segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O anel e a invisibilidade

Conta-o Platão: Giges, pastor ao serviço do soberano, achou um anel de ouro. Voltando o engaste para a parte interna da mão, tornava-se invisível; rodando-o para fora, tornava-se visível. Que fez? Seduziu a rainha, matou o rei e tomou o poder. Perante o cenário, ter-se-á de admitir que a causa da invisibilidade é plural: está presente no anel, mas também no dedo e no acto giratório. Só desta forma se assegura a conveniente invisibilidade do próprio anel.

sábado, 23 de novembro de 2013

Memórias

Não desejava partilhar as suas memórias, embora quisesse libertar-se da sombra delas. Decidiu então redigi-las em pleno ar, à altura dos olhos. Num amplo terreno, onde se erguiam duas árvores, passava dias a agitar o indicador direito, enchendo o espaço de parágrafos invisíveis. Volvido um tempo, os raios de sol, persistindo nas copas das árvores, deixaram de tocar aquele chão. Densas de desespero, as lembranças escritas teciam uma nuvem incorpórea que a luz era incapaz de atravessar.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Sísifo


(Existe uma versão revista.)

Sono aplicado

O volume que, em geral, inseria debaixo do travesseiro onde dava descanso ao cérebro acolhia a Constituição. Outros, no entanto, igualmente de pendor jurídico, tinham ali lugar em noites próprias. Estudante de Direito, acreditava que, dormindo com os livros sob a cabeça, receberia por osmose inconsciente o saber aí expresso. Se alguém lhe perguntava a razão daquela atitude, justificava-se de um modo que o defendia da acusação de preguiçoso: «Enquanto sonho, gosto de estar acima da lei.»

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Mudar de ideias

O pensamento filosófico de Friedrich Schelling terá passado por mais fases que a própria Lua: cinco ao todo, rezam os especialistas. Face ao desaforo, perguntar-se-á com legítima apreensão: como levar a sério este indivíduo tão intelectualmente volúvel? A culpa, todavia, é da realidade material: consta que, pelo menos a nível subatómico, ela jamais soube estar quieta. Objectar-se-á dizendo-se que tal pormenor não explica tudo. Certo. Mas, se tal pormenor explicasse tudo, nunca os filósofos mudariam de ideias.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Conservador

Nos anos do Independente sentia-me um pouco de direita. Não exactamente por partilhar de ideais politicamente conservadores. Mas porque, consciente ou inconscientemente, queria estar do lado da inteligência, do humor, da rebeldia, da iconoclastia, e estas coisas, como se sabe, no Portugal dos anos 90 estavam no Indy (e na Kapa). Posteriormente, aprendi que o liberalismo da direita era final bem pouco liberal em demasiados assuntos e afastei-me. De qualquer modo, o jornal e a revista tinham acabado. E a direita estava a ficar cada vez mais estúpida também no que se referia às artes e à paisagem, coisas para mim caras. Com a crise iniciada em 2008, um decidido misantropo como eu descobre a sua paradoxal costela humanista e solidária e chega-se mais à esquerda do que nunca, embora a nenhuma esquerda organizada politicamente.

Hoje sou sobretudo um desiludido do capitalismo, essa oligarquia, e um conservador. Sim, leram bem, um conservador. O que se vê na foto é parte do que eu conservaria rigorosamente sem alterações, sem uma árvore abatida, caso mandasse. Claro que se mandasse, também restringiria implacavelmente o acesso ao local. Todos os conservadores são na verdade antropófobos, e o direito à propriedade, que aqui reivindico, é instrumental para o cumprimento da vocação.


[Romanas, 17.11.2013]

domingo, 17 de novembro de 2013

Coerência

Hoje é o Dia Mundial da Prematuridade. Por uma questão de coerência, a efeméride deveria ter sido celebrada ontem.

Casal a vozes

Nos sessentas, bem-parecidos, melhor vestidos, ele tem voz de castrato e ela, por um daqueles mecanismos compensatórios da natureza ou pelo espírito de contradição habitual entre alguns casais, dir-se-ia que imita Tom Waits. São por isso um par curioso mas verdadeiramente complementar. A cantar a vozes não ficariam nada mal perante a dupla Simon & Garfunkel, mas a discutir desafiam os nossos mais embaraçosos preconceitos. Sobretudo quando ele guincha que as mulheres são todas iguais e ela, com uma baforada e voz cava, lhe chama machista de merda.

Amigos

São clientes um do outro e como a jornada de trabalho se prolongasse acabaram a jantar juntos. Entre as manteiguinhas e o prato foram as juras de amizade. «Tu sabes que eu sou teu amigo.» «Fiz aquilo porque sou teu amigo.» «Com os meus amigos é assim.» «Digo-te isto porque sou teu amigo.» «Se não fôssemos amigos…» À sobremesa a amizade entrara num outro nível. «Ouve, eu sou teu amigo!» «Se és meu amigo…» «Um amigo não…» «Não é por seres meu amigo que…» «Teu amigo, o caralho!» Depois do café e do bagaço tiveram de ser separados pelo chefe de mesa, com a ameaça de que chamaria a polícia.

