quarta-feira, 31 de julho de 2013

Conclusões

Subindo o escarpado monte, reflectia metafisicamente: «O caminho é único; o ponto de chegada, absoluto.» Atingido o topo, e observando outras possibilidades ascensionais, concluiu: «Os caminhos são diversos; o ponto de chegada, único.» Ao descer, contemplando os múltiplos lugares do sopé, mudou de perspectiva: «Os caminhos são inumeráveis. Os pontos de chegada também.» A certa altura desequilibrou-se, caiu e foi a rebolar desamparado. Surgiu-lhe então esta ideia: «Os caminhos são circulares e não levam a lado nenhum.»

terça-feira, 30 de julho de 2013

Diálogo

«Se acaso estiver com ele, diga-lhe que eu nunca mando recados por ninguém.» «Fá-lo-ei. Prometo.» «E que sou directo, frontal e não admito rodeios.» «O homem ficará totalmente esclarecido.» «Já agora, diga-lhe também que eu o considero imbecil.» «Hum... Mas será que ele vai compreender?» «Qualquer imbecil é capaz de compreender isso.» «De facto, pensando melhor, até eu compreendo bem. Quer que lhe entregue mais algum recado?» «Não é necessário. Agradeço. O resto posso enviá-lo por e-mail.»

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Carpe aestivum

— Por vezes — disse Mário — penso que o Verão, aquela altura do ano em que vamos definitivamente ser felizes, é um mito, uma projecção dos nossos desejos mais íntimos. Ou talvez uma evocação. Sim, definitivamente uma evocação. Vejamos: o Verão existiu, um dia houve Verão. Não é como Deus ou os santos, nos quais temos de acreditar sem evidências nem testemunhos, cegamente. Não é uma questão de fé — mas está imbuído da mesma intangibilidade. Temos as nossas memórias dele, sem dúvida que temos. A felicidade estava ali, por todo o lado, inundando tudo naqueles fins-de-tarde intermináveis, como uma cornucópia generosa que não parasse de jorrar luz e prazer e boas coisas a todo o momento, um regador gigante manuseado pela mão de Deus, aspergindo com uma nuvem de vapor inebriante, muito fina e suave e fresca, os nossos dias incontáveis e incontados.
— Mas o Verão — continuou Mário — não tem existência senão no passado, por isso o seu carácter mitológico. Ano após ano alimentamos a esperança de que agora é que vai ser, vamos repetir tudo a que temos direito, o ócio, as sestas depois de almoço, os planos para as diferentes partes do dia que se não se cumprirem não importa pois há tantos dias à escolha, as manhãs sem fim, os almoços longos, com sobremesa, as tardes a perder de vista, os jantares com guitarras e cantorias eufóricas, as noites também habitáveis, usufruíveis (a uma da manhã à distância da Namíbia, se não mais longe ainda, de qualquer modo sempre para lá do Bojador).
— Depois eles acabaram com o Verão. A humanidade prestes a cumprir-se (as máquinas farão as coisas chatas, dizia-se em 1900 — em 1900!) e eles a acabar com o Verão. A tecnologia de ponta, a riqueza, o voto universal, a igualdade, o amor livre, o homem na Lua, tantas evoluções — e eles a acabar com o Verão.
— Em 1967 eu ainda não sabia que eles estavam a acabar com o Verão. Quer dizer, eu estava a nascer, não é?, não podia reparar logo nisso, tinha as minhas próprias prioridades. Durante os primeiros anos e os seguintes, tudo o que fiz foi aproveitar o Verão, carpe aestivum. Não de uma forma táctica, oportunista, reflectida, filosófica, ideológica. Não. Nada disso. No sentido menos consciente da expressão. Apenas mergulhando plenamente nele, de trombas, de barriga, de costas, lançando-me para ele como pudesse e a todo o momento. O Verão estava ali à mão de semear, era gratuito, para todos, cada um que fizesse dele o que quisesse. Não havia um minuto a perder (embora houvesse imensos minutos para perder), tudo o que tínhamos a fazer era dar uma corridinha rápida, um saltinho para o ar na beira e, zás, cair nele de cabeça, formosamente, atleticamente, imensamente, para sempre.
