quinta-feira, 8 de maio de 2014

A aranha

No alfarrabista, abrindo um dicionário de filosofia, deparo com minúscula aranha aninhada no pequeno desvão feito por um grosso marcador de livros. Aguardo, para ver o que acontece. O animal não tarda a mover-se: atravessa a teoria do silogismo, galga premissas, vence conclusões, abeira-se da margem, despenha-se no intervalo que separa dois volumes fechados. Parece buscar o sentido da sua existência entre a lógica de Aristóteles e os livros que nunca lerá. Como qualquer um de nós.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Esperas

No tocante às esperas, quatro fases — variando as idades em que ocorrem — marcam a vida do pessimista. A uma primeira, em que tudo se espera dele, segue-se aquela em que o próprio admite: «Não esperem grande coisa de mim.» Já na terceira fase, em diálogo consigo, o pessimista declara: «Não espero nada de ti.» Por fim, dirá simplesmente: «Não espero.» Depois, é claro, irá embora. Um optimista passa exactamente pelas mesmas etapas. Mas distrai-se com mais facilidade.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Não

Especialistas salientam a dificuldade do cérebro em entender o «não». Daí a vantagem de pensar «Eu sou inteligente» e a nocividade de proferir «Eu não sou estúpido». Estranhamente, Sartre descobriu na raiz daquele advérbio uma estrutura ontológica: o nada, condição necessária do «não», habita o ser, «como um verme». A primeira teoria contradiz a segunda. Ou talvez o cérebro seja um grande «não» — só empenhado em acolher o «sim». Mas tal ideia é francamente absurda. Ou não.

Educação, esse luxo supérfluo

Uma notícia no Público de hoje faz saber (para os que andam distraídos) que «Austeridade nas escolas teve o triplo da dose prevista» no memorando de entendimento com a Troika. A mensagem política é clara: «A Educação é supérflua, é um luxo».

(Se em tudo se cortou mais do que nos era pedido, mas mesmo assim só se alcançaram os objectivos do défice porque, de desaire em desaire, esses objectivos foram sendo relaxados, surpreende que ninguém com responsabilidade discuta com seriedade o que correu mal. Ou talvez não surpreenda, se quem tem responsabilidade não tem seriedade.)

O artigo no Público é bastante esclarecedor, nomeadamente quanto ao aumento brutal da burocracia (contrariando a anunciada autonomia), mas tem uma frase que, talvez tirada do seu contexto original, é enganadora. A certa altura, um director escolar queixa-se da degradação das condições de trabalho, dizendo: «Neste momento, os professores só têm tempo para dar aulas, não têm tempo para mais nada». Com tal desabafo, o entrevistado queria certamente dizer que o aumento da carga de trabalho estava a privar os docentes de tempo para terem vida própria e familiar, mas a frase, assim, é ambígua, pois dá a ideia errada de que aos professores só é pedido que dêem as aulas. Ora, pelo menos nas escolas de que tenho conhecimento, passa-se precisamente o contrário: o aumento brutal da burocracia, de que se queixam os directores, transbordou completamente pela hieraquia abaixo. Os professores passam cada vez mais tempo a fazer “tretas” burocráticas que lhes tiram tempo e ânimo para o que realmente interessa: ensinar. Tais mudanças em nada beneficiaram os alunos.

Fui das pessoas que saudaram a chegada de Crato ao Ministério, por conhecer as críticas (justas) que fazia à Educação. Hoje considero-o um traidor, um mercenário. O economista (que ele também é, de formação de base) venceu sobre o pedagogo.

O sistema é gerido politicamente de forma terrorista.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Génese de um símbolo

Uroboro, serpente que morde a própria cauda, simboliza várias coisas: autofecundação, eterno retorno, união de opostos, perfeição celeste, roda das existências, etc. Menos inefável, há um vídeo que exibe uma serpente concreta a morder a sua cauda efectiva. Afirmam especialistas que tal comportamento ocorre em animais doentes, sem noção do que fazem. Talvez a génese de Uroboro fosse inspirada nessa enfermidade. Os símbolos esotéricos têm sempre um alcance que nos fascina — e uma origem que nos desilude.

