domingo, 28 de dezembro de 2014
Selfie ou as faculdades paliativas da nostalgia
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
E-musas
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
Catalogue des prix d’amour
Mosquitos em Bruxelas parecia-me um contra senso, imaginando-os bichos eminentemente meridionais ou amigos de ambientes de gente pobre. Mas quando me começaram a cair no copo lembrei-me que sou pobre e meridional. Não, não foi isso. Quando passei a usar a vetusta base de copos como tampa contra os dípteros kamikazes, tomei consciência do sítio onde estava: La Fleur en Papier Doré (Het Goudblommeke in Papier para os amigos flamengos), um café que respeita o seu ilustre passado mantendo, quase sem a espanar, a decoração original. A Flor em Papel Dourado é um estaminet fundado em 1366, mas não creio que houvesse nenhum mosquito dessa colheita. Os que partilharam comigo o cabernet e mais tarde nadaram nos meus sucos gástricos deveriam ser do tempo da última remodelação do botequim, acontecida, diria, na transição de oitocentos para novecentos. Gosto de sítios assim, com verdadeira história. E se tomasse notas no meu moleskine (ou, menos romanticamente, usasse a câmara do telemóvel), poderia hoje reproduzir na íntegra, poupando o trabalho de inventar tema e coerência para um post, a piéce de résistance das antiquarias que enfeitam, emolduradas, amareladas e empoeiradas, as paredes da casa. Refiro-me ao tarifário de um prostíbulo, de 1915.
Pode ser encontrado na Internet. O "Catalogue". E o amor, parece.
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
A necessidade de flanar
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
Pihada triste
José Diogo Quintela (JDQ) assina no Público de hoje um artigo de opinião sobre a polémica à volta das declarações do ministro Rui Machete de que haverá jihadistas portugueses, a maioria raparigas, que querem desertar das fileiras do Daish.
(Ver o meu post sobre a adopção do termo Daish para designar o proto-estado terrorista surgido no Iraque e na Síria.)
Ao contrário de Ricardo Araújo Pereira (RAP), de quem li diversas crónicas, ouvi diversos comentários e vi diversas intervenções públicas — mais ou menos sérias, mais ou menos satíricas, quase sempre brilhantes —, de JDQ pouca coisa tenho lido, pelo que corro sérios riscos de injustiça no diagnóstico que agora avanço: a este “Gato”, ao contrário de a RAP, falta um pouco (para sermos simpáticos) de perna que lhe permita dar a passada que leva do humor puro e simples, com tons de nonsense, ao comentário jocoso e até sarcástico, mas certeiro.
Opina José Diogo Quintela:
Não se trata apenas de ter colocado em perigo as raparigas que se alistaram numa guerra. A inconfidência de Machete é um símbolo do desprezo deste Governo para com as condições de trabalho em que os jihadistas lusos espalham a morte na prossecução dos objectivos da organização terrorista onde são voluntários.
Os deputados da Comissão devem certificar-se que o Governo está a fazer tudo ao seu alcance para garantir o bem-estar dos nossos compatriotas terroristas. [...] Talvez fosse boa ideia enviar uma delegação da Autoridade para as Condições do Trabalho.
O texto de JDQ mostra que ao humorista falta pensamento estratégico: a sua sofisticação nesta matéria situa-se ao nível da dos intervenientes na “Liga dos Últimos” — ou, para usar uma referência mais contemporânea, ao nível da do ministro Rui Machete.
O caso Rui Machete, de resto, é deveras interessante, porque misterioso: estaremos perante um caso de discurso não filtrado pelo cérebro (aquilo que no meu Pátio chamávamos «ser boca de lavagem»), de burrice pura e simples, ou de senilidade? Pela minha parte, inclino-me para uma das duas últimas, em especial tendo em conta declarações posteriores do ministro, de que não teria «revelado a identidade de ninguém».
(Segundo as estimativas, haverá 12 a 15 portugueses nas fileiras do Daish, incluindo duas ou três raparigas. Mesmo não revelando as suas identidades, não será difícil às chefias do grupo terrorista vigiar mais atentamente uma dúzia de pessoas... Cereja em cima do bolo, tendo em conta que o ministro dos Negócios Estrangeiros revelou que os potenciais desertores seriam «dois ou três, sobretudo raparigas» — e admitindo que os jihadistas, ao contrário do ministro, sabem fazer contas —, a tarefa de descobrir os relapsos não é intelectualmente exigente, em especial para uma organização que, ainda que de cortadores de cabeças, vai além do machete.)
Mas voltemos a José Diogo Quintela: a sua ideia é, resumidamente, «Que interessa que o Daish limpe o sebo aos desertores? São todos terroristas!»
E é aí que JDQ está errado e demonstra o tal défice de pensamento estratégico: interessa, e muito.
Quem me conhece minimamente sabe que o bem-estar dos jihadistas, arrependidos ou não, é tudo menos uma preocupação minha. Mas nem só a preocupação pelo bem-estar dos outros alimenta o nosso interesse em mantê-los vivos: um desertor é uma aquisição valiosa.
