sexta-feira, 24 de maio de 2013

Verificações

Quando era o último a sair de casa, retrocedia sempre a fim de confirmar se nenhuma luz ficara acesa. O exercício, em média repetido três vezes, complicou-se mais ao surgir-lhe uma ideia desconcertante: «para ver se as lâmpadas se encontram apagadas, sobretudo em compartimentos sombrios, há a necessidade lógica de as acender». Ultrapassou este contratempo fazendo-se acompanhar de uma lanterna. Após cada utilização, retirava-lhe as pilhas: não tinha (assim reflectia ele) qualquer interesse em duplicar o drama.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Superstições

As almas supersticiosas não se limitam a subscrever manifestações consagradas de pensamento mágico: inventam as suas próprias fórmulas, intermináveis. Fazendo-o, nutrem a cisão interior: de um lado, a entidade que impõe a lei; do outro, a que lhe provará os alegados frutos. Tal cisão opõe, de modo radical, o pé direito — teimosamente o primeiro a transpor a porta, em direcção à rua — ao esquerdo — que, nessa altura, consegue ser o último a deixar o rasto em casa.

Dando sentido às notícias...

Passos Coelho pensa: «#@*&%! O tacho à espera, e eu nisto...» Ok, assim já faz algum sentido...


Público: «Pai de Passos Coelho assegura que filho “está morto por se ver livre disto”»

Frase do dia (2)

«Pai de Passos Coelho aconselha o filho a demitir-se. “Isto não tem conserto. Entrega isto.”»

A argumentação é mais de avô, mas certos pais conseguem também este grau de indulgência e cumplicidade, tomando sempre o partido da prole. Como se depois de o estouvado do rapaz se ter mandado contra o louceiro, deixando tudo em cacos, o avô (no caso, o pai) fizesse a proverbial vista grossa e, tipicamente, com infinito amor, admoestando o móvel em vez do fedelho, sentenciasse: «Deixa lá, a louça não prestava.»

Para aplicar um correctivo à criatura teríamos de invocar uma perceptora. Ou uma governanta mais afeiçoada à louça do que ao pequeno lorde. Não se põe de parte que ande por aí alguma.

Frase do dia (1)

Jogos de palavras orwellianos são tão habituais neste Governo como respirar. E ele está ofegante.

A frase, bela e lapidar, é de Pacheco Pereira, a propósito da novilíngua do Governo, onde “requalificar” significa despedir.


P.S. Pacheco não a escreveu bem assim; retoquei-lhe um pouco estilo, mas não o sentido.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Gavetas exigentes

Escrevia para a gaveta — isto é, para uma das várias lá de casa. Porém, aquela atitude acabaria por atear nas restantes o ciúme típico dos compartimentos fechados. Apercebendo-se do mal-estar geral, optou por escrever para todas as gavetas. Nem assim contentou a maior parte, ressentida com a mediocridade dos textos. Decidiu então deixar de escrever para as gavetas. Ainda pensou fazê-lo para baús, frigoríficos, fornos e tulhas. Mas nada disso valia a pena. Já chegava de aborrecimentos.

Livros excessivos

Recomecei finalmente a ler as mil páginas de A Piada Infinita e reencontrei um dos meus marcadores preferidos, comprado na Casa de Sefarad, em Córdova. Quando no Inverno tentei ler pela primeira vez o tijolo de David Foster Wallace (como referido aqui) devo ter usado aquele marcador e nunca mais o encontrei, mesmo depois de o procurar naquele mesmo volume. E agora não apareceu na primeira sessão de leitura, só à terceira, juntando-se ao de Carcassone a que tinha entretanto recorrido. Na segunda sessão aparecera um que o livro trazia de origem, verde, com umas raquetes de ténis.
Hoje à tarde, enquanto exercitava os bíceps com o calhamaço (minto, enquanto o tentava encaixar no Skype), um novo marcador verde se revelou. Foi aí que me lembrei de alguém ter dito que o livro vinha com dois, um para as páginas principais, outro para as notas.
Há bocado não dava com as chaves de casa e ocorreu-me logo que poderiam estar dentro da Piada Infinita. Não estavam. Mas encontrei lá o corta-unhas que usei depois do banho. E o suplemento de emprego do Expresso.
É por estas coisas que o livro se torna pesado e difícil de ler, não pela escrita do autor. A Quetzal não podia tê-lo dividido em volumes? Ou pelo menos arranjado uma capa dura? É que daqui a pouco vou-me deitar e já tremo só de pensar no esforço para segurar o livro. No meu último pesadelo ele caiu-me na cara. Ainda vou ter de tirar preventivamente a cana do nariz, como diz que fazem os boxeurs.

