quarta-feira, 17 de julho de 2013

Quim Barreiros dirige JN por um dia

Ao que parece, o Jornal de Notícias apresentará uma excelente prova de bom gosto como manchete de amanhã (hoje, para a maior parte de vocês). A tentação é culpar o jornal, mas um jornal não existe sem leitores. O Norte, e não só o Norte boçal, tem defendido teimosamente o JN como o “seu” jornal, apenas porque o pasquim inclui mais páginas de noticiário regional, mesmo que irrelevante. Os empresários e as luminárias do Norte sempre preferiram a noticiazinha paroquial, ainda que medíocre, a uma informação decente. As mesas de café, os consultórios de dentista e todos os velhos solares acima do Mondego revestem-se de JN. Não sei porque se queixam de o Norte ter perdido influência. Parece-me que disputamos bem o primeiro lugar ao Correio da Manhã no que toca a irrelevância ruidosa e grotesca.

(Isto faz-me lembrar como, à escala provincial, os transmontanos preferiram deixar morrer o Semanário Transmontano, o único jornal digno de prelo que aqui conheci.)

terça-feira, 16 de julho de 2013

Metamorfose e experiência

Ter-se convertido em insecto não subtraiu inteiramente Gregor Samsa à espécie humana. A experiência foi a de um contraste. Já a pergunta de Thomas Nagel «Como é ser-se morcego?» sugere um âmbito menos híbrido. Só lhe responderíamos sendo «puros» morcegos. Porém, isso inviabilizaria o interesse da questão. Cada existência persiste intransferível em si mesma. Podemos, claro, imaginar uma realidade supraconsciente que integre experiências múltiplas de entes inumeráveis. Mas essa ideia, além de cientificamente vazia, é potencialmente delirante.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Hiatos

Se o discurso de outrem incomoda e não se vislumbra modo oportuno de o evitar, ganha-se em ficar atento aos silêncios existentes entre as frases, cada um detendo moldura própria e timbre específico, graças às características sonoras da palavra que acaba de ser dita e daquela que não tarda a surgir. Escolher os hiatos em vez da mensagem é um exercício de auto-revelação. Em tais intervalos ouve-se menos. Mas o que se ouve costuma oferecer maior profundidade.

Wackypedia: léxico geral (1)

ASTECA. s. f. A manga do casaco de um batoteiro. [Wackypedia: contributos para um léxico alternativo]

domingo, 14 de julho de 2013

Duplo movimento

Com a sua «revolução coperniciana», Kant atribuiu ao sujeito um papel activo: ele «mexe-se» rumo ao objecto, impondo-lhe intuições amplas e estruturas firmes. A ideia revelar-se-ia mais fecunda se integrasse a leitura contrária: o objecto «em demanda» do sujeito. Não seria arremedo de visão ingénua, antes evocação de escuta sazonada. Para observar as formas de um penedo, convém que de algum modo nos movamos. Para olhar as feições que a nuvem toma, importa que saibamos estar quietos.

sábado, 13 de julho de 2013

Primeiros parágrafos…

…de um falhanço dos idos de Março

(É longo, desculpem lá ou passem à frente)


