quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Contas certas

Leio no Notícias ao Minuto que Poiares Maduro, o ministro “meio-Relvas”, disse:

A RTP tem 1.800 trabalhadores e as estações privadas têm 400. Nada justifica uma diferença tão grande. Temos de reduzir os recursos humanos para investir na grelha.

Talvez a RTP tenha mesmo pessoal a mais (provavelmente, tem) — mas pergunto que percentagem dos programas de cada canal é feita com meios próprios e que percentagem é feita por produtoras externas contratadas. E qual o custo total depois de contabilizadas cada uma das componentes (produção interna e contratação externa).

Porque a comparação tem de ser feita desta maneira — vendo o custo total da operação, não a dimensão do quadro de pessoal.

Até pode ser que nessa comparação a RTP saia ainda pior (não faço a mínima ideia), mas é essa comparação que tem de ser feita. Tudo o resto é demagogia. Ou ideologia (o que vai dar no mesmo, dada a estatura moral destes políticos).

Tarde demais: já foi penhorado para pagar os impostos...

Público: «Entrevista ao Vice-presidente da Comissão Europeia: “Os portugueses fizeram muitos sacrifícios e tiro-lhes o chapéu”»

de[s]amor: countdown para o Dia de São Valentim (2)

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

de[s]amor: countdown para o Dia de São Valentim (3)

Neste tempo, em que a aproximação do Dia de São Valentim nos submerge numa maré “fofinha” de ursos de peluche, corações gigantes de veludo e postais (reais ou virtuais) com mensagens lamechas, urge variar um pouco.

Ora, o que há de menos romântico (no sentido vernacular) e “fofinho” do que a Economia? Exactamente: nada.

Assim, o antídoto certo contra tanta lamechice insincera (amores eternos e infinitos, etc.), de pechisbeque, é a requintada linha, que agora lanço, de cartões postais produzidos com o profissionalismo dos analistas de uma prestigiada agência de rating. (Não estando dinheiro envolvido, a dita agência de rating abriu una excepção e disse apenas a verdade, em vez de tentar criar uma.)

Ainda te amo... mas as perspectivas não são animadoras.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Relógio existencial

Recém-inventado, o Tikker é um relógio que mostra ao utilizador quanto tempo lhe resta no mundo, após análise das respostas a um questionário sobre o seu estilo de vida. No entanto — pasme-se! —, o aparelho não é completamente rigoroso. Talvez falhe por segundos, o que faz uma enorme diferença. A intenção, todavia, consiste em suscitar o reconhecimento da preciosidade dos instantes. De qualquer modo, também seria conveniente informar o utilizador acerca do tempo de vida do próprio relógio.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Acerca do Céu

No hipermercado, noto a presença na mesma prateleira de três livros que anunciam temáticas celestes. Avalio os títulos. O primeiro é de índole experimental: Uma Prova do Céu. O segundo é de carácter ontológico: O Céu Existe Mesmo. O terceiro é de pendor revolucionário: O Céu Muda Tudo. Talvez a dificuldade mais obstinada, para as almas que se entretêm a descrever o Céu — lugar de conflitos domados e de redundâncias certas —, seja encontrar um título minimamente original.

Wackypedia: Política (1) e Economia (2)

INVENTÁRIO. s. m. Programa eleitoral. [Wackypedia: contributos para um léxico alternativo (política)]

INVENTÁRIO. s. m. Orçamento do Estado. [Wackypedia: contributos para um léxico alternativo (economia)]

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Redireccionando a bigorna

«Sonho com uma bigorna a cair sobre o servidor global do Facebook, interrompendo a “comunicação” entre tantas pessoas desejosas de mostrar fotos da roupa interior ou de espalhar ignomínias. Antes, os idiotas andavam um pouco por todo o lado, mas distinguiam-se bem. Agora, estão escondidos na Internet.»

Não sei se Francisco José Viegas escreveu isto (espero que não) e, se o fez, em que contexto, mas parece-me coisa mais digna de Miguel Sousa Tavares (que considerou o Facebook uma mera «agência de namoros») do que dele. Vejamos: o mesmo tipo de idiotas que pulula no Facebook andou (e anda) pelas caixas de comentários dos jornais há muito, pelos fóruns das rádios desde sempre, e consta que frequenta (em larga maioria, arrisco) os cafés da classe média. Mais: este tipo de idiotas, atrevo-me a dizer, constitui a maior fatia de leitores do Correio da Manhã, esse órgão onde parece ser possível ir entregar artigos de opinião sem pisar nas vísceras e sobretudo na merda que há pelos corredores. (Ok, talvez muitos destes idiotas não leiam jornais, nem sequer o CM. A Internet é de facto um bom substituto para voyeurs.)

