sábado, 31 de agosto de 2013
Palavras
«As pegadas de dinossauro indicam o caminho do futuro»
Num episódio do Bartoon, a tira do Público, lê-se: «As pegadas de dinossauro indicam o caminho do futuro.» Nada mais verdadeiro e definidor.
Ainda que a famigerada lei de limitação de mandatos autárquicos tenha feito saltar fora um ou outro dinossauro menos motivado, a verdade é que sobraram demasiados, e dos mais aguerridos. Mas pior do que isso é sabermos que tantos dos novos candidatos às autarquias não têm nada de novo a acrescentar ao admirável mundo antigo, vão seguir exactamente as pegadas dos dinossauros que os antecederam. O país vive uma crise histórica. Há razões externas para a crise mas há igualmente uma culpa colectiva que não se devia alijar e que passa também pela forma como muitas autarquias são encaradas e geridas. Em tantos locais, demasiados locais, as eleições autárquicas continuam a ser meros combates pelo poder entre dois clãs ansiosos por distribuírem entre si os despojos da conquista. Chamam-lhe democracia, mas é um lapsus linguae. O jogo não remete para a Grécia, mas para o império Maya: os vencedores, se puderem, arrancam as cabeças aos derrotados.
De resto, o Governo não imita menos o passado nem é mais isento no que se refere a alimentar o clã laranja. Nisto, como em quase tudo, Passos Coelho faz exactamente o oposto do que disse. E mesmo assim consegue enganar os ingénuos Lombas desta vida, rapazolas de fortes convicções ideológicas que não conseguem reconhecer um charlatão ou um freteiro a um palmo do nariz se ele lhes sussurrar ao ouvido passagens mansas da cartilha. Para estes nerds doutrinários — como, ironicamente, para as claques partidárias que eles desprezam —, um cacique não é um cacique se for o nosso cacique ou falar com certa assiduidade das coisas que achamos certas.
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
1817 ou mais
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Fojo do Lobo
Uma hora de passos ágeis leva-me ao fojo do lobo, onde Camilo «granizou» uma fera entretida com tinhosa rês. Emoldura-o o negrume de fogos recentes. Coroando uma fraga, a lápide que ali perdura — já mutilada — é também memorial indirecto de ligeiro fiasco: Camilo pouco incomodou o lobo. Talvez isso, nos «únicos felizes anos» da sua mocidade, pressagiasse malogros mais sérios, em fojos menos tangíveis, culminando no revólver de Seide. Um corvo, ao longe, fere a manhã clara.
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
«Toda a gente tem direito a ter um desgosto de amor»
Levantam-se da mesa, deixam os homens na sala e vão para a varanda fumar, com os copos pousados num móvel contíguo. Já não se viam há algum tempo, possivelmente desde as últimas férias de Verão, talvez desde as anteriores. Duas delas falam da terceira como se ela não estivesse presente, mas não a estão a excluir da conversa. Estão a explicar-lhe, quase de forma encenada, o que pensaram e disseram entre elas sobre a amiga quando a viram, cada uma em sua ocasião. Que não podia ser, não cresciam assim. Era coisa que se tinha ou não se tinha, e ela antes não tinha. Não como agora. A primeira conta que, logo que viu a Clara (chamemos-lhe assim), lhe atirou de imediato aos mãos ao peito. Não esteve cá com coisas. Era como São Tomé, precisava de ver com os dedos para crer. Clara tinha defendido, com o seu narizito indignado, que eram naturais, mas ela não acreditava. E o tacto não lhe mentia. Clara anui, entrando na conversa: sim, as coisas tinham-se passado daquele modo. Ela tinha querido brincar durante um bocado, embora soubesse que as amigas acabariam por perceber. Mas não lhe ficavam bem?
Tinha sido depois de se separar do Júlio. Ele não se fora embora por causa das mamas dela, mas Clara precisava de se concentrar em alguma coisa para esquecer o desgosto. E se o pensou melhor o fez. Já tinha lido muito sobre aquilo, como todas, os métodos, os riscos, quem pôs e quem não pôs.
Seguem-se alguns minutos em que as três esgrimem a sua bibliografia, em diferentes tons de rosa mas no mesmo papel couché ou acetinado, sobre o assunto.
