terça-feira, 22 de outubro de 2013

Excepções

Segundo Gottlob Frege, uma «afirmação de existência» reduz-se à «negação do número zero». Nesse caso, o número zero fica desprovido de existência. Se há, todavia, excepções a atazanar a regra, outras há susceptíveis de pacificar o autor. Entre as memórias que expõe, ela insere esta sentença disjuntiva: «Ou hei-de estar calada ou a contar misérias.» Dizendo-o, nem cumpre requisitos de mudez nem narra exemplos óbvios de infortúnio. Eis, portanto, uma regra libertadora — excepção involuntária de si mesma.

Crueldade instrumental

Eis como numa frase (longa, é certo) se condena a crítica à irrelevância (implícita, mesmo que não conscientemente, fazendo o elogio do marketing):

«(…) embora eu não creia que os leitores deixem de ler os apontados como sobrevalorizados se já gostarem deles nem comecem a ler os subvalorizados só por alguém dizer que lhes deviam prestar mais atenção (…)»*

* Maria do Rosário Pedreira, editora, referindo-se ao célebre dossier do Actual sobre autores sobrevalorizados e subvalorizados.

Ideologia e competências autárquicas

Já se sabe que para os contribuidores do Blasfémias o Estado devia desaparecer, e nesse sentido é esclarecedora a visão caricatural das competências autárquicas que Rui A. (nome artístico ou timidez juvenil?) apresenta neste post:

«Em vez de tapar os buracos das ruas, licenciar novos prédios*, dar um destino decente ao Bolhão e resolver os problemas do trânsito, o programa da coligação municipal Rui Moreira/PS tem por objectivos “as prioridades que foram amplamente sufragadas pelos portuenses: Coesão Social, Economia e Cultura”. “Coesão Social, Economia e Cultura”? E nas mãos do PS? Tremam, portuenses!»

É generoso da parte do blogger blasfemo confiar os buracos e o trânsito às câmaras (quando lá no íntimo acredita que a iniciativa privada é melhor a repor paralelepípedos e a programar semáforos), mas conceder que sejam necessárias licenças de construção é uma absoluta extravagância da sua parte. E a livre iniciativa? O empreendedorismo sem burocracias? Mais um pouco e Rui A. ainda acha que os mercados devem ser regulados.


* Já agora, num país onde se construiu demais e onde as empresas de construção estão falidas, «licenciar novos prédios» parece estupidez ou utopia — raio de lapso num blogue tão seguro da sua clarividência.

Embirrando com a leitura

Na forma como cita parece revelar-se algo do carácter (ou da formação) de um autor. Leio um ensaio onde as fontes francesas são citadas em francês e as italianas, russas, alemãs e mesmo as anglo-saxónicas são-no em português (quando não também em francês).
Talvez o autor tenha optado por citar as suas fontes na língua em que as leu, é um critério. E, nesse caso, estamos perante um afrancesado, por formação e/ou por afinidade cultural.
Com a minha mania de imaginar biografias, decidi tratar-se de um pavão vaidoso do seu francesismo, do seu domínio da língua de Sartre. Como não tem idade para ser um ex-expatriado ou para se ter formado no tempo em que quase toda a gente em Portugal era culturalmente afrancesada, decido também que viveu em França, nasceu ali, talvez filho de emigrantes orgulhosos da sua (dele) carreira académica.
Assim tomado por esta animosidade ficcionalmente refocalizada, decido que os livros citados no ensaio têm edições portuguesas, que o autor não aplica às fontes francesas o critério que geralmente aplica às russas e às alemãs (citando-as em português) por presunção, gosto ostentatório. E encontro então explicação para a forma arrevesada como escreve o seu ensaio, num português engalanado e hirto: é prosa de calça vincada e gola alta, ou enrolada num cachecol parisiense. Não exactamente elegante — apenas afectada.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Truques

