*Ou não é só dos filmes. Alien – O Oitavo passageiro é da mesma altura e sobreviveu muito melhor.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2016
O regresso aos Jedis
*Ou não é só dos filmes. Alien – O Oitavo passageiro é da mesma altura e sobreviveu muito melhor.
sábado, 9 de janeiro de 2016
Cortesãos de esquerda
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Cinismo à portuguesa
«Tudo o que é demais enjoa, e ainda mais quando se faz vida disso. Se ninguém [o] refuta é precisamente porque o cromo se tornou inofensivo por ridículo.»
«Paulo Morais (…) exibe a sua mania da corrupção, de uma maneira insultuosa e quase alucinada.»
terça-feira, 5 de janeiro de 2016
A timidez e o ‘piropo’
«Eu sou um típico caso de pessoa tímida, não gosto muito que olhem para mim, mas sei que isso é um defeito (…)»
Crise da imprensa: os meus contributos
domingo, 22 de novembro de 2015
Parem de divulgar mentiras sobre o Islão!
Nos tempos conturbados em que vivemos, com muita histeria, muito medo, muita ignorância e muito maquiavelismo, as redes sociais pululam de informação falsa e enganosa.
O fim do Verão e o Outono deste ano foram particularmente férteis em notícias falsas que procuram denegrir os refugiados sírios: com 5% de Photoshop, 50% de puras mentiras e 0% de contexto, eis como manifestações violentas de muçulmanos radicais alemães em 2011 são apresentadas como manifestações pró-Daesh de refugiados sírios na Alemanha em 2015 ou como um ex-combatente anti-Daesh refugiado na Europa foi apresentado como um combatente do Daesh infiltrado na Europa. E estes são só dois exemplos, de entre dezenas possíveis. (Eu mesmo ilustrei a facilidade com que se poderia “transformar” um heróico voluntário português que lutou ao lados dos Curdos do YPG num membro da horda assassina do pseudo-Califa.)
Mas, nem só de desinformação islamófoba, anti-refugiados e anti-muçulmanos, se faz o nosso tempo. Tão ou mais frequente é a desinformação islamófila. E se aquela deve muito à histeria e ao medo, esta deve não menos a uma certa boa-vontadezinha “flower power” ou a um wishful thinking de Padre Américo do like-and-share. E ambas — desinformação islamófoba e islamófila — são alimentadas pela ignorância de muitos e o maquiavelismo de alguns (porque nem todos podem alegar desconhecimento).
Talvez o exemplo mais claro desta desinformação islamófila seja a tentativa desesperada de apresentar o Islão como uma «religião de paz», quando, como deveria ser notório, o Islão foi, logo desde o seu fundador, uma religião violenta: foi o Islão que inventou o conceito de «Guerra Santa»; as Cruzadas, que os muçulmanos não se cansam de apresentar como raiz de todo o seu ressentimento, foram simplesmente o plágio tardio com que os cristãos responderam.
O expoente máximo desse travestismo pacifista é a suposta citação de um famoso versículo corânico, o 32.º da 5.ª Sura:
Se alguém matar uma pessoa, é como se ele matasse toda a humanidade, e se alguém salvar uma vida, é como se ele salvasse toda a humanidade.
Digo «suposta citação», porque uma versão um pouco mais honesta seria:
[...] se alguém matar uma pessoa [...] é como se ele matasse toda a humanidade, e se alguém salvar uma vida, é como se ele salvasse toda a humanidade. [...]
Notaram a diferença?
Três reticências, apenas — mas, parafraseando Arquimedes, dêem-me reticências suficientes e ponho Hitler a elogiar os Judeus.
Porque a verdade é que o versículo é sempre “citado” com grandes — e importantíssimas — omissões. Os apologistas islâmicos queixam-se frequentemente de que as passagens violentas do Corão (esgrimidas pelos seus opositores) são citadas removendo o contexto e deturpando, assim, a mensagem. De facto, a apologia da violência está frequentemente lá, sem ou com contexto; já o pacifismo é que só se consegue fabricar à custa de muito corta-e-cose.
