sábado, 19 de outubro de 2013

“Plano Estratégico Nacional para o Turismo”
(contributo pessoal para a sua revisão)

O “Plano Estratégico Nacional para o Turismo 2013–2015” foi aprovado há meio ano, mas tomo a liberdade de propor aqui uma revisão, para o tornar mais adaptado à situação em que vivemos.

Tesos como estamos, sugiro a aposta no sector do Turismo Sexual.

(Zezé Camarinha a Secretário de Estado: há membros do Governo escolhidos com base em critérios mais dúbios...)

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O som e o agoiro

Foco a atenção no grasnar madrugador de um corvo e não detecto aí razões que justifiquem para esse animal o estatuto de «ave agoirenta». Ouço o «Ah!» com que se expressa admiração, o «A» com que desponta o alfabeto e o «Há» com que se afirma a existência. Os sinais da morte exterminadora parecem ausentes deste auroral crocitar. A menos que nos estejamos a referir à «morte» num sentido esotérico ou iniciático. «Não é assim, corvo?» «Ah!»

«Cortar nas “gorduras” do Estado»

Como seria se a Ministra das Finanças se dedicasse à medicina estética e abrisse uma clínica de emagrecimento... (homem com as duas pernas e um braço amputados)

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Fingimentos

Procurou conhecer e experimentar por dentro todos os movimentos esotéricos e religiosos. Mas o seu grande projecto era o de alcançar um perfeito estado de desencanto e de cepticismo. Tal desiderato lançava-lhe sobre as vivências espirituais doses de fingimento de que nunca viria a libertar-se. Antevendo o fim, apressou-se a abandonar dogmas, crenças, técnicas, rituais. A tarefa revelou-se impraticável. Conseguiu apenas supor-se desencantado e céptico. Também a sua morte, por afinidade, não passou de um completo fingimento.

Os Idiotas, livro do dia (ontem) na TSF

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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Acordo à esquerda

Decidi recentemente cultivar — doidice ocasional — a técnica de redigir com a mão esquerda. Embora ainda distante, em esmero e eficácia, da destra, ela já seria capaz, neste momento, de escrever uma carta de amor suficientemente ridícula. Entretanto (torna-se difícil saber de onde e como surgem ideias tais), mantendo a direita fiel à norma antiga, tenciono reservar para a esquerda o privilégio da adopção do novo Acordo Ortográfico. Sendo neófita em matéria linguística, ela suportará melhor o disparate.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Más notícias

'Uma coisa supostamente divertida que nunca mais vou fazer', de David Foster Wallace

A Piada Infinita foi de tal maneira uma leitura fascinante e lúdica que depois desse livro mal tenho conseguido pegar noutros. Acumulo uns seis ou sete na mesa-de-cabeceira, eu que não costumo ali ter mais do que dois: o que leio a cada momento e um qualquer outro que, por piedade a fingir desleixo, fica ali esquecido durante meses numa desistência camuflada de adiamento.

É injusto para os autores terem o azar de surgir na minha lista depois de Foster Wallace.

Meio enganado por uma qualquer referência que li, avancei a certa altura para Cinerama Peruana, convencido que havia ali ecos de A Piada Infinita. Como se usar notas de rodapé fosse suficiente para aproximar os dois livros. Não são próximos. Talvez haja ecos de Bolaño no livro de Rodrigo Magalhães, mas não vi nada de Wallace. E, lamento dizê-lo, a despeito do talento do autor, aborreci-me. Certamente pela enorme sombra que lhe fez a leitura anterior. Mas também um pouco pelo género: aquelas espécie de fábulas eminentemente literárias e literariamente tautológicas não me apaixonam, mesmo quando são assinadas por Borges. Foi para arquivo, a um terço do fim. Decidi ser condescendente comigo mesmo, poupar-me o esforço.

Hoje fui buscar Uma coisa supostamente divertida que nunca mais vou fazer — o que me parece más notícias para os restantes autores da pilha.

T-shirt meta-humorística

A propósito do último post do Zé...

Tenho lá em casa uma t-shirt com muitíssimo mais piado do que esta aqui.

