sexta-feira, 15 de março de 2013

O Escritor
(conto de microcontos)

(Resgatado do baú da memória pela leitura do post “Necessidade e contingência”, do José Ferreira Borges.)

1

Queria ser escritor.
Não tinha disciplina nem profundidade para o romance. Não tinha objectividade para a novela. Não tinha relevância para o conto. Não tinha poder de síntese para o microconto. Fora isso, não lhe faltava nada.
Nem sequer o Moleskine.


2

Queria ser escritor. Desse por onde desse, seria escritor.
Tentara o romance, tentara o conto — nunca acabara nada.
Tentara, em desespero de causa, o microconto — nenhuma ideia surgira.
Um dia, uma súbita inspiração: abriu o Moleskine e, de rajada, escreveu um ponto final.


3

A publicação de “.” apanhou a cena literária e o mercado livreiro de surpresa.
Em pouco tempo a sua obra inaugural arrebatava os tops de vendas. No final do ano a crítica foi unânime em elegê-lo como escritor-revelação. Era a nova coqueluche literária: não havia epígrafe em que não figurasse, não havia curso de escrita criativa que não o glosasse, nem dissertação de mestrado ou tese de doutoramento que não o citasse.
Era também terrivelmente plagiado. Mas aprendeu, estoicamente, a resignar-se.


4

À surpresa seguiu-se a certeza: contra todos os medos e maus agoiros, as obras seguintes confirmaram o fulgor e a frescura do Escritor. E não só como ficcionista, mas também nas vertentes de investigador e pensador crítico do nosso mundo: da sátira (“þ”) à Economia (“$”, “£”, “€”, “¥”...), passando pela Matemática (destaque para a diversas vezes reimpressa trilogia “>”, “<” e “=”), o seu contributo foi tudo menos irrelevante.
De facto, a sua primeira incursão pelo ensaio — “?” — tornou-se rapidamente leitura obrigatória nos mais prestigiados cursos de Filosofia (sucesso que se estenderia ao mundo hispano-falante depois da publicação de “¿?”, edição «revista e aumentada» cuja responsabilidade de tradução para o castelhano o Escritor chamou inteiramente a si). Anos depois, por pressão de alunos que se queixavam da exigência de tal obra de leitura integral, alguns cursos — à semelhança, de resto, do que já se passava em todas as faculdades de Teologia — adoptariam o menos inquisitivo e mais assertivo “.” (não confundir com a obra de ficção homónima, do mesmo autor). E, num exercício próximo da heteronímia, ou sinal de obsessão pelo contraditório, publicaria quase em simultâneo, sob nome suposto, “;”, uma refutação implacavelmente sardónica de “.” (referimo-nos ao ensaio, naturalmente).


5

Já num campo mais marginal, foi internacionalmente aclamado como «ground-breaking» o psicadélico “Ctrl+Alt”, também descrito como «o único digno sucessor de “The Doors of Perception”».
E, claro, como esquecer “æ” e “œ” («duas obras-primas da literatura erótica», chamaram-lhes), ou os muito mais polémicos “§” e “¶” (cuja temática homo-erótica ditou a sua remoção de muitos escaparates)?
Só não vingou na poesia. O manuscrito de “!” foi considerado «de um débil e inflacionado “sentimentalismo” poético» pelo único editor que contactou; o balde de água fria retirou-lhe o ânimo para novas tentativas.


6

Radicalmente anti-elitista, não desprezou os ditos “géneros menores”.
Foi com total desassombro que trouxe à luz do dia “—”, livro de auto-ajuda (subcategoria, autoconhecimento) que, à venda em todas as estações dos Correios, pôs meio país a falar com o seu Eu interior. (Pela mesma editora, o manual de yoga “&” foi apenas um sucesso relativo.)