Invocar o versículo 32 da Sura 5 para demonstrar que o Islão é uma religião de paz (ou «a religião da paz», como dizem alguns muçulmanos mais enfáticos) é o mesmo que ilustrar o génio literário de José Saramago (e o seu pacifismo, o seu patriotismo e a sua arte poética) com “citações” como «amai-vos uns aos outros», «As armas e os barões assinalados» ou «o poeta é um fingidor».
José Saramago escreveu tais coisas? Sim: estão, respectivamente, nas páginas 43, 68 e 114 de O Ano da Morte de Ricardo Reis, edição de 1995. A questão, claro, é que, apesar de constarem num livro de Saramago, todos (espero) sabemos que ele não é o autor das passagens em causa.
Comecemos por desmontar a tese do suposto pacifismo do versículo corânico.
Sendo menos pródigo em reticências, uma citação mais completa seria:
[...] se alguém matar uma pessoa — que não seja em retaliação de homicídio, ou por espalhar a corrupção pela terra — é como se ele matasse toda a humanidade, e se alguém salvar uma vida, é como se ele salvasse toda a humanidade. [...]
Esfumou-se o pacifismo: não só o preceito prevê a possibilidade de se matar alguém como sanção pelo crime de homicídio, como a aplicação da pena de morte é alargada ao convenientemente vago crime de «espalhar a corrupção pela terra». Em que consiste tal ofensa capital? Dependendo do nosso imã, do nosso ciber-guru, do nosso autoproclamado Califa ou do nosso ressentimento doentio, pode ser qualquer coisa — desde desrespeitar o Profeta, abandonar o Islão ou professar outra religião ou nenhuma, passando por cometer adultério ou ser vítima de violação, até jantar no Le Petit Cambodge, assistir a um concerto no Bataclan, passar em frente ao Estádio de França, ir ao mercado em Beirute, dormir num hotel em Bamako: viver, existir.
Mas a contrafacção de um pacifismo corânico que não está lá vai mais longe: não só o preceito não é tão pacífico como no-lo querem vender, como nem sequer é certo que, segundo o Corão, ele se aplique aos muçulmanos.
Porque uma citação ainda mais completa e correcta do versículo seria:
Por causa disso, ordenei aos Filhos de Israel que se alguém matasse uma pessoa — que não fosse em retaliação de homicídio, ou por espalhar a corrupção pela terra — seria como se ele matasse toda a humanidade, e se alguém salvasse uma vida, seria como se ele salvasse toda a humanidade. [...]
Exactamente: este preceito teria sido ordenado, no passado, não aos muçulmanos (que no Corão são sempre designados «Crentes»), mas aos «Filhos de Israel», isto é aos Judeus.
De facto, a citação supostamente pacifista não é um original do Corão, embora seja citada actualmente como tal: é uma paráfrase de uma passagem do Talmude (concretamente, do Livro do Sinédrio, 37a), colectânea de comentários rabínicos da tradição judaica. (E o autor do Corão enganou-se: a frase consta do Talmude, não da Tora — a Lei de Moisés — ou sequer de outra parte da Bíblia judaica, pelo que é errado dizer que tal foi ordenado por Deus.)
Pior: a subtil diferença nos tempos verbais («matasse», «seria», «salvasse», e não «matar», «é», «salvar») reforça ainda mais a ideia de que, não só o preceito teria sido transmitido aos Judeus (embora eles nem sempre o cumprissem, falha referida no resto do versículo, que não transcrevi), como, agora que Maomé veio pôr os pontos nos is para os «Crentes» (muçulmanos), tal preceito foi ultrapassado, não se aplicando a eles.
Mas então, que preceito se aplica aos muçulmanos, aos verdadeiros crentes? Não é preciso procurar longe, noutras partes do Corão, caindo uma vez mais no problema do contexto: o versículo seguinte (5:33) dá a resposta imediata:
De facto, a pena para aqueles que lutam contra Alá e o Seu Profeta e tudo fazem para espalhar a corrupção pela terra é não outra do que eles serem abatidos [como o gado, isto é, degolados] ou crucificados, ou as suas mãos e pés serem cortados de lados opostos, ou eles serem expulsos da terra. Tal é a sua desgraça neste mundo; e no outro mundo espera-os um grande tormento.
