segunda-feira, 7 de outubro de 2013

A encomenda

«Caso não seja entregue, agradecemos a devolução, indicando a razão com um X.» Imagino o que aconteceria se o destinatário da encomenda fosse a Divindade e os filósofos se tornassem os responsáveis por desenhar a «cruz da não entrega». Aristóteles colocá-la-ia em «Ausente»; Epicuro, em «Recusado»; Kant, em «Desconhecido»; Hume, em «Encerrado»; Feuerbach, em «Mudou-se»; Nietzsche, em «Falecido»; Wittgenstein, em «Endereço insuficiente»; Sartre, em «Não reclamado». Já os panteístas, como Espinosa, ficariam legitimamente de posse da encomenda.

domingo, 6 de outubro de 2013

Incómodos

Tornou-se axioma: «Pensar incomoda como andar à chuva.» Tal regra de Caeiro admite, ainda assim, inúmeras excepções: os conceitos variam em peso e agressividade; as pingas, em volume e frequência. Mas é possível neutralizar ambos os incómodos elegendo intervalos: os que distanciam as gotas e os que separam conteúdos mentais. Dos dois exercícios, todavia, só o segundo parece exequível. Trata-se aliás de excelente opção para quem anda à chuva — e quer evitar o incómodo de pensar nisso.

sábado, 5 de outubro de 2013

Machetada

Provavelmente — e decerto com particular incidência nas últimas legislaturas —, sempre houve gente nos governos com alguma incapacidade para defender os seus currículos. Quer porque eles (os currículos) eram má ficção, quer porque eram facilmente confundidos com cadastros. Mas no governo de Passos Coelho isso parece uma especialidade, uma cláusula. Um tipo põe-se a pensar que, se os lugares de ministro e secretário de estado (ou assessor) fossem a concurso, Coelho mandaria lavrar anúncio no Diário da República com a alínea: «Dá-se preferência a quem tenha rabos-de-palha; da sua elisão trata-se a seguir, com corrector Bic ou Pelikan, depende de quem patrocinar.»

Os currículos de Gaspar e Santos Pereira, bons rapazes e sem mácula no carácter, pertenciam ao lote da ficção, poderiam ter sido escritos por José Rodrigues dos Santos num dia inspirado. O de Relvas também, mas acumulava vilanias. Agora, a ministra das Finanças e o dos Negócios Estrangeiros são o topo hierárquico de uma lista de governantes cujos currículos os habilitam com distinção ao governo passista mas logo depois têm de passar pela lavandaria para serem apresentáveis ao resto do país.

Desde Junho de 2011 há um campeonato para ver quem mente-mais-e-pior e, em simultâneo, tem o raio-de-uma-lata. Os melhores nestas duas disciplinas mantêm-se no governo ad nauseam, até aparecerem cartazes no tour de França e na Estação Espacial Internacional. Só saem quando a sua reputação não se distingue da lama onde nadam.

Maria Luís Albuquerque e Rui Machete estão bem colocados, são esperanças particulares de Passos (o próprio, como se sabe, um peso-pesado da peta, patranha, baldroca, da pantomima e do entremez). E todos somos testemunhas de como eles se têm esforçado, com enorme lata, no campeonato de mentir muito e mal. Maria Luís tem a desvantagem de ser até há pouco tempo uma desconhecida. O seu currículo, de menor extensão, é mais facilmente arruinável. Já Rui Machete, com aquela longa e velha fama de senador e general na reserva do partido, tem tudo para ganhar a taça. Depois das estratégicas elipses curriculares e das extravagâncias da sua memória, este episódio com a Rádio Nacional de Angola mostra como ele está disposto a tudo.


«Machete: s. m. sabre de artilheiro com dois gumes, faca de mato; viola pequena, cavaquinho