7

Um dia atribuíram-lhe o Prémio Nobel. Polida mas irredutivelmente, recusou: as solicitações sociais de um laureado eram «too time-demanding».
E o que ele queria mesmo era escrever.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Necessidade e contingência

Quem redija movido por força oculta, dessas que empurram a mente e dirigem a mão, pode esperar transmitir coisas belas, certas, relevantes, mais do que se contasse apenas consigo próprio. Do primeiro exercício brota aquilo a que chamaremos «a escrita necessária». Do segundo, «a escrita contingente». Se bem mo elucida a intuição, este texto é exemplo rematado de escrita contingente. Por isso, não sobrará grande espanto se resultar duvidoso o que aí se diz da escrita necessária.

quarta-feira, 13 de março de 2013

O bolso

Era uma vez um bolso que se limitava a existir. Nunca pertencera a qualquer peça de vestuário e jamais sentira necessidade de se considerar uma. Contivera já inúmeros objectos e ideias fecundas, mas preferia que o deixassem vazio e em paz. Reduzia ao mínimo os seus gestos intencionais, acreditando que o vento e outras forças o guiariam sempre com acerto. Quando lhe perguntavam se algum dia albergara o segredo da vida, respondia apenas: «Eu sou um bolso.»

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terça-feira, 12 de março de 2013

Janela indiscreta

Tenho uma tendência para humanizar coisas e bichos. Até pessoas, por vezes.
Hoje pousou-me uma pomba no peitoril da janela e, como eu tinha acabado de sair do duche, suspeitei que o fez intencionalmente. Imaginei-a, lúbrica, a espreitar-me enquanto me vestia. Ao dar com ela, encolhi a barriga e tentei mexer-me pouco — mas ela resistiu, não se mandou contra o vidro na ânsia de entrar. Também não se mandou abaixo do parapeito, o que me confortou o ego, antes um pouco melindrado com a sua resistência.
De seguida estiquei-me cuidadosamente para apanhar o cinto e ela abriu as asas e lançou-se atabalhoadamente nos céus. Ainda considerei aquilo muito humano, mas de uma humanidade diferente: de criança antiga, traumatizada com sovas paternas pré-revolução. Ou de jovem mulher que não lê As 50 Sombras de Gray e desdenha por isso os prazeres sado-masoch.
Devia ter considerado não usar cinto hoje.

Privilégios

Atingir uma verdade pela qual se justifique viver continuamente entusiasmado, imune ao tédio e a outras perversões, é um privilégio concedido a poucos. Verosímil se afigura que tais seres, no pico do seu existencial arrebatamento, desfrutem de instantes de felicidade tão altos e preciosos que sintam ganas de abraçar, uma a uma, as suas próprias células. Dir-se-á que, tarde ou cedo, ilusórios se hão-de revelar os frutos. Mas a essa nefasta conclusão só chega o amargurado pensamento.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Ultra-secreto

Por bons intérpretes que sejamos dos sonhos, ou por muito que o julguemos ser outrem, chega sempre o dia em que achamos as alegadas imagens do inconsciente um desconchavo absoluto para o que pensamos das nossas vidas. Mas é então que aceitamos existir, além dos níveis sucessivos do eu — do público ao privado, do íntimo ao clandestino —, uma dimensão ultra-secreta, inacessível, capaz de transformar as palavras que nos procuram dar a conhecer num digno amontoado de falácias.

