sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Os dois dias

Porventura desejoso de exibir ataraxia estóica, alguém afirmará que o dia da sua morte «será igual aos outros, apenas mais curto», esquecendo de referir o do nascimento (ou o da concepção, se buscamos rigor), frequentemente ainda mais curto que o da morte. Aquele que cessou de recear a Ceifeira mencionará os dias primeiro e último com imparcialidade. Talvez sejam ambos absurdos — e os restantes os imitem. Contudo, até nisso verá mero detalhe quem ascendeu a imperturbáveis cumes.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Para uma história dos penteados

Uma das coisas mais difíceis de abandonar no final da adolescência é o penteado. Demoram-se anos, laboriosos anos, a atingir aquele insatisfatório resultado complexo e quando finalmente nos resignamos a ele chega a tropa ou a idade adulta, com as suas convenções, embaraços e barbeiros. Alguns adultos em particular, tendo atingido o estrelato nos anos setenta, quando eram meros pós-adolescentes, sentiram-se dispensados de fazer a transição capilar. Um pouco por coerência com a postura irreverente da época, um pouco por receio de ficarem irreconhecíveis perante os fãs se uma tesoura lhes passeasse sibilando pela cabeça.
Na verdade, o estatuto de rocker dos setenta, invocado igualmente por tanto roadie e fã ignoto, apenas serviu como desculpa para não enfrentar no espelho a angústia e as indagações hamletianas suscitadas por um crânio nu. É certo que os fãs reconhecem uma cabeleira de 1975 quando vêem uma, mas acontece frequente e jocosamente perguntarem: «quem diabo é aquele gajo barrigudo debaixo da trufa do Robert Plant?» Donde os hoje engravatados descendentes do flower power poderiam aprofundar a exegese e inferir que a força de Sansão não vinha dos seus longos cabelos.
Por mim, nada tenho contra quem decide ser contabilista, agente funerário ou pai de família das raízes do cabelo para baixo e manter-se dali para cima nostálgico de certos riffs de guitarra e torsos nus (tenho até ternura). A minha preocupação é estética. É que muitos destes homens esquecem-se também da calvície e a certa altura já nem a barriga nem os três raros embora longos cabelos que lhes restam evocam algo mais do que uma personagem mal desenhada de Tim Burton.
Por falar nisso, temos de conceder que é ainda mais embaraçoso ser-se um gajo barrigudo debaixo de um penteado dos anos oitenta. Bem, sempre foi embaraçoso estar-se debaixo de um penteado dos anos oitenta, mas é um pouco sádico que continuem a esconder isso do Robert Smith.
Já os Duran Duran seguiram o caminho sensato que a maioria de nós seguiu logo nos noventa: aparar as pontas de modo que ainda sobrasse uma ideia do que tinha sido o nosso penteado e, para combater o sentimento de perda, coleccionar espanadores exóticos e coloridos.

As duas manhãs

Escreve-o Bernardo Soares: «A manhã do campo existe; a manhã da cidade promete.» Deve, por conseguinte, haver algures entre o campo e a cidade um ponto de fusão das duas manhãs. Será o lugar adequado aos que apreciam sínteses e convergências. Pode, no entanto, haver igualmente um ponto de omissão, um ponto onde a manhã do campo não «existe» e a manhã da cidade não «promete». Será esse o espaço ideal dos que preferem margens e silêncios.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Espanha ou teclando ao acaso palavras vãs

Agora que a crise nos cortou as asas, visitar Espanha, antes a coisa banal, volta a ser uma aspiração ambiciosa e cara. Aliás, qualquer viagem, mesmo no rectângulo ridículo a que chamamos pátria, é uma aspiração ambiciosa e cara. Sair de casa para um trabalho a mais de vinte quilómetros é caro — e, para um quinto dos portugueses (and counting, deixem passar o Verão e o emprego sazonal), uma ambição. Circular no dia-a-dia dentro da própria cidade onde se vive é caro. Não tarda, concluiremos que ser cidadão português é caro. Ou apenas ser cidadão. Caro e, evidentemente, uma aspiração acima das nossas possibilidades. Podemos argumentar que temos cidadania há nove séculos, mas isso é coisa com que nos iludimos desde o infame, pretensioso, impune e delirante bofetão henriquesiano na nobre mãe.