Suscita-vos algumas imagens recentes?...
Que concluir, então, de tudo isto?
Que, se a ignorância grassa no vulgo, não é crível que tal desconhecimento da totalidade do texto e do seu contexto se verifique nos vários clérigos muçulmanos que, ofendidos na sua dignidade (uma especialidade muçulmana), sacam deste “trunfo” em defesa da sua religião.
Claramente, o que lhes falta em humor e em “poder de encaixe” sobra-lhes em sofisticada ironia: o expoente máximo do suposto «pacifismo islâmico» é um grande saco cheio de vento — a citação incompleta da paráfrase desinformada de um texto judaico. Allahu asghar.
sábado, 21 de novembro de 2015
Por que assumi as cores da França,
mas não as do Líbano ou do Mali
Por que razão é que, na própria noite dos ataques de Paris, espontaneamente, alterei a minha imagem de perfil no Facebook para as cores e o símbolo da França (que ainda mantenho e manterei por tempo indeterminado), mas não tive igual gesto relativamente a, por exemplo, o atentado bombista em Beirute ou a mortífera toma de reféns num hotel em Bamako?
Racismo, preconceito — é do que me tentam convencer algumas publicações partilhadas por amigos e por desconhecidos. Há, parece, mortos de primeira, de segunda e de terceira; há até um «mapa mundi trágico» — dizem-me, apontando um dedo acusador, tentando impor-me um sentimento de culpa ou de vergonha.
Se essa é a intenção, falharam redondamente. Porque a verdade é que há um mapa mundi trágico — simplesmente, ao contrário do que os autores daquele pensam, esse mapa mundi é pessoal, não é global: cada pessoa tem o seu próprio mapa mundi trágico (e no meu a Nova Zelândia está a vermelho).
Começo por deixar claro que, ao assumir as cores da França, mais do que solidarizar-me com os mortos e as suas famílias, pretendo solidarizar-me com a França.
Porque, se o atentado na França é uma tragédia de dimensão humana (morreu gente, e não foi pouca), é acima de tudo uma tragédia civilizacional: foi um ataque à ideia de França, ao modo de ser e estar na vida do povo francês (e, por extensão, do Ocidente), foi um ataque a uma certa ideia de sociedade aberta, liberal e laica.
Já um ataque ao Líbano ou ao Mali, o que significa para mim, em termos identitários? Nada, admitamo-lo sem medo. Vistos do ponto onde me situo (e sem esquecer as implicações geopolíticas), tais ataques são quase exclusivamente tragédias humanas. E essas — na França, no Líbano ou no Mali —, tendo vitimado (tanto quanto sei) pessoas que desconheço, são-me sempre algo abstractas, não cravam tão fundo as unhas na pele do sentimento.
Dito de outra maneira, a razão pela qual faço “luto” pelos atentados na França, mas não pelos no Líbano ou no Mali, é a mesma pela qual temos direito a licença por luto se nos morrer um irmão emigrado há anos na Austrália, mas não temos igual direito quando morre o vizinho do quinto esquerdo. Ou a razão pela qual vamos ao funeral do nosso ex-professor primário, mas não ao do ex-professor da escola de (digamos) Trigaches, terra cujo quase nada que sabemos se deve à Wikipédia. O que não quer dizer que o ex-professor de Trigaches não mereça um belo funeral, com grande assistência e sentidas manifestações de pesar — da parte de quem o conheceu e dele se sentia próximo. Idem, mutatis mutandis, para o Líbano e o Mali.
Países há muitos, uns mais próximos geograficamente, outros mais distantes — e, mais importante ainda, uns mais próximos culturalmente, sociologicamente, outros mais distantes (tão distantes, alguns, como se de outra galáxia se tratasse).
Há países que nos são irmãos, há outros que são apenas os vizinhos do quinto esquerdo, e há os que são de Trigaches, professores ou não.