O contributo da Lei de Lynch para a redução do défice

«É assim tão difícil pôr desempregados a limpar as matas?», pergunta João Salgueiro, membro do Conselho Económico e Social, ex-ministro das Finanças, ex-vice-governador do Banco de Portugal, ex-presidente da Caixa Geral de Depósitos e da Associação Portuguesa de Bancos.
Se quisermos estar suficientemente fodidos com os tipos que têm disposto do país nos últimos vinte ou trinta anos, podemos decidir encontrar um certo tom nazi na pergunta. Como se ouvíssemos uma das questões burocráticas que Himmler punha a Rudolf Hoess.
Claro que o economista na mesma passagem invoca Keynes e isso é suposto ilibá-lo de qualquer deriva neoliberalista. Sabemos que é melhor ter a classe média ocupada do que a remoer insatisfações, mas duvido que obrigar desempregados a limpar matas caiba no conceito de apaziguamento social.
É possível que estejamos no limiar de uma situação como a que se viveu no pós-guerra, onde a civilização se suspende e as pessoas lutam para sobreviver, regressa a agricultura de subsistência, quem sabe se a velha condição de caçador-recolector. Posto perante essa circunstância, o povo agirá naturalmente em conformidade, não precisará de velhos senadores a indicar-lhe o caminho: tem todo um genoma a exigir-lhe que sobreviva.
Há na ligeireza com que os poderosos se referem aos desempregados, ao cidadão comum, uma ressonância inadequada de nobreza velha ou velha aristocracia. Inadequada, entre outras razões, porque do outro lado do espectro não está uma massa bruta, medieval, sem educação nem anseios ou ambições, resignada à miséria e à inferioridade desde o nascimento. Os tipos que, na sua patética sobranceria, se dispõem a falar de milhões de pessoas como se falassem de crianças irresponsáveis ou de velhos servos da gleba deviam, em primeiro lugar, questionar-se se a sua carreira, o seu trabalho, o seu mérito (no caso de terem algum) justifica sem hipocrisia que aufiram vencimentos ou reformas equivalentes aos de 50, 100, 200 homens ou mulheres em idade laboral. Numa república não deveriam existir os privilégios “naturais” que uma casta, não raro incompetente e perdulária (a crise não começou em 2008 vinda do nada), parece ter. Na Suíça, tão reverenciadora do capitalismo e mais distante da crise do que nós, há uma maioria de população favorável a que se limitem as diferenças salariais nas empresas de modo a que o vencimento mais alto não seja mais do que 12 vezes superior ao mais baixo. E isto, que parece minimamente sensato e digno em qualquer circunstância, transforma-se numa urgência quando se vive o drama que vivemos em Portugal. Nenhum Salgueiro ou Borges deveria poder recitar a sua opereta sem antes ter sido aproximado da plebe pela via (da deflação) salarial. Não se trata apenas de justiça. Há alguma profilaxia nisto. Quanto menos homens couberem no salário desta gente, menos hipóteses haverá de encontrar nesse conjunto um que se sinta suficientemente indignado ou desesperado para achar a Lei de Lynch uma forma sedutora de reduzir o défice nacional.
Talvez o confisco dos ricos não chegue para pagar a crise, mas quem sabe não lhes inspira melhores contributos para a economia “geral” ou, pelo menos, os mantém num respeitoso silêncio.


P.S. Talvez queira (re)ler também este post do Canhões de Navarone: “Salários e responsabilidades”.

domingo, 10 de março de 2013

Lugares-comuns da nacionalidade

À entrada do supermercado, um junkie que por aqui passou na quinta-feira senta-se de pernas cruzadas à oriental, substituindo a mulher romena ou moldava que por ali costumava estar a pedir (e terá partido, talvez receando a concorrência nacional que aí vem). Entram duas ciganas jovens e, numa súbita inversão, ele oferece-lhes uma embalagem de croissants, certamente esmola cristã que tinha recebido mais cedo nesta tarde. Elas declinam, com cordialidade nas palavras e no tom
— Não, obrigada
e vão depois decididamente hesitar em frente a uma prateleira de bolachas e afins.
Talvez a oferenda dele enfermasse de um de dois automatismos genéticos, masculinos: os croissants como jóia possível para abrir o coração feminino ou o gesto esmolar como reacção típica perante elementos da velha tribo nómade.
Num instante de uma tarde chuvosa o mundo decidiu evocar, subverter ou misturar alguns dos lugares-comuns que fazem a nacionalidade, passada, presente e futura.

Tédio e pecado

O tédio não faz parte da tábua dos pecados mortais. É fácil, todavia, associá-lo à soberba — visto ele reflectir um certo desencanto perante as maravilhas da Criação — e à preguiça — da qual não raras vezes se origina. Mas, por outro lado, a sensação de tédio deve aproximar-se daquilo que o eventual ser divino experimenta face ao carácter repetitivo das coisas e ao esgotamento do possível. E assim se expurga um núcleo de pecado, com tal afinidade redentora.