O que queria dizer, contudo, é que não me incomoda assim tanto recentrar a ambição viandante em Espanha. O país vizinho é suficientemente variado no que se refere a arquitectura, tradições, cultura e, sobretudo, paisagem, natureza e clima para preencher planos de viagem por uns bons anos. Seria até legítimo suspeitar que a crise é uma invenção espanhola para que os portugueses descubram o que existe para lá do Bojador de Pontevedra, Zamora, Badajoz ou Huelva e aquém dos Pirinéus. O Turismo de Portugal pode ser imune a subornos (duvido, é uma instituição com gestores escolhidos por partidos portugueses), mas eu não sou. Daí, a chamada de atenção para este post (cada clique, um euro para mim, cortesia de várias Juntas Hermanas), que li com inveja suficiente para um relatozinho de viagem que hei-de fazer sobre a estrada que une Trujillo a Placência, partindo de Mérida e talvez passando por Cuenca (esqueçam a Geografia convencional que vos impingiram).

Se porventura o relato não acontecer, lembrem-se que não seria a primeira vez que aqui se prometem textos que não se cumprem. É o que acontece quando por profilaxia e receita médica um tipo tem de enfrentar as artroses teclando ao acaso palavras vãs.

Técnica radical

Para os pensamentos que julgava «inadequados», e que os livros de auto-ajuda qualificavam de «negativos», descobrira, finalmente, o auspicioso antídoto. Ao farejar-lhes a indesejada proximidade, imaginava-se vítima de decapitação rápida. Isso traduzia-se, em termos biológicos, no corte providencial dos canais percorridos pelos fluxos menos sensatos com que a alma atazana o corpo. Mas aquela representação mental — que, apesar de mórbida, ele achava «amplamente adequada» — acabaria, graças à sua força e persistência, por torná-lo vítima de decapitação efectiva.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Religião e inteligência

Anunciam-no recentes estudos: os espíritos religiosos mostram-se menos inteligentes que os incréus. As religiões, claro, são múltiplas; os tipos de inteligência também. Mas os estudos não o sonegaram e definiram operacionalmente ambos os conceitos: de um lado, o pensamento analítico, abstracto; do outro, algumas práticas concretas. Existe, pois, muito a investigar. De qualquer modo, admitindo a fiabilidade dos resultados, fica-se com a dolorosa sensação de que o tipo de inteligência em causa terá escasso fulgor no Paraíso.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A perversão secreta de um inspector da ASAE

Não li e, por falta de tempo, não tenciono ler as sequelas d’Os Maias publicadas pelo Expresso (excepto a de Rentes de Carvalho, por interesse particular). Mas li com um sorrisito a crítica de sábado de Vasco Pulido Valente. O cronista do Público até pode ter razão na análise e na substância da sua crítica à iniciativa estival do semanário de Balsemão, mas tem forçosamente de se lhe notar um ânimo de virgem ofendida: tocaram no seu Eça e na sua História de Portugal: aqui d’El Rei!
Desconfio, com suficientes motivos, que VPV escreveria catilinária semelhante mesmo que os livrinhos do Expresso fossem todos de inequívoco acerto e interesse.

