sábado, 29 de junho de 2013

Tudo em família

A Autoridade da Concorrência está neste momento a analisar a proposta de fusão entre a ZON e a Optimus.
Numa notícia totalmente irrelacionada: Quem é que cairia como ouro sobre azul no cargo de novo presidente da Autoridade da Concorrência?, pensa o Governo. O irmão do presidente da Optimus, pois claro.
(Assim, o supervisor sempre pode supervisionar o supervisionado durante o almoço de domingo na casa da mamã. É só vantagens.)

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Desmontando alguns mitos da Educação em Portugal

O Público apresenta hoje um estudo da OCDE sobre a Educação. É uma leitura muito interessante e demolidora de certo mitos que se criaram sobre o sector em Portugal.

O jornal apresenta a sua própria infografia de resumo dos principais números, mas infelizmente a disposição dos gráficos facilita mais a comparação entre os diferentes níveis de ensino (pré-escolar, 1.º–2.º ciclos, 3.º ciclo, secundário, superior) do que entre Portugal e os outros países. Por essa razão, apresento os meus próprios gráficos, feitos com base nos mesmos dados.

Em cada gráfico, “PT” (azul) indica a coluna correspondente a Portugal, “OCDE” (vermelho) refere-se à média dos 34 países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (incluindo Portugal) e “UE21” (verde) refere-se à média dos 21 países da União Europeia que são também membros da OCDE (isto é, todos os membros da UE, excepto Bulgária, Chipre, Letónia, Lituânia, Malta e Roménia). Os dados são em geral relativos ao ano lectivo de 2010/2011, estabelecendo-se por vezes comparação com o ano 2000.


Mito #1: O custo por aluno em Portugal é muito elevado

Os dados da OCDE não confirmam esta ideia, bem pelo contrário. Em todos os níveis de ensino — pré-escolar, 1.º/2.º ciclos, 3.º ciclo/secundário e superior — o dinheiro gasto por aluno no ano de 2010 foi inferior (por vezes, substancialmente inferior) ao gasto na média dos países da OCDE ou da UE21.

Em termos meramente financeiros, o sistema educativo português é, por isso, mais eficiente do que o da média desses países: é 1,5% a 28,5% mais “poupadinho”.

Custo por aluno/ano


Mito #2: Portugal gasta uma percentagem demasiado elevada da sua riqueza na Educação

Se os números da OCDE até confirmariam isto no virar do milénio (com Portugal a gastar ligeiramente mais do que os seus congéneres), actualmente já não é verdade. Em termos percentuais (relativamente ao PIB), Portugal gastou em 2010 um pouco menos do que a média dos países da UE21 e substancialmente menos do que a média da OCDE: em termos comparativos, gastámos 3,5% a 15% menos do que os parceiros com os quais nos comparamos. (A poupança nacional aumentou certamente ainda mais com os cortes salariais na Função Pública.)

Despesa com instituições de ensino (em percentagem do PIB)


Mito #3: Os professores portugueses trabalham pouco

O trabalho de um professor não é fácil de aferir, uma vez que não se limita ao tempo efectivamente gasto a leccionar. Mas, uma vez que é este número (horas de aulas por semana, por ex.) que é habitualmente apresentado como prova da suposta ligeireza da profissão docente, comparemos esses números (em termos de totais anuais).

Segundo o estudo da OCDE, com excepção do ensino pré-escolar, os professores portugueses passam mais tempo a leccionar do que o seu colega médio da OCDE ou da UE21. E se a vantagem dos professores do ensino pré-escolar portugueses é ligeira (1,5% a 3% menos tempo passado com os alunos), a desvantagem dos professores nacionais dos restantes níveis de ensino é bem mais substancial: passam 10% a 20% mais tempo a leccionar do que os seus colegas nos outros países.