Dar uma por semana (8)

Reputada: adj. f. Que voltou 'à vida'. [Wackypedia: contributos para um léxico alternativo]

Ganhar asas

Estou de rastos, se querem saber. Ao acordar li no Facebook que o Possidónio Cachapa correra hoje 15 km, e eu, que não quero ser menos escritor do que ele, achei que devia tentar o mesmo. Desci para junto ao rio da minha aldeia, que não é menos belo do que o Tejo dele. A certa altura, deu-me a modéstia (a moléstia foi mais tarde) e achei que os meus doze de máximo chegavam para me garantir um lugar humilde mas honesto nas letras portuguesas. Só que quando já orientava os passos para o Calvário que me finaliza a corrida resolveu cruzar os céus uma rara cegonha preta e, claro, fiquei embeiçado. Inflecti e alinhei-me com o rio da minha aldeia, para montante, como ela tinha feito. Imaginei, na minha idiotez matutina (para mim é manhã até tarde da noite), que a bicha haveria de aterrar no mesmo território onde se apascenta a garça-real de que já falei algures. Entre ir e vir seriam mais dois quilómetros, calculei. Se swingasse mais um pouco atingiria os 15 e poderia sentir-me, por direito próprio, alguém do métier literário. Chegado ao local não havia cegonha nem garça, apenas os sacos de plástico do costume presos nos mesmos galhos na orla da corrente. Suponho que não se faz poesia com musas ausentes e sacos do Continente, biodegradáveis que sejam. (Bem, sendo biodegradáveis e do Continente, talvez a Adília faça.)
Fiquei desolado. A competição para mim acabara. Ou já não competia pela distância mas para saber se sucumbiria por fraqueza das pernas ou síncope cardíaca. Arrastei-me como pude para casa, sem swing nem forças, pensando inscrever-me num dos cursos de escrita criativa do João Tordo — para me manter sob influência ornitológica e, quem sabe, ganhar finalmente asas. Se não para as letras, para que os 15 km me não pesassem tanto nas pernas.

sábado, 9 de março de 2013

Prazeres e números

Epicuro valorizava os «prazeres estáticos», não os «prazeres cinéticos». Os primeiros identificam-se com a ausência de dor e de perturbação; os segundos expõem-nos à possibilidade de elas se manifestarem. Apliquemos-lhes a matemática: os «prazeres cinéticos» e o sofrimento equivalerão ao conjunto dos números reais, exceptuando o zero — o qual, portanto, corresponderá aos «prazeres estáticos». Aqueles têm o seu simétrico, positivo ou negativo. Estes, como o zero, são simétricos de si mesmos — sem hiato, nem sombra, nem distância.

Polícia bom, polícia mau (versão político-económica)

Polícia bom, polícia mau. Ilustração de James Raynes

Uma das melhores maneiras de “quebrar” a resistência de um suspeito não cooperante, a crer nos filmes de Hollywood, é aplicar-lhe a técnica conhecida como «Good cop, bad cop»: um agente ameaça moer o suspeito de pancada, enquanto um outro lhe apresenta uma “face humana”, estendendo a mão amiga (ou pelo menos compreensiva) que traz promessas de redenção. A “face humana” é uma máscara e a redenção nunca chega, mas a farsa dá os seus frutos: a esquizofrenia da situação faz desabar as defesas psicológicas do facínora.

Para um governo política e economicamente esquizofrénico e alienado, nada melhor do que adoptar e adaptar semelhante técnica. Foi precisamente o que o primeiríssimo-ministro Vítor Gaspar pensou — e, se bem o pensou, melhor o fez, com um toque pessoal: em vez de polícias, economistas; e em alternativa ao binómio «bom/mau», tivemos direito a «mau/pior».

Para o papel de economista mau, Gaspar escalou-se a si próprio: tem tudo o que se pede para corporizar fielmente semelhante personagem — do carisma ao acerto das previsões macroeconómicas.