A manchete do JN

Ainda não percebi se o vizinho do rés-do-chão deixa quotidianamente o jornal à sua porta depois de o ler ou se lho entregam tarde e ele apenas o recolhe no dia seguinte. Seja como for, todos os dias leio a manchete do JN ao regressar a casa — e, graças sejam dadas aos cinquenta e quatro degraus que entretanto venço, todos os dias a tenho já esquecida quando entro em casa.

sábado, 16 de novembro de 2013

O túnel

Sugere-o Rousseau: a instituição da propriedade privada — e dos estragos inerentes — deu-se com aquele espertalhão que, tendo cercado um terreno, disse: «Isto é meu!» Alguns ingénuos acreditaram nele. O resto é conhecido. No entanto, a origem do problema deve ser muito anterior. Certo australopiteco passou por uma experiência de quase-morte. Obviamente viajou ao longo de um túnel pessoal e intransmissível. Ao regressar do transe, exclamou: «Esta caverna é minha!» Referia-se ao túnel. Mas todos entenderam outra coisa.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Infinitude

Nicolau de Cusa defendeu algumas teses sobre o infinito — onde coincidem os opostos — usando argumentos bastante persuasivos. Sem esforço, ele demonstra, por exemplo, que num círculo infinitamente grande a circunferência equivale à tangente: «curvo» e «recto» não se distinguem. Ora o infinito fica longe: deve ser exorbitante o preço do bilhete. Daí que o pensamento, para não abandonar a finitude, aceite facilmente o que lhe dizem acerca desse algo indefinido que, mudo e remoto, nunca deixou pistas.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A perdulária arte de chegar tarde

Depois de quase todos o literatos do país terem dado o seu contributo para o debate facebookiano que espoletou um post de José Mário Silva sobre um comentário (crítico) de Luís Quintais a uma crítica (elogiosa) de José Mário Silva no Actual, a coisa provavelmente esmorecerá. Mais uma vez, cheguei tarde. Damn it!

Correspondências

Inspirados no interseccionismo pessoano, podemos elaborar ousadas correspondências, até que a realidade se desvende. Hobbes caracteriza a vida humana, no estado de natureza, como «solitária, pobre, sórdida, brutal e curta». Antes dele, Maquiavel disse que os homens são «ingratos, volúveis, dissimulados, esquivos ao perigo e cúpidos de lucro». Talvez as más qualidades apontadas n’O Príncipe traduzam o resultado, inconsciente, das péssimas circunstâncias sugeridas em Leviatã. Contamos cinco nos dois casos: a mão que escreve nunca foi isenta.

De donde és?

Aquelas duas aldeias eram conhecidas pelo afinco que os habitantes tinham à terra, particularmente a rapaziada mais nova. Numa altura em que a juventude estava toda a emigrar, os moços e as moças dali permaneciam, raramente se afastando das povoações, aliás. Também eram conhecidos pela timidez, mas nunca ninguém ligou muito as duas coisas. Ou se ligavam era com um raciocínio incompleto: imaginavam que a timidez se devia a nunca terem saído, a isso lhes ter gravado no carácter um proverbial acanhamento provinciano. A verdade era um pouco diferente. Não saíam porque tinham vergonha de responder se alguém nos longes onde fossem parar lhes perguntasse de onde eles eram — e eles eram, sem culpa disso mas embaraçados por isso, do Monte das Pitas e do Sítio da Éguas.


(Ideia de e dedicado a A. P.)

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Explicações

Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura. Obedeci ao conselho: parei na terceira página. Mas estou, finalmente, decidido a ler uma obra de Lobo Antunes: Explicação dos Pássaros. Adquiri-a em edição primeira. Lá dentro, marcador suspeito, achava-se uma embalagem de dez comprimidos para dormir: seis ainda resistiam. Estranharia menos se descobrisse a liga da duquesa no breviário do capelão. O clínico detalhe convida-me à leitura. A mente funciona por enigmas. As aves são mais fáceis de entender.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O olvido do ovino

Martin Heidegger produziu três ideias acerca do «ser» que desaguam numa conclusão perturbadora. Primeira: «O ser foi esquecido.» Segunda: «A linguagem é a casa do ser.» Terceira: «O homem é o pastor do ser.» Então o que é o «ser», se reunirmos numa só estas loucas perspectivas? É um ovino que passa a noite no curral da linguagem e que o homem apascenta durante o dia, embora sem consciência de o fazer — porque olvidou esse animal obscuro.

Talvez coisar

Ouço no programa do provedor de uma rádio que ouvintes se queixam de passarem ali músicas com palavrões. (Um dos exemplos é “Anos de bailado e natação”, o belíssimo tema dos Mundo Cão com letra feliz de Valter Hugo Mãe de que já aqui falei.) Isto no mesmo santo dia em que a televisão dedica todo o período da tarde a fazer desfilar um inesgotável repertório de grosseria e brejeirice.
Pergunto-me se os provedores das TVs (existem?) recebem queixas de badalhoquices verbais no pequeno ecrã, mas suspeito que não. A cultura pimba é ali hegemónica ou exclusiva. E, mesmo que não primem pela subtileza ou pela elegância, os letristas pimba conseguem nos seus trocadilhos soezes evitar nomear as coisas de que obsessivamente se ocupam. Ora, a hipocrisia nacional tolera o mau-gosto, o machismo, a misoginia, a homofobia, o kitsch mais obsceno e a mais estridente ausência de talento — mas nunca o vernáculo radiotransmitido.

Se não tivesse há muito sido banida qualquer forma de arte da TV lusa, os Mundo Cão teriam na conjugação do verbo foder, ainda que poética, a razão do seu ostracismo hertziano.

domingo, 10 de novembro de 2013

Impossibilidade

Num lote de livros que adquiri — na altura não o explorei de forma exaustiva —, descubro um volume escrito pela catalã Cecilia A. Mantua, editado entre nós pela Figueirinhas. Metade deste exemplar encontra-se por abrir, reclamando espátula, faca ou xis-acto; a outra metade aparece irremediavelmente desfeita, com centenas de papelinhos amontoados, fruto do labor de ratos minuciosos. Em síntese: uma parte está fechada, outra parte está perdida. Só falta mesmo referir o título: O Nosso Amor é Impossível.