Fingir que isso não é assim, assumir as cores do Líbano ou do Mali só para aparentar uma identificação que não se sente, que não se pode realmente sentir, é hipocrisia. Na melhor das hipóteses, é reflexo sem valor, como o da beata que vai aos velórios de desconhecidos por desfastio.
sábado, 7 de novembro de 2015
Malcolm Gladwell: «Párias, Símbolos e Pioneiros» (palestra)
Malcolm Gladwell, colaborador permanente da revista The New Yorker, deu em 2013 uma interessantíssima (e longa...) palestra sobre uma das formas mais surpreendentes como as classes dominantes garantem a manutenção da sua condição de privilégio.
Gladwell centrou-se particularmente na discriminação das mulheres — na política, na arte, na vida em sociedade em geral —, discriminação que por vezes se mantém, mesmo quando aparentemente a porta se abriu para elas...
(Outro tema importante é o do anti-semitismo.)
O argumento é ilustrado com dois exemplos paradigmáticos: o da pintora inglesa Elizabeth Thompson (1846–1933) e da ex-primeira-ministra australiana (2010–2013), Julia Gillard.
Esta palestra fascinou-me desde que a vi pela primeira vez. Há 2 meses ganhei coragem (e aprendi o procedimento técnico) para traduzi-la e legendá-la.
Uma outra palestra, do mesmo autor e do mesmo ano, centra-se na história de uma das mais importantes sufragistas americanas, Alva Vanderbilt (também conhecida como Alva Belmont) e das razões que levaram esta insuspeita mulher — milionária e privilegiada — a lutar contra o sistema estabelecido.
Infelizmente, quando comecei o longo processo de tradução e legendagem (levou-me 50 dias...), não sabia que havia quase a estrear um filme sobre o movimento sufragista.
Por isso, escolhi começar pela palestra sobre a pintora. Talvez daqui a 50 dias tenha o outro, sobre a sufragista, pronto...
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
PAF: Violência doméstica
A noite foi passada — por jornalistas, comentadores e políticos no activo — a avançar teorias sobre a razão de o eleitorado ter mantido a coligação PSD/CDS como maior força política (ainda que fragilizada face a 2011), mesmo após tanta austeridade e tanta queixa popular por causa da austeridade.
Confesso: de facto quase não assisti à noite eleitoral, pelo que quando digo que a noite foi passada nisto, estou em verdade a lançar um palpite. Mais: avanço mesmo que, de entre todas as teorias apresentadas, nenhuma se aproximou realmente da verdade. (Que é, claro, a que de seguida aqui apresento.)
Tantos eleitores renovaram o voto de confiança na coligação que nos governou nos últimos quatro anos pela mesma razão que tanta mulher vítima de violência doméstica volta para a casa onde ainda vive o marido que as violentou.
Como “Zé Povinho” não é nome que caia bem nessa personificação feminina do eleitorado português, chamemos-lhe “Maria Tuga”.
Dá quase para vê-la, mas não consigo dizer o que veste ou que traços físicos tem, pois tudo em que reparo é no olho negro (fruto de uma queda das escadas...) que a custo a maquilhagem disfarça.
E dá perfeitamente para ouvi-la, enquanto fala com a vizinha:
«É, voltei para o meu homem, que é que se havia de fazer?... Sim, ele é um pouco bruto, insultou-me uma e outra vez, até à frente dos miúdos, bateu-me vezes sem conta — mas a verdade é que eu estava a pedi-las... quase sempre, sim. Pus-me a jeito. No fundo, no fundo, lá naquele modo abrutalhado dele, ele ama-me. Tudo o que faz é para o meu bem. Bate-me, sim, bate-me, já o admiti. Mas depois é sempre super-carinhoso. Já sabe como é: o melhor sexo é o das reconciliações...»
terça-feira, 29 de setembro de 2015
A Zona de Interesse
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
O Estado Islâmico já conquistou o Vaticano!
Afinal, os manipuladores de informação que por estes dias postam imagens falsas ou descontextualizadas para nos convencerem de que o Estado Islâmico está a enviar hordas de pseudo-refugiados para a Europa para nos conquistarem têm razão!
Pior: os infiltrados não só já estão cá, como já alcançaram o seu objectivo: conquistaram a Europa, incluindo o Vaticano!
Assim que teve confirmação da conquista, Abu Bakr al-Baghdadi emitiu um édito religioso (fatwa) obrigando todas as mulheres europeias a cobrirem o rosto, à boa maneira islâmica.
