quarta-feira, 29 de maio de 2013

O infinito e um instante

Dividindo por zero a unidade, Bhaskara obtinha o imperceptível infinito. Também lograra calcular o instante em que os deuses consentiriam as núpcias da filha, destinada ao celibato segundo previsões astrológicas. À queda da última gota do vaso superior da clepsidra deveria suceder o «sim» de Lilavati. Mas uma pérola desprendera-se-lhe do colar, indo impedir a passagem da água derradeira. O desejado instante copiara o infinito: surgira sem o dizer, durara sem se mostrar, partira sem ser notado.

domingo, 26 de maio de 2013

A fé é o que nos salva (2)

CATÓLICO. adj. m. Que aceita a infalibilidade felina. [Wackypedia: contributos para um léxico alternativo]

Aversão

Sempre depois de fornecer os dados para as facturas, murmurava: «Odeio expor-me!» Não raro, em diálogos e monólogos, dizia: «Detesto converter-me em palavras!» Muitas vezes, no seu facebook, declarava: «Irrita-me que me obriguem a transformar-me em assunto!» A t-shirt que vestia com frequência mostrava ao mundo a seguinte mensagem: «Abomino revelar-me!» Deixou uma carta de suicídio junto a um diário que mantinha há anos. Nela podia ler-se que a repugnância em falar de si se tornara insustentável.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

A propósito de Wagner (ou não)

Há Wagner há duzentos anos, é claro, e toda uma galeria de compositores antes e depois dele. Mas, embora ame e rejubile com a música clássica (ou erudita ou o que quiserem), temo ser demasiado plebeu para encarnar um verdadeiro amante do género. E talvez a pop seja uma sina dos que formam o carácter nos anos oitenta do século XX.
Nunca nenhum disco tocou tanto nas minhas orelhas como Snow Borne Sorrow, dos Nine Horses (David Sylvian). Há certamente aberturas mais respeitáveis nos anais da música, mas o falso optimismo ou alegria melancólica de “Wonderful World”, primeiro tema do álbum, é que põe os altifalantes do Chevrolet a vibrar, dando um sentido ao Inverno ou, se nos permitirmos certa indulgência, um slogan à Primavera.

E depois há o terceiro tema, com o contrabaixo a marcar-nos a pulsação — cujo título, “The Banality of Evil”, nos pode afinal remeter para Bayreuth.

Verificações

Quando era o último a sair de casa, retrocedia sempre a fim de confirmar se nenhuma luz ficara acesa. O exercício, em média repetido três vezes, complicou-se mais ao surgir-lhe uma ideia desconcertante: «para ver se as lâmpadas se encontram apagadas, sobretudo em compartimentos sombrios, há a necessidade lógica de as acender». Ultrapassou este contratempo fazendo-se acompanhar de uma lanterna. Após cada utilização, retirava-lhe as pilhas: não tinha (assim reflectia ele) qualquer interesse em duplicar o drama.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Superstições

As almas supersticiosas não se limitam a subscrever manifestações consagradas de pensamento mágico: inventam as suas próprias fórmulas, intermináveis. Fazendo-o, nutrem a cisão interior: de um lado, a entidade que impõe a lei; do outro, a que lhe provará os alegados frutos. Tal cisão opõe, de modo radical, o pé direito — teimosamente o primeiro a transpor a porta, em direcção à rua — ao esquerdo — que, nessa altura, consegue ser o último a deixar o rasto em casa.

Dando sentido às notícias...

Passos Coelho pensa: «#@*&%! O tacho à espera, e eu nisto...» Ok, assim já faz algum sentido...


Público: «Pai de Passos Coelho assegura que filho “está morto por se ver livre disto”»

Frase do dia (2)

«Pai de Passos Coelho aconselha o filho a demitir-se. “Isto não tem conserto. Entrega isto.”»

A argumentação é mais de avô, mas certos pais conseguem também este grau de indulgência e cumplicidade, tomando sempre o partido da prole. Como se depois de o estouvado do rapaz se ter mandado contra o louceiro, deixando tudo em cacos, o avô (no caso, o pai) fizesse a proverbial vista grossa e, tipicamente, com infinito amor, admoestando o móvel em vez do fedelho, sentenciasse: «Deixa lá, a louça não prestava.»

Para aplicar um correctivo à criatura teríamos de invocar uma perceptora. Ou uma governanta mais afeiçoada à louça do que ao pequeno lorde. Não se põe de parte que ande por aí alguma.

Frase do dia (1)

Jogos de palavras orwellianos são tão habituais neste Governo como respirar. E ele está ofegante.

A frase, bela e lapidar, é de Pacheco Pereira, a propósito da novilíngua do Governo, onde “requalificar” significa despedir.


P.S. Pacheco não a escreveu bem assim; retoquei-lhe um pouco estilo, mas não o sentido.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Gavetas exigentes

Escrevia para a gaveta — isto é, para uma das várias lá de casa. Porém, aquela atitude acabaria por atear nas restantes o ciúme típico dos compartimentos fechados. Apercebendo-se do mal-estar geral, optou por escrever para todas as gavetas. Nem assim contentou a maior parte, ressentida com a mediocridade dos textos. Decidiu então deixar de escrever para as gavetas. Ainda pensou fazê-lo para baús, frigoríficos, fornos e tulhas. Mas nada disso valia a pena. Já chegava de aborrecimentos.