Número de horas de aulas dadas por professor/ano

O estudo também revela que, pelo contrário, o horário total dos professores portugueses (contando horas lectivas e não lectivas: 1508 h/ano) é bastante inferior ao da média da OCDE (1670) e da UE21 (1600). Isto significa que o tempo contabilizado em actividades não lectivas — como preparação de aulas, correcção de trabalhos e testes, reuniões e investigação — é inferior em Portugal.

Neste capítulo (e com excepção das reuniões), há que ter em conta que a contabilização é bastante difícil de fazer, pois corresponde a trabalho em grande medida feito em casa, individualmente. Não contabilização não significa inexistência — tal como contabilização não significa efectiva existência. Os números variarão grandemente de docente para docente e de área disciplinar para área disciplinar, mas arrisco-me a dizer que os professores portugueses são dos que mais tempo gastam a desempenhar tarefas da treta (por culpa do Ministério da Educação, não sua).


Mito #4: Os professores portugueses ganham demasiado bem

Neste capítulo, os dados da OCDE são mistos: os professores nacionais do 1.º e 2.º ciclos de ensino ganhavam* em geral mais (2% a 3,5%) do que os seus colegas lá fora, mas os nossos professores do ensino secundário ganhavam* menos (uma desvantagem de 5,5% a 8%). Uma conclusão imediata olhando os gráficos é que cá os professores de ambos os níveis de ensino ganham pela mesma tabela salarial, o que não se passa na generalidade da OCDE e UE21.

Os valores salariais apresentados no estudo da OCDE levantam-me sérias reservas. A média em causa refere-se a um professor com 15 anos de experiência. Sinceramente, o valor apresentado no caso português parece-me exagerado. Tanto quanto sei (mas posso estar errado), o número de professores com Mestrado (pré-Bolonha) é muito baixo em Portugal, havendo uma ligeira progressão na carreira associada a este nível de formação. Em dois casos que conheço bem de docentes com grau de mestre (os únicos, ou quase, nessa situação nas respectivas escolas), com 18–20 anos de experiência profissional, o nível salarial é algo inferior à suposta média nacional (onde se incluem a multidão de colegas menos graduados e com menos tempo de serviço).

Salário médio de um professore com 15 anos de experiência(2011)

A ideia da classe docente como classe favorecida tem, no entanto, algum suporte num dado: em média, os professores portugueses ganham mais 17% do que outro profissional nacional igualmente licenciado, enquanto que na média da OCDE e da UE21 os professores ganham menos 11%. Ou seja, efectivamente a profissão docente é (comparativamente) mais bem remunerada em Portugal do que lá fora. Mas combinando este dado com o que foi dito quanto ao custo anual por aluno e ao número de horas efectivamente gastas a leccionar (o cerne da profissão docente), a conclusão a que podemos chegar é que, ao contrário do que se passa noutros sectores da economia nacional, os “custos de produção” do sector educativo (em termos gerais e em termos de custo/hora útil) são mais baixos em Portugal do que lá fora.

Os professores portugueses não são demasiado bem remunerados — os demais licenciados do nosso país é que são ainda mais mal pagos do que pensam.


* De notar ainda que os valores apresentados dizem respeito aos salários no ano lectivo de 2010/2011, isto é, anteriores aos cortes salariais na Função Pública que ocorreram em 2011.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Memória superlativa

Chamava-se Salomon Shereshevsky. Alexander Luria conta-nos que ele dispunha de uma memória capaz de, numa espécie de fusão sinestésica, fixar todos os pormenores da sua vida. Apesar desta aptidão assombrosa, ou melhor, por causa dela, Shereshevsky tinha, por vezes, dificuldade em recordar caras e em identificar vozes conhecidas. «Elas mudam muito», afirmava. Levada ao extremo, a memória não se limita a fazer durar o que sabemos fugaz: descobre a subtil fugacidade do que se nos afigura duradouro.

