sábado, 7 de setembro de 2013

Falhas

Passo de um manual de lógica para o Livro Tibetano dos Mortos. O primeiro tenta definir, com exactidão, as formas válidas de pensar a vida. O segundo procura descrever, com ênfase, o que iremos achar após a morte. Mas ambos terão falhas. Cada morto representa um caso. Cada vivo inaugura um paradoxo. Deve, pois, existir algo que as «quatro figuras do silogismo» não abarcam e as «quatro nobres verdades» do budismo não contemplam: um caos rigorosamente impartilhável.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Momentos líricos

Um candidato a poeta dá a ler uma composição sua a sazonado diplomata. Embora não aprecie os versos, o auxiliador de talentos esforça-se — talvez inconscientemente — por captar momentos líricos bem conseguidos. Depois dirá ao principiante vate: «Achei sobretudo belíssima a expressão x.» A «expressão x» serviu-lhe de refúgio: cumpriu nela a expectativa estética, não contentável no geral do poema. O aforismo de Lavoisier ganha, neste contexto, outra figura: muito se cria, tudo se perde, nada se transforma.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

A imaginação em exercício

Duas anedotas. No desenho há vaca e erva. A erva não está — comeu-a a vaca. A vaca não consta — comeu a erva e foi-se. Frequentemente, caminhava em redor de um monte. Sempre numa direcção invariável. Anos depois, descobriria que uma das pernas encurtara. Decidiu-se pelo sentido oposto, até as igualar. A quem duvidava disso respondia: «Veja: as minhas pernas têm o mesmo comprimento!» A imaginação cria factos e elimina-os com hipóteses; cria hipóteses e ilumina-as com factos.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Técnicas

Uma técnica defensiva relativamente a «incómodos pensamentos dolorosos» consiste em negá-los à consciência, evitando traduzi-los em imagens e palavras. O exercício, porém, revela-se falível: os pensamentos vagueiam por perto, fantasmas sedentos de epifania. Outra técnica passa por considerar tudo ilusório e oco: volvidas décadas, não excederemos pó e esquecimento. A intenção é fecunda; o resultado, oco e ilusório. Há uma terceira técnica, mas imponderada: além de pressupor a colaboração do adversário, só pode ser usada uma vez.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Setas

Tanto o computador nos habitua a uma setinha azul, curva de aspecto, capaz de «anular a introdução», que instintivamente a procuramos para «anular» também o que de asneira «introduzimos» no quotidiano exterior ao Word. Em vão, no entanto, se demandará aí tal dispositivo de reversibilidade. A linha do tempo desconhece as setas curvas e azuis que neutralizam o sentido indesejado. Ela assemelha-se mais, enquanto flecha inexorável, às setas brancas sobre fundo azul — que indicam o sentido obrigatório.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Carne para canhão

Acusam-no, apesar do barítono, de não ter perfil de estadista — como afinal não tinha de cabeça-de-cartaz laferiano. Mas o nosso PM, para além de estentóreas qualidades tribunícias, tem uma digna postura generalícia, de general bonapartista. Tem o mesmo brilhantismo táctico (embora em segunda mão) e o mesmo sentido estético dos generais que berravam até a voz lhes doer para ninguém abandonar as linhas, para que todos marchassem ordeiramente. No campo de batalha como na parada. É verdade que o pensamento militar, que ainda havia de conceber as trincheiras, acabou por concluir pela estupidez da táctica, que apenas sobreviveu enquanto do outro lado vigorava estupidez semelhante. Mas tudo aquilo, todas aquelas encenadas e hollywoodescas manobras militares, que punham milhares de pessoas a mover-se num descampado como peças de dominó tombando num vasto e colorido jogo de efeitos, toda aquela carnificina apreciada à distância com o mesmo monóculo que se usava na ópera de Paris, todo aquele bailado demente muito apreciado pelos sádicos habitantes do Olimpo, foi necessário para que alguém escrevesse um calhamaço como o Guerra e Paz e, sobretudo, foi necessário para que hoje pudéssemos usar uma expressão tão exacta e esclarecedora como “carne para canhão”.