Para o papel de economista pior, arremessou-nos António Borges. O papel deste como assessor está agora claro: conceder, por comparação com as suas intervenções, uma ilusão de bondade relativa às ruinosas políticas do Governo.


P.S. O dogmatismo ideológico* é uma besta indomável: por vezes furta-se à vontade do dono, forçando-lhe a boca a fugir para a verdade. Para António Borges, a baixa de salários, incluindo o minúsculo salário mínimo, não é um mal (temporária e circunstancialmente) necessário — é «o ideal». (Ou será «o Ideal»?)


* Uma das manifestações deste dogmatismo é a ideia nunca verificada de que a baixa dos custos do trabalho (seja pela redução directa dos salários, seja pela diminuição dos custos associados, como a TSU paga pelas empresas) potencia a criação de emprego. Num interessante vídeo (5 min.), o milionário Nick Hanauer desfaz esta ideia, defendendo que o que cria empregos é a necessidade de as empresas satisfazerem as solicitações dos seus clientes. Ora, a esmagadora maioria dos consumidores são trabalhadores por conta de outrem — se os salários baixam, baixa também o poder de compra, logo, a capacidade de consumir e a necessidade de trabalhadores que forneçam os bens e serviços que as empresas têm para vender.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Dia Mundial [de Luta pela Igualdade de Direitos] da Mulher

NÃO HÁ BELA SEM SENÃO. Bonita e oca: o seu ideal feminino era a mulher-objecto. ... o único senão era semanalmente ter de mandar limparem-lhe o pó.

O esquecimento

Em vez de referir, na folha de teste, que «o esquecimento é a incapacidade de recordar», o aluno escreveu que «o esquecimento é a capacidade de não recordar». Tendo em conta o que pressupõem quanto ao nosso lado intencional, as definições são bem distintas: em termos psicológicos, aceitamos como válida a primeira; em termos metafísicos, não podemos excluir a segunda. Peço depois ao aluno que me clarifique a segunda: garante que no teste se «esquecera» da primeira.

Tomando nota

Uma das vantagens do meu parque-mundo é que os seus habitantes são como diamantes, prismas com muitas faces que brilham à luz do sol. Podemos tomá-los por vários ângulos, mostram-se-nos em cada circunstância com diferentes fulgores. Não sendo muitos, cada um é uma multidão. Quando o sujeito careca que se senta à hora do almoço na escadaria com vista para o rio pega num livro, por exemplo, podemos considerar que aproveita o almoço para ler, porque gosta, porque precisa de distrair o desgosto amoroso, porque a bancarrota ou o desemprego agora lho permitem. Ou podemos decidir ver diferente e concluir que o livro é na verdade um bloco de assentamentos, dos antigos, de capa dura, onde toma nota dos negócios da marijuana e do resto.

Os corredores e os melancólicos

Sempre que vejo um tipo (ou tipa) a correr no parque sinto um impulso de me deitar também a correr, mesmo que tenha acabado de o fazer. Tenho um instinto mimético neste campo, cresce-me uma inveja ou não sei o quê.
Mas não são os atletas os meus habitantes preferidos do parque. São-no os que deambulam e se detêm com ar melancólico a perscrutar um horizonte que o parque não tem, na exiguidade da sua topologia. Não sei o que olham. Um pássaro exibicionista? A corrente variável do rio? Uma sombra evocativa? Uma árvore, um ramo, uma flor? O crescimento da relva? As outras pessoas? O rabo de alguém? Tudo isto — ou seja, a vida? Talvez nada do que está no exterior, e é como se os seus olhos se rebolassem para dentro, a observar o que a cabeça contém, as memórias, as mágoas, as perdas, as inquietações, a felicidade que uma vez tiveram. Talvez os planos para um romance, uma peça de teatro, uma cantata, uma longa-metragem, um drama autobiográfico. Não é impossível que vagueie por ali gente desta, esquivando-se das pessoas como das gotas da chuva.
Seja como for, prefiro os melancólicos aos corredores — eu que sempre que posso acumulo em mim os dois.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Formas-pensamento