«Lembram-se do esqueleto que há uns seis meses alvoroçou a cidade? Era eu. Sei que é difícil de acreditar, até porque o esqueleto usava barba. Mas era eu. Hoje estou muito melhor, comi qualquer coisa entretanto e barbeei-me, voltei a usar roupa. Mas as fotos que viram nos jornais eram minhas. As tíbias, os fémures, os rádios, as falanges, todo o chocalhante conjunto era meu. Até o chapéu era meu. Sim, reconheço, podia ser de um cigano. Porém, era meu. Tomaram-me por um junkie, mas isso era uma acusação sem cabimento. Naquela altura eu já tinha deixado de me injectar, as agulhas partiam-se-me nos ossos. Bebia, de facto, mas não muito. Um pouco menos do que o Rasputine. Eu sei que ele era ligeiramente maior do que eu e isso faz diferença. Ok, umas três vezes maior do que eu. Sou um tipo baixo. Um baixote. Um minorca. E magro (agora já nem tanto). E louro. Se fosse moreno, teria sido mais difícil ser baixo. Era demasiado azar para se continuar vivo. Um gajo louro tem outro lustro. E depois há os olhos azuis. As mulheres quando olhavam para mim não viam um gajo baixo, estavam demasiado ocupadas a derreterem-se com o lourinho de olhos azuis. Quando finalmente se dispunham a medir-me a altura, faziam-no aos palmos e era raro passarem dos tomates. De resto, eu tinha ali uma surpresa para elas, uma a que se agarravam de mãos e dentes. Um tipo pode ser baixo e ter um pau comprido. As leis da física não o impedem. Fizeram-se testes. Eu fiz testes, na adolescência. No início, quando percebi que tinha uma coisa telescópica entre as pernas que em certas alturas não parava de crescer, assustei-me. Achei que aquilo me podia desequilibrar. Nunca a deixava crescer sem me encostar com uma mão a uma parede. Não é incomum que os putos o façam, embora nem todos limpem a parede depois. Mas fui ganhando confiança, como os funâmbulos se adaptam à vara que os equilibra no arame. Se pensam em termos gráficos, talvez estejam com dúvidas sobre a funcionalidade do sistema, mas a representação não esclarece tudo. Há os glúteos, que se desenvolvem com o crescimento. Imaginem isto: as mamalhudas não passam o tempo a cair de queixos, pois não? Bem, algumas passam, é verdade. O que quero dizer é que o nosso sistema muscular se adapta à carga com que tem de lidar. Não era um daqueles tipos com bíceps hiperdesenvolvidos porque não precisava assim muito dos braços. Isto pode deixar confuso um alferes, quando se vai para a tropa e se fracassa nas flexões na barra, mas não as mulheres. Pelo menos há vinte anos não. Entretanto tive de me adaptar, frequentar ginásios, arranjar-lhes uns bíceps que pudessem apalpar. O centro gravitacional de um corpo não muda com as épocas e os gostos, mas por vezes tem de se arranjar uns pontos de apoio para as mãos.»

Decerto alguns de vocês pensaram que é preciso um tipo descer muito na vida para se passear pelas ruas nu e com a barba por fazer, os ossos mal seguros por umas pelicas de frango depenado. Outros, pelo contrário, ficaram encantados com a publicidade que eu tive, aquilo era uma coisa que vocês podiam fazer. Afinal, toda a gente anda a tentar dar nas vistas, a desenvolver uma nova metafísica da existência: apareço, logo existo. Mas não escondo que tinha descido na vida. Tinha descido às profundezas do Inferno e não foi porque me enganasse no caminho quando tentava vernianamente descobrir o centro da Terra — não tenho a sorte nem o espírito aventureiro, ou a astúcia, de um Pedro Álvares Cabral. Se fui parar ao Inferno foi porque meti no GPS essas exactas coordenadas e obedeci com satisfação a cada directiva dada pela menina concupiscente do TomTom.