Depois desse interlúdio estético-medicinal, Clara retoma a questão anterior. O desgosto amoroso não era assim tão mau, talvez ela tivesse avançado para a cirurgia de qualquer modo. O desgosto, aliás, era parte da vida das pessoas, «toda a gente tem direito a ter um desgosto de amor».
Ter-se-ia ela enganado? Teria querido dizer que toda a gente, num momento ou noutro da sua vida, tinha, naturalmente, um desgosto de amor? Ou estaria a socorrer-se de um discurso reivindicativo, o povo pela voz dela a reclamar direitos iguais aos dos ricos, mesmo que esses ricos sejam os das novelas ou os dos romances de Margarida Rebelo Pinto? Umas mamas de silicone e um desgosto de amor podem ser anseios legítimos e equiparáveis da classe operária?
Depois voltam à questão mamária, com gargalhadinhas e apalpões (agora em directo), e o escriba, de educação antiga, tenta ainda com mais denodo (mas não com melhores resultados) concentrar-se na leitura.
Um mundo sem humor
terça-feira, 27 de agosto de 2013
Já cá faltava a hagiografia borgesiana
(ou «Alguém lhe explique os documentários da National Geographic»)
Um amigo meu comentou assim as reacções nas redes sociais à morte de António Borges:
metade dos tugas adora cuspir na campa de qualquer um que tente ensinar-lhe aritmética e berra que a aritmética é faxista e inconstitucional...
As receitas económicas de António Borges — homem da Goldman Sachs, organização com responsabilidades criminosas no colapso económico e social em que nos vamos afogando — são uma tentativa de «ensinar aritmética» aos Portugueses na mesma medida em que o objectivo da chita é ensinar a gazela a correr.
Pelo fim do Ensino Superior público
Agora é oficial e indesmentível: o Governo quer acabar com o ensino superior público.
Não bastavam os constantes cortes nas transferências orçamentais do Estado (que começaram mais de uma década antes de a austeridade chegar ao resto do país), agora a Direcção Geral do Orçamento impôs um tecto máximo às receitas próprias que as universidades e politécnicos podem gerar, além de cativar (isto é, ficar com) parte dessas receitas, obtidas, por exemplo, pela prestação de serviços de consultoria, investigação e desenvolvimento a empresas.
O Governo diminui cada vez mais o dinheiro que entrega ao ensino superior — mas agora passou a uma nova dimensão de ataque: impede também que as instituições arranjem dinheiro por si próprias.
Se a diminuição da dotação orçamental serve o objectivo do défice, a limitação à iniciativa autónoma de financiamento serve que interesses?
Os lugares de Setembro
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Marcante e inabalável
Cavaco Silva enviou publicamente condolências pessoais à família do falecido economista António Borges. No texto, o Presidente da República considera-o «uma personalidade marcante da vida pública portuguesa», «um dos economistas mais brilhantes da sua geração», que «teve, ao longo de décadas, uma influência profunda em gerações de estudantes das melhores escolas de economia e gestão». Realça ainda a «firmeza inabalável das suas convicções».
Quanto à inabalabilidade das convicções de António Borges, discordo de que possa ser considerada uma qualidade: as convicções devem ser abaladas — quando os factos as contradizem. Coisa que, efectivamente, não ocorreu com o extinto economista ultraliberal. (Nesse sentido, infelizmente, Cavaco tem razão.)
Quanto ao brilhantismo do académico e à influência profunda que teve em gerações de estudantes de economia e gestão, calar-me-ei — para deixar o estado do país falar.
Por fim, o epíteto de «marcante». Terá sido, admito-o. Também a Pneumónica o foi.
O alívio que vem depois
domingo, 25 de agosto de 2013
Casais pés-de-trigo-ondulando-na-seara
ou A curiosidade no processo evolutivo
Depois dos casais vice-versa (registados aqui), temos os casais pés-de-trigo-ondulando-na-seara. O seu amor e a sua identificação cumprem-se na forma como se inclinam para as mesmas curiosidades, soprados pela mesma brisa. Como olham levando a cabeça, o pescoço e os ombros atrás do olhar. Como parecem atravessar o vidro da montra que espreitam, esticar a cabeça e o corpo para entrar nas portas dos estabelecimentos que cruzam sem no entanto abandonar o passeio diletante pelas ruas da cidade. São a versão transeunte do fab four homem-elástico, a sua versão casal-em-passeio-nocturno-pós-prandial. Vemo-los esticar o pescoço para os pratos e os menus de quem ainda come nas esplanadas que eles cruzam; virar em sincronia aquática as cabeças para a gente que passa.