A metapiada

Diz: «Não fumo nem bebo, mas gosto de contar piadas.» Comento: «Acabou de contar uma.» Admitindo, porém, ter havido ironia na primeira parte, ele contou, em rigor, duas: uma piada e uma metapiada — alusão a piadas que «mete piada». O humor desencadeado pela mera piada exige subir um único degrau. O suscitado pela metapiada exige subir dois, devendo, em teoria, demorar o dobro do tempo a manifestar-se — excepto se, na prática, mantivermos um pé em cada degrau.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

As vias da paciência

Vivia impaciente. Mas, descobrira-o, a impaciência era uma característica alterável, embora teimosa, dos pensamentos que a governavam. Procurou curar-se mediante uma caminhada diária, à mesma hora, seguindo um percurso fixo. Notou então que os conteúdos mentais, apesar de rebeldes, aderiam a pontos específicos do itinerário. Volvido um tempo razoável, decidiu efectuar o trajecto com o espírito vazio e receptivo. Nessa altura, apercebeu-se do regresso dos pensamentos exteriorizados. Vinham tranquilos e obedientes. Tinham-se habituado a esperar por ela.

domingo, 13 de outubro de 2013

Insuportáveis extremos

Os Monty Python criaram um sketch sobre uma anedota letal: ninguém poderia ouvi-la e, entendendo-a, continuar vivo. A causa da morte seria, portanto, o superlativo humor, com as reacções orgânicas inerentes. Segundo a tradição bíblica, ninguém pode ver Deus e continuar vivo, embora parece ter havido excepções. Aqui, talvez a causa da morte seja a infinita seriedade. Sem o equilíbrio dos dois extremos de seriedade e humor, não restariam pois condições para a existência de vida sublunar.

sábado, 12 de outubro de 2013

Lobbies e Doping na genitália alheia

O José Mário Silva diz na sua página de Facebook que «a edição desta semana do 'Actual' é capaz de dar polémica», e acrescenta um link para um post do blogue Bibliotecário de Babel que, dá para perceber, lista os temas da secção de livros do dito suplemento. O problema é que chegamos ao blogue e deparamo-nos com um artigo sobre Viagra.
Num primeiro momento concluímos que é spam ou vírus. Regressamos por isso ao Facebook e espreitamos os inúmeros comentários (de críticos e outros literatos) que entretanto foram surgindo.

Dada a temática e o teor da discussão gerada, ocorrem dois pensamentos:

  1. o blogue de José Mário Silva foi atacado por um hacker que não tem conseguido entrar no lobby do Expresso.
  2. o blogue de José Mário Silva foi atacado por um hacker com sentido de humor: quando se trata de medir pilinhas, a questão do doping na genitália alheia não demora a chegar.

(Ok, mais tarde compro o jornal para não falar de cor.)

Exercícios

O aluno mantém as costas direitas, a cabeça um pouco descaída para a frente, as pálpebras semicerradas, os olhos fixos num ponto que talvez seja o umbigo do mundo, o centro da galáxia, o âmago da Divindade. Parece mostrar competências avançadas de meditação. Na verdade, executa apenas uma técnica banal de copianço. Alojou a cábula no telemóvel, pousado algures, extensão pós-moderna do corpo e da memória. Surpreendo sete deles entregues a este exercício acanalhado. Até mete dó.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Crítica da razão obscura

Árida em estilo, fecunda em ideias, a Crítica da Razão Pura suscitou, recentemente, um episódio insólito: na Rússia, dois indivíduos envolveram-se numa troca de murros, tendo inclusive um baleado o outro — felizmente sem trágico desfecho —, enquanto argumentavam sobre a famigerada obra. Kant escreveu aí: «Pensamentos sem conteúdo são vazios; intuições sem conceitos são cegas.» Talvez o incidente resultasse de uma situação filosófica anómala: aquela em que a cegueira sobe ao pensamento e o vazio desce à intuição.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

«Porque é ainda ministro?»

O Blasfémias (de onde saiu, não esqueçamos, Carlos Abreu Amorim, essa figura) mais cedo ou mais tarde (geralmente bem mais tarde) lá se junta ao português de inteligência média no que toca a considerar insustentável a presença de certos ministros neste Governo. Foi assim com Relvas, é assim com Machete. Um destes dias até Helena Matos o virá balbuciar.

