sábado, 14 de setembro de 2013

Introspecção

Auguste Comte negava-lhe valor científico: na introspecção, o sujeito observador coincide com o objecto observado. E «ninguém pode estar à janela para se ver passar na rua». Tese plausível, frágil argumento: embora coincida com o objecto, o sujeito não coincide consigo próprio. Se a introspecção carece de rigor, é justamente pelo facto de, na vida mental, ser possível estar à janela e ver-se passar na rua — ou passar na rua e ver que se está à janela.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Os Idiotas — sessões de lançamento a sul

Hoje à noite (21h) é lançado em Castro Verde o livro Os Idiotas, do amigo e co-blogger Rui Ângelo Araújo, a leitura ideal para a época de patos bravos eleições autárquicas que vivemos.

Amanhã (18h30), é a vez de Faro.

Apareçam!

Fim de tarde

A tarde declina. Chego ao centro de uma aldeia que desconheço. Aproximam-se indivíduos avançados em idade. Entabula-se conversa. Um deles discursa. Quase nenhuma das frases lhe sai sem palavrões. Sente azedume: aquela terra perdeu o estatuto de freguesia. O velho mostra-se categórico: «Os novos deviam ir todos para o caralho!» Uma anciã leva o indicador à cabeça, gesto cúmplice. O homem, todavia, conclui a arenga ao estilo pessoano: «A aldeia é grande, mas a alma é pequena.»

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Lucidez

Refere Saramago que os seus livros deveriam exibir, na capa, uma fita onde se lesse: «Atenção, este livro leva uma pessoa dentro.» Eis entretanto as últimas palavras de Marx: «Vá lá, sai daqui! Últimas palavras são para tolos que não disseram o suficiente!» Também isto porventura «leva uma pessoa dentro». O mau uso histórico da doutrina marxista gera a sensação de que o filósofo não disse o «suficiente». Mas, pelo menos, manteve-se lúcido até à derradeira sílaba.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Wackypedia: Sexo (10)

BUCÓLICO/A. adj. Viciado/a em sexo oral. [Wackypedia: contributos para um léxico alternativo]

A maçada das utopias

Os habitantes da utópica cidade solar, descrita por Tommaso Campanella e governada pelo Metafísico, «têm em comum as casas, os dormitórios, os leitos, todas as coisas necessárias». Se a mente fosse despojada do princípio segundo o qual uma realidade é idêntica a si própria e distinta das demais, viveríamos o êxtase da fusão e do intercâmbio, concretizando a fórmula mística do «tudo em tudo». Eis duas soluções pouco agradáveis para quem gosta que o deixem em paz.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

O monólito

Chama-se Maxime Qavtaradze. Lembrando antigos estilitas, o monge vive há vinte anos no topo de um monólito: longe dos semelhantes, que todavia o alimentam; mais perto de Deus, apesar da divina omnipresença. Mas permanecer ali, rodeado de abismo e monotonia, pode também ser o convite ao exercício de «simplesmente existir»: sem memórias cruéis nem expectativas inúteis, para lá de um céu de promessas e de uma terra de desilusões. Todos deviam ter direito a uma pedra assim.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Repetição e contradição

Para evitar contradizerem-se, muitos gostarão de academicamente o repetir: «Quem não se repete contradiz-se.» Por sua vez, Cardoso Pires entende que o maior pânico do escritor, à medida que avança na idade e no trabalho, «é desconfiar que já leu aquilo em qualquer lado — dele». Portanto, ou o escritor demanda subterraneamente a contradição ou há modalidades de «não repetição» que nada encerram de contraditório. Eis o jogo entre o «mesmo» e o «diverso», cujas regras convém desconhecer.