O Facebook é também por certo uma agência de namoros. E está cheio de idiotas. São talvez a maioria, que sei eu? Agora, reclamar para ali uma pureza e uma elevação de espírito que a sociedade não tem, que os jornais, as rádios e as televisões não têm, parece-me ridículo. Ou melhor: reclamar essa pureza está certo. Era o que toda a gente devia fazer. O que é ridículo é achar que ela pode existir ali não existindo nos outros lados.

Já me parece mais acertada a crítica de Sousa Tavares à subserviência do jornalismo em relação ao Facebook. Mas, de novo, diabolizar o FB não adianta de muito. O problema não é a subserviência em relação a isto ou aquilo. O problema é a subserviência. A idiotice que existe no Facebook não é pior nem mais generalizada do que a idiotice que existe nas televisões, por exemplo. Televisões que, aliás, mais do que revelarem subserviência face à idiotice, promovem a idiotice, são em grande medida responsáveis pelo tipo de sociedade idiota que temos. (Não, não são apenas espelho, não sejam ingénuos.)

A cair uma bigorna (e Deus sabe como eu sonho com uma há décadas) que caia primeiro nas TVs, onde traz mais proveito e tem bem menos probabilidades de esmagar inocentes.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Humilhações*

«[Nós] temos o direito a ser humilhados!», proferiu o moço, em defesa da praxe. Nada de grave subjaz à reivindicação de um direito — excepto quando tal reivindicação pressupõe um dever que a dignidade humana seguramente não aprova. O enunciado exposto configura uma situação do género: para que uns tenham o direito a ser humilhados, outros terão o dever de os humilhar. Claro, há sempre candidatos disponíveis para cumprir essa tarefa — excepto em países onde a decência reina.


* Escrito após a leitura do post do Rui e a visualização do vídeo insólito (e altamente instrutivo) que suscitou essas reflexões.

«Ser humilhado é um direito»

O problema da praxe (sim, é um problema) poderia ser minimizado, não exactamente proibindo-se esse desporto néscio, mas se todas as universidades exigissem que os alunos aprendessem para continuarem lá e lhes testassem com frequência os conhecimentos; se as empresas e o Estado contratassem de facto prioritariamente os que melhor desempenho académico têm ou mais bem preparados se revelam, e não os que têm melhores “referências” ou se mostram mais chico-espertos; se as famílias, em contrapartida à mesada e às despesas pagas, exigissem resultados e se orgulhassem mais de boas notas do que de trajes, emblemas e títulos fúteis; se os comensais de bom gosto e de boa educação num restaurante fossem em número suficiente (não são) e tivessem ânimo suficiente (não têm) para se opor à tirania dos bárbaros, exigindo moderação na voz e boas maneiras à mesa; se a polícia levasse a sério as leis do ruído e mais umas minudências legais afins. Pequenos passos para as instituições, grande passo para a humanidade. Mas para isto tínhamos de presumir que o resto da sociedade difere dos patetas perigosos que dizem que «ser humilhado é um direito». Os passos necessários são curtos, mas ainda assim é preciso ter pernas.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

The show must go on

Perante um “contratempo” estatístico, a assertividade e a cientificidade neoliberal engasgam-se, patinam, coçam a cabeça. Depois, Medina Carreira suspira — antes de pedir à importuna jornalista que passe à frente, siga o guião.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

E os cortes continuam...

El inMundo: Tu periódico de siempre, ahora mucho más in (ofensivo) -- (Prosiguen los recortes...)


Inspirado pelo post do Rui.

O caso El Mundo ou os dias contados da imprensa séria

O El Mundo trouxe à luz do dia os casos Bárcenas (financiamento ilegal do PP, partido do Governo em Espanha) e Urdangarin (escândalo de corrupção protagonizado pelo genro do Rei).
Os accionistas de El Mundo, inesperadamente, afastaram Pedro J. Ramírez da direcção do jornal que fundou.
Diz-se por todo o lado, e é difícil achar falso o estrepitoso rumor, que o afastamento surge por pressão do Governo espanhol e da Casa Real.
Longe vai o tempo em que havia tipos de dinheiro a investir em projectos de jornalismo de investigação em vez os dificultarem. Em Portugal, o dinheiro disfarça-se de mecenas para pagar umas reportagens de cariz histórico ou cultural (as do Público Mais). São interessantes e aliviam a consciência de todos os envolvidos: investidores, jornal e leitores, que assim podem assistir impávidos ao definhar da investigação.
Apesar de injusto (numa primeira fase) para os restantes jornalistas de El Mundo, os leitores do jornal deveriam boicotá-lo a partir de hoje. Doutra maneira, será cada vez mais difícil haver imprensa independente e ousada, condição essencial das democracias.
Mas não tenho muita fé em atitudes drásticas por parte dos leitores. Em Trás-os-Montes, o único jornal que conheci que de facto fez jornalismo (o Semanário Transmontano) terminou um dia por cansaço sem que se ouvisse um queixume em todo o “reino maravilhoso”.
Na península (e não só nela), o conluio entre o dinheiro e os poderes ainda tem muitas ofensivas para fazer antes que o povo perceba o que perde perdendo a democracia. E a democracia perde-se quando se perde o jornalismo de investigação. Continuem a iludir-se com o jornalismo cidadão e tretas afins.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Pequenos retratos infames (1)