— Sim, para sempre. Aqueles que mergulharam no Verão naqueles anos sabem do que falo. São, como eu, os despojados do Verão. O cume da raça humana, a quem subitamente tiraram o tapete de debaixo dos pés. O tapete não, a prancha, o trampolim. Íamos nós para mais um salto, joelhos ligeiramente flectidos para o impulso que nos lançaria nos céus como um Ícaro sem percalços e de repente também nós temos um percalço. O maior deles todos. Não há prancha. Não há trampolim. Não há Verão. De todo. Há apenas a queda. A longa e interminável queda. O lado simétrico do Verão. Algo que nos puxava para baixo onde antes nos sentíamos enlevados. Para baixo, sempre para baixo, Alice caindo pelo buraco mas sem nunca chegar ao País das Maravilhas. Nem a lado nenhum. Nem sequer ao Inferno, que poderia ser um sucedâneo do Verão, com o seu próprio calorzinho. Não. Nada. Apenas a queda. A Queda e o Tempo. Tempo para ponderar a perda. Para gravar mais profundamente na nossa pele o que estávamos a perder. Não como o Verão gravava na pele a sua infinita bondade, com uma cor, um tom, o bronze, nalguns casos o ébano puro — sem escaldões nem melanomas.
— Depois de alguma vez se ter entrado no Verão, como eu entrei, como nós entrámos, a vida torna-se muito difícil. Há a Queda, claro — aguardamos a todo o momento ficarmos esborrachados, como um poio a cair do cu de uma vaca lacónica —, há a queda, mas houve o Verão. Estamos para aqui a cair, sempre a cair, mas temos uma memória, algures no nosso cérebro temos registos de que houve um Verão. Um não, dez ou vinte, a eterna repetição, a terna repetição da melhor coisa que o mundo teve. Haverá castigo maior do que esse? Conhecer o Paraíso e perdê-lo? Saber como as coisas podem ser e depois sermos informados de que nunca mais as coisas serão assim? Que daqui para a frente o que nos resta é lembrar, lembrar e chorar a perda até à neurose? Freud, Freud, onde andas? Era isto que tu querias, não era, meu sacana? A humanidade a remoer as suas neuroses e a comprar os excitantes, os calmantes, os soníferos que gajos como eu prescrevem aos outros e a si mesmos. Que bela ideia de negócio, a tua, ó sócio.
— Quer dizer, se ao menos as férias não fossem apenas um mês, se pudéssemos ir três meses para França, para o Loire, alugar um castelo com piscina até nos aborrecermos… Deliro, bem sei. Fico sempre assim quando chega o Verão — concluiu Mário.

*in Aranda

«Como está?»

Sucessivamente interrogado se era um deus, um anjo ou um santo, Buda disse que não a todas as questões. «Então o que és?» Ele respondeu: «Estou desperto.» Talvez na filosofia oriental, ao invés do que sucede na ocidental, o «estar» ganhe primazia relativamente ao «ser». Mas o cumprimento quotidiano assenta, afinal, nesse mesmo padrão. «Como está?» Eis uma pergunta frequente que escassas vezes pede uma resposta. «Estou desperto.» Eis uma resposta invulgar que raramente exige uma pergunta.

domingo, 28 de julho de 2013

Sobre o «agora»

Nem sempre os especialistas no tema — como Eckhart Tolle — distinguem com rigor o «agora» enquanto ponto em que eternamente se está do «agora» enquanto ponto em que é desejável que se esteja. No primeiro caso, o conceito é de origem factual; no segundo, é de natureza valorativa. Pretende-se, claro, que «ser» e «dever ser» coincidam. Mas há quem acredite «viver no eterno agora onde tudo está bem» e sinta repugnância ao notar que pisou bosta de vaca.

sábado, 27 de julho de 2013

Um violento «caso acontecido»

Vinha do monte, com lenha às costas. Uma mulher acusou-o de lha ter roubado. Ele chamou pelo pai, que modelava louça na roda. Ela chamou pelo filho, que estava na cama, adoentado, junto de suposta amante. Discutiram. O oleiro recebeu do enfermo uma sacholada que lhe abriria a cabeça. Tentaram curá-lo pondo-lhe açúcar na irremediável ferida. «Eu hei-de matar aquele ladrão!» — foram as suas últimas palavras, três vezes ditas. O «ladrão» morreu na cadeia, um mês depois.

