensar, Depressa e Devagar, livro a que já me referi por várias vezes, Daniel Kahneman, laureado com o Prémio Nobel da Economia, dedica um capítulo a uma teoria económica que resistiu incontestada mais de 250 anos, apesar de ser relativamente fácil encontrar-lhe falhas graves. Escreve Kahneman (pp. 364–365):

O mistério é como é que uma conceção [...] que é vulnerável a contraexemplos tão óbvios sobreviveu durante tanto tempo. Eu posso explica-la através de uma debilidade da mente académica que observei muitas vezes em mim mesmo. Chamo-lhe cegueira induzida pela teoria: depois de terem aceitado uma teoria e de a terem usado como ferramenta no vosso pensamento, é extraordinariamente difícil reparar nas suas falhas. Se se deparam com uma observação que não parece encaixar no modelo, assumem que deverá haver uma explicação perfeitamente plausível que, de algum modo, vos está a escapar. Dão à teoria o benefício da dúvida, confiando na comunidade de especialistas que a aceitaram. [...]

No caso de Gaspar, sabemos agora, pelo menos um artigo de fé nunca foi consensual ou sequer aceite pela maioria da comunidade de especialistas em Economia — e há agora indícios bastante fortes de que os santos eram de pau oco. Mas os santos de pau oco também têm a sua legião de fiéis, como sabemos. E não das menos fanáticas.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Rumo ao silêncio

Em poucos anos, aquele país conheceu três acordos ortográficos: no primeiro eliminaram-se as «consoantes mudas»; no segundo, as «não mudas» (apesar do sentido alternativo da expressão, a mudança revelou-se pacífica); no terceiro aboliram-se as vogais. Hoje, comunica-se essencialmente através dos liames do pensamento. Publicam-se livros que se reduzem a capas, sem indicação visível de autor, título ou editora, unidas por lombadas de tamanho variável. A leitura, dizem os especialistas em silêncio, nunca foi tão solene e criativa.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Tranquilidade e diferença

Se ouvirmos um canalha, no âmbito de uma óbvia canalhice, afirmar que está de consciência tranquila, tendemos a supor que ele mente ou, então, não sabe do que fala. Abandonemos a inocência desta disjunção. Pode suceder que tal canalha saiba exactamente do que fala e, pior que isso, esteja mesmo tranquilíssimo de consciência. Se adoptamos o princípio da diferença para respeitar os direitos do outro, adoptemo-lo igualmente para afastar ilusões quando o outro decide desrespeitar os nossos.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

A concretude da abstracção

Procurar saber o momento certo para arralentar milho constitui uma preocupação formalmente diversa da de buscar esclarecer as relações entre «essência» e «existência». Tolerando alguma inexactidão, daquele problema se diz ser «concreto»; deste, «abstracto». Convém, todavia, lembrar que os efeitos corporais — do cérebro ao fígado, do mendinho ao artelho — são, para ambos os casos, igualmente concretos. Daí se conclui que, em termos simultaneamente biológicos e estatísticos, ninguém se afasta do «mundo concreto» ao entregar-se à digressão abstracta.

Aleluia! Já temos o instrumento da nossa salvação! Viva São Vítor! D.E.O. gratias!

In Excels is D.E.O. (Vítor Gaspar com auréola-gráfico de Excel)

Jornal i: «DEO. Medidas de corte na despesa vão ser postas em discussão pública, diz Vítor Gaspar»
Expresso: «DEO de Gaspar ameaça com “saída do euro”»

(D.E.O. = Documento de Estratégia Orçamental)