José Manuel Fernandes

Leio que José Manuel Fernandes vai embarcar num novo projecto editorial, o Observador, que certamente não por coincidência rima com conservador. (Rui Ramos coordena o Conselho Editorial…)
Eu gosto de alguns conservadores. Gosto mesmo muito das crónicas do velho Dr. António Sousa Homem, são da melhor literatura que Francisco José Viegas escreve e da melhor que se lê em Portugal. Tenho a minha própria costela conservadora. Como um tipo de outros tempos, espanta-me a linguagem da juventude, as suas maneiras, o desrespeito, o totalitarismo que nela é tão natural que alguns dos seus elementos se surpreendem genuinamente quando acusados de desconsideração, de abuso.
Não gosto de fanáticos. E, por corolário, não gosto de José Manuel Fernandes. Desde que ele se apaixonou por Helena Matos, essa avençada do Tea Party, gosto menos ainda. Os dois isolados são irritantes; juntos tornam-se odiosos, uma espécie de Bonnie and Clyde com um gosto sádico por assaltar velhinhas.
José Manuel Fernandes é um conservador influente. Que Portugal tenha fretado e revestido a pechisquebe um cacilheiro para ir a Veneza, fazendo deste género de epopeia marítima o símbolo de uma opção no que se refere ao apoio às artes, é, de certa forma, um desiderato para o qual contribuiu o antigo director do Público. Anos atrás, ele escreveu que «uma só exposição como a de Amadeo [na Gulbenkian] faz mais pela educação do gosto dos portugueses do que milhares de microeventos de “criadores” que não estão dispostos a correr riscos». A ideia era defender meia dúzia de grandes exposições deste género como investimento único do Estado nas artes. Daí a o Estado “arriscar” na Joana Vasconcelos pós-Versalhes, foi um passinho.
O próprio José Manuel Fernandes é uma pessoa de arriscar. Quando temos um governo, uma maioria e um presidente de direita, quando temos uma crise e instituições tutelares a forçar uma viragem política e social extrema à direita, José Manuel Fernandes embarca num arriscado projecto editorial… de direita. É preciso coragem. É certo que não há o risco de lhe faltarem patrocinadores, com tantas empresas agradecidas pelo admirável mundo novo que ele ajudou a promover. Mas há o risco grande de os portugueses confundirem o Observador com o Diário da República, quando notarem que a tendência editorial é a mesma. Claro que este problema de concorrência se resolverá rapidamente quando todos perceberem que há benefício em assinar o Observador, onde as (más) novas legislativas aparecerão primeiro. O DR deverá, aliás, ser rapidamente extinto, por redundante. Para quê um caro órgão público oficial quando podemos ter um privado órgão oficioso?

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O impulso e a metáfora

David Mourão-Ferreira conclui certo poema aludindo às «espadas de amor» que se cravam «no teu ventre». (Ante)ontem, na Rússia, após discussão sobre os méritos literários da prosa e da poesia, um adepto de poesia esfaqueou mortalmente um apreciador de prosa. No caso do poema de Mourão-Ferreira, adivinha-se facilmente que impulso humano guiou a criação da metáfora. Já no segundo caso — sem sonegar a intervenção de Baco — dificilmente se imagina que desumana metáfora presidiu à concretização do impulso.

Tirem-me deste filme!

Saving Private Ryan + Saving Mr. Banks = Saving Private Banks (a verdade sobre a 'crise da dívida soberana')

Até o protagonista é o mesmo...

Diálogo de partisans

J.: Vai haver um dia em que as pessoas de bons sentimentos e ilustração terão de se mobilizar contra uma sociedade onde imperam jotinhas e boçais.

G.: Concordo, mas temo é que pelo andar da carruagem essa mobilização seja já a de um movimento de resistência, de sabotagem, clandestino, de sobrevivência — não a de um exército que impressione e vença guerras pela mera exibição do número das suas tropas.