domingo, 8 de setembro de 2013

A literatura ou a vida

Há muitos anos, no secundário, acordei de um sono profundo a meio de uma aula quando me encontrei com a Ode Triunfal. Tinha passado de batucar indolentemente com os dedos na mesa a folhear com eles o livro do colega de carteira, como se passando as páginas conseguisse fazer passar os minutos, os longos minutos que demorava a passar a aula de Português.
Depois do longínquo ronronar das coisas abstractas, cuja anatomia indistinta era dissecada na mesa de um jargão técnico estéril e cuja relação com a vida neste planeta eu não lobrigava, o livro estava a oferecer-me um texto que ligava as palavras a sensações, que descrevia com assinalável verosimilhança o mundo e o relacionava com emoções que eu era capaz de identificar.
Havia uma discrepância entre o que eu estava a ler e o que tinham sido as aulas de Português até àquele momento, fastidiosos lapsos de tempo onde, sem que eu tivesse como o perceber (e de qualquer modo os professores, eles mesmos, não o percebiam), o ensino da literatura se fazia distinto, quase antagónico, da literatura. Imaginei que aquela ode de Álvaro de Campos seria um dos textos que não iríamos abordar na aula, porque tudo o que abordávamos na aula era chato e colossalmente destituído de humanidade. Senti-me transgressor. A insuflar a alma de uma coisa que não era grosseira, amarelada e, para mal das alergias, carregada de pó como velhos in-fólios. (Anos mais tarde concluiria com naturalidade que o que me condenava ao sono ou ao tédio não eram os textos, mas quem os ensinava e a forma como eles eram ensinados.)
Creio que vem desse momento epifânico a minha aversão a romances que tenham como protagonistas escritores em pleno exercício do ofício, que sejam estudos psicológicos, existencialistas ou pós-modernos de escritores ou de leitores, bibliotecários, editores, a minha aversão a romances que sequer ambientem vagamente os enredos no métier literário, que procurem piscar o olho ao leitor geek, profissional, ou que pura e simplesmente desconheçam a vida para lá da literatura. Há bastantes destes livros, os escritores tendem a ser umbiguistas e a literatura de alguns deles, com a conivência ou o deslumbramento de editores igualmente autocentrados, francamente tautológica.
Receio sempre que os autores de obras assim sejam como os meus professores do secundário, gente que tuteia a literatura mas a esvazia de vida. Salvo excepções, quando quero ler sobre vidas de escritores ou sobre o escritor no seu labirinto, procuro biografias, entrevistas, ensaios próprios ou de terceiros. Dos romances, da literatura, espero que tratem da vida, até mesmo da vidinha. Do roncar das máquinas aos «escrocs exageradamente bem vestidos».


* Este post cita de cor e dando-se muita liberdade um texto que escrevi há talvez década e meia e foi espoletado, o post, pela admirável versão da Ode Triunfal que a Maria Filomena publicou no seu Ferramentas e Espelhos.

Distinção

Afonso XIII condecorou-o com a Grã-Cruz de Afonso XII. Miguel de Unamuno declarou, pois, ser uma honra receber semelhante distinção — altamente merecida. Surpreso, disse-lhe o rei que ele era o primeiro a expressar-se assim. Sempre os anteriores homenageados haviam referido que a não mereciam. Retorquiu o filósofo: «E provavelmente com toda a razão.» A franca arrogância gera, por vezes, um humor mais corrosivo que o da ironia. Já a modéstia, quando falsa, é somente ironia sem humor.

sábado, 7 de setembro de 2013

Wackypedia: léxico geral (4)

EXTERNO. adj. m. Que se tornou bruto. [Wackypedia: contributos para um léxico alternativo]

Falhas

Passo de um manual de lógica para o Livro Tibetano dos Mortos. O primeiro tenta definir, com exactidão, as formas válidas de pensar a vida. O segundo procura descrever, com ênfase, o que iremos achar após a morte. Mas ambos terão falhas. Cada morto representa um caso. Cada vivo inaugura um paradoxo. Deve, pois, existir algo que as «quatro figuras do silogismo» não abarcam e as «quatro nobres verdades» do budismo não contemplam: um caos rigorosamente impartilhável.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Momentos líricos

Um candidato a poeta dá a ler uma composição sua a sazonado diplomata. Embora não aprecie os versos, o auxiliador de talentos esforça-se — talvez inconscientemente — por captar momentos líricos bem conseguidos. Depois dirá ao principiante vate: «Achei sobretudo belíssima a expressão x.» A «expressão x» serviu-lhe de refúgio: cumpriu nela a expectativa estética, não contentável no geral do poema. O aforismo de Lavoisier ganha, neste contexto, outra figura: muito se cria, tudo se perde, nada se transforma.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

A imaginação em exercício

Duas anedotas. No desenho há vaca e erva. A erva não está — comeu-a a vaca. A vaca não consta — comeu a erva e foi-se. Frequentemente, caminhava em redor de um monte. Sempre numa direcção invariável. Anos depois, descobriria que uma das pernas encurtara. Decidiu-se pelo sentido oposto, até as igualar. A quem duvidava disso respondia: «Veja: as minhas pernas têm o mesmo comprimento!» A imaginação cria factos e elimina-os com hipóteses; cria hipóteses e ilumina-as com factos.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Técnicas