domingo, 4 de maio de 2014

Confundir as vidas sentadas

Num certo sketch dos Monty Python, a prioridade é «confundir um gato». O animal sofre de tédio, abulia, quebranto. Expondo-o a alguns momentos circenses, tornou-se possível recuperá-lo. Com humanos, seria maior a dificuldade. «A minha vida sentou-se», escreve Mário de Sá-Carneiro. Para rimar, «fartou-se». Como impedir que as vidas se sentem? Como reerguer vidas sentadas? Como «confundir» os mortais, felinos incluídos? Talvez estes problemas garantam que, pela eternidade fora, as vidas dos deuses se mantenham de pé.

sábado, 3 de maio de 2014

Na sombra da gaveta

Trata-se de um volume de poesia, já antigo, de autor obscuro. As folhas, por abrir, reclamam espátula. Do frontispício, no entanto, salta um rectângulo intencional, porventura com estatuto de marcador, no qual se lê, escrito a vermelho, o seguinte aforismo probabilístico: «Talvez este livrinho te faça perder o medo de desenterrar teus versos da gaveta.» Mensagens assim ressumam ambiguidade e algum excesso: não sabemos se o poeta confia exageradamente no nosso talento, se desconfia demasiado do seu.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Apenas o eco

Adolescente ainda, li num jornal estes inolvidáveis versos de Fernando Echevarría: «Estamos tão sós como se haver o mundo / fosse o eco somente de o haver.» Nos recessos do inconsciente, devo ter deduzido, na altura, que o mundo se encontrava suspenso entre o ser e o nada. Mais tarde, abordando o soneto que os integra, notei irrelevância ou quebranto nos restantes doze. Há versos nascidos para formarem dísticos intocáveis — e serem o eco irremissível um do outro.

O retrato do escritor

Já escrevi sobre isto algumas vezes: é um erro que manuais escolares, jornais, revistas literárias, contracapas e badanas ou separadores televisivos (estes já só em dias de centenário) passem o tempo a mostrar imagens dos escritores clássicos enquanto velhos. A escrita literária não dispensa, geralmente, maturidade e sapiência, mas não é uma actividade reservada a anciãos, como a iconografia editorial sugere. Pedagogicamente, esta tradição ou inércia tem sido catastrófica. A juventude está por vezes disponível para a literatura, mas é sempre avessa a projectar-se a si própria na terceira idade. E o que a imagética institucional tem feito é dar à juventude a desculpa de que ela precisa para remeter os clássicos para a cave bafienta da paleontologia (sem que Hollywood tenha feito com os escribas jurássicos o mesmo marketing que fez com os dinossauros).
Somado o fosso geracional ao fosso histórico — tão fundamente cavados pela passagem do tempo, a invenção da cor, a evolução do trajar e do pentear, e pelas escolhas preguiçosas dos responsáveis gráficos —, é uma verdadeira surpresa que hoje alguém com menos de trinta anos se interesse por literatura com mais de vinte anos (quando já tão dificilmente se interessa por literatura tout court).
É certo que em alguns dos casos mais antigos não há retratos disponíveis do escritor enquanto jovem. Sobram uma estatuária amputada, umas gravuras que parecem de santinhos da igreja, de duvidosa correspondência ao modelo biológico. Mas, havendo pudor de fazer passar esta iconografia por um processo inverso ao da Maddie (um rejuvenescimento especulativo computadorizado), restavam duas soluções: assegurar-se que de autores mais recentes se publicavam sobretudo as fotos menos envelhecidas, para contrabalançar, ou optar-se por biografias em vez de imagens, biografias que insistissem particularmente no facto de os autores terem sido jovens e humanos como todas as outras pessoas.
Porque a verdade é que a maioria dos escritores e pensadores não teve de esperar pelos sessenta ou setenta anos para escrever as suas melhores obras — e é isso que a juventude em formação precisaria imediatamente de saber, se não por imagens, por palavras. Que, tirando José Rodrigues dos Santos, a literatura é coisa de gente interessante ou normal, viva ela em que século viva.
Para ser verdadeiramente pedagógico, um livro ou manual escolar deveria apresentar a imagem do escritor à época que escreveu o texto. Junto com o cadastro policial e político, testes de alcoolémia, testemunhos de rivais, resultados de análises às DST e cartas de ex-amantes ressentidos/as.