Dir-se-ia que a característica que os define e une mais enquanto casal é a elasticidade, síncrona e por vezes quase frenética, que exibem do torso para cima, mas há quem defenda que é apenas a curiosidade. A curiosidade moldando o corpo. Os seus descendentes, se eles legarem também o gene indiscreto per saecula, serão como pequenas girafas balanceando na ponta de um longo pescoço uma pequena cabeça de olhos protuberantes que não perdem pitada da vida na savana.
Baile copular
* E, no sentido desta exegese, o slow era a antecâmara do sexo tântrico.
Titanic
* Inspirado por C. Chaves
Clonar John Lennon
sábado, 24 de agosto de 2013
O avançado instante
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
Considerações sobre o meu nariz
Observa os resultados da TAC e volta a espreitar-me pelas narinas. Pondera. Consulta o interior das suas próprias pálpebras, com dois sapientes dedos na têmpora. Tossica e conclui que é conveniente mas não é urgente. Podemos reavaliar daqui a um ano. Por outro lado, se eu preferir, podemos marcar já. A operação. Sinusite. Porque se pode aproveitar e fazer a rinoplastia. Estética. Se estiver interessado, claro.
Talvez se referisse à questão do tamanho, que os subdotados sempre fingem menosprezar.
Os Idiotas: teaser
Para entreter estas vésperas da rentrée polítca, aqui fica o teaser do romance Os Idiotas, do meu colega e amigo Rui Ângelo Araújo, publicado por O Lado Esquerdo Editora.
Realização: Paulo Araújo. Ilustração da capa: Eduardo Ferreira.
Os dois dias
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Para uma história dos penteados
Uma das coisas mais difíceis de abandonar no final da adolescência é o penteado. Demoram-se anos, laboriosos anos, a atingir aquele insatisfatório resultado complexo e quando finalmente nos resignamos a ele chega a tropa ou a idade adulta, com as suas convenções, embaraços e barbeiros. Alguns adultos em particular, tendo atingido o estrelato nos anos setenta, quando eram meros pós-adolescentes, sentiram-se dispensados de fazer a transição capilar. Um pouco por coerência com a postura irreverente da época, um pouco por receio de ficarem irreconhecíveis perante os fãs se uma tesoura lhes passeasse sibilando pela cabeça.
Na verdade, o estatuto de rocker dos setenta, invocado igualmente por tanto roadie e fã ignoto, apenas serviu como desculpa para não enfrentar no espelho a angústia e as indagações hamletianas suscitadas por um crânio nu. É certo que os fãs reconhecem uma cabeleira de 1975 quando vêem uma, mas acontece frequente e jocosamente perguntarem: «quem diabo é aquele gajo barrigudo debaixo da trufa do Robert Plant?» Donde os hoje engravatados descendentes do flower power poderiam aprofundar a exegese e inferir que a força de Sansão não vinha dos seus longos cabelos.
Por mim, nada tenho contra quem decide ser contabilista, agente funerário ou pai de família das raízes do cabelo para baixo e manter-se dali para cima nostálgico de certos riffs de guitarra e torsos nus (tenho até ternura). A minha preocupação é estética. É que muitos destes homens esquecem-se também da calvície e a certa altura já nem a barriga nem os três raros embora longos cabelos que lhes restam evocam algo mais do que uma personagem mal desenhada de Tim Burton.
Por falar nisso, temos de conceder que é ainda mais embaraçoso ser-se um gajo barrigudo debaixo de um penteado dos anos oitenta. Bem, sempre foi embaraçoso estar-se debaixo de um penteado dos anos oitenta, mas é um pouco sádico que continuem a esconder isso do Robert Smith.
Já os Duran Duran seguiram o caminho sensato que a maioria de nós seguiu logo nos noventa: aparar as pontas de modo que ainda sobrasse uma ideia do que tinha sido o nosso penteado e, para combater o sentimento de perda, coleccionar espanadores exóticos e coloridos.