Tudo começou vinte anos antes, quando num dia solarengo de Fevereiro, desses em que nos atrevemos a mergulhar no oceano apesar do risco de síncope cardíaca, fui arrebanhado para a vida militar. Se havia alguém que não fora concebido para a tropa, era eu: o único desporto que tinha feito até à data era o sprint, quando tentava fugir do ;bullying na escola. Sobre a porta onde fazíamos fila para entrar, como estúpidos cordeiros voluntários para o sacrifício, havia uma sigla, «EPI», e só mais tarde soube que não significava «Escola Prática de Infantaria» mas sim «Entrada Para o Inferno». Claro que o Inferno ali, no átrio barroco do antigo convento, era ainda cálido, apenas chamuscava, era mais fanfarronice militar do que realidade. Tinha muito de Comboio Fantasma, onde umas figuras com insígnias e galões procuravam desempenhar o papel de almas penadas e monstros avulsos. Um tipo assustava-se e ria-se, tudo ao mesmo tempo. Os furriéis e os alferes logravam ser tão ridículos, nas suas fardas engomadas e nas suas botas luzidias, quanto certas representações naïves da morte com gadanhas ergonomicamente erradas.
A mim a tropa trazia-me entre o divertido e o entediado, mas frequentemente estava apenas irritadiço. O regulamento e os horários eram absurdos. Quando às seis da manhã acordava com o matraquear das giletes no mármore oxidado dos lavatórios dava graças aos céus por ter sido brindado com um rosto que naquela altura ainda era quase imberbe e onde a escassa penugem loura resultava invisível aos olhos de orangotango macho e míope dos graduados. Para eles, eu não tinha barba. Tinha bochechas como nádegas de gaja, onde apetecia assentar a mão, e julgavam que me incomodavam com isso. Eu ria-me como se eles tivessem contado uma anedota e eles diziam que não era para rir e davam-me um calduço. Parecia-me paga aceitável para o privilégio de me levantar seis dias por semana mais tarde do que os outros. Por vezes acordava antes do ritual da barba, porque havia uns imbecis cujo zelo pela pontualidade na parada os fazia levantar ainda mais cedo e, no seu nervosismo, não conseguiam abrir os cacifos metálicos sem parecer que os estavam a assaltar. Eles tinham a chave do seu próprio cacifo, mas abanavam-no e batiam-lhe como quem está a ser perseguido pelo Freddy Krueger e não consegue acertar com a chave na fechadura. Depois de finalmente o abrirem, não o sabiam fechar sem bater com as portas, metidos naquela sua cabeça e naquele seu mundinho onde só havia lugar para a obsessão com as horas e a obediência cega à hierarquia.
Depois de sermos admitidos naquele patético clube masculino, tinham-nos cortado ainda mais rente o cabelo e, num patamar de uma larga escadaria, fizemos nova fila para receber o fardamento, tudo nos previsíveis tons de verde azeitona, incluindo a roupa interior, as meias e os lenços de assoar (excepto o equipamento desportivo, que era de um branco pronto a aceitar as manchas de suor, e as botas, pretas como pneus novos de chaimite parafinados). Ao contrário da maioria das lojas, ali não se aceitavam trocas, pelo que éramos obrigados a lembrar na hora os nossos tamanhos ou a viver com o remorso de os ter esquecido — e com as peças demasiado apertadas ou demasiado largas. Mas ter boa memória não chegava: as botas que recebi eram do número certo, só que, numa prova de que o rigor militar é um mito, isso não significou que elas se ajustassem aos meus pés. Nas semanas seguintes, até ser autorizado a ir a casa, tive de usar em simultâneo todos os pares de meias que me calharam para conseguir caminhar sem deixar as botas para trás, e isso não favoreceu em nada a atmosfera empestada da caserna.
De resto, cedo comecei a desinteressar-me das rotinas militares. Havia um mínimo que eu cumpria, que era permanecer no quartel, fora disso não me preocupava demasiado o que indicava o menu do dia, não estava para me aborrecer com detalhes. Os militares eram, por exemplo, muito ligados à etiqueta, falsamente convencidos daquela treta de oficial & cavalheiro. Diziam que não se misturavam peças do uniforme número dois (o de saída) com o número três (o de trabalho ou operacional) e muito menos com o de ginástica. A continência só se fazia com a cabeça coberta. Não se ficava de cabeça coberta no refeitório. Nunca se pegava numa arma enquanto se envergava a alvura do equipamento de ginástica (como se assim vestidos nos tornássemos anjos, seres incompatíveis com a violência da G3). Enfim, um rol de limitações e exigências que poderia baralhar um tipo desatento como eu era. Como resultado disto, não foram raras as vezes em que apareci na parada, com o atraso do costume, embrulhado em branco-noiva quando todos estavam de verde-oliva ou vestido para ir às putas quando havia ordem de permanência de fim-de-semana.»

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Que maus costumes e que carrascos, afinal?

Ao contrário do que a maioria dos comentadores diz, ao recorrer a uma citação em que Simone de Beauvoir visava os Nazis, a Presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, não insultou o público que na galeria do hemiciclo exigia a demissão do governo — insultou, isso sim, o próprio governo.