Santo Agostinho sublinhou-o: saberia responder à pergunta «o que é o tempo?», se ninguém lha fizesse; não saberia, se lha fizesse alguém. Baudelaire sugeriu-o: o mais belo truque do Diabo é o de nos convencer da sua inexistência. O tempo, divino paradoxo, afigura-se o oposto do Demo: o seu mais belo truque é o de nos convencer da sua existência. Alguns santos ficam obviamente perplexos: a astúcia do tempo supera o ardil de Satã. Sempre assim foi.

domingo, 20 de outubro de 2013

Pormenores

Conclui um membro de certa tribo que «2 + 2 = 5»: dá dois nós numa corda, dois noutra e junta-as mediante um quinto nó. O sinal «+» foi também adicionado. Bernard Shaw subverteu assim a regra de ouro: «Não faças aos outros o que gostarias que eles te fizessem: eles podem ter um gosto diferente.» Seria injusto ignorar os caprichos alheios. Nem a matemática falha nem a ética baralha — se todos os pormenores entrarem nas contas.

“Serviço Nacional de Saúde — drama estático”
(peça em um acto médico)

17h25: Saio da sala de triagem. Bracelete verde; sou capaz de ter de jantar um pouco mais tarde...
22h30 (após 5 horas e 5 minutos de espera): Sou finalmente chamado para a consulta.
22h58: Sala de tratamentos.
23h15: Raio X.
23h37: Segunda consulta.
23h49 (após 6 horas e 24 minutos): Saio finalmente do hospital.

Paguei um pouco mais de 20€ — fica a dúvida se a título de Taxa Moderadora, se de Imposto Municipal sobre Imóveis...

sábado, 19 de outubro de 2013

«Meditatio mortis»

Recomendarão os sábios que se medite na transitoriedade da existência, focando o pensamento em sepulturas anónimas, lápides quebradas, memórias desfeitas, galáxias implodidas. Isso, todavia, cansa: vai-se demasiado longe e o horizonte repete-se. Há um processo mais eficaz e que envolve menos gasto energético. Bastará permanecer quieto como a urze e matutar: «Eu sou este exacto instante. Acabou.» Claro: ainda resta o instante seguinte. Mas esse é unicamente a sombra do anterior: nunca se espera dele grande coisa.

“Plano Estratégico Nacional para o Turismo”
(contributo pessoal para a sua revisão)

O “Plano Estratégico Nacional para o Turismo 2013–2015” foi aprovado há meio ano, mas tomo a liberdade de propor aqui uma revisão, para o tornar mais adaptado à situação em que vivemos.

Tesos como estamos, sugiro a aposta no sector do Turismo Sexual.

(Zezé Camarinha a Secretário de Estado: há membros do Governo escolhidos com base em critérios mais dúbios...)

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O som e o agoiro

Foco a atenção no grasnar madrugador de um corvo e não detecto aí razões que justifiquem para esse animal o estatuto de «ave agoirenta». Ouço o «Ah!» com que se expressa admiração, o «A» com que desponta o alfabeto e o «Há» com que se afirma a existência. Os sinais da morte exterminadora parecem ausentes deste auroral crocitar. A menos que nos estejamos a referir à «morte» num sentido esotérico ou iniciático. «Não é assim, corvo?» «Ah!»

«Cortar nas “gorduras” do Estado»

Como seria se a Ministra das Finanças se dedicasse à medicina estética e abrisse uma clínica de emagrecimento... (homem com as duas pernas e um braço amputados)

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Fingimentos

Procurou conhecer e experimentar por dentro todos os movimentos esotéricos e religiosos. Mas o seu grande projecto era o de alcançar um perfeito estado de desencanto e de cepticismo. Tal desiderato lançava-lhe sobre as vivências espirituais doses de fingimento de que nunca viria a libertar-se. Antevendo o fim, apressou-se a abandonar dogmas, crenças, técnicas, rituais. A tarefa revelou-se impraticável. Conseguiu apenas supor-se desencantado e céptico. Também a sua morte, por afinidade, não passou de um completo fingimento.