Freud, Pavlov e Greenpeace na fila do supermercado

Baixote mas entroncado, vermelhusco, segurando o telemóvel com aparente mau jeito, espera na fila enquanto fala com o que se suspeita ser uma esposa provisoriamente desavinda, talvez uma ex-mulher com esperanças ou contas a ajustar. Longos silêncios significam que escuta. Ou finge escutar, já que quando fala retoma exactamente ao ponto anterior da conversa, como se do lado de lá não tivessem dito nada, acrescentado nenhum argumento ou informação nova. A espaços, bufa e solta pequenas interjeições, faz comentários para o lado, como se os clientes do supermercado fossem a sua plateia e ele tivesse apartes a cumprir no texto que o autor escreveu para si na peça. Pede a nossa simpatia para a maçada que enfrenta pacientemente, a nossa cumplicidade com a sua condescendência, o nosso sorriso para as suas piadolas paternalistas, o nosso aplauso para os súbitos rasgos de autoridade, à homem. Machistas.

Quando chega a vez dele na caixa, rejeita o saco plástico e desdobra o seu próprio saco reutilizável, gesto inesperado para figura tão claramente desinteressada do conceito de sustentabilidade ambiental. O que devia desiludir quem acredita na adesão consciente, não-pavloviana, do povo a campanhas de sensibilização. Ou dar um pequeno gosto de vingança à ex-cônjuge do indivíduo em estudo: certamente foi ela quem lhe incutiu o hábito económico ou ecológico que ele ternamente perpetua.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Viagem

«Procuro, de Júlio Verne, Viagem ao Centro da Terra.» Diz-lhe o alfarrabista: «Não disponho do livro, mas será fácil encontrá-lo em edição de bolso.» Certo. Para o filho, contudo, tornava-se penoso ler letras miudinhas. Então o homem sublinhou a vantagem de permanecer à superfície: no centro da Terra, a temperatura é elevadíssima. Depois de ela sair, comentou: «Muito preocupada! Como se o seu problema tivesse um alcance universal...» Não tinha, de facto: era um problema estritamente planetário.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

38

Afirma um estudo recente que aos 38 anos (em média) o homem se torna igual ao seu pai: adormece no sofá, ri das piadas próprias, etc. A figura do progenitor, no entanto, constitui aqui um mero artifício retórico: aos 38, o indivíduo entra no «campo dos velhos» — particularismos genéticos são irrelevantes. Uma tal conclusão, bizarra e totalitária, até dá vontade de adormecer no sofá, de rir das piadas próprias — e das anedotas que estudos assim involuntariamente representam.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Metáforas estafadas

Chegam ruidosos, em modo botellón, com bebidas enfiadas em sacos e empurrões amistosos de gorilas na tundra. Argumentam, discordam, objectam, como costumam fazer nas pausas de ulular hinos futebolísticos ou apor letras obscenas a repertório tunante. Mas, surpresa!, a discussão é sobre figuras de estilo. Não sobre figuras estilosas do futebol ou da música. O tom e o vernáculo são os mesmos, mas o assunto é gramática. Defendem, uns, e contestam, outros, a ocorrência do advérbio metaforicamente.
— Metáforas existem, é óbvio, mas metaforicamente não se diz.
— Diz, claro que diz. Então se se diz anaforicamente, que vem de outra figura de estilo, porque não se havia de dizer metaforicamente?
Eu, que sempre demoro uns segundos a distinguir anáforas de ânforas, espanto-me e alimento a esperança de estar perante uma tertúlia literária. (Elas dão-se onde menos se espera, anelo.) Mas depois os tertulianos iniciam uma guerra convencional disparando cubos de gelo em todas as direcções, incluindo na dos carros estacionados, e um proprietário vem prevenir possíveis danos no seu Mitsubishi exibindo um martelo na mão («porque eram muitos», dirá mais tarde) e verifico com fadiga que não foi esta noite que o mundo saiu do seu eixo.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

O Salgueiro Maia do Pátio das Cantigas (3): a Revolução está no Pátio

(parte 2)

Talvez por sermos crianças, não nos resignávamos à passada lenta do devir histórico, razão pela qual, de facto, teríamos num mesmo dia os nossos 25 de Abril, 11 de Março e Verão Quente: seria derrube da ditadura, instituição de novo regime e apropriação dos bens da classe dominante, tudo de uma assentada. Traduzindo: o plano era, aproveitando a ausência do Carlitos, infiltrarmo-nos na sede, apoderarmo-nos dos “tesouros” do Clube e transferirmos tudo para as traseiras da segunda tasca disponível (a do Sílvio), onde fundaríamos o Novo Clube.