Uma técnica defensiva relativamente a «incómodos pensamentos dolorosos» consiste em negá-los à consciência, evitando traduzi-los em imagens e palavras. O exercício, porém, revela-se falível: os pensamentos vagueiam por perto, fantasmas sedentos de epifania. Outra técnica passa por considerar tudo ilusório e oco: volvidas décadas, não excederemos pó e esquecimento. A intenção é fecunda; o resultado, oco e ilusório. Há uma terceira técnica, mas imponderada: além de pressupor a colaboração do adversário, só pode ser usada uma vez.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Setas

Tanto o computador nos habitua a uma setinha azul, curva de aspecto, capaz de «anular a introdução», que instintivamente a procuramos para «anular» também o que de asneira «introduzimos» no quotidiano exterior ao Word. Em vão, no entanto, se demandará aí tal dispositivo de reversibilidade. A linha do tempo desconhece as setas curvas e azuis que neutralizam o sentido indesejado. Ela assemelha-se mais, enquanto flecha inexorável, às setas brancas sobre fundo azul — que indicam o sentido obrigatório.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Carne para canhão

Acusam-no, apesar do barítono, de não ter perfil de estadista — como afinal não tinha de cabeça-de-cartaz laferiano. Mas o nosso PM, para além de estentóreas qualidades tribunícias, tem uma digna postura generalícia, de general bonapartista. Tem o mesmo brilhantismo táctico (embora em segunda mão) e o mesmo sentido estético dos generais que berravam até a voz lhes doer para ninguém abandonar as linhas, para que todos marchassem ordeiramente. No campo de batalha como na parada. É verdade que o pensamento militar, que ainda havia de conceber as trincheiras, acabou por concluir pela estupidez da táctica, que apenas sobreviveu enquanto do outro lado vigorava estupidez semelhante. Mas tudo aquilo, todas aquelas encenadas e hollywoodescas manobras militares, que punham milhares de pessoas a mover-se num descampado como peças de dominó tombando num vasto e colorido jogo de efeitos, toda aquela carnificina apreciada à distância com o mesmo monóculo que se usava na ópera de Paris, todo aquele bailado demente muito apreciado pelos sádicos habitantes do Olimpo, foi necessário para que alguém escrevesse um calhamaço como o Guerra e Paz e, sobretudo, foi necessário para que hoje pudéssemos usar uma expressão tão exacta e esclarecedora como “carne para canhão”.

Se não existisse história militar, e perdoem-me a tautologia, não saberíamos hoje descrever o que pretende Passos Coelho e a aprumada, british style, tropa cerebralmente fandanga que temos como Governo. O que se nos pede, como há exactamente duzentos anos, é que, para que nada mude, para que se possa fingir que nada tem de mudar no sistema económico europeu, no próprio capitalismo, para que os rendimentos superiores possam continuar a ser abismalmente superiores, o que se nos pede e Passos Coelho repete com mais ingenuidade do que cinismo, embora este lhe sobre, é que tem de haver milhões de sacrificados.

Carne para canhão é, continua a ser, a grande táctica dos que, montados na garupa dos seus alazões, se relacionam com a mole humana ao milheiro, têm o milheiro como unidade de cálculo para os trocos como para os homens. Passos Coelho, como outros oficiais do ramo que o precederam, apenas cumpre ordens.

(des)inibições

Ler ao contrário

Com perturbação neurológica designada «fenómeno de orientação espacial», a sérvia Bojana Danilovic lê e escreve ao contrário. Recordo facto passado. Uma jovem da aldeia não sabia ler. Namorava um instruído moço da cidade. Certo dia, tomou o comboio para se encontrar com ele. Sentou-se e abriu o jornal sobre as pernas cruzadas. Disse-lhe um cavalheiro: «Desculpe, menina, está a ler o jornal ao contrário!» Desconhecendo Bojana, ela replicou: «Às direitas qualquer um é capaz de o fazer.»

domingo, 1 de setembro de 2013

Frases

Naquele país, os cidadãos — graças a um sistema informático de controlo mental — recebiam à nascença as frases que iriam dizer, e podiam livremente repetir, durante a vida. O conteúdo e o número variavam entre indivíduos, consoante os pátrios interesses. Estar ligado ao «sistema» (todos os sentiam) era tão instintivo como respirar. Não havia asserções melancólicas, embaraçosas ou contestatárias. De modo obviamente consensual, assim se definia «ser humano»: um amontoado bípede de frases implumes, com umbigo e narinas.