Wackypedia: Economia (1)

EMPREGUITO. s. m. Salário, remuneração. [Wackypedia: contributos para um léxico alternativo]

domingo, 23 de junho de 2013

Auto-análise

Em carta a Wilhelm Fliess, Freud declara que «uma verdadeira auto-análise é impossível, de contrário não haveria doença». Ao falar-se em «auto-análise», pressupõe-se a divisão do sujeito, simultaneamente «analista» e «analisado». Ora, se o processo assenta numa separação, a «doença» encontra aí um factor que a prolonga. Mas poder-se-á realizar uma auto-análise — digamos antes «auto-observação», pois «analisar» implica «decompor» — e, ao mesmo tempo, evitar a cisão interna? Sim. E o remédio para a «doença» é exactamente esse.

sábado, 22 de junho de 2013

Os condutores e os bêbados

A fechar L’Être et le Néant, obra de assinalável sucesso, conclui Jean-Paul Sartre que todas as actividades humanas estão votadas ao fracasso. Condenado à liberdade, o indivíduo é a fonte exclusiva dos valores. Assim, tanto faz «embriagar-se solitariamente» como «conduzir os povos». Certo. Mas torna-se incomodativo saber que uma coisa não impede a outra. Há «condutores de povos» que, pelo rumo a que entregam o povo a conduzir, geram a terrível suspeita de serem igualmente «bêbados solitários».

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Temporalidades

Adoptara duas breves máximas — para tornar as suas inquietações mínimas. A primeira — «Não sou o que fui» — permitia-lhe atenuar a acidez do remorso. A segunda — «Só existo aqui e agora» — garantia-lhe um razoável domínio sobre medos e ilusões. Disciplinado por tais axiomas, demorava-se em pormenores que outros achariam irrisórios, colhendo dessa prática desassombrados êxtases. Quem lhe notava aquele entusiasmo, sinal de que vencera o passado e se instalara apenas no presente, costumava dizer: «Este indivíduo tem futuro.»

Mau, feio! Dá tau-tau, dá!

O blogue Iniciação ao Tédio conseguiu descobrir a educadora de infância de Hugo Soares, promissor deputado e formando de uma dessas grandes escolas de vida que são as juventudes partidárias.

Assuntina Lamares, educadora e sócia-gerente do Jardim Sorna e Dorme (JSD), confirmou à nossa redacção que desde cedo Hugo Soares demonstrou «grande talento para a procura de consensos, além de uma invulgar precocidade elocutória».
Por exemplo, enquanto o típico miúdo de 2 anos, tendo-se atrapalhado com própria inépcia e caído, berrava um simples «Chão mau, feio! Dá tau-tau no chão, dá!», Hugo Soares submetia uma interpelação à administração do Jardim: «Numa altura em que as quedas têm um impacto demasiado grande na vida dos meninos, queremos saber quanto é que o chão custa aos portugueses.»

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Este livro não é para si, não compre

«Mansfield Park é seguramente a obra mais controversa e menos amada pelos apreciadores da escrita de Jane Austen. (...) Por estas e outras razões, Mansfield Park (...) é um romance complexo e de alguma forma estranho para os leitores assíduos de Jane Austen.»

As frases anteriores abrem e fecham, respectivamente, a sinopse da edição de Mansfield Park pela Book.it. Quando a editora do grupo Sonae decidiu publicar o livro, fê-lo naturalmente achando que «Jane Austen permanece até hoje como uma das mais lidas e amadas romancistas de língua inglesa de sempre», como afirma na badana. Mas na hora de escolher uma sinopse para a contracapa, uma de duas coisas aconteceu:

  1. o editor foi à net e traduziu sem ler ou perceber o primeiro trecho que encontrou a falar sobre o livro;
  2. o editor estava chateado com a ideias de Belmiro de Azevedo quanto ao que é um ordenado e resolveu, por vingança, espantar os leitores previsíveis do romance. É bom ver um indignado em acção onde menos se espera.