Personagens incríveis: Maria Teixeira Alves

Há pessoas que pensamos que não existem, são mera ficção hilária. Maria Teixeira Alves, jornalista, blogger e depósito de preconceitos, é uma delas. Pela forma como escreve e argumenta, é um permanente atentado à língua e à inteligência. Mas isso não a coíbe de dividir os jornalistas em duas classes para criar o seu próprio pedestal: os engajados e os que têm «muito» mérito. «Acho que é fácil perceberem porque continuo a ser jornalista», diz ela sem rebuço.
Leia-se esta pérola:

«Os ignóbeis socialistas e bloquistas vão levar amanhã mais uma vez a adopção de crianças por duas pessoas homossexuais do mesmo sexo que vivam juntas, ao Parlamento. Não se enganem, todas as manifs, todos os Grandolas Vilas Morenas, todos os Galambas e Dragos, todos os actos de terrorismo de interrupção de membros do Governo em actos públicos, têm um único objectivo "dar crianças aos homossexuais".»

A senhora não é uma figura patusca do Portugal profundo, é jornalista do Diário Económico e escreve no Corta-Fitas. Para uma risada mais cómoda, pode ser lida no seu próprio blogue, humildemente intitulado Farpas. Mas atenção: Maria Alves avisa que escusam de ir lá insultá-la, porque ela não dá cobertura a insultos. Não precisa. Como alguém comentou algures, a sua retórica insulta-se a si própria.

domingo, 19 de maio de 2013

A fé é o que nos salva (1)

CALVINISTA. adj. m. e f. Que acredita que ser ou não careca depende exclusivamente da graça divina. [Wackypedia: contributos para um léxico alternativo]


O título desta nova série da minha Wackypedia é uma homenagem à resposta circular que a minha mãe me dava quando, tendo-me anteriormente dito que era preciso ter fé para nos salvarmos, eu lhe perguntava o que era isso da «».

sábado, 18 de maio de 2013

Trindade e futebol

Baseando-se em Gregório de Nissa, Karen Armstrong salienta, em Uma História de Deus, que no século IV as pessoas discutiam questões teológicas, sobretudo as ligadas à Trindade, com um entusiasmo igual àquele com que hoje se discute futebol. Convém, todavia, sublinhar que a qualidade do entusiasmo é inseparável da natureza da argumentação: no caso da Trindade, as discussões, em geral sérias, terminam facilmente no vazio; no caso do futebol, as discussões, amiúde vazias, culminam facilmente no ridículo.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

O vendedor de metáforas

Vendia metáforas. O pregão esconjurava lugares-comuns: «Metáfora fresquinha!» Cada caixa encerrava, em papel, um exemplo daquela figura de estilo. Certo dia, já fraco o negócio, um cliente, poeta medíocre em busca de fama, recebera uma caixa sem nada dentro. Insatisfeito, voltou-se para o vendedor, erguendo o objecto à altura dos olhos: «Não vejo aqui metáfora nenhuma!» O outro, que o conhecia bem, retorquiu: «Isso não me surpreende.» E, após essa data, optou pela venda exclusiva de ironias.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Cavaco Silva: «[Sétima avaliação] foi uma inspiração da Nossa Senhora de Fátima»

Nossa Senhora de Fátima aparece aos pastorinhos 'Fundo Monetário Internacional', 'Comissão Europeia' e 'Banco Central Europeu' e às ovelhinhas 'Vítor Gaspar', 'Passos Coelhos', etc.


Notícia no Jornal de Negócios.

O lugar das dúvidas

Era acérrimo seguidor do cepticismo de Pírron. De nada estava certo, nem sequer disso mesmo. Esse esquema intelectual conduzia-o a intoleráveis regressões ao infinito. As suas dúvidas tinham adquirido vida própria e adejavam em seu redor como abutres em torno de um cadáver. Dispunha, no entanto, de uma «verdade póstuma», que escolheu para epitáfio: «Aqui descansam as minhas dúvidas.» Enganara-se. Após a morte, elas rumaram aos espaços vazios. Nenhuma dúvida, por natureza, conhece a plenitude do repouso.

Reinterpretando as profecias

Não devia ter-se rido quando lhe disseram que ainda havia de mingar na vida. Não era falta de vocabulário. Não era dislalia. Não era para rir.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Gestão orçamental na casa de um socialista encartado

O cenário descrito por Inês Teotónio Pereira só prova que a senhora não sabe educar os seus filhos, ao contrário do que tenta convencer-nos no início do texto.
(A autora do artigo do jornal i parece acreditar que educar filhos consiste em repetir-lhes ad nauseam um ideário político-social. Falando com a experiência, não de pai, mas de filho, trago-lhe uma má notícia: não é por aí. Educa-se pelo exemplo, não pela doutrinação.)
E está visto que, tal como a honestidade e a boa administração da coisa pública, também a educação dos filhos não segue as linhas de fractura ideológicas.