Segundo teósofos como Charles Leadbeater, cada pensamento cria uma determinada forma: uma forma-pensamento. Fantasia ou não, o produto afigura-se bastante insólito: entidade híbrida, possui o carácter intencional de uma consciência e, em simultâneo, a natureza opaca de uma coisa. Ora, ao encerrarem atributos assim tão contrastantes, as formas-pensamento parecem ser, em si mesmas, núcleos de conflito, existências embaraçadas, anseios inúteis. Se adejam por aí, talvez o façam tolhidas de desamparo, talvez dupliquem o absurdo usual dos dias.

A capital do México

À noite, o centro histórico é habitado apenas por ocasionais grupos de sexagenários debatendo em passeio digestivo o estado do país e dos clubes ou por arruadas histéricas de universitários que abandonam restaurantes e rumam a bares. Após os passeios dos primeiros e nos intervalos das hordas dos segundos, há momentos de silêncio. Silêncio a certa altura interrompido por um casal singular. Ele, gigante, bem constituído, barba negra, sotaque sulista com uma certa sofisticação. Ela, miudinha, magra, precocemente envelhecida mas não nova, pronúncia nortenha sem elaborações. Descem uma rua e berram um com o outro, não com ânimo de discussão ou protesto. Fazem-no como se a diferença de estaturas e latitudes fosse um abismo e tivessem de gritar mutuamente para serem ouvidos. Ele inclina-se para ela a cada passo como um boneco articulado; ela saltita ao pronunciar as palavras, como se as impulsionasse. Vêm num estado de espírito alegre. Almas gémeas em corpos e jeitos antagónicos. O assunto é geografia e para ela a capital do México é
— Cabu... Cabu...
— Não é a Cidade do México?
— Não, pá, é Cabu... Cabu qualquer coisa.
— Não sei por quê, julguei que era a Cidade do México.
— Cabu... Cabul! É Cabul!
— Pois, é isso, tens razão. Já tinha ouvido dizer — anui ele, numa concessão sincera mas ao ouvido inverosímil.
Param em frente à montra de um café aberto e ela, sem ceder nos decibéis, comenta qualquer coisa que vê na televisão ou atira imprecações lá para dentro. Riem alto e ele quase a enlaça pela cintura. Ela resiste. Mais uns passos e, mesmo ao virar da esquina, ele logra enlaçá-la pela cintura. Ela ri-se, coquete, lisonjeada, refilona, e inflecte o caminho.
— Não era por ali?
— Não, pá, é por aqui.
— Julguei que fosse por ali.
— Ouve, é por aqui.
Estão a retroceder nos seus passos antes de nova inflexão, mas ele não se mostra incomodado. O andar era acelerado, mas talvez não houvesse pressa, afinal. Pareciam ter um destino, mas se calhar isso pode ser alterado. Ela dir-se-ia feliz a desorientá-lo pela cidade, ele tem esperança num desenlace recompensador. Entre o terem-se abastecido no dealer dela e o recanto onde se ministrarão o que quer que tenham adquirido, o mundo apenas existe como décor da sua deambulação. Os que passamos por eles somos meros figurantes com quem, no seu enlevo romântico, não se importam de partilhar cada sílaba dita e cada gesto feito, ou a quem atirarão um impropério qualquer, se lhes der na veneta. A madrugada há-de apanhá-los a descoberto, menos eufóricos ou mais zangados com o mundo. Não é impossível que ela termine, como noutras noites, sozinha a vaguear pelas ruas a insultá-lo ou a insultar o mundo ou a insultar o deus que pariu este mundo. Ele, por enquanto, ainda confia que pode haver sexo e talvez ela nem tenha intenção de o desmentir, não por princípio. Um rendez-vous entre junkies não tem de ser radicalmente diferente das saídas das outras pessoas, mesmo que decorra uns decibéis acima do comum e tenha (um pouco) mais disponibilidade para errar pela noite.