Claro que o textito pode atrair um outro tipo de clientela. Gente que não aprecia Jane Austen. Ou gente que, distraída, se entusiasme com a possibilidade de aquele ser um romance complexo. Mas desconfio que, para os padrões de Belmiro, estas vendas não chegarão para eleger o editor como funcionário do mês na Sonae.

Também não é seguro que a exportação seja uma saída. Afirmar na ficha técnica que «Este livro foi escrito ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico» dificilmente convencerá o público brasileiro de que Jane Austen é um potencial novo Prémio Portugal Telecom.

Talvez por isso os meus amigos o tenham comprado por um euro.

Tea Party Portugal

Um dos colaboradores do Blasfémias reclama um «Tea Party Brasil». Faz sentido. Poderia aproveitar e pedir a mudança do nome do blogue onde escreve. Tea Party Portugal assentava melhor e era mais honesto para um sítio como aquele.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Menos Estado (2)

Se a transacção para uma sociedade com menos Estado feita à maneira da troika é dolorosa em todo o lado, para muitas localidades do interior do país ela será fatal. Há concelhos inteiros que não sobreviverão sem função pública. Toda a sua economia está centrada nas instituições públicas e no emprego público. É isto saudável? Provavelmente não. Mas conviria que o Governo e os seus arautos se detivessem um minuto no assunto. Que assumissem publicamente que um brutal aceleramento da desertificação do interior é um dano colateral aceitável na demanda da sociedade perfeita. Porque é isso que vai acontecer. Um cenário de western com ossadas a assomar do pó. Só que as ossadas não serão de búfalos, mas as dos velhos e de todos os que não terão como cumprir o êxodo rural ou a proverbial emigração lusa.

Menos Estado (1)

Já se percebeu que os defensores de menos Estado não têm capacidade para pensar em mais nada. São monomaníacos. Perigosos. Porque nas actuais circunstâncias menos Estado é apenas igual a mais desemprego e menos economia. Uma abordagem sensata da crise pela União Europeia e pelo FMI teria implicado uma estratégia de fortalecimento do sector privado como alavanca para o emagrecimento do Estado. Porém, como os inconsequentes actos de contrição do FMI provam, as instituições da troika não são constituídas por gente sensata, mas por ideologia em estado puro. O objectivo daquelas instituições não parece ser uma sociedade melhor — mas uma sociedade, adivinharam, com menos Estado. Para alcançar o objectivo não se constroem estratégias razoáveis e praticáveis — avança-se a eito e à bruta, por decreto ou ultimato.
Argumentarão que a troca das premissas não era condição para o fracasso. Que, pelo contrário, começar por emagrecer o Estado é que era condição para fortalecer o sector privado. Talvez uns anos antes pudesse ter sido assim. Talvez daqui a uns anos possa ser assim.
Neste período, emagrecer o Estado implicará emagrecer uma parte substancial da população.

Talvez em certos sistemas filosóficos ou ideológicos seja legítimo sacrificar uma parte da sociedade para que a outra sobreviva com menos Estado. Já se sabe: onde uns vêm distopias, outros vêem utopias. É tudo uma questão de perspectiva — e de ter ou não ter almoçado.

Exames

ENSINO DE EXCELÊNCIA. Naquele colégio americano eram tão exigentes com as notas, que obrigavam-nos a estudar para terem A+ no teste ao sangue.