Nada de novo

Aparentemente, Descartes caiu num círculo: por um lado, tinha a ideia clara e distinta de Deus, com que provou a sua existência; por outro, necessitava que Deus existisse para garantir a verdade da ideia clara e distinta que tinha dele. O problema reside no facto de, neste caso, os pensamentos deslizarem sobre palavras como dedos sobre o ecrã de um tablet: afastam-se e aproximam-se, ampliam e reduzem, arrastam e esperam, mas nada de novo acrescentam ao texto.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Rui Ângelo Araújo e Os Idiotas na revista LER de Outubro

recorte de imprensa

O IDIOTA C'EST MOI

Lúcio: Sabes que és um pseudónimo, certo?
Rui:
L: Que me usurpaste a autoria do livrito?
R: Pensei que estavas sequestrado numa cave alentejana. Li isso no teu Facebook. Alimentado a açorda e sopa de tomate…
L: É feio aproveitar o trabalho dos outros para armar em escritor.
R: Lá estás tu com essa fantasia. Ouve, eu criei-te, és uma personagem d’Os Idiotas. Dei-te foi demasiada liberdade. Parecias um tipo divertido (ainda que tontíssimo), não imaginei que fosses tão longe…
L: Estás com cara de padre, nesse sofá maricas.
R: Isso, desperdiça caracteres.
L: Querias que falasse do livro?
R: Não nos convidaram para assomos edipianos de personagens mal resolvidas...
L: Podia ser um bom livro, podia. Se não tivesses metido o bedelho. Supõe-se que os pseudónimos se fiquem pela capa, não que se intrometam no texto. Pseudónimo não é heterónimo. Todos perceberão que o livro devia simplesmente deixar ouvir a minha voz.
R: Ainda se nota com abundância que és um desbocado, um espírito doente.
L: Obrigado, muito gentil.
R: Um tipo decadente num país em declínio.
L: Wishfull thinking…
R: Triste protagonista de comédia humana que nem sequer assume a oportunidade que os amigos lhe dão de ter uma contribuição cívica.
L: Quem mais poderia pensar em cidadania senão imbecis daqueles?
R: A passear os traumas e a bebedeira da Roménia ao Vietname…
L: Lisonja.
R: A arrastar a asa para a Helen. És mesmo…
L: O idiota és tu!


Os Idiotas (O Lado Esquerdo Editora) é o título do novo romance de Rui Ângelo Araújo, autor do blogue «Os Canhões de Navarone» e antigo director da revista Periférica.

Nascidos entre velharias

Entro numa loja de velharias e noto que há cinco gatos recém-nascidos, de pêlo escuro, a vaguear por ali. Não tardam a aproximar-se. Talvez me conheçam de vidas anteriores, passadas algures na Pérsia ou no Egipto. Um deles tenta acomodar-se sobre um dos meus sapatos, como se o mundo não lhe inspirasse qualquer mistério ou inquietação. Estes animais viram a luz entre múltiplos objectos que insistem em lembrar o fim. Não admira, portanto, que ignorem certos princípios.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Tem cumprido o seu?

Dever cívico/cínico

A outra lógica

Ele supunha ser a vida a conclusão de um argumento cujas premissas se desconhecem. Ela julgava-a um conjunto de premissas que não levam a qualquer conclusão. Através de inflamada lógica, juntou-os o destino. Mas cada um só via no outro o que ele próprio achava da vida. Volvido quase um ano, disse o homem: «É preferível concluirmos.» Ela retorquiu: «Claro. Também não me faltam premissas.» Fora aquele o único argumento válido após uma série intensa de falácias.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Entrevista na revista online IP4

Rui Ângelo Araújo, meu “parceiro de coligação”, em entrevista à revista online IP4:

“Os Idiotas” de Rui Ângelo Araújo são, afinal, afectuosos

É o costume

Segundo David Hume, é ilegítimo supor entre a chamada «causa» e o designado «efeito» qualquer «conexão necessária». Há apenas fenómenos que sucedem outros. O costume de os ver associados leva-nos a inferir que, interiormente, eles se «conectam». Pura falácia. Talvez seja o mesmo hábito que nos impele a dividir o tempo em passado — a causa que foi embora —, futuro — o efeito que nunca está — e presente — a ligação obstinada dessas duas ausências. Enfim, os aborrecimentos do costume.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Lições da Índia

Recebo por e-mail um anónimo texto circulante. Lê-se aí que, na Índia, ensinam «quatro leis da espiritualidade»: «A pessoa que vem é a pessoa certa.» «Aconteceu a única coisa que poderia ter acontecido.» «Toda a vez que iniciares algo é o momento certo.» «Quando algo termina, termina.» E há um voto: «Sejamos fortes nesta caminhada rumo ao progresso espiritual.» Pergunto: ante pessoas oportuníssimas, rigorosas inevitabilidades, começos perfeitos e desenlaces categóricos, como é que o espírito afinal progride?