De resto, quando VPV se mostra tão possessivo em relação a Eça de Queirós está a cometer o pecado da soberba. Ao contrário do que lhe dizem e ele na sua ilusão acredita, Valente não é Eça reincarnado. Desde logo porque não há uma linhagem tibetana do escritor do monóculo que permita reivindicações do género guru alfacinha. Mas sobretudo porque, ainda que VPV tenha um bom domínio da língua e da verrina, falta-lhe humor.
Eça não era talvez menos corrosivo e maldoso do que VPV, mas era mais alegre. Quando embarcava numa prosa demolidora fazia-o com o espírito jovial de quem sai de casa para se divertir. VPV derrama a sua verve como a agoniada criatura da série Alien (que derretia muito metal mas não parecia nada divertida ao fazê-lo).
A verdade é que onde Eça usava a ironia VPV usa o sarcasmo, ou, como reza o dicionário, a ironia acerba, amarga, azeda. Quando lemos Eça de Queirós damos por nós a olhar em volta à procura de quem soltou as gargalhadas que ouvimos (é o nosso momento, breve, de acreditarmos em encarnações), mas depois percebemos que elas emanam do próprio texto, são manifestações do autor, metempsicose entre um espírito oitocentista e o chumbo da mesa de composição na tipografia. Já a última página do Público ao fim-de-semana induz outra mística: lemo-la com o embaraço de quem dá por si a espreitar pela janela a perversão secreta de um feroz inspector da ASAE.

Eça não deixava que a necessidade de arrasar perturbasse a ocasião de rir — VPV age com a incumbência e o humor de um mangas-de-alpaca da corrosão. Eça ria-se como um diabrete — Vasco, se é que ri, ri como um velho diabo.

Os escaravelhos comuns

Wittgenstein propôs a imagem: cada um dispõe da sua caixa e só vê o interior dela. Todos usam a palavra «escaravelho» para designar o conteúdo. E todos, minimamente, se entendem. Mas pode não existir qualquer escaravelho. Leibniz considerava ser cada alma uma das infinitas mónadas do Universo. Nenhuma possui janelas. Ainda assim, todas falam do interior — e do exterior — da sua «caixa». E todas, minimamente, se entendem. Somos mónadas a conversar sobre escaravelhos que talvez não existam.

domingo, 18 de agosto de 2013

Poemas do outro lado

Leio o Parnaso de Além-Túmulo, colectânea de poemas que o médium Chico Xavier psicografou de espíritos de cinquenta e seis vates, incluindo o de Antero de Quental. Chego à conclusão, porventura errónea, de que a alegada existência após a morte, embora preserve algum talento dos poetas, uniformiza estilos, dilui inquietações, impõe clichés. Talvez o «nosso mundo» seja fútil, sombrio, ilusório e tolo. Mas — até prova em contrário — só mesmo «deste lado» é que Antero «interroga o infinito».

ANEXO

Para uma eventual comparação, seguem-se dois sonetos. O primeiro foi escrito por Antero de Quental, naturalmente quando ainda estava vivo. O segundo foi supostamente ditado pelo espírito de Antero (já liberto do cárcere terreno) ao médium Francisco Cândido Xavier, fazendo parte de um conjunto de 19 composições, de igual estrutura, integradas na referida colectânea:


Evolução

Fui rocha, em tempo, e fui, no mundo antigo,
Tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paul, glauco pacigo...

Hoje sou homem — e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, na imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas, estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.

Antero de Quental

Depois da morte

Depois de extravagâncias de teoria,
No seio dessa ciência tão volúvel,
Sobre o problema trágico, insolúvel,
De ver o Deus de Amor, de quem descria,

Morri, reconhecendo, todavia,
Que a morte era um enigma solúvel,
Ela era o laço eterno e indissolúvel,
Que liga o Céu à Terra tão sombria!

E por estas regiões onde eu julgava
Habitar a inconsciência e a mesma treva
Que tanta vez os olhos me cegava,

Vim, gemendo, encontrar as luzes puras
Da verdade brilhante, que se eleva,
Iluminando todas as alturas.