Lyre Bird

Os vizinhos da esquerda e da direita têm as televisões sintonizadas no mesmo canal merdoso que entretém e lava o cérebro dos reformados deste país, um dos três canais merdosos que Rangel, Moniz & C.ª Lda. nos legaram. Como são bastante surdos (os vizinhos), têm geralmente o volume dos aparelhos no vermelho, e a essa circunstância irritante junta-se o delay, o atraso na recepção do sinal entre a TV à esquerda e a TV à direita. Resulta que se não me distraio o suficiente ouço a Júlia Pinheiro, a Fátima Lopes e as novelas em cânone, estão a imaginar o pesadelo.
Hoje apenas uma das televisões estava ligada e, talvez resultado da boa combinação entre Foster Wallace e um tinto carregado alentejano, de repente pareceu-me que o vizinho sul (o outro dormia a sesta) ouvia ‘Elephant’, das Warpaint. Apurei o ouvido e foi difícil convencerem-me que era apenas mais uma pimbalhice que o vento distorcia ao ponto de fazer parecer música o que era apenas gargarejos de um cérebro aditivado com botox.

Liguei o portátil para vos dar conta deste fenómeno alentejano e acabei a pôr as meninas de Los Angeles a cantar. Para meu espanto, o vizinho acordado (o outro ressonava), que eu julgava surdo como um portão de quinta, no final da música continuou com o assobio do outro lado do muro a melodia principal de ‘Elephant’, como se fosse um conhecedor profundo da obra das Warpaint. Repeti a experiência com o mesmo resultado e concluí que, ao contrário do propagado por Moniz, Rangel & Sons, o povo não têm necessariamente mau gosto — ou que o vizinho tem alma de Lyre Bird.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A heroicização do Álvaro

Álvaro Santos Pereira saiu do governo e os bloggers de direita correram a escrever-lhe a hagiografia. Um exemplo paradigmático é o de Henrique Raposo:

«A atmosfera que rodeou Álvaro Santos Pereira merecia um estudo de caso. De forma inconsciente, o ex-ministro conseguiu a proeza de atrair contra si um conjunto de vícios que caracterizam bem as elites da ditosa pátria. Comecemos pelo mais evidente: a snobeira. Quando pediu para ser tratado por “Álvaro”, este homem cometeu o maior dos pecados no país dos doutores, retirou a importância aos cargos e títulos para grande irritação da porcelana que exige ser tratada por “V. Exa.” Pior: ao cheirar esta inocência tão americana, os cínicos profissionais de Lisboa atacaram como uma alcateia de hienas gozonas. Que ganda totó, pá. Nestas cabeças provincianas que se julgam moderninhas, Álvaro não procurou introduzir em Portugal um trato pessoal simples e até igualitário no sentido americano. Nada disso. Ele apenas mostrou que é um totó, um fraco, um saco de boxe. E assim foi: uma multidão de palhaços pomposos passou dois anos a socar o totó que veio do Canadá, esse sítio atrasado onde as pessoas, vejam bem, só são tratadas pelo nome próprio.»

Tudo isto é uma falácia, claro.

Pedir para ser tratado por «Álvaro» não foi um acto de inocência de um homem vindo de uma terra menos centrada em títulos, mais igualitária. Querer ser o «Álvaro» fora do seu círculo íntimo foi, isso sim, um acto de demagogia: Álvaro Santos Pereira tentou fingir ser mais um dos nossos amigos, talvez para atrair mais simpatias; saiu-lhe mal a jogada.