Devido a um erro de tradução do árabe pseudo-clássico usado pelo auto-proclamado califa, a ordem foi entendida como dirigida «a todas as pessoas* que usam saias».
Como a imagem anexa inequivocamente documenta, o ex-Papa Francisco foi lesto a obedecer ao novo senhor da Europa. Allahu Akbar e tal!
* A classificação das mulheres como «pessoas» foi apontada por alguns apologistas como sinal do elevado estatuto de que elas gozam no Islão.
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
Ignorância e Preconceito
Já pensaram que se, por ignorância ou intencionalmente, eu tivesse escrito «ISIS» em vez de «YPG»...
... eu poderia ter facilmente acusado este voluntário português, que lutou contra o Estado Islâmico, de ser um jihadista sírio?
terça-feira, 8 de setembro de 2015
Fugir à pergunta
(quem responde ou quem pergunta?)
Uma amiga comentou recentemente um vídeo em que uma conferencista americana da Heritage Foundation (um “think tank” conservador ligado ao Partido Republicano) explica, em termos fortes, por que razão de nada vale invocar a «maioria pacífica» de muçulmanos, quando o que importa é que a imensa maioria dessa maioria se abstém de confrontar — sequer no plano ideológico — a minoria (não tão pequena assim) de radicais, muitos dos quais violentos.
O comentário da minha amiga (e de outros) ia no sentido da «força» e na «falta que faz» esse tipo de resposta. Até que alguém comentou: «Só faltou mesmo RESPONDER À QUESTÃO.»
A questão (de uma muçulmana americana na plateia) era, para quem não viu o vídeo e para quem — como, confesso, eu — se distraiu com a resposta: «Como lutamos uma guerra ideológica com armas? Como poderemos algum dia terminar essa guerra?»
É verdade que a “resposta” da conferencista não respondeu à pergunta. Mas quem abriu a porta a essa mudança de assunto e à não-resposta foi a própria autora da pergunta: ela é que fez um preâmbulo à «pergunta simples», falando nos 1,8 mil milhões de muçulmanos (número exagerado...), da má imagem que eles e o Islão têm, e da falta de representatividade dos muçulmanos na sala. Após desviar assim as atenções da sua «pergunta simples», quem se pode admirar que a intervenção subsequente não seja uma resposta ao que foi perguntado, mas uma réplica àquele preâmbulo?
Fazendo um paralelo, dizer que a pergunta de Saba Ahmed não foi respondida é o mesmo que, perante a seguinte intervenção de um alemão em 1938:
«Como sabe, o nosso amado Führer instituiu recentemente leis com vista a expurgar do Sangue Alemão toda a infecção judaizante. Qual o papel do recém-criado Volkswagen no renascimento do Povo Alemão?»
alguém protestar porque a resposta incidiu sobre a inaceitabilidade das Leis Raciais de Nuremberga e não sobre os méritos ou deméritos do “Carro do Povo”...
segunda-feira, 17 de agosto de 2015
Não brinquem com números, respeitem os deputados!
(Pensando bem, não respeitem — se não merecem.
Mas respeitem os números, esses sim, respeitem sempre!)
No Facebook, um amigo partilhou ontem uma imagem que, segundo quem a postou originalmente, «Não precisa de qualquer tipo de comentário. Está tudo lá escrito.».
Pois, simplesmente não está, de facto, tudo escrito: o autor da imagem “esqueceu” alguma informação, nomeada e convenientemente, aquela que destrói em absoluto a “teoria”, expondo a falácia.
Esqueceu-se, por exemplo, de dizer que o sistema parlamentar australiano comporta duas câmaras: a Câmara Baixa (Casa dos Representantes), com os tais 150 membros, e a Câmara Alta (Senado), com 76 membros. Isto perfaz um Parlamento nacional com 226 membros, quase o mesmo que Portugal (sistema unicameral).
