sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Primazia cronológica

Um não foi autorizado. Perguntara: «Posso fumar enquanto rezo?» Outro recebeu licença. Questionara: «Posso rezar enquanto fumo?» Diferencia os dois casos uma distinta precedência cronológica das acções — ou das intenções subjacentes. Conta-o Fernando Blázquez: achando no portal onde costumava ir «desbeber», além da cruz (desenhada na véspera), o axioma «Onde se põem cruzes, não se mija», o poeta Quevedo acrescentou: «Onde se mija, não se põem cruzes.» Frequentava o espaço há mais tempo. E voltou a urinar.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Entre o ser e o não-ser

O objecto foi ideado por George Lichtenberg: uma faca sem lâmina, à qual falta o cabo. Representá-lo exige quatro momentos: primeiro surge a faca; de seguida, esvai-se a lâmina; depois, dissolve-se o cabo; por fim, usando-se o próprio objecto, efectua-se um corte que separa a «faca ainda presente» da «já ausência de faca». Trata-se, portanto, de um objecto que origina intervalos mentais: um alívio para os pensadores; uma bênção para os torturados; uma inutilidade para os idiotas.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Duas perguntas

A questão encontra-se no poema Domingo de Manuel da Fonseca: «Que hei-de fazer hoje, que toda a gente anda alegre como se fosse uma festa?...» Acrescente-se-lhe outra, igualmente encomendada à esfera dos enigmas, colhida em Stevenson, n’A Ilha do Tesouro: «Se jamais se viu um espírito com sombra, como haverá um que faça eco?» Mora aqui a resposta à sinuosa angústia anterior: «Aos domingos, se te faltar inclinação gregária, torna-te espírito: não deixes eco nem emanes sombra.»

Wackypedia: léxico geral (5)

OBREIRO. adj. m. Que só faz merda. [Wackypedia: contributos para um léxico alternativo]

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Melancolia

Diz a Wikipédia que é «um estado psíquico de depressão com ou sem causa específica» e se caracteriza «pela falta de entusiasmo e predisposição para actividades em geral». Não parece a descrição da minha patologia. Se é certo que a maioria das actividades em geral me parecem repulsivas quando me inclino para ouvir “Gallows” em loop, a verdade é que nestes momentos sinto um grande entusiasmo literário. Os frívolos dirão que literatura não é actividade, e terão a sua razão terrena. Mas quem se interessa por actividades quando tem as CocoRosie a sussurrar-lhe ao ouvido canções de assombramento, uma pilha de livros à distância de um braço e disposição para reescrever o mundo em vários tomos? Quem se interessaria por um emprego, uma comunidade, um país ou um planeta se pudesse simplesmente permanecer arrebatado?

A única parte triste da melancolia é termos de desligar a música, fechar os livros e ir picar o ponto nessa coisa a que chamamos vida adulta e responsável.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A carranca do vizinho

Parque de estacionamento, à espera que o portão se abra. O vizinho chega ao fundo da rampa e o morador recua. O vizinho cruza com o seu automóvel a entrada assim franqueada, passa ao lado do Chevrolet-dos-tesos do morador e nem um gesto de gratidão, nem um meio sorriso de reconhecimento, nem um aceno de cabeça que o faça descer do pedestal de repulsiva sobranceria a que ascendeu. Também costuma, na sua impaciência de ridículo aristocrata, subir a rampa ao mesmo tempo que as pessoas a descem a pé, obrigando-as a colar-se à parede.

O morador recorda-se de o ver no parque, «um advogado e um pastor alemão com o mesmo ar de poucos amigos, ambos sem açaimo». Felizmente que neste jogging arrastado em dia de alma de chumbo são outros os bichos que passeiam. Alguém traz um cão vivaço e curioso. Trocam olhares cúmplices a propósito do bicho e abrem-se sem resistência os sorrisos. Dois perfeitos estranhos cruzam-se e desnudam a alma numa partilha espontânea, despretensiosa, franca, uma repentina felicidade a propósito de nada, um nada que a carranca do vizinho obviamente desconhece e que ao morador faz esquecer a carranca do vizinho pelo resto do dia. Até à hora ritual em que os demónios são convocados para exorcismo. Xô!