Livros excessivos

Recomecei finalmente a ler as mil páginas de A Piada Infinita e reencontrei um dos meus marcadores preferidos, comprado na Casa de Sefarad, em Córdova. Quando no Inverno tentei ler pela primeira vez o tijolo de David Foster Wallace (como referido aqui) devo ter usado aquele marcador e nunca mais o encontrei, mesmo depois de o procurar naquele mesmo volume. E agora não apareceu na primeira sessão de leitura, só à terceira, juntando-se ao de Carcassone a que tinha entretanto recorrido. Na segunda sessão aparecera um que o livro trazia de origem, verde, com umas raquetes de ténis.
Hoje à tarde, enquanto exercitava os bíceps com o calhamaço (minto, enquanto o tentava encaixar no Skype), um novo marcador verde se revelou. Foi aí que me lembrei de alguém ter dito que o livro vinha com dois, um para as páginas principais, outro para as notas.
Há bocado não dava com as chaves de casa e ocorreu-me logo que poderiam estar dentro da Piada Infinita. Não estavam. Mas encontrei lá o corta-unhas que usei depois do banho. E o suplemento de emprego do Expresso.
É por estas coisas que o livro se torna pesado e difícil de ler, não pela escrita do autor. A Quetzal não podia tê-lo dividido em volumes? Ou pelo menos arranjado uma capa dura? É que daqui a pouco vou-me deitar e já tremo só de pensar no esforço para segurar o livro. No meu último pesadelo ele caiu-me na cara. Ainda vou ter de tirar preventivamente a cana do nariz, como diz que fazem os boxeurs.

Personagens incríveis: Maria Teixeira Alves

Há pessoas que pensamos que não existem, são mera ficção hilária. Maria Teixeira Alves, jornalista, blogger e depósito de preconceitos, é uma delas. Pela forma como escreve e argumenta, é um permanente atentado à língua e à inteligência. Mas isso não a coíbe de dividir os jornalistas em duas classes para criar o seu próprio pedestal: os engajados e os que têm «muito» mérito. «Acho que é fácil perceberem porque continuo a ser jornalista», diz ela sem rebuço.
Leia-se esta pérola:

«Os ignóbeis socialistas e bloquistas vão levar amanhã mais uma vez a adopção de crianças por duas pessoas homossexuais do mesmo sexo que vivam juntas, ao Parlamento. Não se enganem, todas as manifs, todos os Grandolas Vilas Morenas, todos os Galambas e Dragos, todos os actos de terrorismo de interrupção de membros do Governo em actos públicos, têm um único objectivo "dar crianças aos homossexuais".»

A senhora não é uma figura patusca do Portugal profundo, é jornalista do Diário Económico e escreve no Corta-Fitas. Para uma risada mais cómoda, pode ser lida no seu próprio blogue, humildemente intitulado Farpas. Mas atenção: Maria Alves avisa que escusam de ir lá insultá-la, porque ela não dá cobertura a insultos. Não precisa. Como alguém comentou algures, a sua retórica insulta-se a si própria.

domingo, 19 de maio de 2013

A fé é o que nos salva (1)

CALVINISTA. adj. m. e f. Que acredita que ser ou não careca depende exclusivamente da graça divina. [Wackypedia: contributos para um léxico alternativo]


O título desta nova série da minha Wackypedia é uma homenagem à resposta circular que a minha mãe me dava quando, tendo-me anteriormente dito que era preciso ter fé para nos salvarmos, eu lhe perguntava o que era isso da «».

sábado, 18 de maio de 2013

Trindade e futebol

Baseando-se em Gregório de Nissa, Karen Armstrong salienta, em Uma História de Deus, que no século IV as pessoas discutiam questões teológicas, sobretudo as ligadas à Trindade, com um entusiasmo igual àquele com que hoje se discute futebol. Convém, todavia, sublinhar que a qualidade do entusiasmo é inseparável da natureza da argumentação: no caso da Trindade, as discussões, em geral sérias, terminam facilmente no vazio; no caso do futebol, as discussões, amiúde vazias, culminam facilmente no ridículo.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

O vendedor de metáforas

Vendia metáforas. O pregão esconjurava lugares-comuns: «Metáfora fresquinha!» Cada caixa encerrava, em papel, um exemplo daquela figura de estilo. Certo dia, já fraco o negócio, um cliente, poeta medíocre em busca de fama, recebera uma caixa sem nada dentro. Insatisfeito, voltou-se para o vendedor, erguendo o objecto à altura dos olhos: «Não vejo aqui metáfora nenhuma!» O outro, que o conhecia bem, retorquiu: «Isso não me surpreende.» E, após essa data, optou pela venda exclusiva de ironias.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Cavaco Silva: «[Sétima avaliação] foi uma inspiração da Nossa Senhora de Fátima»

Nossa Senhora de Fátima aparece aos pastorinhos 'Fundo Monetário Internacional', 'Comissão Europeia' e 'Banco Central Europeu' e às ovelhinhas 'Vítor Gaspar', 'Passos Coelhos', etc.


Notícia no Jornal de Negócios.

O lugar das dúvidas

Era acérrimo seguidor do cepticismo de Pírron. De nada estava certo, nem sequer disso mesmo. Esse esquema intelectual conduzia-o a intoleráveis regressões ao infinito. As suas dúvidas tinham adquirido vida própria e adejavam em seu redor como abutres em torno de um cadáver. Dispunha, no entanto, de uma «verdade póstuma», que escolheu para epitáfio: «Aqui descansam as minhas dúvidas.» Enganara-se. Após a morte, elas rumaram aos espaços vazios. Nenhuma dúvida, por natureza, conhece a plenitude do repouso.

Reinterpretando as profecias

Não devia ter-se rido quando lhe disseram que ainda havia de mingar na vida. Não era falta de vocabulário. Não era dislalia. Não era para rir.