As operações decorreram inicialmente conforme previsto: entrávamos na tasca do Carlitos, dávamos a desculpa de que íamos à casa-de-banho situada ao lado da sede e saíamos de novo, trazendo um qualquer item escondido dentro das calças. Mas cedo percebemos que a tática tinha pernas curtas: após meia-dúzia de entradas e saídas, o pai do Carlitos poderia ficar desconfiado com tanta urgência urinária.

Uma incursão à despensa da minha avó trouxe-nos as armas da nossa vitória: uma corda de três ou quatro metros e um balde.
Imbuídos de nova esperança e determinação, retomámos as operações. Eu e o Nuno gastámos pela derradeira vez a desculpa do chichi e voltámos à sede. Lá, abrimos uma das janelas que deitavam para o Pátio. Após algumas tentativas falhadas (a janela ficava à altura de um primeiro andar não muito alto), conseguimos agarrar a corda que o Sílvio nos lançava. Com a outra ponta atada ao balde, içámo-lo. E foi o fartar-vilanagem: em poucas levas esvaziámos a sede de todas as fisgas e grampos, todos os arcos e flechas, todos os cromos de futebol e do Sandokan, todas as caricas e demais parafernália, incluindo — prémio supremo — um Franjinhas de gesso pintado, já meio esbotenado, que ocupava lugar de honra no espólio do Clube. (Em abono da verdade, o Franjinhas era do Carlitos, mas tal era a crueza da nossa revolução.)

Finda a operação, refugiámo-nos nas traseiras da tasca do Sílvio, onde esperámos na semiobscuridade do esconso anexo, que, a meio de uma remodelação, pouco espaço livre tinha entre sacos de cimento, tijolos e montes de areia.

Uma ou duas horas depois, o Carlitos entrava, de rabinho entre as pernas, na nossa nova sede. Chegado da aldeia e deparando-se com o esvaziamento do Clube e a ausência de três de nós, tinha interrogado o Jorge Miguel, que lhe contou do nosso 25 de Abril. E agora, eis aqui o nosso ex-ditador, não em fuga para o Brasil, mas humilde, a admitir que tinha errado, mas que tudo iria mudar: a partir daquele dia, haveria acesso igualitário ao uso das fisgas e igual empenho na apanha dos grampos.

Talvez devido à precariedade da nossa nova sede, acedemos aos apelos do Carlitos, devolvendo tudo à origem: esse dia memorável na História do Pátio acumulava, assim, mais um marco: o da reversão do processo de expropriação e colectivização da propriedade privada.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Os heróis e os cabos de João Miguel Tavares

A direita tem com o 25 de Abril uma relação difícil: ou o odeia ou o desvaloriza. Por vezes surge uma inesperada e comovente apropriação, como a do secretário de estado Pedro Lomba. No Público de terça-feira, João Miguel Tavares, outro jovem turco da direita, foi mais fiel à ortodoxia da tribo, mas nem por isso foi menos enternecedor. Munindo-se das ferramentas da condescendência e do lugar-comum, temperadas com uma pitada humorada de literatura, Tavares informou-nos que o 25 de Abril, ao invés de uma Revolução, foi um caso de não-acção típico dos portugueses. Para esta sua tese, elegeu como episódio central e representativo do movimento das forças armadas o do cabo-apontador Alves Costa — que se fechou no tanque para não ser obrigado a disparar, tal como conta o livro Os Rapazes dos Tanques. João Miguel reproduz o episódio, relaciona-o com a idiossincrasia lusa e culmina aquela secção do artigo com um lapidar «E assim se fez Abril».