«A esquerda sem povo»

A propósito deste pragmático artigo de Jorge Almeida Fernandes no Público, recordei uma passagem do meu ainda inédito Aranda, escrita há três anos:

Era difícil, mesmo para alguém de esquerda como ela teimava em se dizer, refutar tal argumentação. O povo que a esquerda queria defender — as classes inocentes, oprimidas, ansiosas pela emancipação económica e intelectual — era um grupo residual ou não existia para lá do imaginário socialista; a História ultrapassara as ideias, retirara-lhes massa humana a que elas se pudessem aplicar, e essa era uma vitória do capitalismo e da democracia. Talvez por isso a ecologia tinha a importância que tinha para os pensadores de esquerda, pessoas no fundo com a consciência de que tinham perdido os humanos. Viravam-se para as outras formas de vida porque a Natureza se prestava facilmente, credivelmente, ao papel de vítima, tão necessário ao socialismo. Era o povo quem tornava as coisas difíceis. Como se podia defender mais democracia, uma maior identificação da política com a comunidade se ambas eram já o reflexo uma da outra? O que a esquerda tinha a fazer, achava Inês, era tornar-se realista e reconhecer que não tinha uma base social de apoio: o inimigo era a direita e o povo, afinal intensamente reaccionário, burguês e corrupto.

O anel e a invisibilidade

Conta-o Platão: Giges, pastor ao serviço do soberano, achou um anel de ouro. Voltando o engaste para a parte interna da mão, tornava-se invisível; rodando-o para fora, tornava-se visível. Que fez? Seduziu a rainha, matou o rei e tomou o poder. Perante o cenário, ter-se-á de admitir que a causa da invisibilidade é plural: está presente no anel, mas também no dedo e no acto giratório. Só desta forma se assegura a conveniente invisibilidade do próprio anel.

sábado, 23 de novembro de 2013

Memórias

Não desejava partilhar as suas memórias, embora quisesse libertar-se da sombra delas. Decidiu então redigi-las em pleno ar, à altura dos olhos. Num amplo terreno, onde se erguiam duas árvores, passava dias a agitar o indicador direito, enchendo o espaço de parágrafos invisíveis. Volvido um tempo, os raios de sol, persistindo nas copas das árvores, deixaram de tocar aquele chão. Densas de desespero, as lembranças escritas teciam uma nuvem incorpórea que a luz era incapaz de atravessar.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Sísifo


(Existe uma versão revista.)

Sono aplicado

O volume que, em geral, inseria debaixo do travesseiro onde dava descanso ao cérebro acolhia a Constituição. Outros, no entanto, igualmente de pendor jurídico, tinham ali lugar em noites próprias. Estudante de Direito, acreditava que, dormindo com os livros sob a cabeça, receberia por osmose inconsciente o saber aí expresso. Se alguém lhe perguntava a razão daquela atitude, justificava-se de um modo que o defendia da acusação de preguiçoso: «Enquanto sonho, gosto de estar acima da lei.»

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Mudar de ideias

O pensamento filosófico de Friedrich Schelling terá passado por mais fases que a própria Lua: cinco ao todo, rezam os especialistas. Face ao desaforo, perguntar-se-á com legítima apreensão: como levar a sério este indivíduo tão intelectualmente volúvel? A culpa, todavia, é da realidade material: consta que, pelo menos a nível subatómico, ela jamais soube estar quieta. Objectar-se-á dizendo-se que tal pormenor não explica tudo. Certo. Mas, se tal pormenor explicasse tudo, nunca os filósofos mudariam de ideias.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Conservador

Nos anos do Independente sentia-me um pouco de direita. Não exactamente por partilhar de ideais politicamente conservadores. Mas porque, consciente ou inconscientemente, queria estar do lado da inteligência, do humor, da rebeldia, da iconoclastia, e estas coisas, como se sabe, no Portugal dos anos 90 estavam no Indy (e na Kapa). Posteriormente, aprendi que o liberalismo da direita era final bem pouco liberal em demasiados assuntos e afastei-me. De qualquer modo, o jornal e a revista tinham acabado. E a direita estava a ficar cada vez mais estúpida também no que se referia às artes e à paisagem, coisas para mim caras. Com a crise iniciada em 2008, um decidido misantropo como eu descobre a sua paradoxal costela humanista e solidária e chega-se mais à esquerda do que nunca, embora a nenhuma esquerda organizada politicamente.

