Recensão do romance Os Idiotas, do meu colega Rui Ângelo Araújo, na revista Time Out:
(clique na imagem para ver maior)
Recensão do romance Os Idiotas, do meu colega Rui Ângelo Araújo, na revista Time Out:
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Num questionário qualquer (sim, esse que no final faz de todos nós nórdicos) fui confrontado com a questão de acreditar ou não em Deus. A pergunta, com certa crueldade, não permitia nuances ou agnosticismos, não deixava espaço para o conforto da neutralidade ou do adiamento. A reposta tinha de ser «sim» ou «não». Acreditas ou não acreditas, perguntei a mim mesmo, sentindo-me encurralado, confrontado, obrigado a decidir-me. Disse que não, porque tudo à minha volta e dentro do meu cérebro grita «não». Mas a dúvida permaneceu. Talvez por medo, medo católico de que os meus modestos pecados mereçam ainda assim as chamas do Inferno. Talvez por uma cautela de inspiração pascaliana. Certamente pela vergonha instintiva de me mostrar crente num mundo pragmático. Respondi negativamente lamentando que não houvesse a opção «não sabe/não responde» disponível em inquéritos mais sensatos.
Entretanto vi um post a informar que «Luzes no céu voltaram a ser observadas de Norte a Sul de Portugal» e o meu coração acelerou, a minha alma excitou-se. Não como acontece aos peregrinos que, a caminho de Fátima, desatam a cantar «a 13 de Maio…» sempre que à noite os sobrevoam as luzes do helicóptero do INEM transportando mais uma vítima da sua própria promessa. O post era do site UFO Portugal e parece que as luzes não eram balões de LEDs.
Suponho que um bispo da IURD me perguntaria o que há de errado em mim, um tipo devidamente crismado que rejubila mais com notícias de nerds do que com as boas novas do Velho Testamento. E alguma coisa deve haver, claro. A possibilidade de testemunhar um milagre religioso deixa-me indiferente ou atento aos sinais de fraude, disponível para rir e derramar paternalismo. A hipótese de um avistamento extraterrestre, pelo contrário, põe-me a olhar discretamente os céus, a sonhar com encontros imediatos, a correr para o clube de vídeo para alugar de novo Contacto. Embora não desaproveite a oportunidade para rir e derramar paternalismo (nunca se deve perder uma).
Encontrar Deus é o susto de me ver desmascarado na minha hipocrisia, no meu cinismo, na minha pusilanimidade, nos meus vícios. Encontrar um ET é tocar o verdadeiro Mistério. Jamais senti uma epifania ou qualquer tipo de excitação da alma ou do intelecto nos meus contactos com a Bíblia; mas senti-me inquietante e maravilhosamente próximo do Inefável quando li Encontro com Rama, de Arthur C. Clarke.
Suponho que isto diga também qualquer coisa sobre as tão propaladas virtudes literárias da Bíblia, faça dos evangelistas autores menores, se comparados com Isaac Azimov ou Philip K. Dick. Imagino que as coisas poderiam ser diferentes se Marcos, Mateus, Lucas e João tivessem sabido deixar o rosto do Senhor desconhecido, em vez de fazerem do simples acto de nos vermos ao espelho um spoiler. Se tivessem inventado um 13.º apóstolo tão fugaz e perturbante quanto o 8.º passageiro. Se, eles e os seus continuadores, tivessem conseguido fazer uma narrativa menos autobiográfica, recalcada e catártica (logo, amadora). E, claro, se não tivessem assinado os seus livros com nomes de cantores pimba brasileiros.
Deus está no meio de nós e esse é o problema. Ele devia ser apenas uma probabilidade ínfima e ignota na zona habitável da estrela Gliese 667C ou de outra mais distante.
Em vésperas da abertura do ano lectivo, o primeiro-ministro asseverou que desta vez não haveria lugar a «improvisos»:
Por uma vez, Pedro Passos Coelho falou a verdade. Em anos anteriores, a improvisação era frequentemente a regra.
Não agora: nada de improvisos. Desta vez, com este Governo, o lema para a Educação é «Que se foda!»:
Pessoa amiga conta-me que lhe ofereceram recentemente os romances Liberdade (de Jonathan Franzen) e A Piada Infinita (de David Foster Wallace). Percebe-se a escolha: de forma mais ou menos assumida ou por interpostos críticos, ambos os autores (e ambos os livros) foram candidatos à categoria recorrente de o (novo) grande romance americano. Quando a feliz aniversariante mostrou os presentes a um outro amigo, ele teve uma compreensível reacção idiossincrática: «Lê muito a Piada; queimamos já aqui o Liberdade.»