Um país às direitas

Certos comentadores de direita, apesar de quotidianamente afirmarem que este Governo é incompetente, de passarem o tempo a irritar-se com este Governo, de não hesitarem em chamar “socialistas” a ministros deste Governo, não cessam de o apoiar. E porquê? Porque na verdade o Governo expira o mesmo ar pesado desta direita mais ideológica e contamina com ele a atmosfera geral — e isso é a única coisa que importa. Não importa que o Governo não tenha mudado nada do que estava realmente mal em Portugal. Boys? Aumentaram. Favorecimentos? Mantiveram-se. Instituições e gestores incompetentes? Certamente aquelas não diminuíram ou diminuíram por acaso, apanhadas na avalanche demolidora, e poucos destes foram demitidos (sendo, aliás, logo compensados com outros de igual calibre mas da ideologia certa). Pelo caminho foi dispensada gente competente, mas que vota mal, e destruídas instituições que não envergonhavam o Estado.
Importa é que de dia para dia se abre o caminho à Besta de certa direita (ou ao Caos, logo veremos).
O que o Governo fez foi munir-se de bulldozers para derrubar todo o bosque onde supostamente estavam as árvores más — e nós sabemos como a direita thatcheriana adora bulldozers. Entrar simplesmente nos antros de incompetência e nepotismo e identificar os elementos podres, como faziam os regedores florestais, nem sequer passou pela cabeça destes bacharéis. Cria-se o estigma, prepara-se a opinião pública (e há uma quantidade incrível de tipos auto-iludidos com o seu suposto conhecimento do país prontos a segurar este tipo de bandeiras) e leva-se tudo à frente. Para fazer o que tem feito, o Governo não precisava de contratar assessores nem de encomendar estudos (e no entanto contratou e encomendou sem constrangimentos). Bastava-lhe deitar sortes, com dados ou outro instrumento do mesmo rigor e critério. O resultado não teria sido diferente. Haverá alguém no meio deste excitadiço circo neoliberal que acredite ter-se melhorado o que quer que fosse no que se refere a corrupção, oportunismo, nepotismo, má gestão e incompetência em geral? Que isso foi sequer preocupação do Governo? Se não abundassem respostas a estas perguntas, bastaria olhar para a forma como os partidos da maioria estão a lidar com as autárquicas — que decorrerão como se não houvesse crise e como se Portugal não tivesse nada a aprender com as últimas décadas. Vários dos mesmos comentadores de direita que enchem as bochechas de moral e ética contra o Estado estão no terreno a posicionar-se ou a posicionar os seus peões, as suas brigadas jotas e os seus dinossauros escleróticos para o grande banquete da cacicagem.

A única coisa que mudará em Portugal depois deste Governo será o número de desempregados e de instituições entaipadas.*


*E a posição relativa do Borda d´Água em relação ao Excel no ranking.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Casais vice-versa

Há casais onde o homem é a versão masculina da mulher e ela a versão feminina dele. Na fisionomia, nas posturas, por vezes também em certos traços do carácter. Talvez essa correspondência, essa simetria de espelho, tenha sido o que os atraiu desde o primeiro momento. Ou talvez os anos de vida em comum os tenham moldado à imagem um do outro. Velhos casais que nos parecem incestuosos, constituídos por ignotos irmãos gémeos. Senhores de meia-idade de modos suaves e cara imberbe que copia a da mulher, ou mulheres rudes e viris a quem só falta o bigode do marido.
O casal de hoje ainda não tinha idade para se ter moldado pelo convívio dos anos, mas estava já adiantado no processo de osmose: de mão dada, exibiam a mesma barriga de cerveja, as mesmas pernas roliças, a mesma roupa branca, o mesmo cabelo castanho curto e o mesmo rosto levantado e avançado, como se a tentar evitar que os grandes óculos de sol, um pouco mais apressados, os deixassem para trás. Não pode haver mais identificação entre dois amantes do que aquele jeito partilhado de equilibrista de circo esforçando-se por tentear qualquer coisa na testa que ameaça escapar-lhe e o faz dar passos em frente e para o lado, num bailado sem coreografia rígida. Ambos tinham narizes pequenos para os óculos que adquiriram, e isso não foi um simples equívoco da vaidade — foi um equívoco partilhado, certamente na mesma sessão de compras.