Percebo que a vivacidade de algumas fotos do 25 de Abril seja perturbadora, e que certas pessoas, arrebatadas pela tensão das imagens, se sintam tentadas a refugiar-se num tanque. Mas isso não deveria servir para ignorar que naquele mesmo dia houve quem se posicionasse em frente ao canhão, de peito aberto. Quem, ao contrário de João Miguel Tavares hoje, não sabia que os tanques nãoiam disparar.

O cabo-apontador da história que encantou Tavares pode ser representativo de uma certa portugalidade. Portugal inteiro pode hoje ser fielmente representado pela personagem de Herman Melville, aquele Bartleby paradigma da passividade, divertidamente invocado por João Miguel. Não discuto isso. Mas só uma hermenêutica muito irreverente ousaria considerar que «Preferiria não o fazer», o mantra de Bartleby, é o slogan adequado ao 25 de Abril.

Por mais que custe ou não convenha à narrativa actual, a Revolução foi feita pelos tipos que se dispuseram a sair de Santarém e a enfrentar um regime, amolecido, é certo, mas que continuava a prender, a punir e a torturar. Um regime que tinha do seu lado gente que não hesitaria, como não hesitou, em disparar ou mandar disparar.

Enfatizar o papel do cabo-apontador Alves Costa em detrimento do de Salgueiro Maia é escolher a caricatura da pequena história em vez da dignidade do retrato, igualmente disponível.

O cabo-apontador, no artigo de João Miguel Tavares, teve o mérito de impedir «que a revolução se tornasse num banho de sangue», mas a coragem dos capitães que se dispuseram a fornecer sangue para esse «banho» parece ser menos relevante para a narrativa.

«Se há coisa em que os norte-americanos são realmente bons», diz Tavares, «é a criar heróis e memoriais». E conclui: «(…) nós não temos essa cultura em Portugal.» Pois não. E João Miguel empenhou-se em provar que não a temos — preterindo heróis inconvenientes a cabos de anedota.

Concluo com uma interpretação talvez também ousada (preferiria não o fazer, mas detestaria mais passar por bartlebyano): desvalorizar a coragem dos outros à distância de décadas e no conforto de uma boutade de jornal é, parece-me, uma cobardia.

O Salgueiro Maia do Pátio das Cantigas (2): o “Movimento dos Capitães”

(parte 1)

As fisgas que tínhamos no Clube não eram fisgas de atirar pedras, feitas de uma galha; eram mais pequenas (5-6 cm de comprimento), destinadas a outros projécteis, e eram exemplares perfeitos do desenrascanço urbano.
A estrutura em “Y” da fisga era feita de arame grosso roubado à ponta de um estendal da roupa. À volta desta estrutura de base enrolávamos depois, laboriosamente, fio eléctrico fininho, conseguido nas sobras da estação automática dos CTT, vizinhos do Pátio das Cantigas, o que não só dava à fisga um pouco mais de rigidez, mas também tinha um belo efeito cromático, devido às cores garridas dos isoladores. O fio servia ainda para prender o elástico, pedinchado aos balcões das agências bancárias existentes do outro lado da Avenida Carvalho Araújo. Em vez de pedra, disparávamos «grampos», pedacinhos de 1 cm do mesmo fio eléctrico dobrados em “U”.

A árdua tarefa de fabricar as nossas fisgas e os respectivos grampos era uma parte importante da vida do nosso Clube, mas, como disse no fim da primeira parte, foi por aí que chegou o descontentamento, a dissensão e, finalmente, a Revolução.

O problema foi que, a dada altura, eu e o Nuno nos apercebemos de que, depois de todo aquele trabalho, praticamente o único que disparava as fisgas era o Carlitos. Para piorar as coisas, a dificuldade em arranjar fio de cobre ditava a constante escassez de grampos, pelo que uma tarefa ainda mais árdua, e muito menos divertida do que fazer fisgas, era a de passar horas de rabo para o ar a catar do chão do Pátio os grampos anteriormente disparados — actividade a que o Carlitos, denotando já naquela tenra idade todos os tiques das chefias lusas, se furtava olimpicamente.
A constatação da injustiça levou-nos, ao Nuno e a mim, a optar inicialmente pela greve e a resistência pacífica, recusando-nos à servidão a que se sujeitavam o Sílvio e meu primo, sob a torreira do sol do Verão transmontano. Até que decidimos passar à conspiração activa.