Em primeiro lugar, um desertor pode revelar informação militar importante. Este, em princípio, não será o caso dos jihadistas portugueses, que, tanto quanto se sabe, terão “patente” relativamente baixa. Adicionalmente, e ao contrário do que JDQ dá a entender, não há qualquer indicação de que as “noivas da Jihad” estejam efectivamente a combater: conhecendo o que os fundamentalistas preconizam para as mulheres, o mais certo é que a participação destas se resuma ao apoio emocional dos combatentes, recompensando-os pela sua entrega à Causa do Profeta, e ao papel de parideiras; mulheres em armas, a combater, é coisa dos «apóstatas» curdos... Mas, ainda assim, o valor da informação que eles ou elas possuam só pode ser apurado se chegarmos a interrogá-los — circunstância que, médiuns à parte, requer que se mantenham vivos.
Em segundo lugar, um desertor pode ajudar a perceber como funcionam os circuitos de recrutamento dos radicais, como se processou tão rapidamente a sua adesão a uma versão tão extrema e violenta do Islão. Além de a reconstituição do seu percurso de radicalização permitir, eventualmente, chegar a “peixes” mais gordos, a simples compreensão dos mecanismos sociopsicológicos que levam à adesão à Jihad pode revelar-se valiosíssima no combate ao marketing jihadista.
Finalmente, a possibilidade de apresentar desertores da Causa é uma das melhores formas de a minar. As causas radicais vivem quase exclusivamente do monolitismo interno e da percepção de um confronto Nós/Eles. A existência de desertores entre as fileiras dos que realmente conhecem a verdadeira face da Causa — e que falam a mesma linguagem dos seus novos potenciais aderentes — será mais um trunfo no combate ao discurso radical.
Vamos abrir mão destes trunfos?
’Bora irritar o pseudo-Califa!
Este post destina-se a evitar a necessidade de, num outro post que conto publicar ainda hoje, abrir um longo parêntese a explicar por que chamo “Daish” ao proto-estado terrorista que surgiu na Síria e no Iraque, em vez de recorrer a designações mais comuns, como “Estado Islâmico”, “E.I.”, “EIIS”, “EIIL”, “I.S.”, “ISIS” ou “ISIL”.
A designação “Estado Islâmico”, além de ser a que eles preferem — o que só por si é razão para a rejeitar —, dá-lhes uma dignidade que eles não merecem. Acho que devemos evitar isso.
(Ao contrário de alguns apologistas, não sou de opinião que os terroristas do Daish «nada têm a ver com o Islão» — mas conceder-lhes alguma legitimidade nesse domínio, ainda que não totalmente descabida, é em última análise altamente contraproducente. Evitemo-la, portanto.)
Siglas como “E.I.”, “EIIS” e “EIIL”, resultantes de diferentes designações da organização em português, vão contra uma certa tradição de designarmos entidades estrangeiras pela sigla na língua original: donde, ETA (basco), IRA (inglês) e PKK (curdo), para referir apenas algumas.
As correspondentes em língua inglesa — “I.S.”, “ISIS” e “ISIL” — são ainda mais descabidas: nem são na nossa língua, nem na língua “oficial” dos terroristas, o árabe.
(Obviamente, boa parte dos membros do Daish sabem de árabe pouco mais do que «Allāhu akbar» e «sallallāhu ‘alayhi wa sallam» — da mesma forma que os católicos iam pouco além do «Ora pro nobis» quando o Latim era a língua oficial da sua religião.)
E assim chegamos a “Daish” (ou “Daʿish”).
O termo é um feliz acrónimo: simultaneamente uma sigla e uma palavra por direito próprio. Como sigla, é a transcrição do original árabe (داعش), sendo a designação corrente no Médio Oriente, incluindo entre os seus inimigos de língua curda; corresponde ao português EIIL e ao inglês ISIL, resultando de «الدولة الإسلامية في العراق والشام» ou «Estado Islâmico do Iraque e do Levante». Mas داعش é também, alegadamente, uma palavra árabe em si mesma, criando um trocadilho que irrita os terroristas assim designados: significa, de forma ironicamente certeira, «um intolerante que impõe as suas ideias aos outros».
Mas o valor de designar este proto-estado terrorista por um termo derrogatório vai bem para lá do prazer de irritá-los: as palavras são importantes; uma designação negativa mina a dignidade da coisa designada, diminuindo, ainda que marginalmente, a sua atractividade.
(Podemos ter certa afinidade por um qualquer Movimento Europeu pela Revogação dos Direitos de Autor — mas aderiríamos com convicção, e não por derisão, a um grupo chamado MERDA?...)
Querem melhor razão para adoptar o termo Daish?!