Se não existisse história militar, e perdoem-me a tautologia, não saberíamos hoje descrever o que pretende Passos Coelho e a aprumada, british style, tropa cerebralmente fandanga que temos como Governo. O que se nos pede, como há exactamente duzentos anos, é que, para que nada mude, para que se possa fingir que nada tem de mudar no sistema económico europeu, no próprio capitalismo, para que os rendimentos superiores possam continuar a ser abismalmente superiores, o que se nos pede e Passos Coelho repete com mais ingenuidade do que cinismo, embora este lhe sobre, é que tem de haver milhões de sacrificados.

Carne para canhão é, continua a ser, a grande táctica dos que, montados na garupa dos seus alazões, se relacionam com a mole humana ao milheiro, têm o milheiro como unidade de cálculo para os trocos como para os homens. Passos Coelho, como outros oficiais do ramo que o precederam, apenas cumpre ordens.

(des)inibições

Ler ao contrário

Com perturbação neurológica designada «fenómeno de orientação espacial», a sérvia Bojana Danilovic lê e escreve ao contrário. Recordo facto passado. Uma jovem da aldeia não sabia ler. Namorava um instruído moço da cidade. Certo dia, tomou o comboio para se encontrar com ele. Sentou-se e abriu o jornal sobre as pernas cruzadas. Disse-lhe um cavalheiro: «Desculpe, menina, está a ler o jornal ao contrário!» Desconhecendo Bojana, ela replicou: «Às direitas qualquer um é capaz de o fazer.»

domingo, 1 de setembro de 2013

Frases

Naquele país, os cidadãos — graças a um sistema informático de controlo mental — recebiam à nascença as frases que iriam dizer, e podiam livremente repetir, durante a vida. O conteúdo e o número variavam entre indivíduos, consoante os pátrios interesses. Estar ligado ao «sistema» (todos os sentiam) era tão instintivo como respirar. Não havia asserções melancólicas, embaraçosas ou contestatárias. De modo obviamente consensual, assim se definia «ser humano»: um amontoado bípede de frases implumes, com umbigo e narinas.

sábado, 31 de agosto de 2013

Palavras

Tomás de Aquino deixou mais de oito milhões de palavras. Imaginemos uma tradução d’A Montanha Mágica, de Thomas Mann, e multipliquemo-la por vinte e quatro. Extenuante cordilheira! Perto do fim, o santo terá tido uma visão que o levou a afirmar que tudo quanto escrevera lhe parecia palha. Dolorosa ironia! Há filósofos que necessitam de forjar muita prosa — e ainda de visões sobrenaturais — para extrair uma conclusão que um aluno medíocre do secundário atinge sem qualquer esforço.

«As pegadas de dinossauro indicam o caminho do futuro»

Num episódio do Bartoon, a tira do Público, lê-se: «As pegadas de dinossauro indicam o caminho do futuro.» Nada mais verdadeiro e definidor.
Ainda que a famigerada lei de limitação de mandatos autárquicos tenha feito saltar fora um ou outro dinossauro menos motivado, a verdade é que sobraram demasiados, e dos mais aguerridos. Mas pior do que isso é sabermos que tantos dos novos candidatos às autarquias não têm nada de novo a acrescentar ao admirável mundo antigo, vão seguir exactamente as pegadas dos dinossauros que os antecederam. O país vive uma crise histórica. Há razões externas para a crise mas há igualmente uma culpa colectiva que não se devia alijar e que passa também pela forma como muitas autarquias são encaradas e geridas. Em tantos locais, demasiados locais, as eleições autárquicas continuam a ser meros combates pelo poder entre dois clãs ansiosos por distribuírem entre si os despojos da conquista. Chamam-lhe democracia, mas é um lapsus linguae. O jogo não remete para a Grécia, mas para o império Maya: os vencedores, se puderem, arrancam as cabeças aos derrotados.