Os Idiotas, livro do dia (ontem) na TSF

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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Acordo à esquerda

Decidi recentemente cultivar — doidice ocasional — a técnica de redigir com a mão esquerda. Embora ainda distante, em esmero e eficácia, da destra, ela já seria capaz, neste momento, de escrever uma carta de amor suficientemente ridícula. Entretanto (torna-se difícil saber de onde e como surgem ideias tais), mantendo a direita fiel à norma antiga, tenciono reservar para a esquerda o privilégio da adopção do novo Acordo Ortográfico. Sendo neófita em matéria linguística, ela suportará melhor o disparate.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Más notícias

'Uma coisa supostamente divertida que nunca mais vou fazer', de David Foster Wallace

A Piada Infinita foi de tal maneira uma leitura fascinante e lúdica que depois desse livro mal tenho conseguido pegar noutros. Acumulo uns seis ou sete na mesa-de-cabeceira, eu que não costumo ali ter mais do que dois: o que leio a cada momento e um qualquer outro que, por piedade a fingir desleixo, fica ali esquecido durante meses numa desistência camuflada de adiamento.

É injusto para os autores terem o azar de surgir na minha lista depois de Foster Wallace.

Meio enganado por uma qualquer referência que li, avancei a certa altura para Cinerama Peruana, convencido que havia ali ecos de A Piada Infinita. Como se usar notas de rodapé fosse suficiente para aproximar os dois livros. Não são próximos. Talvez haja ecos de Bolaño no livro de Rodrigo Magalhães, mas não vi nada de Wallace. E, lamento dizê-lo, a despeito do talento do autor, aborreci-me. Certamente pela enorme sombra que lhe fez a leitura anterior. Mas também um pouco pelo género: aquelas espécie de fábulas eminentemente literárias e literariamente tautológicas não me apaixonam, mesmo quando são assinadas por Borges. Foi para arquivo, a um terço do fim. Decidi ser condescendente comigo mesmo, poupar-me o esforço.

Hoje fui buscar Uma coisa supostamente divertida que nunca mais vou fazer — o que me parece más notícias para os restantes autores da pilha.

T-shirt meta-humorística

A propósito do último post do Zé...

Tenho lá em casa uma t-shirt com muitíssimo mais piado do que esta aqui.

A metapiada

Diz: «Não fumo nem bebo, mas gosto de contar piadas.» Comento: «Acabou de contar uma.» Admitindo, porém, ter havido ironia na primeira parte, ele contou, em rigor, duas: uma piada e uma metapiada — alusão a piadas que «mete piada». O humor desencadeado pela mera piada exige subir um único degrau. O suscitado pela metapiada exige subir dois, devendo, em teoria, demorar o dobro do tempo a manifestar-se — excepto se, na prática, mantivermos um pé em cada degrau.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

As vias da paciência

Vivia impaciente. Mas, descobrira-o, a impaciência era uma característica alterável, embora teimosa, dos pensamentos que a governavam. Procurou curar-se mediante uma caminhada diária, à mesma hora, seguindo um percurso fixo. Notou então que os conteúdos mentais, apesar de rebeldes, aderiam a pontos específicos do itinerário. Volvido um tempo razoável, decidiu efectuar o trajecto com o espírito vazio e receptivo. Nessa altura, apercebeu-se do regresso dos pensamentos exteriorizados. Vinham tranquilos e obedientes. Tinham-se habituado a esperar por ela.

domingo, 13 de outubro de 2013

Insuportáveis extremos

Os Monty Python criaram um sketch sobre uma anedota letal: ninguém poderia ouvi-la e, entendendo-a, continuar vivo. A causa da morte seria, portanto, o superlativo humor, com as reacções orgânicas inerentes. Segundo a tradição bíblica, ninguém pode ver Deus e continuar vivo, embora parece ter havido excepções. Aqui, talvez a causa da morte seja a infinita seriedade. Sem o equilíbrio dos dois extremos de seriedade e humor, não restariam pois condições para a existência de vida sublunar.