sábado, 9 de novembro de 2013

Erguer o braço

Difícil na elaboração do texto é escolher as palavras de abertura, as de fecho e as que fazem a ligação entre umas e outras. Apesar da contrariedade, aproveitemos esta pergunta de Wittgenstein: «O que resta se eu subtrair o facto de o meu braço se erguer ao facto de eu erguer o meu braço?» Resta a intenção — ou nada. Mas o que geralmente conta é a intenção. Satisfeito com a resposta, Ludwig? Então pode baixar o braço.

O elogio do grupo
(Ensaio de um ex-baixista frustrado)

Não sei se por ter sido baixista e na definição clássica um baixista ser um guitarrista sem talento e frustrado, sinto grande simpatia pelos membros esquecidos das bandas. Por exemplo, fico retrospectivamente contente quando leio que Morrissey perdeu o diferendo jurídico que manteve com o baterista dos Smiths. É que, embora se saiba que o génio de um grupo é quase sempre individual ou, vá lá, bicéfalo, não é menos verdade que na maior parte dos casos tudo o que de realmente genial esses génios individuais fizeram aconteceu enquanto estavam no grupo. O que são Lloyd Cole sem os Commotions, Roger Hugdson sem os Supertramp, Roger Waters sem os Pink Floyd, John Lennon e McCartney sem os Beatles, o próprio Morrissey sem os Smiths? Génios, é verdade. Mas génios menores. Talvez eu pudesse idolatrar o trabalho deles a solo se não os tivesse ouvido antes, quando tinham um grupo. Assim, apenas posso amar as suas carreiras a solo.
Há algo num colectivo que faz o som de uma banda. Uma banda pode ter num tipo que se limita a abanar a pandeireta um elemento fundamental. Toda a gente sabe abanar uma pandeireta, mas só quem bebe connosco ou fuma connosco abana a pandeireta daquele jeito que o grupo precisa. É corrente gozar-se com Ringo Starr, mas o que seriam os Beatles se na bateria tivessem John Bonham? Diferentes, claro, mas também piores, acreditem. A genialidade dos grupos pop/rock não está apenas no talento dos seus instrumentistas ou compositores, mas no cozinhado que eles conseguem fazer com as diferentes capacidades e contribuições dos seus elementos. Um hit pop é um acidente no universo da música. Tem menos a ver com o virtuosismo das partes do que com o cruzamento delas. Em rigor, não há filhos sem pai ou sem mãe. Frequentemente, apenas um dos progenitores tem genes que se aproveitem (e, tantas vezes, nenhum), mas a beleza de alguém é sempre um cocktail que resulta da sacudidela conjugal. Ou de haver sorte no banco de esperma.
Os génios que se lançam numa carreira a solo cometem o pecado da soberba. Se não conseguem deixar de se zangar com os bandmates, deviam ter a coragem de se reformarem ou morrerem para deixar o mito intacto. Mas não, suas excelências acham que ainda têm muito para dar (e é verdade) e vão para estúdio com um conjunto de tipos contratados à espera que a magia aconteça entre estranhos como entre íntimos. Os músicos contratados ou requisitados para acompanhar vedetas recém-divorciadas são tratados com paninhos quentes (no caso de serem eles próprios vedetas de outras proveniências) ou como escravos. Ora, com escravos fazem-se pirâmides, não música. E a cordialidade entre pares dá palmadinhas e salamaleques coreográficos, não canções.
Acresce que o génio desagrupado tende a achar que, desde que tecnicamente correcta, é indiferente a linha de baixo, a malha de guitarra, a agitadela da pandeireta que passam a acompanhar a sua música. Na sua arrogância recém adquirida (ou exacerbada), julgam auto-suficiente a canção que compõem. E por isso gravam discos sem personalidade, ou com a personalidade de um grupo de swing (um grupo de adeptos da troca de pares sexuais, excitante, mas inconsequente). Pressente-se ali o talento melodioso do compositor, a voz distinta, a interpretação temperamental — mas como ecos do passado. The Pros and Cons of Hitch Hiking podia ser um bom álbum, mas sem os Pink Floyd é um fraco sucedâneo de The Wall. (Pelo seu lado, A Momentary Lapse of Reason sem Roger Waters tem muita dificuldade em parecer música.)
Quando se esteve num grupo, não se devia pretender a arrogância de uma carreira a solo. Quem quer uma carreira a solo chama a si próprio desde o início David Bowie e calça-lhe os sapatos de plataforma.