Mas ainda há mais: a Austrália é um estado federal, dividido em 6 estados e 2 territórios. Cada um desses estados/territórios tem o seu próprio Parlamento, que na maior parte dos casos tem duas câmaras. Vejamos:
- Austrália do Sul: 47 membros da Câmara Baixa (CB) + 22 membros da Câmara Alta (CA) = 69
- Austrália Ocidental: 59 (CB) + 36 (CA) = 95
- Nova Gales do Sul: 93 (CB) + 42 (CA) = 135
- Queensland: 89 membros (Câmara única)
- Tasmânia: 25 (CB) + 15 (CA) = 40
- Vitória: 88 (CB) + 40 (CA) = 128
- Território da Capital: 17 membros (Câmara única)
- Território do Norte: 25 membros (Câmara única)
Isto quer dizer que o total de parlamentares na Austrália, entre nacionais e “regionais”, é de 824.
Quanto a Portugal, para além dos 230 deputados nacionais, tem 57 deputados regionais nos Açores e 47 deputados regionais na Madeira. Isto perfaz 334 parlamentares.
Ou seja, o número de parlamentares australianos é quase 2,5 vezes o de Portugal — embora “só” tenha o dobro da população.
(Como diriam os famosos cartazes: não brinquem com os números.)
O problema de Portugal não está no excesso de deputados — mas na sua qualidade. E, já agora, na dos eleitores também.
segunda-feira, 20 de julho de 2015
Bastardia
quinta-feira, 2 de julho de 2015
Einstein, o Bem e o Mal
Vi recentemente um vídeo em que uma criança “ensina” ao seu professor que, tal como não existe a Escuridão (que é só a ausência de Luz) ou o Frio (ausência de Calor), também não existe o Mal, que seria apenas a ausência de Bem. Donde, concluía a criança, contradizendo o professor, Deus não criou o Mal.
A acreditar no vídeo — e os múltiplos apócrifos que circulam pela Internet aconselham a manter um pé atrás —, a criança seria Albert Einstein.
Einstein estava errado. De resto, fora da sua área de especialidade, a opinião de Einstein (ou de qualquer cientista) não goza de especial autoridade.
A verdade é que não há equiparação possível entre Bem/Mal e Luz/Escuridão.
A Escuridão não existe enquanto coisa, de facto; é apenas a ausência de Luz. Mas o Mal existe enquanto coisa (abstracta); não é apenas a ausência de Bem.
Como é que sabemos?
Conseguimos identificar (e até criar) fontes de Luz, isto é, objectos que emitem, espalham e propagam a Luz. Se eliminarmos as fontes de Luz, sobrevém necessariamente a Escuridão. Mas não existem objectos que emitam, espalhem e propaguem a Escuridão. A única forma de “criar” Escuridão é anular todas as fontes de Luz.
O mesmo não se passa com a dualidade Bem/Mal — que, desde logo, é uma falsa dualidade: existe ainda um terceiro termo, Neutro.
Limitando-nos às acções humanas, todos reconhecemos que há quem seja uma “fonte de Bem”: pessoas que ajudam os outros e, em geral, tornam melhor a vida em sociedade. Escolherei, por razões de simplicidade, um exemplo bem actual: definirei como “fonte de Bem” uma pessoa que arrisque a sua vida a esconder alguém que, de outra forma, seria capturado e degolado pelos terroristas do “Estado Islâmico”.
Ora, por muito moralmente errado que seja não fazer nada perante uma atrocidade, existe uma enorme diferença entre ficar passivo (olhar para o outro lado, fingir que não se vê, tentar passar despercebido) e participar activamente nas atrocidades e injustiças. Assim, o cidadão que nada faz e segue a sua vida não pode ser metido no mesmo saco do sociopata que degola “infiéis” ou do líder que lhe dá ordem para tal.
Por outro lado, enquanto anular todas as fontes de Luz resulta inevitavelmente em Escuridão, anular todos os actos de altruísmo não resulta necessariamente em atrocidades. Voltando ao nosso exemplo, não esconder “infiéis” não resulta inevitavelmente no degolamento destes: os “infiéis” não têm uma tendência natural para aparecerem degolados, estilo combustão espontânea; se os deixarmos em paz, em geral mantêm a cabeça agarrada aos ombros. Aqueles que acabam degolados tiveram que se cruzar com um agente sem o qual o degolamento não ocorreria. Se definirmos a degola de pessoas como um Mal, então o agente que a praticou é uma “fonte de Mal”.