Francisco Cândido Xavier

sábado, 17 de agosto de 2013

Silêncio

Pergunto-lhes se têm «ódio ao silêncio». Um dos alunos esclarece que, para silêncio, bastará quando estiverem «debaixo dos torrões, na companhia dos mudos». O enunciado é violento. Tornar-se-ia, contudo, mais suportável se o moço optasse por expressões como «sob o solo», «junto aos incapazes de grito ou asserção». Preferiu, no entanto, os «torrões» pesados e a «mudez» contrafeita. Entendo a aparente escolha. O medo irreflectido do silêncio, inseparável do terror da morte, não permite eleger palavras brandas.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

«Duas coisas»

Se alguém, sobretudo em debates, afirma que só quer «dizer duas coisas», justifica-se a apreensão: talvez tenhamos prosa fatigante. Se, em vez de duas, anunciar que pretende «dizer apenas uma», justifica-se o suspiro de alívio: talvez tenhamos prosa abreviada. Neste contexto, a diferença entre «uma» e «duas» não é matematicamente exacta: é a diferença, inconsciente, entre dar um passo com que o eu vai directo ao assunto e dar infindáveis passos entre o assunto e o eu.

15 de Agosto do ano em que Portugal saiu da recessão
(ou notas sobre A Piada Infinita)

Depois de por três vezes tergiversar (aqui, aqui e aqui) sobre A Piada Infinita, de David Foster Wallace, esperar-se-ia que agora dissesse alguma coisa sobre o livro. Bem, eu esperaria.

Lido no Verão e em férias, os problemas de pulsos e as ameaças à cana do nariz são bastante minimizados. Logo, estamos disponíveis para voltarmos aos prazeres infinitos (lá está) da adolescência. A Piada Infinita (API) tem um pouco de Júlio Verne e um pouco de Tarantino. O espírito do primeiro não está tanto na obra em si, mas na mesma sensação algo transgressora de termos, paradoxalmente, legais, autorizadas e estimuladas tardes intermináveis de ócio ao nosso dispor. Um livro como este ressuma o seu próprio respeito, tanto pelo volume como pela fama: quem se dedica a uma obra assim tem de ser admirado e deixado em paz no seu labor solitário e na sua dedicação metafísica. E a gente ri puberemente cá por dentro como se nos estivessem a dizer que Jules Verne é bom para o nosso desenvolvimento e sempre é melhor do que andar a jogar à bola com a canalhada vadia1.
Na verdade, embora tratados com reverência2 por transportarmos um volume destes, e este volume em particular, cá por dentro estamos a rebentar de prazer pueril, porque API é um livro para nerds, a sua inteligência, o seu carácter cerebral, intelectual, a sua complexidade enciclopédica estão orientados para o mesmo tipo de emoções que sente um adulto que recusa amadurecer e ainda alimenta a esperança de ser raptado por alienígenas. Ouçam, não lemos este tratado sobre a América e sobre a sociedade contemporânea com severidade filosófica ou académica, mas a rebentar de gozo e com a ironia traquinas de diabretes num panteão luciferino. Se um livro costuma fornecer a suave luz coada com que observamos o mundo vil dos humanos, um livro desta espessura (agora falo metaforicamente) é o filtro por excelência.
Acresce que lemos partes de API como a mesma incredulidade divertida e sentindo o mesmo desafio infantil com que abordámos As 20.000 Léguas Submarinas: o tio Júlio não ia parar nunca de nomear e descrever espécies oceânicas? Peixes? Quantas mais páginas ia ele continuar naquilo e quantas resistiríamos nós sem passar à frente? Para compreender a analogia, troque-se aqui a fauna atlântica por um catálogo de indústria farmacêutica legal e ilegal mas mantenha-se a mesma aderência assassina e apaixonada do leitor a uma obra literária.
E depois Tarantino, outro indivíduo adulto apenas no BI. A Piada Infinita é um compêndio de malformações (de corpo e carácter) resultantes do abuso de substâncias legais e ilegais e do abuso que é tentar viver nos dias que correm3. Tal como Tarantino, DFW diverte-se a fazer desfilar personagens de um circo de horrores, diverte-se a compor uma montra de freaks, e diverte-se a arranjar deixas e cenas e histórias para eles com o mesmo entusiasmo que o Quentin põe nos seus filmes marados. Talvez a grande diferença seja que Tarantino se descontrola e fica fascinado4 a ver o sangue a correr e Wallace talvez nos forneça a composição química desse sangue5.