Fica aqui o meu elogio aos grupos — e a minha frustração por, enquanto ex-baixista, não ter um grupo a quem pedir indemnização.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A bagagem

Embora ao afirmá-lo ninguém tenha entrado ainda na barca de Caronte, poucos evitam fornecer conteúdo à expressão «O que se leva desta vida». Seria, claro, excessivo sustentar que dela «nada se leva»: pelo menos alguns átomos integram a bagagem. Mas acrescentar a isso a feijoada, a cerveja, o festim, as leituras, as viagens, as meditações, etc., constitui um mero exercício de auto-justificação. Sabendo-o, os deuses eventuais não nos censuram: eles apreciam o lado humorístico das nossas existências.

«Vá cortar as unhas!»

Coisas que me dispuseram bem no Facebook hoje:

  • Chamarem Tico e Teco aos dois neurónios de Margarida Rebelo Pinto.
  • Dizerem-lhe: «Vá cortar as unhas»

Coisas que me dispuseram mal:

  • Um link para um artigo do Público onde Pedro Lomba mostra como também sabe ser hipócrita. Ou parvo.

Há uns tempos o problema era a produtividade, a função pública precisava de trabalhar mais horas. Hoje soubemos que afinal a função pública pode trabalhar menos horas e que isso, levar mais horas mas menos dinheiro para casa, é bom para as famílias. O empobrecimento passou de necessário a bom.
É como a demografia: a direita tonta que Lomba frequenta (e que, por contágio, o entonteceu) não se cansou durante anos de alertar para a o problema de uma demografia envelhecida, era preciso combater o aborto e fazer filhos, ter grandes e sólidas famílias tradicionais, monárquicas também podia ser. Depois os tontos, muito educadinhos e aperaltadinhos e sabujinhos, abriram a porta à tia troika e foram para o poder com pins na lapela (ler a crónica de Lobo Antunes é imprescindível) e afinal já não importava nada envelhecer o país mandando os jovens emigrar.

Estes bebés prematuros, espermatozóides de gravata ao pescoço, acham que os outros tiveram o mesmo tipo de desenvolvimento intelectual que eles, que também formaram pensamento e currículo na incubadora da Alfredo da Costa. A desfaçatez é tão grande e tão óbvia que num acesso de ternura, como os que por vezes se tem perante os tolinhos da aldeia, somos inclinados a pensar que tomarem-nos por parvos é a maneira deles um elogio, é dizerem-nos que nos consideram seus iguais.
É que tipos destes chegam a acreditar nas imbecilidades que dizem. Não se importam de ser parvos em nome da causa. Sacrificam a sua inteligência (considerando a possibilidade de terem mais do que um Tico e um Teco debaixo da melena beta) e a sua honra em nome de um bem superior (uma entidade tão insondável quanto os mercados, possivelmente um heterónimo destes). Tais secretários de estado e assessores so british, com muito ciência política à inglesa (a francesa é hó-rro-ro-sa!), são as tias louras da direita tonta portuguesa.

Ok, talvez Pedro Lomba tenha mais um neurónio do que Margarida Rebelo Pinto (um Huguinho, um Zezinho e um Luisinho, digamos, ou os Irmãos Metralha), mas a sua argumentação está ao nível da da escritora, é tão possidónia quanto a dela. Não se admire, por isso, sr. secretário de estado, se na rua alguém lhe disser com a igual escárnio: «Vá cortar as unhas!»