Desregrado cepticismo

Os especialistas diferenciam «saber-que» de «saber-fazer» e de «conhecimento por contacto». Embora pedagógica, a distinção é artificial. Efectivamente, todo o conhecimento pressupõe algum «contacto» do sujeito com o objecto. Mas também esta última distinção se revela postiça: não há sujeito puro nem objecto claro, antes uma continuidade inefável, sem rupturas intrínsecas nem «contactos» eventuais. O que acaba de se expor traduz um conhecimento? Sim: um conhecimento ilusório de um objecto irreal — por parte de um sujeito inexistente.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Entusiamo

O corrector ortográfico do meu Word não está acertado pelo Acordo Ortográfico — está acertado pelo Mia Couto. Quero escrever «entusiasmo» e sai-me «entusiamo», com uma estratégica elisão do segundo «s». Aos outros desacertos o corrector reage sublinhando-os a vermelho. Este deixa-o laconicamente sem marca, esperando que eu dê pelo caso e sobre ele pondere etimologicamente.
«Entusiamo» será assim a fusão de dois termos: «entusiasmo» e «amo». «Amo com entusiasmo», quer certamente o corrector que eu conclua, com romântico exacerbamento.

Ou talvez devamos atribuir raciocínios mais libidinosos ao meu corrector ortográfico e considerar aquele amor meramente carnal, o entusiasmo do domínio da intumescência, acentuado na segunda sílaba.

Tontarias

Como posso aspirar a tornar-me um escritor respeitável se ultimamente etiqueto a maioria dos meus posts como «tontarias»?

Moldando o entusiasmo

Senti um entusiasmo inadequado e embaraçoso ao ler que Pedro Mexia escolheria Javier Marías como um dos seus dois favoritos para o Nobel deste ano. O entusiasmo foi inadequado porque o senti de um modo pessoal, como se fosse eu o nomeado. E foi embaraçoso porque pueril, ou melhor, servilmente penhorado. Não que sonhe ombrear com Mexia em cultura e sabedoria literárias, mas escusava de ter acessos de entusiasmo tão obnóxios, tão avassalados por uma lisonja dirigida a um objecto de estima mútua.

Compreendo porém o meu próprio entusiasmo. Não tendo lido muitos títulos de Marías, entre as leituras que fiz estão os três volumes de O Teu Rosto Amanhã, uma obra que só por si vale um Nobel. E a minha satisfação com essa magna leitura tem equivalência em grau à perplexidade de ver os anos passar sem que a tradução portuguesa seja retomada (a Dom Quixote editou o primeiro volume em 2005 e ficou-se por ali).
A relativa ignorância a que obra de Marías é votada em Portugal concede-lhe aos meus olhos (ou aos olhos do meu entusiasmo) uma certa aura de autor de culto. A simpatia pela obra e a sensação de injustiça traduzem-se numa identificação com as suas tribulações e os seus sucessos. Admiração semelhante de outros é sentimento de união, irmana.

Por isso, se o meu entusiasmo não fosse tão voluntarista, perante a referência de Mexia a Marías ter-se-ia manifestado mais dignamente na forma de mero regozijo pelo reconhecimento de um igual. Se as minhas emoções se dessem ao trabalho de se intelectualizarem um pouco, a nomeação de Javier Marías por Mexia seria recebida, adequadamente, com um entusiasmo de classe, de membro de um clube restrito, exclusivo, reagindo ao nome do escritor como ao santo-e-senha do clube. Talvez permitindo-se (o entusiasmo) um sorriso irónico e levar dois dedos ritualizados ao Borsalino.

Mas temo que se derem o Nobel a Javier Marías, Pedro, o meu entusiasmo celebre plebeiamente dedicando aos editores portugueses um daqueles gestos revanchistas de jogador de futebol.

O lugar da sorte

Entra no café. Vende cautelas. Entoa um pregão rápido, minimalista. Transporta uma bolsa a tiracolo e enverga um colete de duas cores: azul-escuro em baixo, amarelo evidente em cima. Nas costas, destacada do fundo amarelo, pode ler-se a expressão «casa da sorte». No entanto, a palavra «sorte» não se revela de forma ostensiva: adivinhamo-la ou deduzimo-la. A tira da bolsa passa ali, ocultando-lhe ora umas, ora outras letras. A contingência do mundo revê-se na ironia dos detalhes.