Hoje sou sobretudo um desiludido do capitalismo, essa oligarquia, e um conservador. Sim, leram bem, um conservador. O que se vê na foto é parte do que eu conservaria rigorosamente sem alterações, sem uma árvore abatida, caso mandasse. Claro que se mandasse, também restringiria implacavelmente o acesso ao local. Todos os conservadores são na verdade antropófobos, e o direito à propriedade, que aqui reivindico, é instrumental para o cumprimento da vocação.


[Romanas, 17.11.2013]

domingo, 17 de novembro de 2013

Coerência

Hoje é o Dia Mundial da Prematuridade. Por uma questão de coerência, a efeméride deveria ter sido celebrada ontem.

Casal a vozes

Nos sessentas, bem-parecidos, melhor vestidos, ele tem voz de castrato e ela, por um daqueles mecanismos compensatórios da natureza ou pelo espírito de contradição habitual entre alguns casais, dir-se-ia que imita Tom Waits. São por isso um par curioso mas verdadeiramente complementar. A cantar a vozes não ficariam nada mal perante a dupla Simon & Garfunkel, mas a discutir desafiam os nossos mais embaraçosos preconceitos. Sobretudo quando ele guincha que as mulheres são todas iguais e ela, com uma baforada e voz cava, lhe chama machista de merda.

Amigos

São clientes um do outro e como a jornada de trabalho se prolongasse acabaram a jantar juntos. Entre as manteiguinhas e o prato foram as juras de amizade. «Tu sabes que eu sou teu amigo.» «Fiz aquilo porque sou teu amigo.» «Com os meus amigos é assim.» «Digo-te isto porque sou teu amigo.» «Se não fôssemos amigos…» À sobremesa a amizade entrara num outro nível. «Ouve, eu sou teu amigo!» «Se és meu amigo…» «Um amigo não…» «Não é por seres meu amigo que…» «Teu amigo, o caralho!» Depois do café e do bagaço tiveram de ser separados pelo chefe de mesa, com a ameaça de que chamaria a polícia.

A manchete do JN

Ainda não percebi se o vizinho do rés-do-chão deixa quotidianamente o jornal à sua porta depois de o ler ou se lho entregam tarde e ele apenas o recolhe no dia seguinte. Seja como for, todos os dias leio a manchete do JN ao regressar a casa — e, graças sejam dadas aos cinquenta e quatro degraus que entretanto venço, todos os dias a tenho já esquecida quando entro em casa.

sábado, 16 de novembro de 2013

O túnel

Sugere-o Rousseau: a instituição da propriedade privada — e dos estragos inerentes — deu-se com aquele espertalhão que, tendo cercado um terreno, disse: «Isto é meu!» Alguns ingénuos acreditaram nele. O resto é conhecido. No entanto, a origem do problema deve ser muito anterior. Certo australopiteco passou por uma experiência de quase-morte. Obviamente viajou ao longo de um túnel pessoal e intransmissível. Ao regressar do transe, exclamou: «Esta caverna é minha!» Referia-se ao túnel. Mas todos entenderam outra coisa.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Infinitude

Nicolau de Cusa defendeu algumas teses sobre o infinito — onde coincidem os opostos — usando argumentos bastante persuasivos. Sem esforço, ele demonstra, por exemplo, que num círculo infinitamente grande a circunferência equivale à tangente: «curvo» e «recto» não se distinguem. Ora o infinito fica longe: deve ser exorbitante o preço do bilhete. Daí que o pensamento, para não abandonar a finitude, aceite facilmente o que lhe dizem acerca desse algo indefinido que, mudo e remoto, nunca deixou pistas.