Em dia de greve

Chego à escola cedo. Segundo o calendário, deverão realizar-se os exames de Português e de Latim. Entre alguns livros, transporto dois com as Fábulas de Fedro. Um em latim. Outro em português. Não receberei provas. Não assinarei documentos. Aos poucos, vai-se adivinhando uma adesão esmagadora. Das cinco salas previstas abrirá uma. As razões da greve são conhecidas. A ideologia cansa. A imoralidade incomoda. A prepotência enjoa. Afortunadamente ainda existem as fábulas. Importa lê-las bem num tempo assim.

A hora dos papagaios

Três mulheres, um petiz. Chegam e a mais velha instala-se com o rapaz num dos bancos de balouço. A mulher tem um ar apatetado e o timbre instável de um adolescente na mudança de voz. O miúdo utiliza frequentemente a expressão «credo» com uma entoação e uns trejeitos que parecem trair
a) excesso de convívio com a mulher mais velha (a quem a expressão assenta perfeitamente)
b) uma precoce postura irónica, zombeteira.
Olhamos-lhe para a cara, da mesma linhagem da dela, e inclinamo-nos para a hipótese do convívio, o puto como papagaio inconsciente e sem dolo da tia ou avó.
Depois as outras duas mulheres sentam-se nas imediações e ela, dando às pernas no balouço, enche o peito de ar a despropósito:
— Se fosse eu, punha os desempregados a semear batatas ali naquele campo. Se recusassem, não recebiam um tostão. Os desempregados e os do rendimento mínimo. Haviam de ver.
As correntes gemem com o vaivém e a sua voz concorre com elas na mesma frequência de agudos oxidados.
— Se fosse eu que mandasse, era assim. Eles não iam gostar, pois está claro, mas comigo trabalhavam, se queriam.
As outras, como se a levassem a sério, falam entre si de agricultura, naquele tom vago e ocioso de domingo à tarde. Fazem cálculos por alto a despesas e lucros com certa hipótese de lavoura e parecem concluir pela inutilidade da empreitada.
Ela não as ouve ou não desarma.
— Eu dava-lhes o desemprego! Se fosse eu que mandasse?
O miúdo tornou-se irrequieto e exigiu atenção. A diatribe da mulher interrompeu-se quando ela se ia referir aos funcionários públicos. Não pudemos ouvir que impropérios teria no seu repertório para esta outra espécie.
Podemos conjecturar que se tratava de uma seguidora atenta do Governo, possivelmente uma empreendedora de sucesso, ou alguém cujo mérito no trabalho deixa longe o espectro do desemprego.
Ou podemos correr o risco do preconceito (quem vê caras não vê corações?) e não pôr de parte a possibilidade de se tratar de uma reformada, quiçá da função pública, fascinada pela retórica tribal e o olhito azul de Passos Coelho. As mentes simples tendem a papaguear o que ouvem. Não é, rapaz?
— Credo!

domingo, 16 de junho de 2013

Ideais

Para a OMS, é um «estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade». Face à categórica abrangência, irmã gémea da perfeição, dada ao conceito de «saúde», compreende-se a humana impossibilidade de alcançar as prerrogativas aí expressas. Contingências óbvias e a certeza da morte bastariam, mesmo se ténues, para neutralizar semelhante ideal. Talvez os deuses o cumpram. Talvez o realize algum dos bichos. Talvez bichos e deuses nos entendam.

sábado, 15 de junho de 2013

Abulia

A sua divisa favorita colhera-a em Melville: «Preferiria não fazer.» Ao conjunto dos seus movimentos não chamava «preguiça», antes «abulia existencial». A quem lhe perguntava pelo «sentido da vida» respondia: «Se se pode conceber algum, “dormir, talvez sonhar”.» Apoiava-se igualmente em Nietzsche: «Saber dormir não é um caso insignificante: é preciso ter estado acordado um dia inteiro para o conseguir.» Apreciava citar. Por vezes, dizia: «As citações são almofadas sensatas onde encontram repouso as nossas cabeças loucas.»