É certo que Franzen competiria melhor com Wallace se o livro escolhido fosse Correcções. Ou antes: competiria um pouco mais no mesmo terreno de Wallace se o livro considerado fosse este último. Contudo, Liberdade continua a ser um grande livro, ainda que mais convencional.
Há várias razões para não se gostar de Franzen, e ser “mais convencional” parece ser uma delas.
Um post de Nuno Costa Santos, por exemplo, defende que «o romance convencional já não chega lá». E já não chega lá porquê? Porque «não basta a historinhazinha, a trama branda, as personagens bem desenhadas mas sem fogo». Porque «a realidade, contraditória e conflituosa, está a reivindicar atenção». Porque «é necessário assumir o quase sempre evitado “eu” — um “eu” que não é o ego tout court, é um jogo literário arriscado entre a vida e a ficção».
Pelo meu lado, julgo excessivo presumir-se que o romance convencional se define daquela maneira. Talvez aquilo defina um romance fraco, mas não exactamente um romance convencional. O romance convencional terá uma história, uma trama, personagens bem desenhadas — os diminutivos paternalistas e os qualificativos pejorativos excedem a definição. Por outro lado, não seria descabida generosidade considerar que o romance convencional tem tido os seus momentos de aggiornamento, de sábia atenção à «realidade, contraditória e conflituosa», e de assunção do «eu».
Creio que Costa Santos, como se depreende do resto do seu texto, queria na verdade dizer que, em sua opinião, o romance convencional não tem sabido chegar lá. Ou mesmo que o romance convencional já não tem forma de chegar lá.
E aqui talvez entremos no domínio do estilo e das preferências.
Por ter crescido num tempo e num canto de Trás-os-Montes onde não havia tutores nem escolas literárias ou figuras de referência, tornei-me, julgo que felizmente sem traumas, num tipo ecléctico no que se refere a géneros e estilos. Ou talvez apenas descomplexadamente generoso no que toca a leituras. A verdade é que se rejeito por vezes certos livros não é porque os ache necessariamente maus. É apenas porque estão desacertados comigo (ou, geralmente, eu com eles).
Tendo-me divertido mais com A Piada Infinita e tendo sido mais estimulado por Wallace, não vejo contudo razões para desconsiderar Liberdade ou temer que o “romance convencional” já não sirva.
A minha reacção à teoria de que a Praxe «é uma forma de integração» (alguns vão ao ponto de deixar subentendido que é a única forma de integração na vida académica...) e à desculpa dos excessos com a «rebeldia» da juventude.
Quanto à primeira afirmação (a questão da integração): será — mas integração em quê? Numa estrutura hierárquica baseada, não no mérito, mas na antiguidade? Pior: onde o maior estatuto (Veterano) só é conseguido, necessariamente, pela reprovação (logo, pelo demérito)? Integração numa sociedade em que os de mais baixo estatuto, não só são humilhados, como não podem reagir à humilhação, apenas acatá-la? E onde a única desforra que existe é, não sobre aqueles que nos humilharam, mas sobre terceiros, os de mais baixo estatuto do que nós, que a seu tempo teremos oportunidade de humilhar? Se é a este tipo de integração que se referem, está tudo dito.
Quanto ao espírito «rebelde» subjacente à Praxe: é exactamente o contrário — reprodução acrítica de comportamentos. (De resto, como a maioria das tradições; a diferença é que poucas são tão estúpidas e com princípios e valores subjacentes tão baixos como os da Praxe.)
P.S.: Fiz este flyer em Setembro de 2009, tendo-o distribuído (em pequenas quantidades) pelo sítio onde trabalho. Foi originalmente publicado no meu blogue Grafismo Sem Rede, acompanhado do texto que reproduzi acima. Vejo hoje que poderia ter sido publicado a acompanhar o artigo de opinião que Daniel Oliveira publicou no Expresso em 2011 e que por estes dias ressuscitou nas redes sociais.
Comentário de um paisano sobre a praxe ali perto: «Ainda nem os deixaram ir ver a universidade e já os estão a foder.»
Ou de como a sageza popular é suficiente para deitar por terra qualquer treta hipócrita sobre a praxe enquanto forma de introduzir os novos alunos na vida universitária, de os guiar pelo campus, de os integrar na comunidade académica.