NOTAS:
1 Bem, hoje a maioria dos pais não pensa assim, eles mesmos malformados e desejosos de ter uma caixa registadora CR7 em casa.
2 Não somos olhados com reverência, isto é uma liberdade literária; poética, mesmo. Somos é olhados com um certo nojo, com a condescendência que a aldeia dedica ao tolo (quando se permite dedicar-lhe tal coisa), com a jocosidade que a comunidade atira a um casal gay que passa de mão dada pela rua.
3 O mundo não mudou assim tanto de 1996 para hoje.
4 Deixando a câmara ligada.
5 Não necessariamente na secção reservada às notasi.
i A importância das notas em API não é reflectida por esta observação tautológica e pretensamente engraçadinha; o mesmo não se pode dizer sobre o quão é ridícula a nossa resistência ao ímpeto copycat depois de ler a obra, aqui total e vergonhosamente exposta.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Divisões e separações

Escoto Erígena dividia a natureza em quatro partes. Duas são a «natureza criadora e incriada», que é Deus, e a «natureza não criadora e incriada», que o é também. (Deixemos as sobrantes.) Ora o exercício de cindir o divino aguça o humor que permite suportar o humano. Durante um jantar, alguém questionara o filósofo acerca do que separava um Escoto («Scot») de um bêbado («sot»). Sentado do outro lado da mesa, Escoto terá respondido: «Apenas esta mesa.»

FODER

A meio dos anos 90, Pedro Abrunhosa tinha uma canção cujo estribilho, por censura institucional ou dos media, por autocontenção ou puro marketing, ele deixava que fosse o público a cantar ou (acredito que por irrisão) sobrepunha-lhe uma nota estridente de saxofone. O estribilho dava aliás título à música, e era geralmente, se bem lembro, grafado apenas como “Talvez F”, deixando a imaginação do leitor completar o verbo.
O mais recente vídeo dos Mundo Cão, para o seu excelente tema “Anos de Bailado e Natação”, escolheu um processo inverso para disfarçar o mesmo verbo daninho. Na hora de se dizer que «o bandido solitário só faz folga para foder» a realização optou por mudar a cena para a entrada da tasca, onde música & letra ainda só se ouvem ao longe e baixinho. Em vez da estridência de um sax, a interposição de umas paredes. Diferentes técnicas para a mesma cautela.
Já o protagonista de Os Idiotas («É admirável a amplitude gramatical do verbo foder») não teve pelo autor qualquer consideração. O número de ocorrências de termos e verbos que no livro precisava de um instrumento agudo de sopro ou de umas barreiras sonoras é suficiente para que a família perca o que lhe resta de respeito por mim.

Ou talvez não, se nos lembrarmos que um dos grandes vultos da língua portuguesa é também um grande malcriado e não consta que a família o tenha deserdado. Confio, como Miguel Esteves Cardoso, que o amor (familiar) é fodido, mas não nos abandona.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Visitando buracos nas Pedras Salgadas