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O absurdo

Há cem anos, Albert Camus entrou num mundo «privado de ilusões e de luzes». Estrangeiro de alma, acabaria por reconhecer que a vida é absurda. Tal conclusão mostra-se promissora: livra-nos da maçada de perguntar pelo sentido último e pelas causas primeiras. Ironicamente, no interior da lúcida revolta, não caminhamos sós: «Um homem que se torna consciente do absurdo fica-lhe ligado para todo o sempre.» Se preferirmos, até que a morte os separe. Ou os una em definitivo.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Exortação

Inserta em aforística ode, a exortação de Ricardo Reis «Põe quanto és no mínimo que fazes» interessa, sobretudo, a artistas, filósofos e místicos: de alma inteira e corpo integral, achar-se-á a interior grandeza. Tal axioma, contudo, para ser aplicável a tarefas braçais, reclama acrescentos: «Põe quanto és no mínimo que fazes, mas só se estiveres a fazer o mínimo. De contrário, toma cuidado: não vale a pena obedecer à máxima e vir depois a padecer das costas.»

Portugal na cauda da Europa

Sobre esta notícia, se alguém lhe ligar, haverá duas escolas analíticas. A vasco-pulidiana dirá que é assim porque somos um país subdesenvolvido economicamente: só o bem-estar económico favorece o ócio e a curiosidade intelectual ou cultural. A oposta dirá que temos uma economia fraca porque somos subdesenvolvidos cultural e intelectualmente. E, enquanto as elites debatem entre si o velho e na verdade fútil enigma da galinha e do ovo, o país, entregue a si próprio, contínua desinteressado quer da cultura, quer da economia.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Ciclo existencial

Vem n’A Náusea e gera tédio: «Todo o existente nasce sem razão, prolonga-se por fraqueza e morre por acaso.» Poderia dizer-se o contrário e nem assim se perderia eficácia: «Todo o existente nasce com motivo, prolonga-se por vigor e morre por decreto.» À nudez do absurdo persistente opor-se-ia a capa do destino irrevogável. Embora fecundo e enfático, o axioma de Sartre presta homenagem ao desencanto: nasceu sem ilusões, prolonga-se por teimosia e morrerá por excesso de evidência.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Três possíveis consequências

Se a teoria do caos fizer sentido, então qualquer acto se pode traduzir em uma de três consequências: a irremissível destruição do Universo, o seu melhoramento apoteótico ou a mudança mais ou menos trivial. Até agora, nenhuma das duas primeiras possibilidades foi concretizada. Claro que as borboletas continuam a bater as infatigáveis asas e a desencadear terramotos ou a aprimorar savanas. Mas a vibração que elas emitem ainda não teve tempo de dar a volta ao Universo.

domingo, 3 de novembro de 2013

Dispersão

Passou (creio) por uma depressão. Tentou suicidar-se. Mas o termo que usa para designar a antiga doença não parece o clinicamente correcto. Em lugar de «depressão», fala em «dispersão». Com razoável desconforto, evoco imediatamente, sem os verbalizar, alguns versos de Sá-Carneiro: «Perdi-me dentro de mim...» Digo-lhe que é a outra a palavra certa. Da próxima vez, porém, repetirá a «dispersão». Insistirei. Sem sucesso. Há palavras, mesmo equívocas, que se tornam coisas — quando as coisas se tornam labirinto.

sábado, 2 de novembro de 2013

Lugar desconhecido

Periandro de Corinto pediu a dois homens que se encontrassem, algures, com um terceiro e o matassem e enterrassem; ordenou a quatro que assassinassem e sepultassem os anteriores, e requisitou um bando para fazer o mesmo àqueles quatro. Periandro — que era o terceiro — deixou assim desconhecida a sua derradeira morada. Como se, por natureza, ela o não fosse já. «Assear as campas» personaliza o que a estatística despreza; mas não torna menos incógnito o lugar da morte.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Hermenêutica futebolística

O amigo chegou, encomendou a sandes e a mini ao balcão e virou-se para a TV, onde passava um jogo de campeonato estrangeiro. O outro, quando se deu conta, arrastou-se lá do fundo e, depois do cumprimento, atirou:
— O árbitro está a ser tendencioso a favor dos azuis.
O tom era neutro, indiferente, de quem invoca as condições climatéricas para início de conversa.