Se não, vejamos: «Não podemos deixar que os nossos carrascos nos criem maus costumes», foi a citação feita. Ora, que mau costume recém-criado poderia Assunção Esteves assumir que se verificava naquela altura no parlamento? Claramente, o de o público na galeria se manifestar ruidosamente, perturbando os trabalhos. E o que justificava essa manifestação? A acção (des)governativa do governo de Pedro Passos Coelho (ou seja lá quem for que actualmente manda na chafarica).

Logo, a citação de Simone de Beauvoir só faz sentido se «maus costumes» = manifestação popular no parlamento e «nossos carrascos» (nazis) = Governo.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Palavras e silêncios

Terão sido estas as últimas palavras de Jane Austen: «I want nothing but death!» Por sua vez, Rousseau descreve-nos os meandros da agonia de certa mulher cujos derradeiros vocábulos, precedidos de sonoro traque, foram os seguintes: «Femme qui pète n’est pas morte.» Se houver ainda lucidez para compor a frase final da vida, uns decidem manter a solenidade, outros resolvem quebrar o protocolo. Só a morte persiste em não dizer qual dos dois exercícios mais lhe agrada.

Shoplifters Of The World Unite*

Conheci-o nos anos oitenta. Tinha o queixo afiado e insolente de Morrissey e dançava como ele. A teatralidade do cantor britânico era para a terra uma estranheza — vagamente sedutora para alguns, repulsiva ou embaraçosa para os outros. Para Pierre era uma segunda pele, mexia-se nela com o à-vontade do original que emulava e a quem servia de arauto nas berças. O facto de ter estado emigrado numa grande metrópole europeia e de ser, ao contrário dos demais, ainda que circunstancialmente, de origens urbanas, facilitava-lhe, claro, a apropriação do imaginário e do guarda-roupa pop. Parecia um excêntrico, mas era apenas alguém que adoptara um estilo. De uma sofisticação vulgar noutras paragens, assaz extravagante na província.
Na pista de dança dir-se-ia exibicionista, mas só porque o resto dos noctâmbulos dançávamos como tímidos e artríticos. Ele entregava-se à música com o mesmo ar compungido ou desesperado de Morrissey, agarrando os próprios ombros, colocando dramaticamente as costas da mão na testa, virando os olhos aos céus, vivendo emocionalmente o que ouvia nas colunas da discoteca, sobretudo se o que ouvia era The Smiths.
A amizade com os autóctones teria de ocorrer, porque Pierre, agora domiciliado na terra, era ali inusitado mas não tinha perfil de solitário. Contrastava nos grupos, mas acabaria por frequentar os mesmos sítios e seguir as rotinas clássicas do burgo. Trazia hábitos de consumo de marijuana cosmopolitas, e os posteriores problemas com as drogas que partilhou com parte da juventude indígena pareciam nele mais charmosos e românticos. Quando teve de trabalhar, já numa fase descendente, parecia uma estrela de TV a cumprir uma pena de serviço cívico. Era o único servente de trolha que chegava já de manhã com os jeans arregaçados, e usava o boné com a maior pala de todo o sector local da construção civil. Era dos poucos, na altura, que tomava banho e acertava o penteado entre o final do expediente e as primeiras cervejas da noite.
Algures na viragem do século perdi-lhe o rasto. Já só o via ocasionalmente, à boleia, diziam-me que a caminho do dealer. Chegaram-me rumores, que cobardemente não refutei, que o davam como internado em centros de desintoxicação — como tantos outros, nisto não seria original.
Quando o voltei a ver, de novo magro como o Morrissey de 82, mas agora talvez mais parecido com o Michael Stipe dos anos 2000, careca e consumido como ele, a primeira coisa que notei foi a franqueza do aperto de mão. Delicado mas envolvente. Falámos de música, claro, que ele amava com a mesma intensidade mas com um gosto mais ecléctico. Tinha um programa de rádio e uma mágoa por não ter dinheiro para ir ver todos os concertos de que gostava. Disse isto sem ressentimento, com uma certa humildade, sem o ar desafiante ou provocador que ser pós-punk nos oitenta lhe dava. (Não, não era humildade, era melancolia, realismo dorido.)
Não sei se a minha amizade com Pierre poderia ser agora mais intensa e franca do que há vinte e cinco anos, mas sei que a lembrança do nosso encontro acabou de me comover. Não confundam isto com condescendência ou piedade, nem ele precisa disso nem eu estou em posição de tais sentimentos, seria pretensioso e patético. É talvez um reconhecimento, o ver nele os meus próprios sonhos irrealizados. Ou uma premonição.