Enquanto no Palace Hotel de Vidago os velhos hóspedes ou os seus descendentes podem matar saudades fazendo à grande um check-in no novo velho Palace, nas Pedras Salgadas têm de se converter a um estilo mais moderno, minimalista e nórdico de veraneio, adaptando o velho esqueleto aristocrata a uma versão luxuosa do estilo Ikea: os bungalows ou eco houses que a Unicer providenciou para ali.
Não havia nas Pedras, dir-se-á, hotéis com o arcaboiço monumental do Palace de Vidago e as casas que a Unicer instalou são um exemplo de bom gosto e respeito pelo património ambiental. (Se não tivesse nascido a cinquenta metros do parque e ali não almoçasse aos domingos, decerto as minhas fantasias apocalípticas teriam já passado por fins-de-semana ecológicos acima das minhas posses no Nature Park das Pedras Salgadas.) Mas não se deve esconder que o saudosismo ou o ímpeto arqueológico de antigos hóspedes é ludibriado nas Pedras como o não é em Vidago.
O Universal, belíssimo exemplar, podia ser uma das jóias da coroa de qualquer empresa, mas definha, em parte irreversivelmente. O Grande Hotel está entaipado. O Avelames deu lugar a um embaraçoso morro de relva sob o qual se albergam os serviços de apoio às eco houses. No lugar do Hotel do Norte, onde havia até há pouco uma inverosímil clareira, há agora um court de ténis que Pires de Lima mandou concluir à pressa para Passos Coelho inaugurar. A Pensão do Parque desapareceu. O Bazar Fotográfico idem. Ali perto nas Romanas foi a Casa do Chá que se vaporizou subitamente (um domingo estava lá, no seguinte não estava).
O turismo de nostalgia nas Pedras faz-se, portanto, apontando buracos, clareiras, ocos. Como vi o neto de um velho hóspede, com uma criança pela mão, fazer há dias. «O bisavô dormiu ali em cima [Avelames] e o papá nos últimos anos dormiu aqui [Pensão do Parque]». “Aqui” é agora um parque infantil e a menina espreitou com suspeita ou ressentimento o pai: que direito tivera ele de pernoitar num baloiço que agora negava à filha?

O turista avisado mune-se de máquina fotográfica e acorre célere às Pedras. Quando volta, ou se se atrasa, já não encontra edifícios que antes pareciam fazer parte do ADN da terra, mesmo que em ruínas. Nem edifícios nem fundações, apenas vazios onde rapidamente cresce a erva.

A mim este confronto com inesperada arqueologia forneceu já matéria para um romance e em parte para outro. Mas o mundo passava melhor sem os meus livros do que sem as termas das Pedras Salgadas.

Esperar o fim no Palace Hotel de Vidago

Tenho definitivamente uma costela de velho aristocrata. Não é à toa que me encanta o ghost writer por detrás de Francisco José Viegas: o saudoso António Sousa Homem cujos escritos ortónimos ao que sei cessaram, embora ande algo deles n’O Coleccionador de Erva, do seu pseudónimo mais famoso. Passeando por Vidago, dou comigo a lamentar a decadência das famílias e dos costumes que deixa semideserto o parque em favor de um Algarve novo-rico, plebeu e dum sensualismo exibicionista, suado e pegajoso. Pessoalmente, não me desagrada que a afluência a Vidago seja baixa no dia em que ali me dirijo. Tomo-a até como um sinal de respeito, de consideração pelo meu olfacto sensível. É conceptualmente que me lamento. Imaginaria — com caduco romantismo e grande abnegação, bem se vê — que os calores de Agosto fariam recuar as pessoas de bom gosto às sombras frondosas de um parque termal e não avançar belicamente para as areias marroquinas do Andalus. Mas depois ponho-me no lugar do tuga hodierno: o que há para fazer no parque de Vidago? Passear à sombra de plátanos, tílias e quejanda vegetação? Sentar em bancos de jardim como que à espera de um transporte que não vem? Namoriscar de castas mãos dadas em homenagem à avozinha? O golfe é um aborrecimento de milionários. O ténis e a piscina são só para clientes do hotel. A terapêutica biliar faz-se hoje com químicos, e nunca no Verão.