O meu pai, que era socialista encartado, sempre nos deixou bem claro que havia deveres. O dinheiro — o pouco dinheiro — que íamos tendo no bolso, não era atribuído em jeito de mesada ou semanada, conceito que nos parecia ficcional (de resto, só o conhecíamos dos livros dos Cinco ou dos Sete...).
Não, o pouco dinheiro que tínhamos, recebíamo-lo no fim de cada período escolar, segundo uma tabela pré-estabelecida, por cada 3, 4 e 5 (estava fora de questão haver um 2: se houvesse, não havia dinheiro nenhum). E tinha que durar o trimestre inteiro, até que as notas nos dessem (se fossem boas) direito a mais algum. Era, por isso, preciso saber administrar um orçamento — um parco orçamento. E nós sabíamos.
(OK, em abono da verdade havia fontes de rendimento adicional, de periodicidade não trimestral: a casa, o jardim e o não tão pequeno quintal das traseiras tinham muito trabalho para ser feito o ano todo. Entre limpar o pó e aspirar o chão, rapar as ervas dos malfadados caminhos de terra batida entre os canteiros, fazer a vindima, apanhar maçãs, peras e marmelos, regar a horta, semear e apanhar batatas, entre outras tarefas, havia diversas formas de enriquecimento lícito.)

Esta minha dependência do que o meu pai me dava (uma espécie de transferência do Orçamento de Estado para as autarquias, simplesmente a “autarquia” que eu era tinha de demonstrar os seus méritos) durou uns 7 anos. Se não me engano, foi no 8.º ano de escolaridade que consegui uma bolsa: como era bastante mais do que o meu pai antes me dava, podemos dizer que foram os meus Fundos Comunitários. Mas não eram a fundo perdido, ou melhor, os fundos só continuavam a chegar se a cada trimestre eu fizesse prova de resultados merecedores. (Por isso, aquilo por que o Gaspar está a passar, com avaliações periódicas da Troika, conheci eu em 1986 — a diferença é que eu não fazia asneira entre cada avaliação, de forma que a “troika” que decidia se a minha bolsa continuava a ser-me paga não teve de relaxar uma e outra vez os critérios que eu era obrigado a cumprir...)
Mantive esta bolsa até ao fim do Ensino Secundário e ainda (crescida no seu valor) durante os cinco anos da minha licenciatura (agora prestando provas a cada semestre). Foi a minha única fonte de rendimento até ter o meu primeiro salário, aos 23 anos.

Ah! Resta dizer que a dita bolsa (que a minha irmã também recebeu) não foi atribuída pelo Serviço de Acção Social Escolar ou outro qualquer organismo do Ministério da Educação ou do Estado.
(Se a situação financeira da minha família foi certamente um factor tido em conta — era um só salário de quadro médio a entrar numa casa com três filhos em idade escolar —, a instituição pagadora deixava claro que o critério principal era o do mérito escolar, periodicamente medido pelas classificações alcançadas no decurso de 10 longos anos.)
Como se chamava a instituição que me atribuiu a bolsa?
É com vergonha que admito chamar-se Fundação Calouste Gulbenkian — essa instituição desconhecida que, segundo a avaliação do ministério de Vítor Gaspar, é menos «pertinente/relevante» do que a notável Fundação Social Democrática da Madeira...