Num dia em que o Carlitos estava ausente, convocámos os dois mais novos para uma reunião secreta. (A Teresa ficou de fora, pois era uma luta que lhe passava ao lado: mais interessada nas suas prelecções gramaticais do que nas artes da balística, não disparava a fisga mas também não mourejava na preparação do arsenal.)
A reunião permitiu constatar o que já prevíamos: o descontentamento era generalizado. No entanto, o Sílvio e o Jorge Miguel hesitavam em seguir os nossos apelos de passagem à acção, com medo do Carlitos. Eu e o Nuno esforçávamo-nos na retórica motivadora:
— Isto tem de acabar! As fisgas e os grampos são de todos!
— O Carlitos é um explorador, um ditador!
— É um facho!
— Temos de fazer um 25 de Abril!

Qual Salgueiro Maia na parada da Escola Prática de Cavalaria na madrugada do dia histórico, o nosso discurso galvanizador conseguiu convencer o Sílvio a juntar-se a nós. E por aí se ficou o nosso sucesso, ao contrário do de Salgueiro Maia: o meu primo, o mais novo de todos, persistiu na medrosa recusa em participar, mas comprometeu-se ao silêncio, sensível aos nossos argumentos:
— Ou te calas ou levas!

A Revolução estava em marcha.


(Conclui amanhã.)

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O Salgueiro Maia do Pátio das Cantigas (1): antecedentes

Aí por 1978, eu e mais uns vizinhos criámos o nosso primeiro clube, que nunca teve outro nome que não «O Clube». Nessa altura eu ainda não sabia ler, pelo que a motivação não me chegou por via dos livros d’Os Cinco e d’Os Sete, que viria a consumir fanaticamente. O mais certo é ter sido pura imitação do meu irmão, que, com alguns outros miúdos mais velhos do Pátio, tinha também um clube, ao qual «os putos» não tinham acesso.

O nosso Clube teve, nos anos que durou, seis membros: eu e a minha irmã, o nosso primo Jorge Miguel, o Nuno, o Sílvio e finalmente o Carlitos, o nosso chefe.
O Carlitos era o mais velho do grupo. De facto, em termos etários, aproximava-se mais do meu irmão do que dos restantes de nós, mas a sua imaturidade (e a conhecida crueldade infantil) fazia com que fosse algo ostracizado pelos miúdos mais velhos. Assim, com nove-dez anos, convivia fundamentalmente connosco, cujas idades iam dos quatro aos oito — uma maioridade que lhe garantia o estatuto.
O direito à chefia era reforçado pelo facto de a ele devermos o Clube ter uma sede digna desse nome: uma sala nas traseiras da tasca do pai dele, que em dias de mercado se transformava no “consultório” de uma endireita; fora desse período, a sala estava por nossa conta.

O Clube desenvolvia um intenso programa de actividades: fazíamos fisgas, arcos e flechas, brincávamos aos índios e aos lusitanos, escrevíamos mensagens cifradas (isso mais tarde, quando já todos sabíamos ler e escrever) — enfim, fazíamos as coisas normais de miúdos daquela idade. Ou nem tanto: exercendo a sua autoridade de subchefe, patente assegurada pela idade e pelo privilégio de ser a única menina do grupo, a minha irmã conseguira incluir no rol de actividades um período em que ela tentava ensinar-nos os adjectivos e os verbos, a divisão longa e as regras de pontuação — que ela própria tinha aprendido apenas uns dias antes. (Sim, adivinharam: a minha irmã estava fadada a tornar-se professora.)

A certa altura, por iniciativa do Carlitos, as reuniões do Clube assumiram uma solenidade e um ritual — e uma estratificação hierárquica — impressionantes: o chefe sentava-se ao fundo, de costas para a parede, numa das duas únicas cadeiras disponíveis; os lugares à sua esquerda e à sua direita eram ocupados por mim e pelo Nuno, sentados em grades de cerveja vazias; em frente ao Carlitos, na segunda cadeira, sentava-se a subchefe; e de um lado e do outro da Teresa, de pé e em pose de guarda-de-honra, ficavam o Sílvio e o Jorge Miguel, os mais novitos. Tamanha entronização do chefe não causou a melhor impressão em alguns de nós.