Até porque é falso que no Canadá os jornalistas tratem os detentores de cargos públicos com a familiaridade do primeiro nome. Nesta conferência de imprensa, o ministro canadiano das Finanças é referido como «Jim Flaherty» ou «Mr. Flaherty», e o até então Governador do Banco do Canadá é referido como «Mark Carney», «Mr. Carney» ou «Governor Carney» (o mais frequente).
(O ministro trata o ex-governador uma ou outra vez por «Mark», mas apenas no contexto mais intimista de uma resposta, em que expressa a pena sentida por vê-lo partir; os jornalistas nunca os tratam tão familiarmente.)


Outra vertente da heroicização do ex-ministro Santos Pereira é apresentá-lo como vítima sacrificial de um sistema político que não tolera estranhos. É esta a linha, por exemplo, de João Quaresma («O sistema não tolera os outsiders.»). Também isto é uma falácia. Não que o sistema político nacional não seja extremamente desconfiado dos independentes, a quem trata por vezes com inclemência. Tudo isso é verdade. Mas essa desconfiança para com os não-boys não explica totalmente a falta de poder de Álvaro Santos Pereira no governo.

Vítor Gaspar era bem mais outsider do que Álvaro Santos Pereira: tal como este, o ex-ministro das Finanças estava fora do sistema partidário. Mas, ao contrário do ex-ministro da Economia, Vítor Gaspar fez questão de por mais de uma vez deixar claro o seu afastamento — e até mesmo o seu desprezo — relativamente aos militantes do PSD. E se Álvaro Santos Pereira fora ainda outsider num outro sentido (ex-emigrante no Canadá, condição que o ex-ministro não se coibiu de usar em demagógicos exercícios de autovitimização, imputando a outros sentimentos discriminatórios que não existiam, e que ele sabia não existirem), Vítor Gaspar foi outsider em todos os sentidos: não só se viu que as suas teorias económicas não funcionam neste mundo, como a lentidão demonstrada no domínio, não apenas da língua portuguesa, mas verdadeiramente da humana forma de comunicação oral, sustentam a hipótese de ser ele um verdadeiro alien, um extraterrestre. (As semelhanças com o E.T. de Steven Spielberg eram, de resto, evidentes — se refreei até agora a comparação foi por respeito à adorável personagem cinematográfica.)

Apesar disto tudo, Vítor Gaspar era o homem mais poderoso do governo. Ao contrário de Álvaro Santos Pereira, que foi encostado ao um canto e finalmente demitido, Vítor Gaspar mandou em tudo e saiu quando ele mesmo decidiu, deixando os demais como umas baratas tontas, sem saberem o que fazer.

Álvaro Santos Pereira foi um outsider desprovido de poder. Mas a sua falta de poder não foi promovida pelos insiders, mas por um outsider ainda maior, que o relegou à insignificância. Foi esta percepção de que Santos Pereira não mandava nada, e não o seu pedido de um tratamento familiar, que estimulou os críticos (incluindo jornalistas) a saltarem-lhe à jugular. Como na selva, em política as fraquezas expostas são rapidamente detectadas e exploradas pelos predadores.


Ilustração: wehavekaosinthegarden.wordpress.com

Acerca do essencial

Devemos a máxima a Saint-Exupéry: «O essencial é invisível para os olhos.» Acontece, porém, haver coisas «visíveis para os olhos» manifestamente essenciais. Pelo menos se desejamos manter-nos vivos. A sentença corre também o risco de sugerir que o «invisível para os olhos» é sempre essencial. Sabemos, contudo, que existe imenso lixo a poluir o «mundo interior». Dir-se-á que Saint-Exupéry não se refere ao «aparentemente essencial», antes ao «verdadeiramente essencial». Essa, no entanto, afigura-se uma ideia «altamente supérflua».