Reflectindo nas palavras, fiquei na dúvida se aquela observação de circunstância significava que:

  1. É possível dedicar-se uma atenção mecânica mas minuciosa a um jogo de futebol mesmo que se desconheça os clubes ou eles não sejam suficientemente importantes para merecerem ser fixados;
  2. A parcialidade da arbitragem ou a crença de que há parcialidade na arbitragem são tão inerentes aos jogos quanto a rotundidade da bola;
  3. Os rituais de desculpabilização e a hermenêutica televisiva mudaram o foco do jogo para a incidentalidade.
  4. O autor da observação era um irredimível benfiquista.

Mas, pensando bem, talvez fosse apenas verdade que o árbitro estava a ser tendencioso a favor dos estrunfes.

«Esquinado»

Ela diz que o marido, morto por iniciativa própria, era mau quando lúcido, sofrível quando bêbado, execrável quando esquinado. Em seu entender, «homem esquinado» equivale a «ébrio extremo», vítima da ingestão excessiva de duas bebidas alcoólicas diferentes (ou mais). Também a esquina é ponto de fusão de duas ruas. Ignoro se exponho a mensagem exacta, se estou apenas a interpretá-la. De qualquer modo, a interpretação é o encontro de duas visões do mundo — exercício «esquinado» por natureza.

«1640 financeiro»: Troikas, ingerência estrangeira e impostos — uma perspectiva histórica

Portas: “Em 2014 vamos viver uma espécie de 1640 financeiro”

Vice-primeiro-ministro compara resgate à perda de independência de Portugal para a Espanha em 1580.

O vice-primeiro-ministro, Paulo Portas, criticou o líder do PS por sustentar que Portugal ficará pior no fim do programa de ajustamento, em Junho de 2014, lembrando que é nessa altura que o país vai recuperar a soberania financeira.

“Em 2011 vivemos uma espécie de 1580 financeiro. Em Junho de 2014 podemos viver uma espécie de 1640 financeiro”, disse, no encerramento do debate na generalidade do Orçamento do Estado (OE), referindo-se ao período em que Portugal esteve sob domínio espanhol.

A comparação que Paulo Portas fez mostra que o Sr. Vice pouco sabe da História de Portugal para além do que se aprendia nos programas do “historiador” José Hermano Saraiva...


Segundo as Estatísticas Históricas Portuguesas, publicadas pelo Instituto Nacional de Estatística, durante a Monarquia não constitucional(nota 1) houve várias Cortes dedicadas total ou parcialmente à criação de «impostos extraordinários». De facto, estas «extraordinariedades» ocorreram pelo menos(nota 2) em 1391–92, 1394–95, 1398 (2 vezes), 1404, 1406, 1418, 1430, 1436, 1441, 1442, 1447, 1451, 1455, 1456, 1460-61, 1471, 1475, 1477, 1478, 1482–83, 1490, 1502, 1525–26, 1535, 1544, 1562–63 e 1619.

Ou seja, no que toca aos tais «impostos extraordinários», durante a soberania nacional (concretamente, a Dinastia de Avis, por muitos considerada a mais “gloriosa” da nossa História...), Portugal recorreu a esta solução pelo menos 27 vezes, o que dá uma média de um imposto «extraordinário» a cada seis anos e meio: o que houve de mais comum (logo, de menos extraordinário) foi a criação de «impostos extraordinários»!
Em contrapartida, nos 60 anos de domínio espanhol, e ressalvando a informação indisponível, apenas por uma vez foi necessário tal.