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
O direito à poligamia
Coisas que não anoto no moleskine (2): em Mainz
terça-feira, 21 de outubro de 2014
Coisas que não anoto no moleskine
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
Futuro próximo
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
Lógica “sareca”
O Carlitos, líder derrubado pela nossa revolução infantil, destacava-se no nosso pequeno mundo por ser o habitante do Pátio das Cantigas com mais designações alternativas: para além do diminutivo que sempre o acompanhou e da alcunha de Pinguinhas que lhe foi atribuída nas Piscinas Municipais por ter medo até da água do chuveiro, era principalmente conhecido como Sareco. (Por um curto período, foi ainda o Nugget, por razões que agora não vêm ao caso.)
O percurso etimológico que desembocou na alcunha de Sareco é algo tortuoso e merece ser explicado.
A tasca que viria a ser dos pais do Carlos Sareco pertencera anteriormente a um senhor de nome Acácio, mas comummente apelidado de Passarinho. Mudando a gerência do estabelecimento, o Rui, irmão um pouco mais velho do Nuno, logo promoveu o “trespasse” também do cognome: como a falta de à-vontade não permitia apodar directamente o casal de novos proprietários, a herança onomástica saltou uma geração, para o filho. E assim passou o Carlitos a ser o Passarinho.
(A jogada do Rui foi uma espécie de “preemptive strike” avant la lettre: o Sr. Acácio era padrinho da mãe do Rui, pelo que, a não serem tomadas medidas, não seria de espantar se a alcunha ornitológica transitasse para ele e os irmãos...)
Com o tempo, Passarinho passou a Passareco. Um pouco mais de tempo e a lei da economia ditou o encurtamento da alcunha para Sareco.
As relações entre os putos do Pátio eram em geral amenas. O mais das vezes dividíamo-nos segundo linhas aproximadamente geracionais (os nascidos nos anos setenta, os dos finais da década anterior e, já mais distantes em mentalidade e vivências, os do seu início), com alguma liberdade ou tolerância no convívio entre grupos etários: de quando em vez, éramos convidados para um jogo de Monopólio no sótão do João Luís, onde funcionava o clube a que também pertenciam o Rui e o meu irmão.
Apesar da paz habitual, por vezes, porém, as coisas azedavam; terá sido nestas circunstâncias que, num episódio que ficou famoso, o Rui acertou o passo ao Carlitos.
A violência não passou do muito moderada, eventualmente pouco mais do que uns calduços, mas era ver o Sareco descer as escadas a berrar como um desalmado, prometendo medidas retaliatórias:
— Isto não fica assim! Vais ver, vais ver... Vou dizer à minha mãe e ela vem cá e bate-te!
Detém-se a meio do caminho, vira-se e acrescenta, peremptório:
— E se ela não vier cá, vai lá tu!
quinta-feira, 18 de setembro de 2014
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
A Morada da Sabedoria
Entre outras sonoridades igualmente melodiosas, o Bacalhau Caralho ecoava no hall de entrada do bastião do conhecimento, da arte, da investigação, dos valores académicos e humanistas por excelência.
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
O regresso da cantora careca
terça-feira, 9 de setembro de 2014
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
Os homens sobre as mulheres
O apêndice marital
terça-feira, 19 de agosto de 2014
Deserção à hora do chá*
«Pois eu queria ser um escritor inglês. Nem precisava, aliás, ser escritor. Inglês snob era suficiente. Ou apenas snob. Um snob convicto, sem escrúpulos nem clemência, em vez de português suave com filtro. Da próxima vez que der por mim com rosadas pretensões tugas, faço-me um ultimato britânico, juro. Antes a cor do sangue que o apelo do sangue, if you know what I mean.»
* Diálogo de uma novela por escrever.



![ASSUNTO. s. m. Lubrificante anal. [Wackypedia: contributos para um léxico alternativo]](https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhivDLTEXUm7C91dEgscSuMiDmubcxjaiwoiku4j1c2wPkzguXb3Eseu_Vk20GfuNv358Blg_DTOMk7jZHVZSJhu5n44RT-mbs5Cxkz-TnRypVZ1rexOdUNLjBtntSzFjx2BNpuMSgyK0ca/s1600/Sexo_Assunto_500.gif)
![AVIADOR. adj. m. Que fode umas atrás das outras, a eito. Don Juan, Casanova. [Wackypedia: contributos para um léxico alternativo]](https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhW9fKmXiZd_ecw2yNX502Us4xHM1BXknEx7Gd7fwSmK9fI6sSynqblc-9b2MleiDEdWAgBOZLBT7OYSchXem4Qa7MIK1MbjRdVhTfmTMVX28DzZAiTMyswuYROrOgf8PSwM4ONI_q6wP1q/s1600/Sexo_Aviador_500.gif)
![COPRODUTO. s. m. Intestino grosso e tracto rectal. [Wackypedia: contributos para um léxico alternativo]](https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhpmPJjlNv6IpuISEAqd-NZyBCBVUGVunus5OK7q4qSi_Ju3YjpQZv4WMqoeo8fQ0ZrFsUDaV_ohOnI4NjgblvpextunhXsfFQp9U7btKmcIycd_aCzJFHDW2j7MeYdbb21Ghkbxv5NTJIB/s1600/Sa%C3%BAde_Coproduto_580.gif)