De resto, o Governo não imita menos o passado nem é mais isento no que se refere a alimentar o clã laranja. Nisto, como em quase tudo, Passos Coelho faz exactamente o oposto do que disse. E mesmo assim consegue enganar os ingénuos Lombas desta vida, rapazolas de fortes convicções ideológicas que não conseguem reconhecer um charlatão ou um freteiro a um palmo do nariz se ele lhes sussurrar ao ouvido passagens mansas da cartilha. Para estes nerds doutrinários — como, ironicamente, para as claques partidárias que eles desprezam —, um cacique não é um cacique se for o nosso cacique ou falar com certa assiduidade das coisas que achamos certas.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

1817 ou mais

Ante a afirmação de Boswell de que era impossível refutar a doutrina imaterialista de Berkeley, Samuel Johnson bateu com o pé fortemente numa pedra e disse: «Refuto-a assim.» Conta Eça em Civilização que, na vasta biblioteca, Jacinto reunira mil oitocentos e dezassete sistemas filosóficos — apenas «os que irreconciliavelmente se contradizem». Talvez nem haja tantos. Há, sim, teses e antíteses que se contradizem através de mil oitocentos e dezassete argumentos. Ou mais — quando se filosofa com os pés.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Fojo do Lobo

Uma hora de passos ágeis leva-me ao fojo do lobo, onde Camilo «granizou» uma fera entretida com tinhosa rês. Emoldura-o o negrume de fogos recentes. Coroando uma fraga, a lápide que ali perdura — já mutilada — é também memorial indirecto de ligeiro fiasco: Camilo pouco incomodou o lobo. Talvez isso, nos «únicos felizes anos» da sua mocidade, pressagiasse malogros mais sérios, em fojos menos tangíveis, culminando no revólver de Seide. Um corvo, ao longe, fere a manhã clara.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

«Toda a gente tem direito a ter um desgosto de amor»

Levantam-se da mesa, deixam os homens na sala e vão para a varanda fumar, com os copos pousados num móvel contíguo. Já não se viam há algum tempo, possivelmente desde as últimas férias de Verão, talvez desde as anteriores. Duas delas falam da terceira como se ela não estivesse presente, mas não a estão a excluir da conversa. Estão a explicar-lhe, quase de forma encenada, o que pensaram e disseram entre elas sobre a amiga quando a viram, cada uma em sua ocasião. Que não podia ser, não cresciam assim. Era coisa que se tinha ou não se tinha, e ela antes não tinha. Não como agora. A primeira conta que, logo que viu a Clara (chamemos-lhe assim), lhe atirou de imediato aos mãos ao peito. Não esteve cá com coisas. Era como São Tomé, precisava de ver com os dedos para crer. Clara tinha defendido, com o seu narizito indignado, que eram naturais, mas ela não acreditava. E o tacto não lhe mentia. Clara anui, entrando na conversa: sim, as coisas tinham-se passado daquele modo. Ela tinha querido brincar durante um bocado, embora soubesse que as amigas acabariam por perceber. Mas não lhe ficavam bem?
Tinha sido depois de se separar do Júlio. Ele não se fora embora por causa das mamas dela, mas Clara precisava de se concentrar em alguma coisa para esquecer o desgosto. E se o pensou melhor o fez. Já tinha lido muito sobre aquilo, como todas, os métodos, os riscos, quem pôs e quem não pôs.
Seguem-se alguns minutos em que as três esgrimem a sua bibliografia, em diferentes tons de rosa mas no mesmo papel couché ou acetinado, sobre o assunto.
Depois desse interlúdio estético-medicinal, Clara retoma a questão anterior. O desgosto amoroso não era assim tão mau, talvez ela tivesse avançado para a cirurgia de qualquer modo. O desgosto, aliás, era parte da vida das pessoas, «toda a gente tem direito a ter um desgosto de amor».

Ter-se-ia ela enganado? Teria querido dizer que toda a gente, num momento ou noutro da sua vida, tinha, naturalmente, um desgosto de amor? Ou estaria a socorrer-se de um discurso reivindicativo, o povo pela voz dela a reclamar direitos iguais aos dos ricos, mesmo que esses ricos sejam os das novelas ou os dos romances de Margarida Rebelo Pinto? Umas mamas de silicone e um desgosto de amor podem ser anseios legítimos e equiparáveis da classe operária?

Depois voltam à questão mamária, com gargalhadinhas e apalpões (agora em directo), e o escriba, de educação antiga, tenta ainda com mais denodo (mas não com melhores resultados) concentrar-se na leitura.