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A intervenção secreta de Ariadne

Almejava esquecer um passado atroz. Decidiu convertê-lo em narrativa. Ocultou-a num ficheiro com palavra-passe. Criou outro. Guardou aí essa palavra-passe. Num terceiro, alojou a do segundo. E assim sucessivamente, rumo ao olvido. Chegado ao milionésimo sétimo, logrou esquecer os dolorosos tempos. Mas também o sentido daquele exercício. Clicou então — gesto fortuito — em «Colar». O vocábulo «fio» adveio à página, garantindo-lhe acesso ao ficheiro anterior. Reentrara no labirinto. Sem o saber, foi avançando em busca de si próprio.

domingo, 29 de setembro de 2013

O meu protesto contra a Comissão Nacional de Eleições

Eis o teor do protesto que submeti à Comissão Nacional de Eleições, contra a própria Comissão Nacional de Eleições:

A queixa é relativa a:
Delegados / Membros de mesa / Assembleias de voto

Contra que entidade(s) se queixa?:
Comissão Nacional de Eleições

Mensagem:
Venho protestar contras as novas regras de colocação das cabines de voto dentro das assembleias de voto.
Quando fui hoje votar (assembleia de voto da antiga freguesia de São Dinis, actualmente integrada na União de Freguesias de Vila Real), reparei que a entrada das cabines de voto estavam viradas para a Mesa da assembleia, e não para a parede, como em actos eleitorais anteriores.
Sendo baixo e franzino, tenho dificuldade em tapar convenientemente os meus boletins do voto com o meu corpo, pelo que me senti desconfortável por ter de votar nessas condições: pelo menos o delegado de uma das listas candidatas estava a menos de 5m de mim. (Não estou a dizer que sequer olhou para o que eu fazia, mas a verdade é que me senti com menos privacidade.)
Ao entregar os meus votos, protestei junto do Presidente da Mesa. Fui informado que tal disposição das cabines de voto estava de acordo com as novas regras (julgo que emitidas pela CNE), tendo-me sido dito que tal visava impedir que algum eleitor fotografasse o seu voto com o telemóvel.
A lei é a lei (não contesto por isso a actuação da Mesa), mas quando a lei é estúpida o cidadão tem o dever de protestar contra a lei. E neste caso a lei é supremamente estúpida!
Qual o mais importante: impedir um hipotético cidadão de fotografar o seu voto, ou garantir que todos os cidadãos votam com privacidade, condição essencial para que o dever cívico de votar seja exercido em liberdade? Quanto a mim, a segunda garantia é bem mais importante para a liberdade e confidencialidade do acto eleitoral.
EXIJO VOTAR SEM CORRER O RISCO DE VEREM O QUE FAÇO POR CIMA DO MEU OMBRO!

Se concordar com este protesto (ou para qualquer outra queixa), pode submeter o seu texto na página da CNE para apresentação de queixas.


Adenda:

Esta foto, disponível no site do Público e, segundo a legenda, relativa às eleições de hoje (não é uma imagem de arquivo), mostra que há pelo menos uma secção de voto no país que mantém a privacidade dos eleitores virando a entrada da cabines de voto para a parede:

Pergunto: foi esta secção que não cumpriu as regras da CNE, ou afinal (ao contrário do que me disseram quando votei) não existem tais regras?

O eleitor de arquétipos

Amigo de dois políticos que eram adversários e se iam submeter ao escrutínio popular, a ambos prometeu, secretamente, o voto. Não lhes mentiu. Sendo platónico, acreditava na existência de Formas matemáticas eternas. No boletim, colocou metade da cruz num quadrado e a metade complementar no outro, esperando a união das duas no Quadrado absoluto, em pleno mundo inteligível. Talvez o desejo se tenha cumprido: nenhum dos dois candidatos venceu. Havia um terceiro — que atraía gente menos idealista.

sábado, 28 de setembro de 2013

O civismo e a caça ao Raposo

«O civismo não nasce no coração dos homens e não está na genética de um povo. O civismo nasce na espada que protege a lei.» (Henrique Raposo, in “Uma cidade sem cães, s.f.f.”, Expresso)