Quer isto dizer que existem tanto “fontes de Bem” como “fontes de Mal”. Donde se conclui que existem, enquanto conceitos abstractos (concretizáveis em acções), tanto o Bem com o Mal.
Einstein estava errado. Mas, claro, Einstein tinha desculpa: não só ele não era filósofo como, naquela idade, sendo criança, nem sequer era físico, pelo que não compreendia bem a diferença entre a Física e a Moral.
sexta-feira, 8 de maio de 2015
Patranhas à Moda do Porto
Vejo no Público online uma notícia sobre os supostos 600 anos das Tripas à Moda do Porto e penso: apesar de não serem publicações científicas, os jornais deviam fazer um esforçozinho de não se limitarem a propagar histórias da carochinha. A tradição de que as Tripas à Moda do Porto estão ligadas à conquista de Ceuta não passa de um mito.
O formato (não a temática concreta) do mito das tripas é típico, encontrando-se em muitos pontos do país: para enobrecer uma tradição local — seja uma romaria, uma procissão ou, no caso do Porto, uma receita culinária —, a tradição ou algum “etnólogo” militante inventa uma patranha patriótica, ou, pelo menos, uma história que temporalmente coincida com um momento importante (positiva ou negativamente) da história de Portugal: Batalha de Ourique, Aljubarrota, Ceuta, chegada à Índia, descoberta do Brasil, domínio filipino, Restauração, Terramoto de 1755, Invasões Francesas... Desta forma, mesmo que por mera coincidência temporal, a humilde tradição local é dignificada: já não é relevante apenas para as gentes da aldeia (ou, neste caso, da cidade do Porto) — é, de alguma forma (e, no caso das tripas, de uma forma clara), relevante para todo o país.
A verdade sobre a origem das Tripas à Moda do Porto é muito mais simples — e muito mais humilde. É também bastante clara.
Durante séculos, as únicas pessoas que comiam regularmente carne eram as classes abastadas: nobres, média e alta burguesia, algum clero. O resto da população era, por ausência de alternativas, basicamente vegetariana. Mesmo os servos que criavam os animais domésticos não os comiam: a carne era para os seus senhores.
(É por isso que, em inglês, palavras como “cow”, “calf”, “sheep”, “pig” e “deer” — designando os animais vivos — são de origem anglo-saxónica, enquanto palavras como “beef”, “veal”, “mutton”, “pork” e “venison” — designando a carne desses animais — são de origem francesa: após a conquista normanda, só os senhores feudais normandos — que falavam francês — comiam carne; o servo saxão que tratava dos porcos e guardava as vacas nunca punha o dente num desses animais depois de morto.)
No caso do Porto, a origem culinária das tripas não é menos clara: os criados dos ricos, tal como o resto do povo, não incluíam carne na sua dieta. Até que alguns desses criados pousaram os olhos num subproduto da preparação das refeições dos patrões: as tripas, que iam para o lixo. E eis como, com um pouco de imaginação e tempero, o que estava destinado a ser o desperdício das classes abastadas se tornou o banquete das classes despojadas que para aqueles trabalhavam.
Com o tempo, a fama das tripas foi-se espalhando, chegando inclusivamente à mesa dos ricos. Tal fama, que elevava o prato a símbolo de toda uma cidade, requeria uma origem mais nobre: entra em cena o costumeiro fabricante de patranhas patrióticas (provavelmente apenas nos séculos XVIII ou XIX). Rebusca nos compêndios de História um momento elevado na cronologia nacional (quase de certeza, muito anterior à receita original das tripas) e, como num passe de mágica, voilà! Sai uma historieta edificante, digna de orgulho, pronta a engolir — mais facilmente do que as próprias tripas.
segunda-feira, 27 de abril de 2015
Hugo Boss*
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Mil poetas
sexta-feira, 13 de março de 2015
Sexo tântrico
Ao fim de quase quatro anos a foder-nos, o Governo finalmente pede ao povo português: «VEM».
Quatro anos, Sting, quatro anos! Toma e embrulha.