A farsa de Inês (Teotónio) Pereira

Um artigo de Inês Teotonio Pereira no jornal i tem sido vergastado na rede, e não se pode dizer que o não mereça. Merece-o sobretudo pela inoportunidade e pelo maniqueísmo.
Em tempos melhores do que este, até poderíamos defender a autora na parte que diz respeito à educação dos seus filhos. Ela é acusada de não os saber educar e essa acusação é injusta. A maioria dos que a acusam (apegando-se à irrelevante fábula que ela escreveu em vez de à moral da história nela implícita) não pode reivindicar para si mesma um trabalho melhor do que o dela. Se o pudesse, o mundo adolescente não era a barbárie fútil e assustadora que sabemos ser esmagadoramente.
Os problemas da farsa de Inês Pereira são outros, os que referi.
A inoportunidade. Por mais críticas que haja a fazer ao socialismo (ou melhor, ao PS, não temos de partilhar do preconceito da senhora quanto à ideologia), parece um anacronismo ou uma desfaçatez insistir no exercício depois de dois anos de despautério PSD/CDS. No mínimo, a incompetência e a vilania de Passos e Portas deveriam moderar-lhe o discurso.
O maniqueísmo. No universo a preto e branco da senhora Teotónio Pereira, o adolescente típico que ela no fundo descreve é “socialista” porque ela odeia o socialismo. Mas na verdade, não só são também assim “socialistas” os adolescentes PP e PSD, como o têm igualmente sido os políticos desses dois partidos.
O problema português foi (e é) comportamental (e transversal) e a senhora quer fazer-nos crer que é ideológico. Que os defeitos não são de carácter mas de filiação partidária. Que não foram a corrupção, o nepotismo, a irresponsabilidade, o oportunismo e outros vícios da índole lusa a trazer-nos aqui, mas as convicções políticas de alguns. Que se a ideia de Passos de criminalizar os governantes nocivos fosse avante se deveriam prender todos os que professam o socialismo, não os que cometeram crimes ou esbanjaram dinheiro. No fundo, Inês Teotónio Pereira quer que a esquerda seja, não uma posição política, mas um estigma social, talvez o cadastro policial de uma agremiação criminosa.
Na sua concepção maniqueísta do mundo, Inês Teotónio Pereira não se coíbe de implicitamente defender que do outro lado da barricada, do seu lado, as pessoas são justas por natureza, e se têm dinheiro é porque é delas por direito. O seu penúltimo parágrafo é uma defesa pungente desta ideia. Reparem que não há lugar no argumentário da senhora para questionar quem tem o dinheiro. Os socialistas são quem arruína as nações. Os ricos, se têm o que têm, foi porque, justa e impolutamente, o mereceram. É feio invejá-los. Proibido questioná-los. E isso que ela diz aos seus filhos e ao país.

Nariz de vidente

A segunda aparição confirmou a impressão da primeira: o Anjo usava 'In Excelsis Deo'.


(Quando escrevi este nanoconto, há anos, não poderia prever as voltas que a ideia daria...)

Não acabem com a crise

Os meus domingos, sempre que possível dias de retiro, de devaneios bucólicos, são frequentemente assolados pela perplexidade. Não é apenas o ciclo da Natureza, o seu definhamento belo no Outono, ou o milagre biológico e estético da renovação primaveril. Surpreendem-me sempre o amarelo e o lilás de hectares de giestas e urzes floridas, e nunca fico imune a um bosque renovado de verde.
Mas a verdadeira perplexidade vem quando me encontro sozinho no meio de certa propriedade onde a beleza outonal ou primaveril dos bosques ocorre como num privativo jardim edénico. A verdadeira perplexidade e a verdadeira alegria.
Em tempos usada para lazer da classe alta, esta propriedade, privada mas de (potencial) uso público, foi abandonada devido à mudança dos hábitos de ócio, à substituição dos destinos turísticos. Na minha infância e adolescência, o sítio era usado por alguns autóctones para piqueniques, para tardes de lazer. Hoje, salvo raras e fugazes visitas de um ou outro nostálgico que vem num relance conferir o estado das coisas, não se vê por ali vivalma, e eu e os meus livros agradecemos.
Faz-lhe uma tangente um rio, com a sua ponte românica e os seus moinhos em ruínas, invadidos pela vegetação. Tem no perímetro e nas imediações pinhais e carvalhais. Dentro de muros há uma grande variedade de árvores que para minha vergonha não sei nomear. Tem diferentes zonas de sombra (densa ou apenas de sol coado) e prados onde estender largamente o corpo ao sol. Tem memórias em velhas paredes e telhados abaulados. Não tem gente. Porque, dir-se-ia, este género de bucolismo já não faz a alegria das pessoas.

Enquanto eu por ali sonho com uma herança que me permita tomar posse daquele território e proteger o paraíso, outros em gabinetes municipais sonham com revitalizar a propriedade. Um dos poucos visitantes com quem me cruzo um dia, informa-me que a Câmara local ficou com a concessão do sítio e pretende resgatá-lo para uso turístico, construir um restaurante, coisas dessas. Como que a adivinhar os meus pensamentos (os meus receios, o meu justificado preconceito em relação aos poderes municipais), a pessoa informa-me também que o primeiro passo daquela “revitalização”, segundo fonte oficiosa, poderá ser o abate de pinheiros. Até já estarão marcados. Despeço-me com um nó na garganta a fingir deambulação sem norte, mas com o pânico instalado de ver com os meus olhos as famigeradas marcações. Não as vi, mas não fiquei descansado. A ideia, infelizmente, não é absurda.

Obrigo-me agora portanto a adicionar ao meu sonho de herdeiro um que prolongue a crise, que inclua o fim do QREN, o fim das ajudas comunitárias a projectos de revitalização. Um sobre bancarrotas municipais que durem até uma geração mais verde tomar o poder. (Sim, bem sei que faria melhor em apostar apenas na quimérica herança ou no desconchavar europeu.)