Mas foi por causa das fisgas que a Revolução chegou ao Clube e ao Pátio das Cantigas.


(Continua amanhã.)

sexta-feira, 18 de abril de 2014

1976: Pátio das Cantigas, cidade olímpica

O mês de Julho de 1976 arrastava-se e estávamos aborrecidos. Talvez fruto da relativa frescura desse Verão, se comparado com o do ano anterior. Ou talvez devido à imensidão das férias: com seis anos, a minha irmã terminara o infantário e entraria na escola primária no Outubro que tardava; quanto a mim, com quatro anos, e ao meu primo, com vinte e um meses, as nossas curtas vidas eram umas férias contínuas. Fosse o que fosse, estávamos aborrecidos.

A RTP deveria andar a transmitir por esses dias algumas provas dos Jogos Olímpicos de Montreal, pois o certo é que um de nós se lembrou de fazermos as nossas próprias Olimpíadas. O “estádio” era o jardim das traseiras da nossa casa; as provas, corrida à volta dos canteiros, salto em comprimento, lançamento de pedras...
Como éramos só três, todos tinham lugar no pódio: o primeiro equilibrava-se num banco alto; à sua direita, num banco mais baixo, perfilava-se o segundo; o terceiro resignava-se ao piso térreo à esquerda do vencedor. (Talvez houvesse algum sucedâneo de medalhas, mas não me lembro.) Cantarolávamos o hino nacional, com a gravidade que convém a atletas medalhados, e passávamos à prova seguinte.
Dada a pequena-grande discrepância de idades, não demorou muito a detectar-se uma regularidade nos resultados: a atribuição das “medalhas” de ouro e de prata variava, mas, com os cueiros ainda a pesarem-lhe nas pernitas gordas, o bronze acabava sempre no peito do meu primo Jorge Miguel.

O Jorge Miguel era um desses fenómenos do último quartel do século XX português: sem nunca se ter ido embora, era um “Retornado”, tendo vindo da sua Angola natal em Janeiro de 1975. (Era também o único que não sabia que em Angola vivera num bairro de Luanda, e que chegara a Portugal com apenas três meses de idade, pelo que, para grande divertimento nosso, fantasiaria durante anos, longa e detalhadamente, sobre as suas supostas vívidas memórias de piqueniques no mato, com a imprescindível aparição de macacos, leões e elefantes...)
Como a família ainda não tinha casa própria, o meu primo e os pais iam vivendo na casa dos meus avós paternos, situada, tal como a nossa, no Pátio das Cantigas. Com eles vivia ainda uma tia solteira, a Tia Meá, também regressada de Angola.

Mal habituado pelo seu privilégio de “duas mães” (a Avó Teresa era mais igualitária na distribuição dos afectos), enquanto eu e os meus irmãos nos víamos obrigados a partilhar uma por três, aquela série de derrotas atléticas era mais do que o Jorge Miguel podia suportar: veio a birra, um literal se-não-me-deixam-ganhar-então-não-brinco.
A princípio resistimos a essa chantagem antidesportiva, mas acabámos por ceder e a prova seguinte foi uma retumbante vitória do meu primo: eu abrandara descaradamente o passo, dando-lhe a oportunidade de me ultrapassar no canteiro dos jarros. Foi um regalo vê-lo inchado de orgulho enquanto subia a custo para o banco mais alto, aparentemente alheio ao facto de a vitória lhe ter vindo por via da birra e não do mérito de velocista.
Porque, se é certo que não recordo se houve conspiração prévia ou não, também não é menos certo que a nossa vingança já estava a sair do forno: sobe o Jorge Miguel ao mais alto do pódio, tomamos, eu e a Teresa, as duas posições subalternas; e então, como um balde de água fria, cantamos (eu e ela) o hino do vencedor: «A-bunga-bu, a-bunga-bu...»
O Jorge Miguel explode num berreiro. Nós, curiais: «Então, tu és preto, vieste de Angola...»
«Não, eu sou português!», gritava o nosso primo, mais irritado do que nunca.