Há uma saudade cor de amêndoa na maioria das epidermes lusas, prova de que a presença árabe ou berbere no nosso genoma é maior do que estamos dispostos a admitir. O português quer retomar no Verão o aspecto dos seus ancestrais mais carregadamente mediterrânicos, por isso se põe a tostar ao sol em vez de ir beber copinhos de água para as termas, à sombra, como faria o outro lado da família, com sangue mais asturiano.
No meu corpo, a reconquista começou há uns anos e, se não me devolveu a fé cristã, pelo menos devolveu-me o horror ao sol directo e o gosto por castelos e palácios. Sim, passaria bem o Verão no Palace de Vidago, andando descalço e transgressor pela relva do green de dezoito buracos que sobe a encosta e serpenteia deliciosamente pelos bosques e depois pelo pinhal, jogando ao final da tarde um ténis desastroso no court escondido como um recanto amoroso, tomando atrasado os meus pequenos-almoços sob um anacrónico guarda-sol às listas (já não há) no terraço com pernadas de hera à espreita na balaustrada, forçando-me a evitar a piscina por ter memória da antiga e não querer profaná-la mergulhando no enxerto de Sisa actual, lendo avolumadas e pacientes páginas nos tais bancos de Godot (ou, de novo transgredindo, de barriga para o ar na relva aparada e fresca do buraco 17) e, claro, jantando demoradamente no salão nobre como um orgulhoso conde austríaco com os turcos às portas de Viena.

Os meus momentos de pessimismo ou fatalismo não me deprimem. Como se viu naquele outro post (“Esperar o fim no Solar Bragançano”), apenas tornam efervescente o meu sangue azul e estimulam — para alegria moral da troika e seus apaniguados — a minha propensão perdulária. Sim, talvez um destes dias estoure o vencimento de meses num retiro palaciano. Era isto o que pensava enquanto bebia estilosamente, para afastar a crise, um caro branco alentejano na esplanada ocidental do Club House de Vidago.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Episódios televisivos (2)

No telejornal da RTP, a repórter consegue aguentar sem se rir (e sem se suicidar) durante todos os longos minutos que dura a premente reportagem sobre uma “praga” de mosquitos no Algarve. Entrevista barmen, clientes, transeuntes e banhistas com a mesma expressão severa dos colegas que são vistos à porta de ministérios ou de sedes de partidos tentando criar uma reportagem sem assunto sobre pessoas ausentes. Não se desfez nem quando pediu a um rapaz que exibisse perante a câmara o vermelhão de uma terrível e decerto fatal picadela de melga.

Se aos repórteres não lhes fixam os músculos faciais com um veneno paralisante antes de irem para o ar, é porque há nas televisões cursos sobre controlo do riso — e obliteração da auto-estima.

No estúdio, José Rodrigues dos Santos e os seus pavilhões auriculares lideravam a notícia com o entusiasmo do costume, mas dele sabemos ser capaz de transformar qualquer crepuscular e estival invasão de pernilongos numa ribombante Tempestade no Deserto. É do género emotivo e facilmente impressionável. Tome-se a forma como olha a sua obra literária.

Episódios televisivos (1)

Na TVI, uma apresentadora de ar jovial e atitude picaresca, falando rápido demais e muito divertida com o seu trabalho numa qualquer feira ou romaria do país profundo, descobre com gritinhos histéricos que a vaca no curral por trás de si resolveu aliviar a bexiga. Tomando aquilo por um fenómeno do Entroncamento, a urbana e excitável menina resolve estar perante um momento alto televisivo e insiste no assunto, aos pulinhos e aos risinhos, mantendo o nível de histeria, chamando a atenção dos espectadores, puxando o braço do cameraman. Mais tarde no mesmo programa sobre os portugueses como eles são, a mesma extrovertida e agora ainda mais descontrolada rapariga fará semelhante cobertura televisiva do momento em que aquela ou outra vaca cumpre os seus ciclos biológicos aliviando em directo desta vez o intestino.

Sendo a vaca o único ser vivo com aspecto respeitável no recinto, suspeito que o olhar lacónico do animal escondia um espírito sarcástico, corrosivo, com talento para a metáfora endereçada — e sem receio da escatologia. Claro que a rapariga-apresentadora não estava familiarizada com tais subtilezas do intelecto, havia outro DNA nos seus cromossomas, estava noutro nível da evolução.