quarta-feira, 24 de julho de 2013

O melhor e o pior

Apoiando-se nos supremos atributos do Criador, Leibniz achava que vivemos no melhor dos mundos possíveis. Ao invés, baseando-se na ideia de que, se fosse ligeiramente pior, o mundo deixaria de existir, Schopenhauer pensava que vivemos no pior dos possíveis mundos. No entanto, talvez nunca o melhor dos mundos originasse um Schopenhauer que visse nele o pior, nem o pior gerasse um Leibniz que visse nele o melhor. Há teses que parecem ter nascido para mutuamente se anularem.

terça-feira, 23 de julho de 2013

O estatístico e o moralista

Conta-se que certo estatístico, viajante frequente de avião, se sentia apreensivo ao fazê-lo, por causa das ameaças de bomba. Mas concluiu que a probabilidade de haver uma a bordo era escassa e a de haver duas era mínima. Passou então a levar uma consigo. Também certo moralista se sentia prisioneiro do remorso desencadeado pelo único erro grave que cometera. Pensou melhor e concluiu que seria libertador poder transitar entre dois remorsos. Decidiu então cometer outro erro grave.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Estátuas singulares

Naquele país, as estátuas dos humanos não possuíam cabeça, faltava-lhes o tronco e dos membros pouco era visível. O pedestal exibia a inscrição e, no topo, um baixo-relevo. Ao atingirem a idade adulta, todos os habitantes recebiam o convite para que tirassem o «Eterno Rasto», o documento onde se registava a configuração do pé. Quem pela celebridade o merecesse teria, após a morte, a pegada sobre a peanha. Dizia-se: «O rasto é tudo, o resto é nada.»

domingo, 21 de julho de 2013

O intelecto, a imaginação e o Universo

Se for infinito, o Universo não se adequa ao intelecto; se for finito, não se adequa à imaginação. Ora o Universo ou é finito ou é infinito. Logo, ele é inadequável à imaginação ou ao intelecto. Pouco preocupados com isso, garantem vários redactores de livros de auto-ajuda que «o Universo conspira a favor do indivíduo». Eis uma tese cuja defesa, para ser minimamente honesta, exigirá sempre um esforço violento do intelecto e um empenho tremendo da imaginação.

sábado, 20 de julho de 2013

O desenho

Adquiri, em alfarrabista, um livro intitulado Vidas de Grandes Filósofos. Não reparei, na altura, que o capítulo dedicado à biografia de Kant reservava uma ilustração francamente dispensável. Após algumas páginas de sublinhado compulsivo, indício de que o anterior dono ali colhera ideias fortes, surge um desenho sobre os parágrafos alusivos à passagem kantiana da «razão teórica» à «razão prática». Trata-se da representação de um pénis de aspecto ovóide, com os testículos respectivos e exactamente sete pêlos púbicos.

O meta-recorde

Aos vinte anos fez a primeira tentativa de inscrever o seu nome no 'Livro de Recordes do Guinness'. Falhou. Tentou de novo: falhou. Tentou uma terceira, uma quarta, uma quinta vez: falhou, falhou, falhou. Nos cinquenta anos seguintes tentaria uma e outra vez, incansavelmente, estabelecer o recorde a que se propusera. Rotundos fracassos, sempre. Entrou para o 'Guinness'.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Apagar

Abro um ficheiro com certo diário que mantive ao longo de mais de três anos. Sempre que o revisito (faço-o regularmente) apago, em geral, um parágrafo. Por vezes, salvo uma ocorrência, conservo um pensamento, guardo uma expressão. Mas o imperativo é apagar. Se pode tornar-se entusiasmante a rápida criação de textos quando nos guia a promessa do livro novo, chega a ser redentora a lenta extinção de frases quando nos guia o ideal da página em branco.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Coisas da memória

Há mais de sessenta anos, em noite festiva, enquanto ela dançava com um moço, um outro aproximou-se e disse-lhe: «Compromisso!» Uma faca surgiu então, indo instalar-se no ventre do intruso. A jovem fugiu. De cada vez que lhe ouço o testemunho, há variantes e revelações. Só parecem destinados a manter-se a irrupção do «compromisso» e o movimento da faca. A memória tem destas coisas: rasga silêncios e mutila sombras, porque a habitam palavras decisivas e objectos cortantes.