Um mundo sem humor

Imaginemos um mundo onde, graças a rigorosas causas transcendentes, se torna impossível qualquer momento de humor. Aí, a linguagem, não apenas a verbal, terá uma objectividade esmagadora. Os movimentos dos corpos nunca excederão certos padrões eternos, embora desconhecidos. Nem o destino inventará ironias nem os genes forjarão os músculos do riso. Não havendo razões para piadas que libertem, não as haverá também para reveses que descompensem. Eis, portanto, o mundo ideal — e uma anedota muito mal contada.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Já cá faltava a hagiografia borgesiana
(ou «Alguém lhe explique os documentários da National Geographic»)

Um amigo meu comentou assim as reacções nas redes sociais à morte de António Borges:

metade dos tugas adora cuspir na campa de qualquer um que tente ensinar-lhe aritmética e berra que a aritmética é faxista e inconstitucional...

As receitas económicas de António Borges — homem da Goldman Sachs, organização com responsabilidades criminosas no colapso económico e social em que nos vamos afogando — são uma tentativa de «ensinar aritmética» aos Portugueses na mesma medida em que o objectivo da chita é ensinar a gazela a correr.

Pelo fim do Ensino Superior público

Agora é oficial e indesmentível: o Governo quer acabar com o ensino superior público.

Não bastavam os constantes cortes nas transferências orçamentais do Estado (que começaram mais de uma década antes de a austeridade chegar ao resto do país), agora a Direcção Geral do Orçamento impôs um tecto máximo às receitas próprias que as universidades e politécnicos podem gerar, além de cativar (isto é, ficar com) parte dessas receitas, obtidas, por exemplo, pela prestação de serviços de consultoria, investigação e desenvolvimento a empresas.

O Governo diminui cada vez mais o dinheiro que entrega ao ensino superior — mas agora passou a uma nova dimensão de ataque: impede também que as instituições arranjem dinheiro por si próprias.

Se a diminuição da dotação orçamental serve o objectivo do défice, a limitação à iniciativa autónoma de financiamento serve que interesses?

Os lugares de Setembro

«Em Setembro, onde estarei?» Tal pergunta, nesta altura, colocam-na milhares de professores (entre eles me incluo). «Numa qualquer escola do rectângulo — se nalguma», eis a genérica resposta. «Um dia de cada vez!», recomendam os sábios. Afinal, o Ministério da Educação apenas almeja fomentar nos docentes a vivência absoluta do eterno hoje — e o espírito indomável de aventura. Pessoalmente, dispenso a gentileza. Volto à questão: «Em Setembro, onde estarei?» «“Setembro”, agora, é com inicial minúscula», corrigem-me os entendidos.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Marcante e inabalável

Cavaco Silva enviou publicamente condolências pessoais à família do falecido economista António Borges. No texto, o Presidente da República considera-o «uma personalidade marcante da vida pública portuguesa», «um dos economistas mais brilhantes da sua geração», que «teve, ao longo de décadas, uma influência profunda em gerações de estudantes das melhores escolas de economia e gestão». Realça ainda a «firmeza inabalável das suas convicções».

Quanto à inabalabilidade das convicções de António Borges, discordo de que possa ser considerada uma qualidade: as convicções devem ser abaladas — quando os factos as contradizem. Coisa que, efectivamente, não ocorreu com o extinto economista ultraliberal. (Nesse sentido, infelizmente, Cavaco tem razão.)

Quanto ao brilhantismo do académico e à influência profunda que teve em gerações de estudantes de economia e gestão, calar-me-ei — para deixar o estado do país falar.

Por fim, o epíteto de «marcante». Terá sido, admito-o. Também a Pneumónica o foi.

O alívio que vem depois

Contaram-mo. Certo adolescente, descobrindo maneira de infligir pequenos choques eléctricos em si mesmo, decidiu fazê-lo com regularidade. Doloroso? «Sim», confessava o moço, «mas depois é cá um alívio!» Os psicólogos chamam «reforço negativo» ao desaparecimento do estímulo adverso. Ignoro como designam esse impulso de buscar a dor só para fruir o bálsamo da sua extinção. Porém, a níveis diversos, de modo mais ou menos voluntário, todos os humanos são incorrigíveis adolescentes a brincar com a corrente eléctrica.