Outro dado (atenção, Dr. Portas!): em Portugal, livrarmo-nos do «domínio estrangeiro» significou quase sempre a criação de novos e futuramente famosos impostos (a título não extraordinário): assim se passou em 1385 (criação das «sisas», renovadas nas duas Cortes de 1387) e em 1641 (criação da «décima»).


Notas:

(1) O autor chama-lhe «Monarquia Absoluta», mas penso que é um erro histórico considerar que já no século XIII (altura em que começa a cronologia apresentada) a Monarquia, por não ser constitucional, era absoluta.

(2) O teor de algumas Cortes é desconhecido ou não consensual entre os historiadores.

O amor em Portugal

— Não ficavas feliz se te saísse [o euromilhões]?
— Feliz fiquei foi quando a conheci.
A confidência, inesperada, embaraçou por instantes os comensais. O tom era rude, mas segundo se diz nada impede os brutos de amarem.
Na verdade, havia uma cumplicidade amorosa entre o casal. Corroboravam-se mútua e jovialmente na conversa animada que mantinham com o resto da mesa, nas histórias que contavam. Havia um ligeiro tom dissonante: os episódios acerca da mulher eram quase sempre elucidativos da dureza dela — eram os feitos ao volante, os feitos ao balcão, a sua resistência física ao esforço e os copos que ela aguentava —, mas quem não está disposto a dar uma oportunidade ao amor?
Riam bastante das coisas um do outro e em nova tirada repentina, como que a sublinhar o entusiasmo e o orgulho nela, ele anunciou à mesa que nessa noite pinariam.
Tudo era afeição e brejeirice e picardia. Como quando, respondendo a uma pequena divergência num relato, ele anunciou no mesmo tom folgazão, com a mesma aparente intencionalidade histriónica, que lá em casa ela apanharia. Ou quando, ela reincidindo, o eufemismo e o verbo mudaram para enfardar. À terceira originalidade da mulher ele perguntou-lhe, como antes lhe revelara o desejo sexual, se ela queria ser humilhada já ali na frente de todos.
Talvez ele estivesse, de novo, a ser apenas jocoso, certo de que o seu rude e provocador sentido de humor tinha já sido percebido por todos. Talvez a insinuação de bruteza fosse instrumental, constitutiva da persona dominadora mas apaixonada que ele interpretava.

Ou talvez ela não tivesse ensaiado mais nenhuma dissidência por ter notado que nenhum dos circunstantes contestara que apenas ela seria humilhada se enfardasse ali diante de todos. Ou onde quer que fosse, incluindo mais tarde, em casa.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Such a perfect Lou

Perder tempo

Uns vinte anos depois de ter pousado a viola-baixo, dei por mim na última madrugada a assistir online a lições sobre matérias prementes como walking bass lines, slap e the secret triplet (admirável técnica), ministradas por um tal Scott Devine. Não tenho qualquer intenção (ou esperança?) de voltar a pegar na guitarra e as tarefas que nos próximos tempos me esperam não convivem bem com este diletantismo fora de horas. Acresce que, tirando certas facetas parvas do emprego, todas as tarefas que me esperam têm a particularidade de serem prazerosas — ou necessárias, úteis e prazerosas — e envolvem livros.
Porquê então esta tendência para a perda de tempo? Racionalmente, não comungo da definição de liberdade expressa no poema de Fernando Pessoa (Ai que prazer / não cumprir um dever. / Ter um livro para ler / e não o fazer! / Ler é maçada, / estudar é nada. / O sol doira sem literatura.)
Emocionalmente, também não, já que o meu prazer mistura o sol, a brisa, o rio, a bruma, danças, flores, música e luar (passo as crianças) com livros.
É isto uma manifestação de irreprimível curiosidade? De fome de conhecimento? Ou uma forma velada de descer à franca humanidade dos que passam os serões e as décadas vendo novelas, futebol ou reality shows como se não houvesse outro sentido para a vida?
Vou por esta prova de fraqueza, da minha iniludível pertença ao género humano. Uma parte de mim também desiste a espaços perante o absurdo de uma existência efémera. Para quê fazer um gesto que nada muda se podemos ficar simplesmente à espera?