A ironia, claro, é que o Jorge Miguel era o único loiro de entre nós, com uma pele rosadinha que, nos polaroids desbotados da década de 70, lhe dá um ar de leitãozinho rechonchudo. Mas esse pormenor não refreava a determinação, minha e da minha irmã, de lhe darmos uma lição de desportivismo — ou, em abono da verdade, pormos em prática essa crueldade infantil que não precisa de ser ensinada.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O meu prédio é uma metáfora nacional

O meu prédio é uma metáfora nacional. Durante anos apenas nos mijavam diária e copiosamente a entrada principal. Os excessos da boémia académica são o tributo que a terra aceita pagar pelos benefícios de ser uma cidade universitária. Pode dizer-se que Vila Real contribuiu activamente para hoje termos a geração mais indiscutivelmente bem formada da história lusa.
Como o progresso é imparável, no último ano temos também diariamente mijada a porta das traseiras. Já não pelos frequentadores das tascas do bairro, mas por adolescentes do prédio que se acoitam à noite, com as suas playstations, primeiros cigarros e cervejas clandestinos, numa das garagens familiares convertida em sala de jogos.
Lamentavelmente, dentre as benfeitorias levadas a cabo na garagem não parece constar nenhum WC, penico ou algália. Os papás proprietários da garagem não devem ter sentido necessidade disso porque confiam demasiado na elasticidade das bexigas juvenis, ou, mais certamente, porque não utilizam a nossa porta das traseiras, a mais discreta da fachada.
Em consequência da boçalidade adulta e da imbecilidade infanto-juvenil, do desleixo duns e da má-educação doutros, no meu prédio entra-se hoje sempre de mão no nariz e a descolar os sapatos depois de cada passo dado. O exercício é particularmente divertido e peganhento nos dias em que, como agora, há pó verde de pinheiros também nas entradas dos edifícios.

Pequenos retratos infames (3): Henrique ‘Santa Comba’ Raposo

É ilegítimo e vil usar aspectos físicos das pessoas para atacar as suas ideias ou posições políticas. Ou para as defender. Na minha pós-adolescência ocorreu acusarem-me de Júlio Isidro e simultaneamente piropearem-me de James Dean. (Hoje fariam pior.) Mas isso aconteceu, tanto para o mal como para o bem, porque na verdade ninguém, eu incluído, sabia ou se interessava pelo que eu pensava. Apenas estava toda a gente, de novo eu incluído, fascinada (como no circo) pelos diferentes ângulos da minha fotogenia: de frente para o James; de lado para o Júlio (nunca subestimem o poder afrodisíaco de um nariz).

Mas deixemos Narciso no seu lago. Se tivermos nobreza de princípios e intenções, será deveras impróprio e torpe lembrar o quanto Henrique Raposo, naquela sua foto de míope, se parece com um oficial das SS ou com um agente da Gestapo. O exercício é contudo legítimo se reconhecermos ao alvo dos nossos insultos uma inteligência capaz. Precisamente porque sabemos que Raposo não ignora as circunstâncias, as conotações e a vanidade de muitos dos seus artigozinhos irreverentes e caprichosos do Expresso, podemos, se formos igualmente mesquinhos, responder-lhe com um «Heil Hitler para ti também». Ou, pronto, não exageremos, o caso não é assim tão teutónico. Raposo talvez apenas se pareça com um mangas-de-alpaca doutrinário, uma espécie de primito lisboeta e envernizado do homem de Santa Comba, para quem basta um simples e nacional manguito das Caldas. E se o caso for menos grave ainda — Raposo enquanto mero delfim de César das Neves, invejoso do sucesso daquele no anedotário luso (que não da avença, imagino que o Expresso pague mais) —, até podemos achar o Henrique boa companhia para um copo. Quem não gosta de partilhar a mesa com um tipo mesmo de direita? Eu gosto, e o único amigo que tinha capaz de achar que a culpa da crise era dos gajos do rendimento mínimo vacilou nas convicções quando o Governo lhe foi ao bolso e o deixou mal equilibrado às portas do desemprego. Sinto por isso falta de alguém a quem possa pagar com gosto umas rodadas enquanto digo: o que bebes, nazi do caralho?