Por acaso, até concordo em boa parte com esta frase de Henrique Raposo. Não concordaria que fosse ele a decidir o que é “civismo” — o homúnculo é demasiado reaccionário (não misturar com conservador) e confunde demasiado os seus interesses e os do country club a que aspira ser membro com o interesse geral para que o deixemos ditar unilateralmente leis para a urbe. Como ele desejaria.
Raposo utilizou a frase num artigo onde revelou a sua utopia («pessoal, intransmissível e impraticável», concedamos-lhe) de cidades sem cães. Eu, por exemplo, também tenho utopias semelhantes, entre as quais as de cidades sem crianças. Parafraseando Henry Fox (ele há-de gostar da versão british do nome, não?, no seu fato de riscado e tudo), cidades onde um sujeito pode estar no parque sem ser interrompido por um puto a rosnar, cidades onde um sujeito não tem de aturar a petulância dos pais, ai, esteja descansado que ele (o puto) não morde, nem lhe berra aos ouvidos, nem desperta em si o instinto assassino da espécie.
Outra das utopias que tenho é a de cidades onde os fumadores não são excepções e são decapitados de cada vez que deitam com o maior desplante a beata ao chão, a enterram na areia da praia ou despejam os cinzeiros dos carros nas bermas das estradas. Mas a maior e mais utópica utopia que tenho é a de cidades sem teenagers e universitários aos berros símios pelas ruas, a partirem garrafas e copos como quem deita a beata por cima do ombro, com a mesma naturalidade dos gestos comuns e aceites pela civitas, a mijarem pela cidade inteira como se a humanidade de que com generosidade nossa ainda os deixamos fazer parte não tivesse inventado a retrete e o recato da retrete, a mijarem-me a porta do prédio com o mesmo à-vontade e conversas imbecis e desprezo que têm nos balneários da escola pública que tanto custou a instituir e que eles não merecem nem em bebés.

Os cães de Raposo são um problema na cidade, evidentemente. Há falta de civismo por parte da uma grande parte dos donos de bichos (que, menos mal, já não põem as suas crianças a cagar no espaço público, embora ainda as ponham a mijar ali com irritante frequência). Há um desprezo egoísta desses mesmos donos pelas pessoas que não simpatizam ou mesmo têm pavor dos bichos que para mim até são geralmente amorosos. A trela ou o açaimo não são imposições da Inquisição, são formas sensatas de procurar o equilíbrio entre quem quer passear os seus bichos e quem a eles tem aversão ou medo. (Ainda que, se pegássemos nas ideias neoliberais para a humanidade e as aplicássemos aos canídeos, devêssemos na verdade soltar todos os animais da terra e deixá-los, como os rafeiros do Lemon Brothers, competir livre e selvaticamente pelo território, pelo mercado, pelas canelas do Raposo.)

Voltando à frase de abertura (até porque tenho de ir trabalhar, o Expresso não paga os meus devaneios), o civismo não nasce, de facto, «no coração dos homens e não está na genética de um povo». Não de todos os homens, não por certo de todo o povo. O próprio Estado de Direito é uma aberração histórica que apenas foi possível implantar porque houve um tempo em que homens bons, cultos, inteligentes, intelectuais e, por um acaso na história da humanidade, sensíveis e solidários, houve um tempo, dizia, em que este género de homens tinha acesso ao poder. Hoje, os partidos e os imbecis que lhes permitem a existência, os mesmos imbecis que amanhã, 29 de Setembro, vão eleger dinossauros, seus delfins ou siameses, não estão para aturar homens destes.

Não digo que o civismo «nasce na espada que protege a lei», mas em certas alturas não passa sem ela, ou — vá lá, não sejamos tão raposisticamente medievais na escolha das metáforas — não passa sem a multa ou o tribunal, versões extremas, mas por vezes necessárias e ainda civilizadas, da hoje inexistente censura social a comportamentos egoístas, cretinos e lesivos da liberdade alheia. O Estado de Direito e os seus tribunais são, aliás, o único obstáculo entre mim e o meu desejo selvático de anunciar ao Bloco ou ao MRPP que a caça ao Raposo é legal durante todo o ano.