Ou talvez não, talvez isto seja apenas um problema de gestão da curiosidade. Lembro-me agora que depois dos vídeos, já se descarregavam as hortaliças no mercado, ainda fui perceber a razão por que o baixista Devine tocava com luvas. Distonia Focal, descobri, uma doença neurológica que afecta um músculo ou conjuntos de músculos e causa espasmos involuntários. O uso de luvas de seda (terapêutica chique, de ambivalente delicadeza) altera a sensibilidade e engana os neurónios avariados, bloqueando as contracções.

Descoberta útil, não? Não?

terça-feira, 29 de outubro de 2013

A cantiga é uma arma!

A cantiga em Portugal ainda é uma arma apontada ao sistema... nervoso. Numa transposição para a actualidade, a letra seria do clã Carreiras para um genial arranjo musical quimbarreirense — sem menosprezo por outros astros que dominam o meio artístico.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Veterinário vegetariano fundamentalista faz inspecção sanitária no mercado municipal
ou Vasco Câmara avalia o filme “Hannah Arendt”

cartaz do filme

Há dias fui especialmente ao Porto ver o filme “Hannah Arendt”, de Margarethe von Trotta, com Barbara Sukowa no papel titular. O tema interessa-me (em especial depois de ter lido As Origens do Totalitarismo) e o resultado no ecrã não me desiludiu, bem pelo contrário.

Foi por isso que me surpreendeu a classificação que Vasco Câmara, crítico do Público, lhe atribuiu: 1 estrela, o que na escala do jornal corresponde à apreciação de «Medíocre». Medíocre?!

Não consigo imaginar que falhas viu Vasco Câmara no filme para lhe dar um medíocre.

É uma história “hollywoodesca”, sem pés nem cabeça? Não: é uma história verídica.

OK, seja. Mas é uma história irrelevante? Não: trata do momento mais importante da vida de uma das mais importantes filósofas do século XX, tendo como pano de fundo um dos acontecimentos mais importantes do século XX (o Holocausto), concretamente, a polémica reportagem que a filósofa judia alemã Hannah Arendt fez do também polémico e mediático julgamento de Adolf Eichmann por Israel, em 1961.

Está mal filmado? Está mal representado? Não sou especialista nem numa coisa nem noutra, mas diria que não. A representação é realista, tendo em conta o perfil das personagens, e a filmagem é eficaz, sem espectacularidade, sem sentimentalismos, sem masturbações estéticas — como convirá quando se aborda um assunto, não só sério, mas verídico e sensível.

Porquê, então, uma só estrela?

A resposta não é que “Hannah Arendt” é, de facto, um filme medíocre; a resposta é que o filme de Margarethe von Trotta, seja por que razão for, não é o tipo de filme de que Vasco Câmara gosta, e isso basta: qualidade do argumento, da realização, da interpretação, é tudo irrelevante.
(Eu prefiro o verso livre e o tom desabrido de Álvaro de Campos ao metro rígido e ao tom contido da lírica camoniana, mas não meto no mesmo saco os sonetos de Camões e os do Chico Cheta...)

Vasco Câmara não é um crítico de cinema, de facto. Vasco Câmara é, mais propriamente, a versão cinematográfica do veterinário vegetariano fundamentalista que, posto a fazer inspecção sanitária no mercado municipal, classifica toda a carne à venda como «Imprópria para consumo».

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O homúnculo

Embora mãe há vários anos, acredita que os filhos vieram inteiros do marido, passaram uma temporada a crescer dentro dela e abordaram a luz na altura certa. Trata-se de uma versão da antiga conjectura de que existia um homúnculo no interior do espermatozóide. Tento apresentar-lhe uma explicação alinhada com a ciência. A tarefa revela-se penosa. Nunca será sem choque angustiante que se desiste da ideia de que os machos são demiurgos por natureza e homicidas por distracção.