* The Smiths, single de 1987

Estou lixado

Depois de trabalharem e de cumprirem os seus ritos comunitários pós-prandiais, que nas noites quentes de Verão se alargam, as pessoas vão para casa. Eu vou para a varanda. As ondas de calor fazem de mim um sem-abrigo, porque tornam os compartimentos do T3 território inóspito para a humanidade. Leio e dormito na cadeira de plástico da varanda até ser demasiado doloroso segurar a cabeça e então, alta madrugada, arrasto-me para a cama, sabendo que vou suar as estopinhas cada hora de sono mal dormido.
Hoje, depois de há muito escancarar todos os vãos nas duas fachadas do prédio, a aproveitar como náufrago a brisa que se levantou, consegui finalmente, às quatro da manhã, baixar em dois graus a temperatura cá em casa (de 32 para 30). Significa que sentar-me ao computador é um exercício de masoquismo um pouco menos clamoroso.
Se tivesse um jardim com plantas arbustivas, poderia preencher estas madrugadas de canícula esculpindo ou fazendo a poda, como uma das vizinhas da rua de trás. Não é a primeira vez que ouço a velha senhora atarefar-se alta noite, mas geralmente apenas trata de despejar o lixo no contentor ao fundo da rua ou de arrumar o pátio a horas inesperadas. Ontem muniu-se de escadote e, em bata sobre camisa de dormir, tesourou durante hora e meia, varrendo de seguida minuciosamente o passeio. Não a podemos censurar: fazer aquele trabalho de dia teria sido suicídio e as insónias não têm de ser meros períodos de desespero, podem ser rentabilizadas.
É o que tenho tentado fazer, com menos sucesso do que a minha vizinha. Havia, teoricamente, uma certa correspondência entre o labor dela e o meu. Ambos decidíramos podar, ela os seus ciprestes, loureiros, carpa europeia ou o que quer que lhe nasceu no jardim, eu as provas do meu Os idiotas. Acontece que, ao contrário dela, eu não me consigo livrar dos ramos secos, desordenados, murchos, apodrecidos, porque nesse caso teria de me livrar de toda a obra.
O que escrevi atrás não é falsa modéstia, autodepreciação pedante. Explico-me melhor: eu estava apenas a tentar imaginar uma versão do romance que pudesse apresentar ao meu pai. E concluí que ela não existe. Se pusesse de lado a linguagem obscena, a sátira, a incompassiva crónica de costumes, ficaria talvez com uma novela amorosa ou psicológica nas mãos — negra, desesperançada, dispensável ou igualmente inapresentável. Estou lixado. Escrevi uma comédia, mas levá-la lá para casa será como contar uma anedota porca à mesa de jantar. Impensável.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Meta-aborrecimento

Ouço-o de uma septuagenária que nunca leu filósofos existencialistas nem poetas desesperados: «A certa altura, a gente até se aborrece de cá andar.» As derradeiras palavras de Winston Churchill terão exprimido idêntico teor: «Estou aborrecido com tudo.» Talvez o aborrecimento em causa, equivalendo ao tédio, represente um desconforto de natureza universal. Há vantagens em habituar-se a ele desde cedo. Poderá assim o indivíduo, mais tarde, aborrecer-se do próprio aborrecimento. Um exercício do género deve ser francamente redentor.

domingo, 7 de julho de 2013

Em Setembro teremos Os Idiotas
(não, não são os de todos os dias — ou serão?)

Eis uma ideia refrescante para o Verão (para o fim do Verão, pronto): em Setembro sairá Os Idiotas, primeiro romance do meu companheiro de blogue Rui Ângelo Araújo, numa edição d’O Lado Esquerdo Editora.