Sábado de reflexão

  1. Muitos acham ridícula a lei que impõe um dia de reflexão antes das eleições. Eu acho ridículo que a lei não imponha 15 dias de reflexão antes das eleições — incluindo o mesmo silêncio e pacatez dos sábados de véspera de urnas.
  2. Não me parece provado que se forme melhor consciência política na histeria do circo do que no silêncio dos cemitérios.
  3. Todos os dias deviam ser sábado de reflexão ou, em alternativa, inscrevia-se na Constituição o dever de os partidos com mais orçamento guardarem 1440 minutos diários de silêncio em memória da honra que lhes faleceu.
  4. Preventivamente, o dia depois das eleições devia ser também sábado de reflexão. E os 1459 restantes (1824, no caso das presidenciais).
  5. Na verdade, o sábado de reflexão devia começar às 00h00 de um belo e chuvoso dia de Outono (como o de hoje, por exemplo) e continuar em vigor enquanto a Terra tiver voltas para dar ao Sol.
  6. É certo que neste regime algumas pessoas ficariam de certo modo dispensadas de existir, mas, como eles (não) dizem, alguém tem de se sacrificar, não é?

Dia de reflexão

Diz-se que num acto de reflexão o pensamento se dobra sobre si mesmo. Hoje, consta, é «dia de reflexão». Talvez a manhã se dobre sobre a tarde e vice-versa. Talvez a atmosfera se encha de questões filosóficas: «Quem somos?», «Donde vimos?», «Para onde vamos?» — e outras de análogo teor antropológico. Talvez os cidadãos menos introspectivos sejam por elas arrastados para exercícios que os colocam entre a vertigem e o abismo. Mas amanhã já terão esquecido o susto.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Fusão

Anos de meditação tornaram-no capaz de se fundir na Unidade, como açúcar mascavado em chá de alecrim. Se pressentia aborrecimentos ou pequenas catástrofes, pumba, fundia-se na Unidade. Mas uma percentagem de si permanecia imune à fusão: o indicador direito. Este mantinha-o ligado à pluralidade, apontando-lhe os caminhos de ida e volta. Certo dia, ficando o nariz a substituí-lo, também tal dedo foi conhecer a Unidade. Regressou transbordante de ideais: passou a apontar caminhos a toda a gente.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Never mind the gap

Na altura, entre a província e a capital havia um gap um pouco maior do que aquele para que avisa intemporalmente a voz do Metro de Londres. A admiração que a província tinha pela coreógrafa Olga Roriz, por exemplo, era reflexa. Obediente aos media — no tempo em que os media gastavam tempo com artistas como a Olga Roriz —, a província remetera-a para a galeria dos notáveis da nação e tinha-lhe a vaga estima que se dedicava a influentes estadistas estrangeiros, vivos e mortos, ou mesmo a um ou outro mais distante político da pátria.
Um dia a coreógrafa trouxe a companhia à província e a província acorreu engalanada ao recinto. Era a Olga Roriz! Ali chegada, a província não conseguiu mais do que deixar cair desajeitadamente os queixos. Foi como se alguém revelasse que afinal a Torre de Belém não era maior do que uma torre de xadrez. Ou antes, como se fosse anunciado que o Tejo não era um rio, mas um laguito de águas paradas e rasas. A província embasbacou. O que era aquilo? Que farsa era aquela? Quem tinha mentido à província?
O problema era que a companhia de dança de Olga Roriz não dançava, não nos termos em que a província se tinha habituado a imaginar a dança. Pensava-se no folclore, no ballet ou no Fame e nada daquilo encaixava, não sem grandes esforços da imaginação.
(O mito Pina Bausch durou porque a alemã teve o bom senso de não sair de Lisboa sempre que veio a Portugal. E de morrer entretanto.)

Mas felizmente o desacerto entre a província e a capital foi já bastante ultrapassado. Tirando uma ou outra distracção do jornal de Belmiro, os media passaram basicamente a ignorar tanto Roriz como Bausch e, muito adequadamente, inauguraram-se feiras e piqueniques na Praça do Comércio. Suponho que a província esteja assaz satisfeita com a aproximação que a capital lhe fez. Mas o melhor é que hoje já ninguém é enganado, já não se fazem notáveis que não sejam transparentes à mais desarmada vista e apresentáveis em qualquer romaria, de Unhais da Serra à TVI.

Acerca da matéria

Escreve António Gedeão que «o Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma». Garante Ernest Rutherford que «o átomo é sobretudo espaço vazio». Deste modo, a matéria revela-se uma profunda escassez. Deveria, pois, ser fácil alcançar o nirvana — e outros vácuos igualmente gratificantes. Deveria também constituir autêntico milagre o facto de sabermos onde estão os objectos. Todavia, pelo contrário, a chamada «realidade empírica» mostra-se frequentemente excessiva. Ou então ela é um excessivo milagre que nos passa, afinal, despercebido.