Em ano (e mês) de eleições autárquicas, convido-vos, não a conhecerem o Saavedra que há em vós — esperemos que não! —, mas, provável e desgraçadamente, o Saavedra que há um pouco por todo o nosso Bồ Đào Nha.


Site do livro: www.osidiotas.pt
Página no Facebook: www.facebook.com/osidiotaslivro

sábado, 6 de julho de 2013

A origem do conflito

Aos defensores da teoria da reencarnação coloca-se o problema de saber em que momento a velha alma se introduz em novo corpo. Três hipóteses: por altura do acto fecundante, ao longo da gestação ou pouco antes do nascimento. Embora metafisicamente implausível, a terceira conjectura é, psicologicamente, a mais reveladora. Com efeito, ela fornece uma explicação radical para os nossos desajustes e conflitos internos: o facto de a alma dar entrada num corpo que se encontra de saída.

A situação política em Portugal explicada com um Photoshop mal-amanhado

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Brindes e vantagens

Um pouco acima de duzentos euros, duas vezes atestado o depósito da viatura, acumulam-se, no cartão, cento e cinquenta pontos. Dão direito a brinde: um pacote de pipocas. Consulta-se o resto do catálogo. Se se persistir até aos quatro mil pontos (seis mil euros), o benefício será «uma noite de hotel». Atingidos os sessenta mil pontos (cerca de noventa mil euros!), há-de ter-se nas mãos um iPhone. A generosidade é uma obstinada virtude das estações de serviço.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Olhar fixamente

«Nem o Sol nem a morte se podem olhar fixamente», assegura La Rochefoucauld. Impõem-se dois eventuais contra-exemplos. Terão sido estas as últimas palavras de Goethe: «Luz, mais luz!» Talvez ele estivesse a olhar fixamente uma espécie de sol. Nos derradeiros instantes, Fernando Pessoa conseguiria ser menos poético: «Dá-me os óculos…» Talvez ele quisesse olhar fixamente a própria morte. Mas convém não omitir, em nome da transparência, que o primeiro era um romântico e o segundo um fingidor.

terça-feira, 2 de julho de 2013

ATENÇÃO! Queda de Governo

Sinal de alerta (perigo): derrocada de homenzinhos

Novo sinal de trânsito, a afixar no Largo de São Bento.

Balas sobre São Bento

Vítor Gaspar foi-se embora e alguns analistas e comentadores avisam-nos que ainda iremos suspirar pelos tempos em que ele mandava nas Finanças. Para além do proverbial «Depois de nós virá quem bom de nós fará...» (ou, em versão mais vernacular, «Há muita mais merda de onde esta veio...»), justifica a mau agoiro a percepção de que Vítor Gaspar era um ministro com prestígio “lá fora”: não que o homem tivesse mostrado ser minimamente competente (viu-se que não), mas os “Mercados” gostavam de ter um dos deles nas rédeas dos trocos nacionais, e ainda vamos sentir falta disso.

Sabemos que as coisas estão mal quando a lógica governamental obedece ao argumento de um filme de Woody Allen, mas sem piada nem talento de representação.

Em Balas sobre a Broadway, um encenador inexperiente de cara laroca contrata uma “actriz” sem talento e mimada, cuja única mais-valia é ser amante do gangster manda-chuva que se disponibilizou a financiar o espectáculo. Para nossa desgraça, no casting governativo a que tivemos direito falta quem represente o papel de Cheech, o guarda-costas da amante do patrão, cujo (até então desconhecido) talento natural para o show business vai desencantando as soluções que salvam a peça da monumental inépcia da actriz e do encenador. De entre os gangsters que infestam a política nacional, onde estará o nosso Cheech?!

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O tesouro

Convencera-se, na infância, de que era um tesouro. Haveria de manter tal crença a vida inteira. Ela traduzia-se na sua resistência a tomar opções que envolvessem algum risco ou lhe franqueassem o íntimo. «Deve resguardar-se o que é precioso», pensava. Aos poucos, sonhos e devaneios impuseram-se-lhe como única dimensão tolerável da realidade. Após a morte, converter-se-ia em tesouro definitivo. E, à semelhança do que acontece à maioria dos tesouros, ninguém hoje sabe onde ele se encontra enterrado.